Herói Anônimo
18 A Batalha do Labirinto + Prólogo
Notas iniciais
Capítulo 18
*Narrativa*
— Ei! O que está acontecendo aqui? – Annabeth irrompeu pela entrada da tenda do chalé de Atena, que era o centro de operações na clareira, próxima ao punho de Zeus.
— Irmã! – Ernest ergueu os olhos da pilha de papéis que estava analisando na mesa central – Diga que tem boas notícias, pelo amor dos deuses!
— Cronos ressuscitou e deve comandar a invasão... – O queixo de todos na cabana caiu – E pode acontecer a qualquer momento.
O mestiço franziu a testa e mordeu a ponta do polegar direito, pensando enquanto olhava para o monte de diagramas e armadilhas mapeadas diante dele.
— Já retiramos as dríades e as náiades da linha de fogo? – O rapaz refletiu.
— Fizemos o possível, mas não sei o quanto isso adiantaria... Não podemos remover as árvores ou rios que são a fonte de vida delas a tempo – Respondeu alguma das irmãs que estava em volta da mesa – No que está pensando?
— Se estivessem fora de perigo poderíamos cogitar usar mais fogo grego, creio que o pessoal de Hefesto tenha mais alguma coisa, mas não é o caso, não podemos arriscar ir além do que temos.
— Qual o plano até agora?
— Vamos tentar afunilar ao máximo a batalha, restringi-la à entrada do labirinto e usar o terreno elevado da saída em nosso favor – Ernest resumiu – E torcemos para nossas linhas conseguirem aguentar por tempo suficiente. Também sugeri despejarmos fogo grego na entrada do labirinto, mas acharam que seria perda de tempo.
— Não sei se alguma coisa disso vai funcionar – Annabeth coçava o lado da cabeça, incomodada.
— Nós não acreditamos muito também, provavelmente é uma batalha que vai ser decidida nos poderes e nas habilidades de cada um, mas temos que dar algo para o resto do pessoal acreditar, pensarem que estão preparados, que existe um plano bom o suficiente – Malcolm debruçou-se sobre a mesa enquanto falava, os olhos revirando todas as anotações da mesa central.
— Bom, no mais, a formação de batalha são os guerreiros na frente e os arqueiros atrás – Uma mistura de alívio e preocupação se formou na mente de Ernest ao pensar em Peggy – E na frente de todos, as armadilhas.
— Certo, acho que... – O chão tremeu, todos correram para fora da tenda e nunca ouviram o que Annabeth estava prestes a dizer.
*Comentários do registro*
— Talvez essa tenha sido a batalha mais brutal depois da batalha de NY, aquela clareira e a área ao redor dela se transformaram em algo parecido com os campos de punição: Lestrigões brotaram da abertura do labirinto, dracaenae surgiram aos punhados, semideuses atacando semideuses, armadilhas disparando em meio à batalha, sendo perigosas para os próprios campistas. Eu não desejo passar por algo do tipo de novo, parecia um ataque surpresa, mesmo estando relativamente preparados.
*Narrativa*
— Eles foram inteligentes, mandaram esses gigantes antes para quebrar qualquer barreira física, vamos ter problemas com isso, a batalha já se espalhou – Ernest comentou com Annabeth um pouco antes de separarem-se e partirem para cantos diferentes a batalha.
“Finalmente vou ver o final disso” – Cronos comentou enquanto o semideus corria.
— Pague pra ver – O rapaz não se importou em falar em voz alta, a barulheira ao redor era imensa, apertando o passo na direção em que Nico se encontrava invocando uma serie de guerreiros mortos-vivos, parando ao lado do garoto – Precisa de ajuda?
— Vamos ver – O filho de Hades respirava com dificuldade, mas deveria ficar bem com algum descanso.
Os dois observaram a batalha de monstros e semideuses contra os guerreiros do garoto, até que uma nova horda de monstros surgiu do labirinto, superando em muito a quantidade das linhas de defesa – “É isso então” – O filho de Atena sacou suas facas e lançou-se ao combate, girando, cortando e retalhando os inimigos que estavam dentro de seu curto alcance.
