Hell Between Us
9 Capítulo 9 - A caminho de um resgate
Notas iniciais
Pov – Daryl
Eu subi na torre com o único objetivo de desbancar aquela mulher infernal, mostrar que não é dona da verdade, que não sabe nada de mim, queria provoca-la, irrita-la, deixa-la sem chão, mas foi tudo diferente, não era para gostar do beijo, pelo menos não mais do que gostei do primeiro, mas acontece que quando vi estava envolvido e quase mandei meu plano para o inferno, ela é perigo, nunca me vi assim e isso é uma maldição.
Desci de lá como planejei que seria, mas devia estar exultante, ela caiu, ficou tonta, correspondeu, calou, mas então porque me sinto um idiota mau caráter?
Por que foi assim que me comportei, como um mau caráter que brinca com sentimentos, magoa sem piedade e não sou assim.
Fico me corroendo entre o arrependimento pelo que fiz e a raiva pelo que senti, vou para o poleiro descansar um pouco, não durmo, acho que ninguém dorme, Sam fica de um lado para outro, perdido sem Abby, sobe e desce as escadas, senta nos degraus, segue para o refeitório, volta, o bebê chora uma ou duas vezes, Beth o atende prontamente, acho que vai ser dela a responsabilidade de cuidar da pequena, e nossa a função de mantê-la viva e quero mesmo fazer isso. Quando clareia me levanto, é uma grande merda mesmo, Rick não deu as caras ainda, não vou me meter nisso, ele está sofrendo e entendo isso, quando estiver pronto ele volta.
Nos reunimos no refeitório, Sam ainda inquieto, então eu a vejo entrar finalmente e se ela queria me fazer sentir vontade de morrer conseguiu, Abby chorou, e a culpa é minha, eu a fiz chorar, por que sou mesmo o grosso que ela me acusa de ser, e ela não é a mulher fria que queria acreditar que é.
Os dois tem uma pequena discussão, depois ela some para a cela e ele a segue, espero que a ajude já que eu só faço merda, descemos para limpar as tumbas, ou o mais perto disso que podemos, são muitos mortos por lá, caminhando e gemendo daquele jeito infernal.
Vamos fazendo nosso trabalho, comemos, voltamos, ela é incansável, procuro seu olhar um milhão de vezes, ela foge, me mostrar sem uma palavra como sou desprezível para ela e fico de novo com raiva, agora não sei mais se dela ou de mim e quando peço que leve Carl ela me dá a resposta que mereci e depois me deixa, odeio isso, odeio o que me provoca, porque não pode ser como antes de ela chegar?
Como no tempo que eu sobrevivia apenas e ajudava os outros a fazerem o mesmo?
Fico sozinho, irritado e pensativo, tentando tomar uma decisão sobre Abby e como me sinto, se me desculpo ou mando tudo para a porra do inferno, uma porta fica batendo insistentemente com aqueles merdas querendo sair e chega dessa merda, se são muitos ou apenas um não me interessa, vão queimar no inferno agora mesmo.
Empurro a porcaria do corpo na porta e abro com fúria, mereço aplacar minha irritação, mas o que vejo é surpreendente, Carol, sentada e abatida, eu a carrego para cima, finalmente algo bom num dia infernal, ninguém vai acreditar nisso, é bom, nos dá esperança, deito Carol numa cela, ofereço água, é bom ter minha amiga de volta, ao menos algum alento.
─Fica ai, vou chamar o pessoal! – Deixo Carol e sigo para o refeitório, Rick estava no chão, debruçado sobre uma mulher meio ferida e cheirando a zumbi, ela tenta pegar uma espada, que porra é essa que agora a mulherada anda por aí carregando espadas? É a moda apocalipse?
─Quem é essa aí? – Pergunto e Rick não sabe, mas deixou entrar é claro, o velho xerife e seu antigo habito de doar armas e atender necessitados – Venham, vão gostar de ver isso.
Eles me seguem, primeiro ele garante a mulher, que me lembra um bicho acuado, que está segura e que ele retornará para conversarem, então nos reunimos em torno de Carol, estou mesmo feliz e todos estamos, ela chora ao se dar conta que perdemos Lori, consola um pouco Rick, procuro por Abby, está distante com Sam ao seu lado, deve ser estranho para eles, difícil se adaptar, nem sei como eu faria isso, acho que não conseguiria, foi difícil me sentir parte dessa família, outra eu não conseguiria.
Carol vai descansar, Rick tem outro problema, saber como a mulher chegou aqui e porque trazia leite em pó?
Abby segue conosco para descobrir, as duas se encaram, acho que deve ser um código entre mulheres e suas espadas, meneiam a cabeça se cumprimentando, mas nosso objetivo é descobrir a verdade e ela vai ter que falar.
