Herói Anônimo
10 Peggy
Notas iniciais
Capítulo 10
*Narrativa*
— Uma reação! – A voz feminina desconhecida parecia animada, essa foi a primeira coisa que Ernest percebeu ao recobrar a consciência pela primeira vez, abrindo os olhos castanho-esverdeados e tentando focalizar algo em meio à claridade que estava em seu campo de visão, ao mesmo tempo sentiu o corpo todo doer, um aperto no bíceps direito, em torno do tronco com uma pressão maior nas costelas e ainda na perna esquerda, da panturrilha até o calcanhar.
— Ahn, cuquê pã? – A voz do semideus saiu mole, assim como seus pensamentos que pareciam estar desordenados, seus olhos ainda não conseguiam focar nada além da claridade, mas sentiu um toque suave em seu antebraço esquerdo, uma onda de calor parecia fluir do ponto onde recebeu o toque, mas a sensação logo se esvaiu, juntamente com a consciência do rapaz, tudo ficou escuro, quieto, assim como todas as sensações desapareceram.
(...)
Lentamente o barulho de grilos e cigarras invadiu o quarto onde o filho de Atena estava, aromas doces com uma nota mais forte de morango entraram dançando juntamente à uma refrescante brisa, o garoto que antes estava inconsciente começou a perceber essas coisas aos poucos, uma pálida luz adentrava o quarto, como se a própria Artêmis tivesse direcionado a lua para olhar pelo semideus, os lençóis estavam frios em contato com a pele do rapaz, percebeu também que usava apenas um shorts, além das bandagens que envolviam os cortes e machucados que recebera no reino dos mortos. Todas essas coisas, essas informações sensoriais, fizeram com que vagarosamente o cérebro de Ernest despertasse de seu torpor, em poucos momentos tinha consciência de todos os pontos de seu corpo: A cabeça pousada em um fofo travesseiro, os lençóis que o cobriam até a altura do estômago, a toalha úmida sobre sua testa, a brisa que soprava e mexia em seus cabelos... A última coisa que fez, vagarosamente, foi abrir os olhos.
O rapaz olhava fixamente para o teto, tentando entender onde estava, o que tinha acontecido exatamente, tudo era um pouco nebuloso: Lembrava-se de ter saído de Hades e cruzado a fronteira do acampamento, mas depois tudo ficou escuro e confuso, a única coisa que tinha certeza era de não estar morto.
— Pelo menos nisso você acertou – Uma voz gelada percorreu a mente do filho de Atena, fazendo com que sua cabeça doesse como se tivesse sido martelada por dias dentro de um balde de metal.
— Droga – O rapaz resmungou, sentia a boca seca, a garganta doía – Podia falar mais baixo, babaca?
— Não – O titã parecia animado – Finalmente tenho com quem conversar, não sabia se ia sobreviver, mas deu certo. Agora tem sua parte do acordo para cumprir!
— Acord... – O rapaz tentou se levantar, mas sentiu a pressão cair e largou o corpo de volta, entregue à cama – Agora não, deixa eu me recuperar.
— Só estou te lembrando, um juramento pelo Estige.
— Não precisa lembrar, fique na sua e tudo vai se resolver.
O semideus olhava pela janela à sua esquerda, podia ver o mar, as ondas que quebravam na praia do acampamento, as estrelas que brilhavam, Zoe que agora olhava pelas caçadoras e semideuses, tudo parecia calmo por lá. Ernest não tinha forças para fazer nada, só estava cansado de dormir (ou estar inconsciente), então ficou lá, olhando o tempo passar, o céu passar por sua cabeça e o sol nascer, até que finalmente, por volta de umas 7h30, ouviu a porta do quarto onde estava, abrir-se:
— Finalmente acordou! – Era a mesma voz da outra vez, mas agora a voz tinha uma dona – Estava começando a ficar preocupada, faz um tempo que está aqui já!
O semideus ergueu uma sobrancelha, correu os olhos pela garota que estava à sua frente, uma menina baixinha, com cabelos castanhos quase negros ligeiramente ondulados que chegavam soltos ao meio de suas costas, não era magra, mas tinha um corpo bonito, a pele ligeiramente bronzeada, os olhos castanhos brilhavam e o sorriso transpassava seus lábios, como se tivesse ganho na loteria. A garota usava calça jeans, tênis converse vermelho e camiseta do acampamento meio-sangue, um colar com cinco contas de argila e algumas pulseiras de couro no braço direito. Obviamente um filho de Atena só podia dar um tipo de resposta para um comentário do tipo “Você acordou”:
— Ahn... – O garoto estava sem reação – Gostei do tênis...
A menina riu, fazendo o rapaz perceber que fizera um comentário quase que sem noção, logo Ernest piscou e corrigiu:
— Quero dizer, quem é você?
A garota cruzou os braços enquanto se aproximava da cama e, com um ar divertido respondeu:
— Peggy Steward, filha de Apolo, fui eu quem te encontrei apagado perto do pinheiro de Thalia... E também – O rapaz podia jurar que a garota estava corando – Sou eu quem está cuidando de você.
