Hell Between Us
53 Capítulo 53 - Richmond
Notas iniciais
Pov – Abby
A igreja fica escura e silenciosa, Judy está na sacristia com Carl e Rosita, acho que é esse o nome dela, a penumbra nos esconde dos futuros inimigos, aguardamos escondidos.
Penso no que essa gente prestes a invadir a igreja fez, a perna de Bob sendo devorada diante dele, o cuidado de fazer um corte preciso, tratar a ferida e estancar o sangue para mantê-lo vivo. Aquilo é maquiavélico num nível que me apavora.
Ficamos todos prontos, o grupo se aproxima da porta, possivelmente morderam a isca, nos viram sair como se tivéssemos indo caça-los, cegos pelo desejo de vingança não verificaram nada.
A porta range quando se abre, Daryl me encara pedindo atenção e cuidado, ele sempre me vê como alguém que precisa ser cuidada, devia me ofender, me ofenderia se partisse de qualquer outra pessoa, mas é ele, e sei que isso é seu modo de dizer que precisa de mim.
O grupo invade a igreja, meu ódio toma forma, não estive em terminus, mas sei o que tentaram fazer com Daryl e toda minha família. Agora vão conhecer a ira do nosso grupo, ao menos a minha.
─Padre! Vamos padre, onde está, que tal aparecer, prometo que o deixo livre, quem sabe até liberto o bebê.
O grupo segue em direção as portas, ficamos imóveis, silenciosos a espera do sinal de Rick, todos posicionados.
Judy chora denuncia a localização dos nossos protegidos, é hora do ataque, eu podia usar uma pistola, mas eles vão conhecer a força de minhas laminas.
Rick dispara com tanta precisão que decepa dois dedos do líder.
Gareth cai de joelhos, surgimos todos, cada um com seu rival, não perco tempo com conversa, enquanto escuto Gareth implorar passo minha espada pelo peito do homem diante de mim, ele geme quando a espada atravessa, ela volta suja de sangue, os olhos dele arregalados me imploram.
Não tem perdão para quem devora pessoas vivas, mesmo para esse mundo o que fizeram não tem nome.
Rick puxa seu facão de cabo vermelho, só restava Gareth e ele crava o facão em sua cabeça, o sague jorra para todas as direções, a igreja está toda suja de sangue, lembra uma carnificina.
Os olhos do padre revelam seu espanto e repulsa, é fácil para quem esteve o tempo todo sob a proteção dos céus.
─Isso é uma igreja! É a casa de Deus! – Ele diz com a voz embargada.
─Não padre, isso são quatro paredes e um teto! – Maggie responde paralisada no meio da igreja, ela não participou, nem Glenn, ainda tem muito de humano neles, mais do que em todos nós, Larissa sai correndo da sacristia, me abraça e fico um minuto me decidindo se retribuo, acabo afagando seus cabelos.
─Tive muito medo lá dentro, Judy chorou e achei que estava tudo perdido.
─Sinto muito termos te assustado, mas agora acabou.
Por um longo momento ficamos apenas ali, de pé, no meio da igreja olhando os corpos dilacerados, o sangue escorrendo pelo chão, Michonne está agora com sua espada, imagino como foi ficar ainda que por pouco tempo sem ela, nos olhamos de modo perdido.
Para onde agora? Sam se aproxima de mim de mãos dadas com Beth.
─Sei que era preciso, mas...
─Canibais Sam, nunca pense duas vezes ou acaba morto. Como está o Bob?
─Falta pouco, Sasha foi ficar com ele.
Os dois vão se sentar nos degraus da igreja, o dia estava amanhecendo, Daryl me abraça.
─Acha que Sasha consegue fazer quando chegar a hora? – Pergunto com o peito apertado, ele beija o topo da minha cabeça, respiro fundo buscando equilíbrio, não posso nem mesmo me imaginar nessa situação, preferia morrer junto a ter que por fim a ele.
─Ty está com ela, ele fará pela irmã se for preciso, vamos respirar um pouco lá fora.
─Melhor recolhermos os corpos antes.
Aquilo tem que ser feito, é preciso encarar o que fizemos mesmo que agora pareça monstruoso, talvez seja, mas que importa? Está feito e não se pode voltar atrás.
Limpamos a igreja, queimamos os corpos apenas porque o padre parece precisar disso para de algum modo se sentir melhor, depois seguimos para perto de Bob, agora o dia estava claro.
Bob aguentava firme, dava para ver que seu tempo estava no limite, eu queria poder dizer qualquer coisa, mas nunca fomos amigos, nunca fui muito próxima de nenhum deles, aceno em despedida, deixo o quarto com Daryl logo atrás de mim, o resto do grupo nos segue e apenas Rick e Judy ficam por lá, então ele vem ao nosso encontro. Sasha vai ficar com Bob até o fim, Ty vai esperar.