Um grito de uma garota cortou o ambiente próximo ao jovem, que se virou e correu para o local de origem, onde dríades e náiades estavam juntas tentado diminuir os focos do incêndio causado pelos inimigos que atiravam flechas flamejantes, porém ao chegar no local, a primeira reação do rapaz foi de parar, erguer uma sobrancelha e simplesmente dizer:
— Oi?
Uma ninfa ruborizou, ficando da cor das chamas que ela tentava sufocar, encarando Ernest como se ele fosse a pior ajuda possível.
— Você não, de tantos campistas... – O espírito da natureza suspirou.
— Bom, é melhor que nada, não acha? – O rapaz forçou um sorriso – Vai deixar eu te ajudar dessa vez Eleanor?
— Droga, vamos, antes que a floresta entre em um incêndio pior ainda!
A ninfa tentava abafar as chamas com um xale, mas não estava tendo um efeito considerável, as chamas ainda não eram grandes, mas o mato estava seco e só contribuía para um alastramento mais rápido do fogo. Logo o garoto começou a cavar, jogando a terra em cima do fogo, fazendo um pequeno fosso entre as árvores e o fogo.
— Certo, quando o fogo chegar no declive nós vamos jogar toda a terra de volta, a parte que sobrar devemos conseguir apagar pisando.
Dito e feito, logo os dois pareciam estar fazendo a dança de festa junina mais louca dos últimos anos, pulando e sapateando em cima do fogo.
— Obrigada – Arfou Eleanor – Por mais que eu odeie admitir, você talvez seja um cara legal.
— Foi divertido, tirando a parte de quase nos queimarmos.
— Não abuse, volte para a batalha, agora tenho as coisas sob controle aqui.
O semideus sorriu e correu de volta para os arredores do punho de Zeus, chegando a tempo de tomar um banho pela parede de água convocada por Percy para apagar o incêndio de vez.
— Podia ter feito isso mais cedo, Jackson! – Cuspiu as palavras (e água) o filho de Atena, continuando sua corrida para aproximar-se da batalha, até que uma criatura monstruosa saiu voando do labirinto: Asas de morcego, meio dragão com cabeças de animais brotando na cintura. Claro que só uma reação poderia ser aceita em um momento como aquele: O rapaz parou abruptamente apontou para o monstro e deu um berro:
— Mas que caralho de bicho é aquele? Inventar monstros não vale, porra! Se foder!
Em poucos segundos após se recuperar do choque, o rapaz começou a rodear o local, até registrar que Percy e Annabeth se ocupariam da criatura.
— Droga, isso não vai prestar, preciso achar a Peggy... – Saindo em disparada, batendo nos monstros e semideuses que apareciam no caminho, até dar de cara com um lestrigão tampando o caminho – Sai daí gigante imundo!
Como resposta, Ernest teve que desviar de um golpe circular aplicado pelo monstro com uma clava do tamanho do próprio garoto. O gigante já preparava um segundo golpe, mas dessa vez o filho de Atena já estava preparado: Ao ver o lestrigão erguendo a clava, o rapaz lançou se na direção da criatura, rolando por baixo de suas pernas (torcendo pra não ver nada sob a tanga) e abrindo um talho na panturrilha esquerda, conseguindo um urro em resposta, seguido de uma tentativa de pisão.
— Caramba, ganhou do Shrek com esse urro – O rapaz murmurou, afastando-se para evitar mais um golpe do monstro que, a essa altura já estava furioso e atacava aleatoriamente tudo ao seu redor, atingindo árvores, monstros e semideuses de ambos os lados – Mas tem uma vantagem na altura dele...
— Uh, tem um plano é? – Cronos parecia curioso.
— Não é bem um plano – O rapaz puxou uma faca de arremesso – É que quanto maior o alto, mais fácil de acertar – Atirando a arma e cravando a lâmina na testa do gigante, que com um berro se desintegrou em cinzas, deixando uma tanga e uma clava para trás.
