Herdeiros do Império - (Reylo)
37 A Criança do Deserto

"O que me assusta não é a escuridão do tunel mas, sim a luz no final do mesmo."
(Guilherme Minozzo Cintrão)
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Em Jakku nada nunca houvera sido tão simples. Quando deixada por Snoke, logo ela foi adotada por Lorenzo Devift, o primo de Mera. O rapaz, em si, não era uma pessoa ruim. O fato era que ele não permitia que Kira tivesse muita liberdade. Ele cuidou dela por um bom tempo, digamos que tempo até demais. Tempo o suficiente para que uma certa preocupação começasse a crescer dentro dele.
Kira, em anos, tinha se tornado sua única companhia. Lorenzo era um homem medroso, cabisbaixo, poucos amigos possuía, e Melyrane, a prima, sempre houvera tratado ele de forma rude. Desde a infância caçoando dele por não possuir nenhum tipo de contato com as habilidades na Força, e zombando pela inferioridade de posição de seus pais. Então acabou que a garotinha, filha de Ben Solo e neta de Vader — era a única coisa que ele sabia — houvera se tornado alguém a quem olhar.
Ele a ensinou a sobreviver no mais quente dia, a caçar recompensas e se defender das criaturas ruins que a qualquer momento podiam tentar machuca-la. Ela era pequena, frágil, mas Lorenzo sabia que, no fundo, ela devia possuir algo especial.
Kira ficou sob o domínio de Lorenzo por pelo menos um ano e meio, enquanto perguntava todos os dias os motivos de estar ali. Perguntava-se o que tinha feito para ser afastada da família, e ele dizia que não sabia nada sobre isso, que sua única função era protege-la. Mas um dia ela se cansou.
A autoridade de Lorenzo não fora o suficiente para segura-la por tempo eterno. Então no meio de uma noite ela aprontou algumas pequenas coisas e fugiu antes que o tutor pudesse notar sua ausência. Mas quando chegou ao vasto deserto, viu-se diante do desconhecido, do inimaginável. Era areia pra todo lado, e agora ela se arrependia de ter enganado a única pessoa que, de forma incompreendida, se preocupava com ela.
Mas ela tinha de seguir. E percorreu o deserto com as pequenas perninhas até que quase sem fôlego e resquícios de hidratação no corpo ela foi encontrada por um grupo de aldeões. Ela foi acolhida por eles, e sorte a dela que não foram pessoas ruins que não a encontrara. Dias depois ela já fazia parte do grupo e foi assim que conheceu Lor San Tekka. O fato de sua vida, sua busca proeminente, pois ele estava quase desistindo de encontrar a sobrinha-neta de Luke Skywalker, mas a luz, a força, qualquer que seja o motivo, a levou até ele.
Mas um dia ele foi morto, e tudo acabou. A pessoa mais doce e gentil que houvera conhecido, pois nem Lorenzo era tão bondoso com ela quanto San Tekka. E agora ele não existia mais, e tudo por culpa daquela coisa vestindo uma roupa toda preta e uma máscara esquisita. Kira chegou a pensar que aquilo talvez fosse mecânico, como um humanoide, unido a inteligência artificial, mas não, ali embaixo havia um homem, e mal sabia ela que aquele homem era seu próprio pai.
Seu pai, seu vovô San Tekka, agora morto. Morto pelas mãos de quem devia protege-la. Mas então ela jurou que um dia se vingaria dele e de toda a Primeira Ordem. Mesmo que precisasse se tornar mais velha pra isso, mas ela jurou, não poderia quebrar esse juramento consigo mesma. Kylo Ren, afinal, a havia feito chorar por noites e noites e noites e noites... ele não faria mais, pois ela o faria chorar. Implorar por perdão. E de certa forma, foi mesmo o que aconteceu.
Não foi difícil imaginar que Kira estaria magoada. Ben machucou alguém por quem ela tinha muita consideração, havia agido como o monstro que os colegas dela diziam que ele era, e entenderia se ela demonstrasse medo. Ele abriu a porta do quarto bem devagar tentando não a assustar, e encontrou a menina com os braços cruzados no vão da janela observando o movimento externo enquanto a cabeça repousava nestes.