Rick não é gentil, nem poderia, a mulher fica sem alternativa e nos conta sobre uma comunidade, foi tolice achar que só nós tínhamos um lugar, fala sobre um homem ruim e seus métodos e o mais importante, Glenn e Maggie foram levados por eles, quais as chances de uma pessoa ser sequestrada duas vezes na mesma porra de apocalipse? Mas o coreano consegue, que merda!
Nos reunimos para decidir como fazer, temos que ir em busca dos dois, isso é fato, mas mal somos capazes de nos proteger, quem vai se enfiar numa porcaria de uma busca como essa?
Os presidiários acabaram de chegar e não fomos muito gentis com eles, não tem porque serem conosco, Abby sempre deixou claro que está nessa pelo garoto é só por ele, não vai se arriscar, não digo nada, apenas me junto a Rick quando ele conta para todos o que afinal está acontecendo.
Mais uma vez procuro os olhos dela, mais uma vez eles fogem de mim, não queria sair sem me desculpar, não sei bem se volto dessa droga de missão, se ela vai estar aqui quando chegar, mas nem mesmo me olhar ela consegue, que foi que eu fiz com ela? Sou um idiota!
─Como sabe que podemos confiar nela? – Oscar questiona.
─Porque estamos discutindo? É a Maggie e o Glenn! – Beth diz e sei o quanto os dois são importantes para ela e para todos nós.
─Não estamos discutindo, eu vou! – Aviso, claro que iria, não importa muito se alguém faria por mim, eu vou fazer isso e pronto.
─Aquele lugar parece bem seguro, não pode ir sozinho. – Rick me diz e também não posso pedir a ninguém que me acompanhe.
─Eu vou.
Beth eu sei que iria, não que pretenda leva-la, mas ela faria por Maggie.
─Eu vou também! – Axel se oferece.
─Estou nessa! – É a vez de Oscar se oferecer, Rick parece mais confiante quando nos encaramos.
─A gente não devia ir de uma vez ao em vez de ficar de papo? – Abby diz com aquele ar de rainha entediada que me faz sentir vontade de... sei lá, não quero pensar nisso.
Começamos a juntar o que temos, não é muito, mas vamos com tudo, Axel vai ficar e Sam também, primeiro por falta de espaço no carro e para manter alguma segurança para quem fica, observo Abby encher o garoto de recomendações feito uma mãe zelosa.
─Se protege e protege todo mundo sem bancar o herói, não precisa fazer isso, em caso de perigo se tranca com todo mundo, ouviu Sam?
─Sim X eu ouvi! – Ele responde cansado quando passo por eles, sorrio. – O de sempre, não faz nada e deixa que quando eu chegar resolvo!
─Exato e já disse que tenho nome, para com essa droga de apelido ridículo!
─Sim X, desculpe – Ele responde rápido e sei que ganhou um olhar torto – Foi só para quebrar o gelo!
─Não tem nada gelado aqui.
Ela caminha e quando está passando por mim eu seguro seu braço, preciso falar com ela de uma vez antes de entrarmos no maldito carro.
─Eu... – O olhar dela me penetra a alma – Bom, não precisava fazer isso, quer dizer...
─Não sou da família é isso? Já sei não precisa me jogar mais isso na cara.
─Não é nada disso! – Que mulher difícil, não sou bom com palavras – Estou só querendo me desculpar por ontem – Seus olhos cintilam com a lembrança, está magoada comigo de verdade e isso dói – Eu não sou daquele jeito.
─Foi como se mostrou, agora se puder soltar meu braço! – Olhamos para minha mão segurando Abby, solto relutante.
─Obrigado pelo que está fazendo!
─Nunca fujo de uma boa briga! – Ela me olha altiva, dá uns passos para longe de mim.
─Não tem problema admitir que está fazendo pelas pessoas! – Digo alto para ser ouvido, ela para um instante, pensa me responder eu acho, mas desiste se afastando sem olhar para trás.
Abro o porta-malas e jogo as mochilas lá, Oscar me ajudava.
─Peguei granadas de luz e gás lacrimogênio, nunca se sabe o que podemos usar! – Carl coloca mais uma mochila, levo minhas flechas, uma muda de roupa, minhas poucas coisas caso a gente acabe na estrada por alguma razão – Não se preocupe eu fico de olho no seu velho! – Carl concorda, eu faria mesmo isso, Rick tem dois filhos para manter vivo, eu não, Abby para ao lado da mulher nova, as duas trocam algumas palavras, não resisto a prestar atenção.
─A Katana é uma boa arma, corte duplo não é? – Abby questiona, a mulher confirma – Posso ver? Isso deve ser bom para arrancar umas cabeças.
─Sim! Sua Sai, usa as duas ao mesmo tempo, estilo...
─Musashi! Sim, que bom conversar com você, ninguém aqui entende essas sutilezas.
