"Até que o sol não brilhe,
acendamos uma vela na escuridão."
(Confúcio)

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Um nó formou-se em sua garganta quando pisou pela primeira vez no solo agora árido de Gesin. O vilarejo abandonado não era mais verde, a plantação estava toda destruída e quase nada conseguia crescer naquele solo infértil. Ela olhou ao seu redor, reconhecendo as características do local em que houvera morado, porém, sem a união de antes.

Rey poderia ter seguido rumo a Jakku mas sentiu um chamado muito forte para que fosse até Gesin. Sabia que era sua missão. Dentro de seu ser, no seu mais profundo interior, ela sabia que Kylo, ou Ben, chamava por ela. Mas o que não entendia de fato era o motivo. Se ele a odiava e acreditava que ela era uma traidora, porque ainda se mantinha aberto a conexão com ela por meio da força?

Tudo estava vazio, e a medida que caminhava seus pés pisavam em ossos que surgiam de dentro do solo quando seu pé afundava. O som era tão mórbido, a sensação tão fria... de quem era aquela ossada? Será que de alguma jovem que lhe ajudou a cuidar de Kira nos primeiros meses? Talvez de alguma moça que só esperava mais uma noite de paz após ter trabalho no artesanato o dia todo. Ou então seria de alguma anciã que lhe garantiu que não morresse enquanto paria?

Antes a tivessem deixado morrer, pensou. Pois tudo aquilo de alguma forma era por ela. Seu marido houvera feito aquilo com aquelas pessoas, sempre com aquele discurso de que ela e a filha mereciam uma vida melhor. Mas e os outros?

A poucos metros dali então identificou um local ainda mais conhecido por ela, estava a caminho de sua antiga habitação, seguiu até o local, havia algo muito forte ali. Primeiro ela empurrou a porta desgastada com delicadeza, e então avistou a porção do que antes era uma sala com uma cozinha ao lado e quando olhou para o corredor o caminho de seu antigo quarto lhe chamou.

A dor em seu peito era muito forte, a sensação de vazio ali, era muito profunda, mas no fim ali continha alguma coisa, era uma sensação diferente de tudo que houvera sentido antes naquele local. Havia algo ali, ou alguém.

Então ela seguiu no corredor e o viu. Parado, de pé, como uma aparição, em frente a ela, estava ele. Vestido em seus trajes escuros, respirando de forma profunda, no batente da porta do quarto de Kira e de costas para ela. Então se aproximou.

"Ben!" Ela disse contra todas as suas forças. Ele a ouviu, e em seguida virou levemente o rosto, demonstrando que estava tampado. Ele se virou totalmente então. Ela o encarou por alguns segundos e aquela não era a face de Ben, mas a criatura criada por Snoke, Kylo Ren. "Tire a máscara!" Demandou e sua voz era ríspida, o homem sabia que ela estava determinada e não deixaria ele se apossar de qualquer autoridade sobre ela.

Ele aproximou-se em passos lentos mas continuaram distantes.

"O que acha que irá ver quando eu a tirar?" Perguntou e sua voz saiu mecanizada, como há muito tempo não escutava, ecoando mostrando o quando a casa era vazia.

Então ela deu mais um passo à frente e disse em alto e bom som: "A face do meu marido!"

Neste instante ele levou as mãos em direção ao capacete e o retirou, como uma lembrança, como no primeiro dia. Ela viu sua face, parecia fraco, de fato estava.

"Agora você sabe, então!" Afirmou.

"Sim!" Ela concordou enquanto assentia com a cabeça. Aos poucos ambos começaram a andar lentamente até que estivessem um pouco mais perto, mas ainda longe o suficiente respeitando o espaço um do outro. Ela fitou seus olhos, a cicatriz ainda ali, e agora ele não estava com raiva como no dia em que a chamou de traidora. Ele apenas estava ali, e esperava, esperava ela dizer alguma coisa. "Olha, precisa saber que eu não me lembrava de nada disso..."

"Eu sei!" Ele a interrompeu. "Snoke apagou nossas memórias." Tentou se esquivar, mas não conseguiu, as palavras fluíam demais. "E agora eu me lembro sobre tudo, como você deve lembrar também."

Nisso Rey avançou pouco mais em direção à porta, no momento Ren lhe deu a passagem e ela adentrou a um dos locais que houvera tido a maior paz de sua vida. Estava tudo destruído agora, o sinal da violência, poucas coisas houveram sobrado, mas o berço antigo de Kira ainda estava lá, e isso era um milagre. Ela aproximou-se e viu a manta da pequena, ainda repousada sobre a superfície como se nada ali houvesse acontecido.