Estava pra baixo, era perceptível, e não fez questão de virar-se para ver quem havia entrado, de toda forma ela sabia, e estava chateada demais para enfrentar a face do pai.
"Kira?" Ele disse suavemente andando em direção a ela. Ela permaneceu quieta, ainda olhando ao fundo. "Kira, podemos conversar?" Ele continuou e ela ainda deu de ombros.
Ele seguiu até a filha e sentou-se ao lado dela. Com muita insistência ele conseguiu que ela olhasse pra ele. Aqueles arregalados olhinhos escuros, o espelho dos olhos de Ben. A face de Rey misturada com os genes do Solo. Ela era linda, perfeita aos olhos dele. Ousou sorrir por um momento, mas ela ainda estava cabisbaixa e isso o deixou bem desconfortável.
"Me desculpe se machuquei alguém importante para você. Às vezes eu não consigo me controlar. Existe algo dentro de mim que simplesmente exala, explode, e então eu não consigo conter." Ele se aproximou um pouco mais, colocando uma mecha dos cabelos da menina por detrás do cabelo. "Eu não sei exatamente como te explicar, eu não tenho como te pedir para compreender, mas, eu acho que devemos ter essa conversa. Kira, você sabe que o papai e a mamãe fizeram parte de uma academia jedi, nós lhe contamos a história de como nos conhecemos, sabe o que significa ser um jedi, sabe que temos habilidades especiais com a força, e deve saber também que existem dois lados desse poder, a luz e a escuridão."
"Sim papai." ela concordou ainda sem muita expectativa, apenas educadamente o respondendo.
"Se lembra de quando eu disse que enquanto papai esteve fora esses dois anos eu estive sob domínio da Primeira Ordem, daquele homem mal que você não gosta, Snoke?" Ela afirmou com a cabeça. "Eu te disse que fiz um serviço para eles. Você então me perguntou se eu havia conhecido Kylo Ren. Eu disse a você que não havia chegado a conhecê-lo, mas, eu menti." Neste momento Kira pareceu mais atenta, ainda confusa, com o cenho cerrado sem entender. "Na verdade, eu fui muito mais próximo a isso tudo do que você pode imaginar."
"Como assim?" Ela perguntou preocupada.
"Kira, eu fui Kylo Ren. Eu sou o homem por debaixo daquela máscara." Ele baixou o olhar e começou a chorar, o coração disparado enquanto a filha, sem compreender bem, tentava conectar os pontos.
"Não papai, eu o vi. Ele matou o vovô San Tekka. Ele é mau, muito mau! Você não é mau." Ben levantou o olhar, olhando-a em misericórdia, sem negar. "Não papai, você não pode ser ele. Não tem como."
"Kira, eu sei que é difícil." Agora ela começou a se agitar, olhar de um lado para o outro como se quisesse sair dali. Como se fosse um sonho. "Kira, preste atenção!" Ele tentou recuperar o foco dela e a segurou pelos bracinhos agitados, ele podia sentir as palpitações da garota bem rápidas.
"Não papai. Aquele monstro! Kylo Ren, ele é um monstro. Ele matou vovô San Tekka, eu disse que ia me vingar dele papai!" Kira ficava casa vez mais agitada, e agora sua respiração era acelerada e Ben pôde perceber as luzes do quarto piscarem, semelhante ao que acontecia com Rey. Ele olhou ao redor, tentando negar a si mesmo de que aquilo pudesse ser uma reação dela. "Papai, não pode estar falando sério!"
"Kira!" Ele disse de forme mais rude aproximando-se mais e a segurando com mais força, a medida que se agitava com mais frequência as coisas ficavam piores. "Kira, não há nada neste mundo que eu ame mais do que você e sua mãe. Vocês são a luz da minha vida. Eu errei muito, eu aceitei toda a oferta de Snoke, eu me uni ao lado negro, as histórias que você escuta, elas são verdade!" Nesse momento Kira já chorava em soluço, sem conseguir enfrentar a face do pai. "Não quero que exista mentiras entre a gente, precisa saber e preciso que tente entender e tente me perdoar! Minhas memórias foram tiradas de mim, minha filha. Sua mãe também não sabia quem ela era. Kira, tente entender."
Mas ela estava confusa demais, ela se soltou dos braços de Ben e saiu correndo do quarto, com as lágrimas caindo-lhe sob o rosto e passando como um furacão pelos poucos que percebiam a menina correndo.