O rosto de Ernest parecia esquentar, claro que a sensação só piorou quando percebeu que não usava nenhuma das roupas que vestia quando saiu para sua missão, mas tentou manter a calma:
— Bem, obrigado, se estou bem é por sua causa então... Te devo algumas – Terminou essa frase rindo nervoso, parecia não ter soado tão bem quanto gostaria.
— Bom, agradeço o elogio ao meu tênis e... Vou cobrar essas algumas que me deve então – A menina fez um movimento como se espantasse uma mosca de perto de sua cabeça – Vamos trocar essas bandagens e te dar comida de verdade agora.
Ao ouvir essas palavras, automaticamente o estômago do rapaz roncou, parecia finalmente perceber o quão faminto estava depois de, bom, sabe-se lá quantos dias sem comer decentemente.
— Eu adoraria – Respondeu, acompanhado de um sorriso mútuo com a nova amiga.
*Comentários do registro*
— Pois é, eu sobrevivi, sem comentários engraçadinhos por enquanto, pelo amor de Zeus!
*Narrativa*
Um mês após sua quase morte, Ernest parecia estar bem recuperado, conseguia andar sem ajuda, o braço direito já conseguia suportar um pouco de peso e o corte das costelas já não limitava tanto sua movimentação, aparentemente o acampamento estava em paz, haviam pouquíssimos campistas passando o ano lá, aproximadamente uns 10 ou 12. Outro fato era que Peggy e Ernest andavam juntos a todo momento agora, a desculpa era que ela era sua médica pessoal durante esse período de recuperação, mas era claro que havia uma química entre os dois, por mais que não admitissem.
Foi difícil convencer Quíron, ou pelo menos enrolar o centauro o suficiente para que ele acreditasse que havia sofrido um ataque de monstros durante uma viagem até sua casa, mas por fim o velho instrutor parou de interrogar o jovem sobre o que havia acontecido.
— Bom, em breve poderei tirar os pontos dos seus ferimentos – Peggy ajudava o semideus a trocar as bandagens das costelas – Aí vai ser o mestiço mais feliz do acampamento.
— Ah, cale-se meio metro, para o Hades com esse papo de mestiço.
— Tenho 1,49m e você sabe, não vem me diminuir mais ainda!
Os dois se olharam com cara amarrada, desmanchando-se em risos depois de poucos segundos. Após alguns minutos os dois amigos saíram da casa grande, andando sem rumo pelo acampamento, viram um ou outro semideus praticando com arco e flecha, alguns jogando basquete e outros apenas largados na sombra de árvores mesmo, sem fazer nada.
— Seria bom me recuperar logo, tenho algumas dívidas a pagar...
— Além da que tem comigo? – Provocou a filha de Apolo.
— Uhnf – Bufou o rapaz – Vai jogar na minha cara isso até quando?
— Até eu resolver como serei paga.
Carinhosamente como um mamute, Ernest empurrou a garota para o lado, fazendo-a tropeçar enquanto ria, logo mais cada um tomou seu caminho, para seus respectivos chalés, apenas acenaram para se despedirem. Dentro do chalé de Atena, o rapaz sentou-se em seu beliche e abriu um livro, estava tentando entender o que era sua visão ou como Cronos e ele dividiam o mesmo corpo, em partes, porém não encontrava nada que fosse de fato relevante. Após algumas horas de leitura inconclusiva, o mestiço foi até o banheiro, lavou o rosto e observou sua imagem no espelho: O braço direito com bandagens brancas novas, uma camiseta laranja do acampamento, a barba feita, assim como o cabelo estava aparado em um corte social, os olhos nada lembravam a imagem onde Cronos havia aparecido, com um olho espelhado e outro dourado.
— Você não quer me contar como estamos dividindo o corpo? Ou pelo menos algo mais sobre meus olhos, se não for pedir muito...
— Não, continue lendo, não vou entregar a batalha para vocês, apesar de eu achar que estou ficando mole com esse tempo que estamos convivendo... – A voz áspera invadiu os pensamentos do garoto.
— Foi o que pensei... – O rapaz olhou seu reflexo, pensativo – De qualquer forma, como encontramos Luke?
— Ora, qualquer monstro sabe onde encontrar o garoto, é só sairmos interrogando todos.
— Parece um bom plano – O garoto voltou para a cama e se lançou de costas sobre ela, olhando para o colchão do beliche de cima – Peggy não vai gostar de eu sair assim...
— Deixe sua namorada para lá, temos assuntos mais urgentes.
— Não é minha namorada, eu só devo uma... Ou algumas para ela.
— Tanto faz, segunda podemos partir.
— Isso me dá três dias de recuperação, creio que dê tempo, mas não estarei 100% fisicamente.
— Não precisa, espero que não precisemos lutar.
— Ah, ótimo, você espera, eu luto, fácil falar né? – O rapaz colocou as mãos atrás da cabeça, reforçando o travesseiro – Isso vai ser problemático.
— Vai dar certo, já te decepcionei alguma vez?
— Quer a resposta?
— Não.
— Ótimo.
Ernest suspirou e levantou-se, partindo rumo ao jantar enquanto pensava sobre tudo que tinha que resolver.
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