Estava tudo ainda bem estranho entre eles, mas preferiu ficar quieto agora, ela estava tendo seu momento como uma mãe que sente que perdeu um filho, como a mulher que perdeu a família, e de fato tudo aquilo era por ele, não ousou interromper seu momento.

Ren a seguiu em silêncio, observando a forma como ela tocava nos detalhes destruídos na casa. A madeira havia sido comida pelo fogo, a poeira cobria o chão, e então Rey avistou o antigo quarto do casal, andou até ele, direcionou-se até a antiga penteadeira e ali em cima encontrou um pequeno objeto em formato de arco.

Quando pegou o objeto e o aproximou de si, reconheceram ao mesmo tempo do que se tratava aquele arco, era um anel. Ele era trançado, em prata. Estava empoeirado também, quase sem cor, não tinha mais brilho, nada que uma boa limpeza não pudesse resolver. Era seu anel de casamento, forjado pelo próprio marido com o auxílio dos artesãos de Maverins. Ben se aproximou também, e pouco depois encontrou a sua aliança. Ele sentiu seu coração pulsar mais forte.

Por que não estava com a sua aliança naquele dia? Se perguntou. Não estavam brigados o suficiente para que ambos estivessem sem o anel. Mas o fato é que eles estavam ali. Rey se lembrou, ela pediu o anel no dia anterior, disse que tentaria limpa-lo para que o brilho do início voltasse a ser forte. Ben então emprestou a sua aliança, no fundo sabia que não cabia a ele, no dia do massacre, estar portando um objeto tão importante para eles. Afinal, não era com aquele homem que Rey era casada.

Ficou ali parada por algum tempo observando o objeto, seu coração também se acelerou, mas nenhum deles teve coragem de dizer nenhuma palavra. Então ela o guardou em um compartimento seguro em sua bolsa. Ben, por sua vez, preferiu guarda-lo no cinto, preso por uma pequena corrente.

"Então se lembra de quem eu sou." Disse a jovem quebrando o silêncio. "da família a que pertenço." Ele levantou o olhar de volta a ela. "Se lembra do meu nome..."

"Sim." Ele respondeu.

"Então diga." Ela o fitou. Ele hesitou no início, passou alguns segundos pensando se devia admitir aquilo, afinal, era o primeiro passo da aceitação.

"Seu nome verdadeiro é Renesmy..." Ela o encarou sério. "Palpatine Kenobi..." ele engoliu em seco. "Filha de Kendalina, herdeira de Palpatine, e Owen Kenobi, filho mais novo de Rene, grande linhagem." Completou. "Não é nada como uma catadora de Jakku, muito longe do que acreditávamos nos últimos tempos."

"Se lembra então de onde eu nasci."

"Alfhslavtar, planeta localizado no sistema Slafvtar, onde Alfheimr está também localizado, os planetas da origem da vida. O sistema mais antigo da galáxia, provavelmente o início de toda a galáxia, os planetas onde a força maior se concentra. É o único sistema em que o bem e mal se manifestam em suas formas mais puras."

"Então sabe o que isso significa."

"Nascidos em Alfhslavtar podem ser tão bons ou tão ruins, na mesma proporção, podem falhar ou ascender, podem ser um perigo ou a solução. Significa que talvez você seja uma das criaturas vivas mais poderosas que já existiu, e unindo-se a mim, com toda essa força sombria que me corrói, Kira poderá ser hoje a criatura em vida mais sensitiva."

"Pois é!" Ela sorriu ao concordar.
"Eu não sou um nada como você insistia em dizer. Na realidade eu sou bastante coisa." Rey estava sendo irônica agora, fazendo Kylo Ren engolir o próprio veneno. "Acha mesmo que eu ocultaria toda a nossa história assim? Jamais esconderia algo deste tamanho de você!" Ela baixou o olhar em direção ao peito dele e depois voltou a encarar seus olhos. "Eu estava infiltrada a pedido da Resistência sim."

"Isso é traição, você sabe!" Respondeu negando com a cabeça, mas sem coragem o suficiente para enfrentar os olhos dela.

"Ah é? Então eu sou a traidora?" Ela sorriu novamente. "Você nos abandonou!" Agora ela falava bem alto e ríspida. "Me deixou sozinha em Gesin enquanto eu e Kira corríamos o maior risco de nossas vidas! Ainda mais pelo fato de você saber das possibilidades sobre Kira." Dizia agora apontando com o indicador na direção de Ren enquanto andava em pequenos passos determinados em direção a ele, até que o dedo encostasse em seu peito. Levantou o queixo e começou a fita-lo.

"Kira não possui nenhum tipo de comportamento que indique, você sabe."