A mulher puxa a espada, Abby faz o mesmo e elas trocam as armas, executam movimentos, depois destrocam.
─A Sai é bem leve, mas talvez duas me atrapalhasse um pouco.
─Duas Katanas seria perfeito, se encontrar outra por aí treine.
─Quanto tempo até ficar pronta? – A mulher questiona Abby.
─Ainda não estou pronta, é sempre tempo de aprender mais.
─Teve um sensei?
─Sim, mas nunca dei ouvidos a sua sabedoria milenar, isso é coisa de filme, só treinei mesmo, dia e noite, vamos? – Abby convida encerrando o assunto e seguimos para o carro, a mulher não abre mais a boca, Abby também não, tem os olhos perdidos na estrada e fico querendo saber que está pensando, descemos no meio da estrada, ordens da última samurai.
─Eles têm guardas na estrada, vigias, melhor seguirmos a pé.
─Muito longe? Já vai anoitecer! – Rick questiona quando pegávamos nossas coisas, Abby só levava suas espadas e a pistola no coldre.
─Não três ou quatro quilômetros.
Vamos chegar de noite eu penso quando começamos a caminhar, eu e Abby ao lado de Rick, os outros dois um pouco mais a frente.
─O que fizeram por mim, pelo meu bebê, eu estava com a cabeça... precisa organizar umas coisas, então obrigado! – Rick diz enquanto caminhamos.
─É o que fazemos. – Respondo sem prolongar muito, a gente não precisa dessas coisas, é como agora, quando caminhamos para o perigo para salvar dois dos nossos, a gente faz o que tem que ser feito e pronto.
─São bons juntos, fortes! – Rick diz e nem eu nem Abby respondemos, é estranho sermos colocados como uma dupla, mas Rick andou fora dos trilhos e não reparou nisso.
Então preparo a besta ao mesmo tempo que Abby puxa as espadas, eu nunca fico imune aquele movimento, nem quando estamos cercados de zumbis.
─Abaixem! Fiquem em formação.
A formação de Abby é cortar pescoços, ela é o demônio em forma feminina, se ergue sem esperar, sai pegando zumbis a nossa volta o jeito é se mover e ajudar um pouco, então decidimos mudar a rota porque aquilo parece uma pequena horda e não podemos perder tempo nem arriscar tanto, nos desvencilhamos do perigo e seguimos por outro caminho.
Mas a merda da floresta está empesteada dessas coisas e somos perseguidos, felizmente encontramos uma cabana no caminho, entramos todos, o lugar fede como se os zumbis tivessem passado féria lá.
─O que é isso? – Oscar pergunta ao ver um animal no chão.
─Uma raposa ou o que sobrou dela. – Rick responde.
─Parece mais é que a Lessie voltou para casa.
O cachorro está duro no chão, tem algo sob umas cobertas numa cama, Rick puxa a coberta velha e um homem se ergue alucinado junto com uma nuvem de poeira, Abby pragueja impaciente, a mulher pede que o calemos e Rick faz o tipo policial em negociação, abaixa a arma e tenta convencer o maluco que quer chamar a polícia, ando querendo o mesmo.
Descontrolado o velho saca um rifle, Rick empurra a arma e ela dispara arrebentando uma parte da casa e quase me acertando, estou sempre prestes a levar uma porra de um tiro, isso quando não sou confundido com um zumbi.
O homem corre para a porta, a mulher não pensa duas vezes e acerta sua espada o homem cai, Abby ignora, Oscar fica chocado e ficamos todos em silencio, sigo para porta, quero ver como as coisas estão depois da confusão lá dentro, tem uma porra de uma dúzia deles querendo entrar.
─Se lembram do Álamo? – Adorava aquela história, meia dúzia de soldados protegendo um forte por semanas, mil e quinhentos mexicanos tentando entrar e sendo impedidos por alguns poucos soldados, mas isso parece que vai acabar do mesmo jeito, o forte caiu.
─A porta! – Rick pede enquanto eu o ajudo a erguer o corpo do homem, a mulher abre a porta atiramos o homem para os zumbis e fugimos pelos fundos, eles ficam ali se contentando com o corpo do velho, ele já estava morto mesmo.
O caminho fica mais tranquilo, sigo com Abby silenciosa ao meu lado, ela não me olha e não paro de querer sua atenção, uma merda isso, fui cutuca-la e acabei me ferrando agora pareço um idiota carente, bem feito.
─Foi bem tenso! – Puxo assunto.
─Foi! – Ela responde olhando para frente, estou com a besta em punho, ela com uma das espadas na mão.
─Não é o primeiro sequestro do Glenn, ele foi levado uma vez antes, foi há muito tempo, uns mexicanos barra pesada.