Ela foi pra longe, tentou ir até o hangar, procurar por Poe, mas foi impedida de ficar por lá. Então ela retornou e tentou procurar pela avó, e soube que não seria possível. Olhou para os lados, para todas as possibilidades de refúgio, Poe, Finn, Leia, bb-8... sentiu-se sozinha de novo até voltar a correr sem rumo pela base de D'Qar.
Foi no mesmo período em que Rey indagava a si mesma sobre sua sanidade. Ela podia sentir a luz vindo de seu ventre ao mesmo tempo que lutava contra isso, pois em seu interior havia a necessidade das trevas. O nome, seu fardo, era pesado.
Estava encostada no parapeito, observando os aprendizes em seu treinamento compartilhado. Por vezes olhava para baixo admirando o próprio ventre saliente, curiosa com a quantidade de vida que carregava ali. Como era possível, o que a Força queria dela? Por que a deixou carregar, mais uma vez, um filho do homem que lhe fazia mal? Uma das mechas lhe caiu sobre os olhos e ela foi tirada de seus pensamentos por Ava que se aproximava de forma tranquila.
"Atrapalho?" A loura perguntou, e Rey direcionou o olhar para ela, e em seus olhos expressava o cansaço, a expressão de uma noite mal dormida, pensativa, enclausurada. Ela negou com a cabeça, aliviando a companheira da ordem. "Fomos informados de que voltou a composição da Ordem dos Cavaleiros de Ren." Rey sorriu brevemente pelo canto da boca. "Soube também sobre o bebê. Espero que esteja sabendo lidar com isso." Ava complementou, Rey sorriu novamente. "E... sinto muito pela sua filha." Rey apenas concordou com a cabeça, voltando a observar os jovens treinando. "Snoke me pediu para cuidar de você. Ele não confia em Mera. Ficarei por perto."
"Tudo bem." Rey respondeu. "Está tudo tão diferente, não está? As coisas estão mudando tão rápido. A escuridão parece tão aconchegante quando você se entrega."
"Não exatamente. As vezes é preciso se conter, escolher. As trevas podem pesar, Rey."
"Renesmy." Ela interrompeu. "É meu verdadeiro nome."
Então Rey e Ava voltaram seu olhar para os aprendizes treinando, observando os golpes, a destreza, o quão ágil estavam sendo. Houvera tido uma significante melhora ali, um avanço nos últimos meses.
"Deveria criar seu próprio grupo de aprendizes." Ava comentou.
"Eu?" Rey deu uma leve risada. "Não pretendo usar meus poderes tão cedo agora, pelo menos por enquanto. Pelo menos enquanto preciso cuidar do bebê."
"Está certa." Ava concordou sorrindo levemente. "De fato fez uma boa escolha, a Primeira Ordem é o lugar mais seguro para você e seu filho ou filha agora."
"Sim." Rey concordou sem muita cerimônia, então seu olhar encontrou um rosto conhecido: Eleonora VanHale. A moça estava treinando com outros aprendizes, e, pelo menos, desde a ultima vez que Rey a viu lutar, parecia muito mais habilidosa agora. Ela virou o rosto para Ava e disse em tom baixo: "Aquela garota, VanHale, ainda é aprendiz de Mera?"
Ava procurou pela garota entre os aprendizes e respondeu: "Na verdade, parece que agora ela ajuda Mera a treinar os novos aprendizes. Parece que evoluiu muito nos últimos tempos." VanHale observava as duas com atenção, percebendo que estavam falando dela.
"Se na época eu pudesse imaginar que era Mera quem estava por trás de tudo... VanHale me atacou, provavelmente manipulada a me matar..."
"Se na época soubesse o que iria mudar? O que faria?"
"Daria um jeito, descobriria tudo, e provavelmente teria matado Kylo Ren muito antes dele colocar as mãos em mim." Rey disse com ódio, os dentes em tremor, uma instabilidade na voz. "Mas ainda terei minha vingança. Meu filho, ele vingará a morte de Kira." Ela sorriu para si mesma. "Snoke prometeu que meu filho será treinado, acredito que seja melhor no lado sombrio, de toda forma. A luz não vai levar ele à gloria que ele merece."