Após recolher a faca, o rapaz continuou correndo, até ver Briareu atirando pedras em Campe, o que realmente o acalmou – “Uma bizarrice a menos para abatermos” – Parando para olhando à sua volta na clareira: Pilhas de cinzas, focos de incêndio, resquícios de fogo grego em alguns locais, corpos estendidos ao longo da entrada do labirinto e além, tanto semideuses quanto sátiros e outros espíritos da natureza. Era uma visão estarrecedora, o garoto sentiu o desespero voltando ao ver essa cena, tudo aquilo parecia tão errado, mesmo para ele que cresceu e condições mínimas, convivendo com a morte diariamente.
Um “clique” despertou o rapaz de seu transe, virando-se rapidamente para ver uma fecha atingir uma dracaenae que se esgueirava pelas suas costas e transforma-la em cinzas.
— Não devia se descuidar no meio de uma batalha dessas – Peggy desceu de uma das árvores, indo em direção ao garoto, ela parecia estar bem, apesar de ter um corte feio sangrando na bochecha direita – Você está bem?
— Estou, os maiores ferimentos são uns arranhões, você?
— Fora o corte – A garota apontou para o próprio rosto – Tudo bem.
Dessa vez foram os reflexos de Ernest que salvaram a filha de Apolo, o rapaz percebeu um semideus correndo na direção deles e rapidamente se interpôs entre o agressor e a garota, aparando o golpe de espada com sua faca de caça. Sem muito tempo para reação, o atacante usou o escudo para golpear o peito de filho de Atena, que cambaleou para trás, tentando manter a guarda alta.
— Ahhh – O jovem desconhecido não cessou os ataques, já investindo com uma estocada, porém dessa vez o mestiço estava melhor posicionado: Aparou o golpe e rolou para frente, passando pelo inimigo e ficando às suas costas. Como o rapaz tinha uma armadura completa, espada e escudo, os lentos movimentos atrapalharam sua próxima defesa, sendo golpeado na altura da costela, porém sem muitos danos, graças à armadura.
— Droga, será que isso não vai acabar nunca? – O semideus observou ao seu redor, não apareciam mais novos monstros com tanta frequência, mas ainda o número de invasores era bastante grande.
Enquanto isso Peggy encaixava uma flecha no arco, aproveitando que eram dois contra um e o inimigo estava de costas para ela, mirou e acertou na altura da panturrilha do rapaz, desconcentrando-o e abrindo brecha para mais um ataque de Ernest, que acertou o elmo com o punho da faca, derrubando-o.
— Eu acho que... – A garota foi interrompida pelo som da trombeta mais medonha que já foi ouvida.
*Comentários do registro*
— Bom, eu só queria declarar que levamos um tempo para entender que não foi uma trombeta, foi o pânico de Grover.
*Narrativa*
O exército de Cronos recuou como um enxame de abelhas, voltando para o labirinto e deixando para trás os mortos e feridos à mercê dos defensores.
— Isso foi medonho e legal ao mesmo tempo – O filho de Atena viu os outros campistas aproximando-se da entrada do labirinto e, bem, o resto é história: Quintus se entregou para destruir a criação subterrânea, Peggy saiu para tratar os muitos feridos que haviam, contando Quíron com a pata quebrada e Nico que estava exausto de tanta energia usada.
(...)
A noite foi um período difícil para todos.
— Eu nunca esperei ver essa cena – Ernest olhava para a pilha de mortalhas que envolviam os guerreiros que pereceram na batalha – E não espero ver de novo.
Em meio aos discursos, palavras de consolo e de tristeza, as mortalhas foram queimadas e os campistas se dispersaram para seus chalés. O filho de Atena e Peggy saíram de mãos dadas até a área dos chalés, parando para olhar as estrelas no meio do caminho, a garota encostou a cabeça no ombro do rapaz e soltou um pequeno soluço, o jovem sentia as lágrimas quentes da filha de Apolo molharem sua camiseta.
— Ei – Foi a única palavra que apareceu na mente do mestiço, abraçando a garota logo em seguida, sentindo um leve aumento nos soluços – Eu estou aqui... Pelo menos.