Rick solta uma risada, certo eles não eram barra pesada, mas podiam ser, achamos que eram.
─Eles não eram assim tão maus, cuidavam de uns idosos, Glenn foi sequestrado pelo chefe da gangue do asilo! – Ela ri, Abby ri e nunca tinha visto, quer dizer eu já vi ela fazer isso, mas achava que era privilégio do Sam e apenas ele. – resgatamos o Glenn doamos armas e enfrentamos os pinschers assassinos, uma grande aventura.
─Espero que tenhamos a mesma sorte!
─Também espero, se deu bem com a samurai.
A mulher caminhava na frente mancando um pouco, era uma mulher forte, não se dobrava assim como Abby, ela me olha de lado, depois volta sua atenção para frente, não responde de pronto, pensa um instante.
─Coisas em comum.
─Esse tipo de arma é bom, silenciosa, como minha besta.
─Sim! – Ela não ajuda a conversa, mas não desisto – Aprendi na infância, não era boa, mas aprendi a usar o arco e a besta, numas férias.
─Tem talento com armas, acho que basta algum treinamento.
─Não, prefiro minhas espadas, rápidas e silenciosas.
Um zumbi surge e acerto minha flecha, faço isso quando ela erguia a espada, só para mostrar que minha arma também era rápida, ela não diz nada, mas entende o recado.
Pego a flecha de volta, ela me olha um instante e continua caminhando, apresso o passo para continuar a seu lado, pego um olhar surpreso de Rick, ignoro como faço com tudo que não quero discutir.
Mas dessa vez fico em silencio, já dei um passo para ficar tudo bem entre a gente, não vou ficar me humilhando para a garota, ela que faça algo com isso agora.
Acontece que ela não faz nada, mantem o silencio e a distância segura, melhor para ela e para mim, ela que vá para o inferno onde me manda toda hora, que se dane, vamos fazer o que tem que ser feito, salvar Glenn e Maggie e voltar para casa, é isso, me sinto muito bem com essa decisão, definitivamente, me sinto ótimo, não quero mesmo ser amigo dela, dane-se Abby e sua pose de rainha.
Dane-se que beija bem feito o diabo e me deixa sem ar e com vontade de arrasta-la para cama, quanto mais distante melhor, ela não se dobra nem eu, beijar essa mulher não é mesmo boa ideia, nem ficar assim perto, o cheiro dela impregna, é bom e faz a gente querer coisas que não se deve querer no apocalipse.
Mais uns metros em silencio, aquilo me irrita, ela me irrita, me atormenta, faz silencio só para me torturar.
─Setenta e cinco pessoas é muita gente, já esteve num grupo grande assim? – Pergunto sem resistir.
─Não, trinta uma vez, por duas semanas, depois sobraram cinco, uma horda no meio da floresta, uma tenda de circo, sangue e pânico, é o pânico que mata, mais rápido que zumbis.
Uma longa frase, com pontos e virgulas, um avanço, impressionante, mas depois silencio, reprimo um suspiro, Oscar para de andar, nos encara.
─Está escurecendo, será que é boa ideia?
─A noite é mais segura Oscar, podemos nos esconder e geralmente a guarda fica mais desatenta, eu prefiro.
Abby diz a ele que dá de ombros e continua a caminhar, Rick se une a nós, olha a mulher mais a frente, não esconde a preocupação.
─Vamos trabalhar em equipe, não sei onde estamos mesmo indo, ainda pode ser uma emboscada.
─Não é. Ela quer se vingar dele, do tal Governador, não sei o que fez a ela, mas ela o odeia, só quer nossa ajuda e foi generosa, não por nós, o leite, o bebê, isso fez com que fosse atrás de nós.
Abby diz muito convicta, acho que não iria mesmo cair em uma emboscada, é esperta, adoro isso, uma mulher forte que sabe o que quer e não esconde que não precisa de proteção e cuidados extras, só gentileza seu idiota, só uma porra de uma gentileza, não deixa-la sozinha depois de... como foi que cheguei de novo no maldito beijo? Mas espere, eu saí dele alguma vez? Não, essa merda está me cutucando desde ontem. Um inferno.
Finalmente chegamos ao tal lugar, a princípio uma rua, alguma proteção e homens sobre carros, muros, umas ruas fechadas, e protegidas, nada comparado a nossa prisão o que só deixa tudo mais preocupante, quem não iria querer um lugar como aquele? Se Glenn e Maggie abriram a boca nosso problema é maior que apenas resgata-los.
Nos juntamos para decidir o que fazer, nessas horas Rick é um bom líder, tem boa estratégia, sabe ser calmo e não se esconde, não dá ordens, ele está na linha de frente, acho que o tal Governador não espera por isso, ou por nós, não tem nenhum tipo de alerta especial, apenas homens comuns numa vigia superficial.
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