Notas iniciais
Esse capítulo é um pouco mais curto, mas é pra deixar espaço para o próximo: Finalmente um capítulo de ação descente virá! A batalha se aproxima!

Capítulo 17

*Comentários do registro*

— Sabem, acho que o pior desse ano foi ter que dar suporte pra Annabeth por uma semana, não que eu não gostasse ou que ela estivesse incomodando, mas acho que todos no acampamento sentiam a dor dela: Ela chorava todos os dias o dia todo, não se alimentava direito e mal saía da cama. Claro que nenhum de nós nunca culpou o Percy, afinal ele passou por maus bocados naquele período e escolheu voltar pra nos ajudar, mas mesmo assim foi difícil.

*Narrativa*

Um vento soprou calmamente sobre o acampamento meio-sangue, acompanhando os primeiros raios de sol do dia que preguiçosamente iluminavam toda a colina, as construções de mármore pareciam ainda mais brancas, refletindo a luz. O céu se dividia entre o azul mais claro, o rosa e o negro da noite: Um degradê espetacular para um dia triste, os campos de morangos exalavam um odor intoxicante, ao mesmo tempo que Ernest estava debruçado sobre o peitoril na varando da casa grande enquanto ouvia Quíron falar com Annabeth e os outros representantes de cada chalé.

— Faremos a cerimônia durante a tarde, mas já faz uma semana minha querida, para mim, vivenciar isso é tão doloroso quanto para vocês.

Houve um murmúrio de concordância entre os presentes, apenas a filha de Atena se manteve calada, cabisbaixa enquanto olhava para o chão.

— Algo a acrescentar? – O centauro arriscou dizer.

— Acho que é melhor terminarmos por aqui – O mestiço comentou – Não creio que teremos maiores decisões para tomar, a princípio.

— Precisamos decidir como prosseguiremos em relação à missão – Lembrou Lee Fletcher, do chalé de Apolo – Afinal, apesar de tudo, ainda estamos sob séria ameaça.

— Deixe isso para depois da cerimônia, Fletcher – Clarisse interviu, ela parecia estar realmente sensibilizada com Annabeth.

— Só estou lembrando – O garoto teimou – Que não podemos deixar esse problema passar, não que precisamos de uma resposta imediada.

— Certo – Quíron ergueu as mãos, encerrando a discussão – A noite decidiremos o que será feito, até lá, todos voltem às atividades normais.

— Vamos Annie – O meio irmão da garota puxou-a pela mão – O café da manhã é importante.

*Comentários do registro*

— Vamos pular para um momento mais tarde do mesmo dia, não vale a pena contar muito os momentos que se seguiram, foi basicamente tomar o café e passar o dia tentando distrair a Annabeth.

*Narrativa*

— Decidiram queimar a mortalha então? – Peggy coçou a ponta do nariz e puxou mais uma flecha da aljava.

— É – O filho de Atena suspirou e soltou a corda de seu arco, vendo a flecha passar alguns centímetros acima do alvo – Mas sei lá... é difícil acreditar que Percy tenha morrido... Parece irreal.

— Mas pelo que a Annabeth relatou, parece mais difícil acreditar que ele tenha sobrevivido – Dessa vez foi a vez da garota lançar o projétil, acertando na mosca de um alvo mais distante.

Ernest apoiou o arco no chão e enxugou o suor da testa com as costas da mão direita, observando os alvos.

— Você melhorou muito com o arco – A morena segurou no braço livre do rapaz e apoiou a cabeça no ombro do mesmo, olhando para o campo com os alvos – Nem parece que praticou tão pouco.

— Talvez você estivesse certa, pode ser que o meu pai divino facilite as coisas – O garoto deu um beijo no topo da cabeça da menina e se afastou um passo, erguendo o arco mais uma vez – Mas agora vou acertar na mosca.

— Vamos ver, aposto uma coca.

— Vai se arrepender – O rapaz soltou a corda e viu a flecha voar em direção ao alvo, cravando-se alguns milímetros para fora da mosca – Não!

A filha de Apolo deu uma gargalhada, aproximou-se e, na ponta dos pés, deu um beijo na bochecha do jovem.

— Coca hoje, depois do toque de recolher... Te encontro na praia, naquela rocha que vimos o sol nascer.