— Eu não sei o que eu faria se não estivesse – A voz fraca da menina respondeu, recebendo em troca um aumento do aperto no abraço – Graças aos deuses estamos bem.
O jovem desfez o abraço e olhou para o rosto de Peggy, passando o polegar com carinho sobre o curativo na bochecha da garota, em seguida dando um selinho em seus lábios.
— Não se preocupe, eu sou ruim de morrer – Disse baixinho – E eu não vou deixar nada acontecer com você.
A garota deu um sorrisinho, ficando na ponta dos pés e em seguida beijando o rapaz, até que ouviram um “cof cof” perto deles: Percy e Annabeth de braços cruzados olhando para os dois, pareciam estar se divertindo vendo a cena. Ernest mostrou a língua para a irmã, enquanto Peggy enrubescia e abraçava o rapaz, tentando esconder-se dos amigos, que já se dirigiam para seus respectivos chalés, todos abatidos e cansados com o fim do dia.
— Sabe... – A filha de Apolo falava sem desencostar a cabeça do peito do rapaz – Eu sei que nunca conversamos sobre isso, mas, o que nós temos aqui?
— Bom – O garoto fez um carinho nas costas da menina enquanto falava – Eu gosto muito de você, mais do que eu consigo expressar... E não queria que isso fosse só um momento nosso.
A garota se separou do rapaz, os olhos brilhando.
— Eu também... – A garota desviou os olhos, nervosa – Eu sinto o mesmo, não quero que isso seja só um momento...
— Então... – O mestiço coçou atrás da orelha e olhou para as estrelas – Droga, eu sou péssimo com isso.
Inesperadamente Peggy deu uma risada e pôs as mãos na cintura.
— Continue, tinha começado bem, não vai foder tudo agora Ernest!
— Cala a boca, não precisava mandar um dessa.
— Então diz logo o que quer dizer –A garota cruzou os braços.
— Tá – O rapaz puxou as mãos da menina, fazendo-a descruzar os braços – Namora comigo então?
A garota passou os braços pelo pescoço do jovem, chapando-lhe um beijo, calmo, mas com urgência. Os dois permaneceram naquilo até perderem a noção do tempo, finalmente ficando sem ar e separando-se.
— Sim – A garota respondeu, mesmo que desnecessariamente, lutando contra as lágrimas que se formavam – Eu namoro! Seu lerdo!
— Ei!
O protesto foi em vão, logo Ernest sentia a nova namorada esmagando seu pescoço com um abraço.
(...)
O dia seguinte à batalha foi dedicado ao tratamento dos feridos, ou seja, o chalé de Apolo ficou extremamente ocupado, enquanto o resto ajudava como podia. O mestiço ajudava a fixar ataduras no antebraço de um campista de Ares, até que se lembrou se uma coisa.
“Você não solta um pio desde que perdeu a batalha, não seja um mal perdedor” – Pensou, provocando o Senhor do Tempo que habitava sua consciência.
“Cale a boca” – Vociferou a voz – “A guerra ainda está longe de ser decidida”.
Com uma risadinha, o filho de Atena andou por entre os feridos, parando apenas para olhar Peggy por uns momentos, que passava néctar sobre a ferida de um de seus irmãos.
— Ei, Ernest! – Percy passava por entre os outros campistas.
— Diga mais – O rapaz cumprimentou o amigo – Do que precisa?
— Viu a Annabeth por aí?
— Ah sim, ela acabou de sair com Quíron para a floresta, disse algo sobre uma reunião.
— Droga, o conselho vai julgar Grover! Quase me esqueci!
— Bom, eu correria se fosse você... Annie, Juniper e Grover não vão te perdoar se faltar à essa reunião sem um bom motivo – Riu o rapaz.
— Grover até me perdoaria, mas as meninas – O filho de Poseidon estremeceu, saindo correndo em direção ao Bosque Sagrado.
Ernest olhou para o céu azul que pairava sobre o acampamento e, infelizmente, não podia deixar de pensar que tempos mais difíceis ainda estavam a caminho.
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