"Era muito pequena para sabermos! Como pode ter certeza? E agora que ela está abandonada, se sentindo menosprezada, sabe-se lá o que ela pode ter se tornado."

"Ela ainda é uma criança!"

"Nós também já fomos, e alguém sentiu, alguém pressentiu, sabe que só pelo fato de estarmos falando nisso essa possibilidade pode existir."

"Snoke nos traiu!" Ele gritou agora gesticulando enquanto a enfrentava. "Estava tudo planejado para que vocês viessem comigo para a Primeira Ordem!"

"E você por acaso me perguntou o que eu achava disso?" Ela agora pressionava as pálpebras e os lábios. "Me traiu quando preferiu que não ia me contar seus planos."

"Se eu lhe contasse você teria interferido, não iríamos chegar onde merecíamos!"

"E olha onde estamos agora! Você nos destruiu!" Ela sentia ódio, não sabia exatamente o que vinha de suas entranhas, começou a debruçar-se sobre ele enquanto dava socos no peito do homem, ele quase não se mexia, sabia que ela devia ter aquela reação, deixou que descontasse toda sua decepção, ele merecia aquilo, merecia algo ainda pior.

Agora ela estava em lágrimas enquanto continuava batendo nele, sussurrando palavras que ele não fora capaz de compreender. Um rubor lhe subiu as bochechas e então uma dor estranha lhe acometeu o abdome. "Ai!" Ela grunhiu segurando o próprio ventre enquanto sua cabeça rodava. Era aquela sensação ruim de novo, algo estava lhe atacando por dentro. Era a sensação sombria, devia ser.

"Rey!" Ele a segurou antes que ela caísse no chão quando cambaleou. "O que aconteceu?" Ele perguntou preocupado e então Rey olhou em seus olhos ainda confusa, repousou a mão em sua têmpora, fazendo-o se sentir desconfortável.

"Por que fez isso com a gente? Não éramos suficientes para você?" E com ela ali em seus braços, frágil, Ren sentiu-se condenado, todo o sofrimento dela era por causa dele. Havia muita dor na fala dela, e seus olhos estavam marejados.

"Não sou uma pessoa boa, Rey." Ele concluiu.

"Eu conheço você, Ben..." ao ouvir seu nome Ben estremeceu, não a impediu de chamá-lo assim como fazia antes, afinal, não sabia mais o que era, mas definitivamente não podia dizer que era com certeza o mesmo Kylo Ren, nem o mesmo Ben Solo, talvez algo no meio disso. "Sei que existe luz em você. Talvez nunca seja como antes, não seja apenas a luz que nos sustente, e acho que tudo bem. Eu sinto o chamado do lado sombrio também. E acredito que o ignorar não será a melhor forma de resolver as coisas. Talvez, no fundo, seja mesmo o cinza." Ele continuou a analisá-la, não tinha uma opinião certa formada, mas agora não era mais isso que lhe importava de fato. "Tínhamos um plano para trazer você pro nosso lado, mas acabei me apaixonando por você, me apaixonando de novo, mesmo na sua pior versão. E eu quis ficar contigo, independente de onde estávamos. Como pode me chamar de traidora?" O olhar de Ben agora estava pesado, bem como sua respiração, um aperto em seu peito. "Se eu traí alguma coisa isso foi a Resistência que depositou em mim a confiança para te trazer de volta, e ao invés de estar trabalhando pra isso, eu estava me entregando a você." Permaneceu quieto apenas observando enquanto lentamente o rosto de Rey chegava mais perto. "Precisa deixar isso morrer, temos algo em comum que precisa da nossa atenção mais do que nunca agora."

"Kira." Ele sussurrou.

"Ela deve ser nossa prioridade. Deixe isso para trás, a Primeira Ordem, a Resistência. Temos algo mais importante agora."

Então ele a ajudou a se equilibrar novamente e ficar em pé.

"Precisamos encontrá-la." Ele quebrou a proximidade e ajeitou o traje que estava amassado por conta dos tapas. "Precisamos nos concentrar agora e deixar de lado o nosso problema, você tem razão. Precisamos nos unir, apenas desta vez, para encontrá-la. E caso não queira mais me ver depois disso, eu compreenderei."

Ela levantou os olhos para ele e engoliu em seco, concordou com a cabeça.

"Iremos fazer isso. Nós iremos encontrá-la. Mas ela não está em Gesin. A última coisa que me lembro foi Snoke deixando ela Jakku."

"Jakku?" Ele exclamou. "Por que Jakku? Por que ele deixaria Kira no mesmo planeta que te deixou?"