"Está parecendo Kylo Ren falando dessa forma, essa não é você!"
"Não importa. Meu filho merece muito mais, ele é um Palpatine, vai receber tudo que é dele por direito."
"Renesmy, ele é um Kenobi também. Por que só enxerga o lado sombrio? Você era uma das que mais defendia a ideia do cinza! Vai mesmo fazê-lo matar o próprio pai?"
"Ele não precisa saber que é filho de Ben."
"E o que você ganha com isso? Renesmy, eu tenho de certeza que um dia ele descobriria, e ele odiaria você por tê-lo feito matar o próprio pai." Rey baixou os olhos. "Olhe só pra você, não é isso que está tentando ser. Está se enganando. Eu entendo que queira estar aqui, que seja seguro para sua vida e para essa criança, mas esse plano de Snoke é loucura. Você nunca será feliz dessa forma."
"Parece até uma traidora falando assim, Ava." Rey virou-se para enfrentar a face de Ava frente a frente. "O que Snoke acharia disso?"
Então Ava deu alguns passos leves para trás, afastando-se de Rey, que possuía em seu olhar um sentimento muito sombrio. Ava nunca houvera a visto daquela forma e era tudo tão confuso. Teria Rey finalmente, e realmente, adentrado ao lado sombrio? O que ela estava tentando fazer com a própria vida? Que ideia maluca era aquela de treinar o filho para matar o próprio pai? Foi então que a dupla foi interrompida pela voz familiar e debochada de Mera.
"Olhem só quem está aqui!?" Mera sorriu sarcasticamente aproximando-se de ambas. "Nossa queria Esme Ren. Como está o bebê?" Ela se aproximou tentando tocar no ventre de Rey, que deu dois passos para trás.
"A surra que eu lhe dei não foi o suficiente, Mera?" Rey indagou de forma rude, e não fosse por Ava colocando-se no meio das duas, talvez tivesse avançado para cima dela.
"Mera, é melhor se afastar." Disse Ava.
"Ah, pode ficar tranquila!" Mera respondeu. "Eu não vou fazer nada com ela, é a protegida de Snoke agora, a vadia de Jakku." Mera levantou uma das sobrancelhas medindo toda a extensão de Rey. "Não posso tocar nela, pelo menos não por agora. Precisamos esperar pelo nascimento do bastardinho." Nisso Rey empurrou Ava e se aproximou mais de Mera, pronta para lhe tapear, mas algo lhe surgiu antes e ela se impediu de cometer qualquer imprudência. "Não tenho medo de você. Deve estar se achando tão importante agora, sucateira. Acha que Snoke se importa mesmo com você? Ele vai te descartar assim que essa criança nascer! Você não é nada, você é só uma vadia. E adivinhe, eu nem me importo por você ser uma Palpatine. Por mais que você seja herdeira do Imperador, ainda possui o lixo da linhagem Kenobi em seu sangue. Impura!"
Ava então empurrou Mera tentando impedir que as duas entrassem num entrave.
"Sabe, Mera, deve estar sendo bem difícil para você perceber que ninguém se importa com você. Snoke pode até achar que sou um nada, e que meu filho com certeza seja mais importante pra ele, mas não foi a você que ele ofereceu um Império. Deve estar se corroendo em saber que mesmo depois de tudo que você fez, nunca ganhará a admiração necessária de Snoke. Nunca será líder dos cavaleiros de Ren, pois sempre, Mera, sempre haverá alguém melhor do que você." Rey sorriu e os olhos brilharam quando viu a expressão na face de Mera se fechar. "Deve ser difícil conviver com sua própria insignificância. Você não é nada, veio do nada, pouco importa sua linhagem. Devift? Que merda de linhagem é essa?" Ela riu. "E no fim você também não tem ninguém, está sozinha, perdeu a única pessoa que talvez se importasse, e agora ninguém dá a mínima pra você. Na realidade, eu sinto até pena."
"Vadia!" Mera respondeu com ódio.
"É só isso que sabe dizer?" Rey sorriu novamente, deliciando-se com as pérolas que a escuridão lhe trazia. Então ela se aproximou um pouco mais até chegar ao pé do ouvido de Mera e dizer: "Me dê licença então, Melyrane."
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