─Algum plano, ideia? – Rick pergunta sem esconder o esgotamento.
─Richmondo! – Eu digo firme, os olhos de Noah brilham de esperança.
─Virgínia? – Rick questiona e afirmo. – O lugar que Noah nos contou?
─Quero leva-lo até lá, ele me ajudou, salvou minha vida e sinto que devo isso a ele. Além disso tem muros e pessoas.
─Ou tinha... – Daryl completa.
─Só tem um jeito de saber. – Eu completo.
As pessoas ficam em silencio, todos trocam olhares. É o momento de Rick exercer sua liderança, não que pretenda me dobrar a ele, ainda sou quem sou, ainda tomo minhas próprias decisões, mas reconheço sua força com o grupo, acredito na vontade que ele sente de manter sua família.
─Somos muitos, precisaríamos caminhar grande parte da jornada, conseguir carros para acomodar todos não será fácil.
─Podemos Rick, somos fortes.
Dessa vez é Abraham quem comenta, eles parecem mesmo um grupo forte.
─Acredito que sim, estão conosco? – Beth questiona Abraham. – Agora que não tem mais Washington, vão conosco?
─Vamos, ainda podemos achar uma maneira, um lugar para permanecer, Richmond é o mais perto que podemos chegar disso.
─Aceito! – Rick sorri. – Vamos partir enquanto ainda é cedo, essa igreja não pode nos manter seguros por muito mais tempo mesmo.
Arrumamos tudo que conseguimos juntar em mochilas, deixamos a igreja ainda pela manhã, Gabriel nos acompanha, não sei se por esperança ou medo de permanecer sozinho, tem algo nele que não me agrada, mas desde que não entre em meu caminho podemos conviver.
A estrada está tranquila, o sol escaldante e a viagem será muito mais perigosa que pensamos, mas já enfrentamos de tudo, podemos passar por isso.
Paramos para descansar apenas quando o calor e a sede nos enfraquece, evitamos casas, também nunca ficamos mais que duas ou três horas parados.
Uma semana de caminhada, estamos todos de algum modo no limite de tudo, fome, sede, paciência, o silencio nos domina, zumbis nos perseguem agora mais de perto, mas quem se importa? Apenas vamos continuando até que eles se tornem um problema.
Sasha é de longe a mais abatida de todos, só de olhar para ela já sinto sua dor, Daryl segura minha mão, entrelaço meus dedos aos dele.
─Arrependido? – A ideia foi minha, não quero que de errado, não quero me culpar por qualquer perda que o caminho nos proporcione.
─Não, era tudo que tínhamos, é melhor que a indiferença, se não fosse isso estaríamos sentados esperando a morte, talvez ela já tivesse nos alcançado.
Sorrio em gratidão, uma ponte se anuncia, o grupo de zumbis atrás de nós é grande e decidimos parar para elimina-los.
Tudo ia bem até o surto de Sasha, estávamos aproximando os zumbis, depois desviando e os mandando direto pelo barranco, Sasha perde a paciência, ataca um deles e acabamos tendo que lutar mesmo esgotados.
Os mais fracos parados do outro lado da ponte. Não é difícil vence-los, mas sempre existe riscos, algo sempre pode dar errado e agradeço Michonne por dar uma bronca em Sasha que apenas se cala.
─Está bem? – Daryl segura meu braço, me faz olhar para ele, afirmo diante de tamanha preocupação. – Não foi arranhada? Tem algum ferimento? – Ele me investiga o corpo.
─Calma Daryl, estou bem. – Ele me solta, passa as mãos pelos cabelos, caminha de um lado para outro na estrada, é de novo o animal enjaulado, a fera em sinal de alerta. – Para! – Eu o seguro pelos braços, faço com que ele me encare de modo firme. – Estou bem, estamos todos.
─Até quando?
─Até quando formos fortes e focados, então chega, respira e vamos continuar.
Ele me encara um longo momento, o rosto suaviza. Abraço Daryl, ganho um leve beijo nos lábios, estamos afastados por conta da situação precária, sinto falta dele, do carinho de seus braços, aquele pequeno minuto me acalma.
─Vem rainha do apocalipse, vamos logo encontrar uma casa para nossa família.
Sorrio, uma onda de esperança me invade e continuamos nosso caminho em busca de um lugar.
Entramos pela floresta no meio da tarde, não vamos muito fundo, apenas o bastante para encontrar água, quem sabe um abrigo para passar a noite e ter algum descanso.
Uma casa surge nos animando, entro com Rick e Daryl, Sasha quer entrar, mas o grupo a impede, ela não está em condições, o lugar está limpo, do lado de fora o grupo nos esperava na varanda.
Abe e Glenn arrastavam dois corpos que tinham acabado de derrubar, Rick, e Daryl armam alguma segurança na entrada enquanto o resto do grupo arruma espaço e procura comida e agua dentro da casa.