"Não era esse o plano dele." Ela respondeu. "Ele ia me levar para outro lugar, sabe-se lá onde, mas quando ele se aproximou para apagar a minha memória eu comecei a lutar. Encravei minhas unhas na pele dele e ele começou a gritar dentro da minha cabeça, eu podia ouvir." Ben permanecia concentrado. "Ele continuou no processo, estava sugando até minha alma, e foi aí que eu senti alguém me empurrar, era Mera. E ela me jogou da nave, eu caí na areia. Acho que não voltaram porque a distância do solo até a nave era tão grande que qualquer pessoa morreria."

"Mas você não é qualquer pessoa, e Snoke não sabia disso."

"Exatamente." Rey concluiu. "Depois disso eu acordei em Jakku sem me lembrar de nada antes do dia em que meus pais se separaram de mim. Ele me fez acreditar que eu tinha sido abandonada, e eu passei aquele tempo todo procurando pela minha família."

Ben podia sentir o quão destrutivo houvera sido para Rey. E tudo aquilo houvera saído dos planos de Snoke, e Mera estava por trás, desde sempre ela soube, era por isso que implicava tanto com Rey.

"Me lembro que Kira foi acompanhada por um homem, ele era bem jovem também, era alguma coisa Def.. Devid, Devft..."

"Devift?"

"Isso!"

"Devift é o sobrenome de Mera. Então é isso, Kira está sob os olhos de Mera, esteve esse tempo todo, é por isso que ela vai pra Jakku tantas vezes em missão. Snoke deixou Kira com alguém de confiança de Mera, talvez Lorenzo." Ele concluiu. "Era o único parente dela vivo de que sabíamos, acho que era primo, algo assim."

"Mas por que?"

"Snoke não descartaria Kira pois afinal ele sabia que ela era minha filha e por mais que não soubesse sobre você, ela ainda tinha genes imperiais e podia ser muito útil para ele depois. Se ele soubesse que você é uma Palpatine, desde o princípio, teria usado você também." Ele suspirou. "Pela Força, ainda bem que ele não sabia ainda." Sentiu-se aliviado e Rey se perguntou se ele realmente se importava.

"Precisamos unir nossas forças agora, usar essa nossa linhagem doentia para alguma coisa, independente de nossas crenças, independente da luz ou a escuridão. Independente do lado para que estamos lutando." Ela pausou por um tempo enquanto Ben a olhava fixamente nos olhos. "Independente do que seja que estamos sentindo um pelo outro agora." Sua voz falhou. "Kira é nossa prioridade."

Rey então contra todas as suas vontades jogou-se nos braços de Ben e o abraçou. Ela o puxou tão forte que não deu tempo para ele reagir. Ele a envolveu pela cintura e sentiu o cheiro dos cabelos de Rey adentrarem as suas narinas. Estavam ali, antigos noivo e noiva se abraçando no quarto onde por diversas noites houveram se amado. Agora não sabiam mais o que sentiam um pelo outro, mas Rey o abraçou por saber que ele faria de tudo para que ela achasse sua menina, e nisso ela seria grata. Ela o agradeceu por ter cedido ao pedido dela, e ele permaneceu quieto. Quando se afastaram tudo voltou a ser esquisito de novo. Não eram mais um casal, não sabiam exatamente o que eram, e estava sendo bem difícil, especialmente para ele.

Aquilo de fato era o que havia de mais bonito em Rey, ela não desistia. Apesar de tudo o que aconteceu e de tudo que Ben um dia pudesse lhe ter feito, ela ainda assim preferia estar ao lado dele pois sabia que suas forças unidas eram melhores que qualquer coisa para atingir o propósito. Ela era luz, perguntava-se como podia aquela mulher ser neta de Palpatine. Ela era a misericórdia em pessoa, o perdão. Ela emanava toda a luz da qual faltava em Ben.

A jovem foi então em direção ao antigo guarda-roupas do quarto e por incrível que aquilo lhe parecia, haviam algumas roupas que houveram sobrevivido à ação do tempo e poderiam ser úteis para eles. A partir de agora deveriam começar a se disfarçar, não seria bom a presença da Primeira Ordem ou da Resistência em Jakku. No fundo haviam ainda algumas moedas antigas e joias que iriam bem lhes servir para se virarem por lá.

Arrumaram as coisas em duas bolsas e seguiram até que encontraram sua antiga nave abandonada bem no horizonte. Rezaram para que a nave voltasse a funcionar, e por incrível que aquilo fosse, ela voltou a exercer suas antigas funções.

Rey e Ben agora estavam juntos em direção à Jakku.

Notas finais
E ai pessoal, gostaram do reencontro deles? Dos sentimentos sobre Gesin? Me contrem o que acharam do capítulo e se puderem, e não tiver feito ainda, favoritem a história para que mais reylos possam conhecê-la.