O rapaz nem parecia se importar em ter perdido, abriu um largo sorriso e balançou a cabeça concordando.

— Compromisso marcado!

(...)

O dia parecia um insulto ao momento em que estavam vivendo, todos estavam em pé ao redor da mortalha feita para Percy, Quíron iniciou a cerimônia.

— Esse é um momento que, mesmo após tantos anos, eu não gosto de passar. Infelizmente já se passou uma semana desde o último contato com ele, presumimos que esteja morto. Deixarei que sua melhor amiga faça as honras e diga algumas palavras se quiser.

O acampamento todo estava em silêncio, todos prenderam a respiração quando Annabeth posicionou-se e tentou iniciar um discurso.

— Que maravilha ver isso, essa cena quer dizer que vou vencer – A voz de Cronos ecoou na cabeça do filho de Atena.

“Agora não” – Pensou o rapaz – “Você ficou quieto por um tempão, para de ser inconveniente”.

O rapaz estava distraído com a discussão interna, mas teve tempo de ouvir sua irmã dizer a frase mais marcante do dia:

— ...Ele está logo ali.

A multidão de cabeças virou-se para o fundo do ambiente, em pouco segundos aconteceu de tudo naquele local: Gritos, sorrisos, abraços, cumprimentos, até que finalmente Annabeth abriu caminho e Quíron interrompeu o tumulto, levando os dois para uma conversa em outro local.

(...)

— Eu devia ter apostado que o Percy estava vivo, no lugar de ter apostado que acertava o alvo – Comentou o mestiço ao abrir a garrafa de 2 litros de coca.

— Bom, não é de todo mal, eu trouxe biscoitos pra comermos – Peggy sorriu e mostrou um punhado de pacotes de cream crackers, abrindo um enquanto o rapaz servia o refrigerante em copos descartáveis.

*Comentários do registro*

— Antes que alguém venha me criticar falando “você usou copos descartáveis em um encontro na praia e mimimi”, só quero deixar claro que na época (e ainda hoje) sou um meio-sangue desempregado e pobre sem família pra herdar dinheiro. Então era o que tinha disponível na época.

*Narrativa*

— Ouvi que os dois vão voltar para o labirinto amanhã, parece que o cabeça de alga descobriu um modo de se orientar lá – Comentou o semideus.

— Bom, espero que isso esteja no fim, não sei se poderíamos manter uma resistência sólida durante uma invasão prolongada... – A garota mordeu o lábio inferior, preocupada – Será que eles vão conseguir convencer Dédalo?

— Não sei – Admitiu o rapaz – Mas percebi outra coisa preocupante.

— A coca está quente?

— Cale a boca.

A garota levantou a sobrancelha.

— Obrigue-me.

O rapaz suspirou e olhou ao longo da praia, completando sua linha de raciocínio.

— Quintus sumiu... Acho que devíamos ter suspeitado dele, quero dizer, mais do que antes.

— Vamos parar de falar dessas coisas por um tempo, esse baixo astral está estragando meu momento de vitória.

— Ah, é mesmo? – O semideus encarou a garota.

— É sim – A filha de Apolo ajeitou a postura, aproximando-se do garoto – Eu venci a aposta, esqueceu?

Os dois estavam cada vez mais próximos, variavam a visão entre seus olhos e bocas, até que, depois do que pareceu uma eternidade, ambos em um movimento único beijaram-se. Um beijo caloroso, simples, mas que pareceu desliga-los de todo o resto do mundo, monstros, missões, labirintos, Cronos, nada disso importava naquele momento. Sob a luz do luar Ernest parecia ter consciência de tudo: A mão de Peggy sob a sua, os lábios macios, o cheiro muito agradável que saía da garota lembrava grama recém-cortada e se misturava com a brisa marítima, o tempo parecia parar naquele momento e, por uma fração de segundo, Ernest percebeu que o tempo poderia parar naquele momento. Os dois finalmente soltaram-se, os olhos semicerrados e sorrisos bobos desenhados nos lábios, fazendo o filho de Atena dizer:

— Acho que não foi só você que ganhou algo hoje.

— Não, mas eu ganhei duas coisas.

— Duas?

— Sim, a coca e você.

Claro, os dois esqueceram da coca e dos biscoitos, aproveitando a noite juntos, sem saber que o dia seguinte poderia ser o último dia em que estariam juntos.