O que temos não é o bastante para nada além de Judy.
─Estive pensando que talvez seja melhor termos certeza do que é Richmond antes de arriscarmos todo o grupo. – Rick me olha concordando, metade dormia, a outra metade vigiava. – Quem sabe pegamos um carro, reunimos um pequeno grupo, eu, Daryl, Noah...
─Também vou. – Rick se pronuncia. – Ty pode nos acompanhar.
─O resto fica aqui, se tudo der certo ficamos lá a espera deles, se não voltamos e partimos daqui para... – Não termino a frase, não temos para onde ir.
─Então será assim, saímos quando o dia clarear um pouco. Descansem.
Rick se levanta, vai para perto dos filhos e me deito abraçando Daryl, ele me envolver, é estranho ainda para mim estar no meio de todos, mesmo todos esses dias nas ruas não me fizeram me sentir menos desejosa de privacidade.
─Vai dar certo. – Eu preciso acreditar nisso, tive sorte, reencontrei minha família, vencemos nossos inimigos, porque não pode dar certo?
─Tenho medo que crie muitas expectativas Abby, primeiro porque não é da sua natureza, sempre te vi esperando pelo pior, segundo porque parece quase um milagre que estejamos indo para um lugar seguro.
─Vocês me ensinaram a acreditar, gosto de ser uma pessoa que pensa numa vida, não quero mais ser a pessoa que apenas caminha e respira.
─Mas não pense nisso como uma certeza.
─Tudo bem. Acha que eles vão ficar bem? Quer dizer, vamos deixar o grupo um pouco mais fraco.
─Mesmo assim eles ainda serão fortes e será uma viagem de um dia.
Fecho os olhos tentando dormir um pouco, o sono é agitado, confuso, cheio de zumbis e perigos, acordo quando o dia começava a raiar, Daryl me observava.
─Muitos pesadelos? – Ele me questiona.
─Não sei se pode se chamar de pesadelo, sonhei com o nosso cotidiano, mortos, perigos, correria.
─Talvez seja apenas sonho mesmo, melhor irmos.
─Dormiu? – Ele afirma.
─Um pouco, mas também tive sonhos difíceis, um choro de criança, zumbis, não sei, talvez a Judy tenha chorado durante a noite.
Ele se levanta me ajudando a fazer o mesmo, nos aprontamos e partimos. Deixamos a família se despedindo na varanda, meu coração se aperta, sempre pode ser a última vez para alguns de nós e gravo aquela imagem na cabeça, não quero esquece-los. Principalmente Sam, meu irmão de apocalipse, meu menino grande.
Não demora para encontrarmos um carro, depois é só seguir em frente, a estrada está limpa por quase todo percurso, só paramos uma vez para afastar um par de carros batidos fechando a estrada, por força do abito eu vasculho o interior dos dois.
─Vamos Abby. – Daryl me chama quando observava uma mala cheia de roupas e livros. Será que algum dia poderia me sentar numa varanda e ler um bom livro?
Quem leva livros numa fuga? Quase posso sorrir de tamanha inocência, mas não faço, há muito não faço isso, desde o dia que me separei de Daryl e todo mundo confuso que vivíamos se tornou ainda mais infernal que não dou um único sorriso.
Paramos o carro com alguma distância de Richmond, seguimos o resto do caminho pela floresta, Noah cheio de confiança, eu queria me sentir do mesmo modo, mas logo mudo de ideia quando percebo nenhuma movimentação ao redor do lugar.
Nada de vigias, sons, é só vento, folhas secas e nosso andar.
Ultrapassamos cordas presas as árvores, ao menos estão ou estavam tentando alguma proteção.
Chegamos aos portões, as esperanças se esvaindo no silencio de nenhum sinal. Paramos diante dos portões, não tem nada, acabou como todo o resto, mas Noah ainda acredita, investiga as frestas.
Me preparo para escalar o muro e ter logo certeza, Daryl me segura o braço.
─Onde vai? – Seu tom é autoritário, tenso.
─Mas o que deu em você homem? Sou eu, sei me cuidar.
Ele me solta contrariado, fico sobre o muro, está tudo abandonado, me volto para o grupo, um sinal negativo é o que consigo, salto para dentro ainda com tempo de ver a agonia no rosto de Daryl, abro o portão, dou de cara com ele.
─Quer parar de fazer isso comigo? – Ele diz de modo duro, o rosto próximo do meu como quando nossas vidas eram uma sucessão de pequenas brigas, de meias palavras. – Eu sei como é não ter você, não quero passar por isso nunca mais.
Aquilo definitivamente não são meias palavras, me espantam, tocam, são maiores que todas as vezes que ele me disse amar.
─Desculpe! – É minha resposta confusa com a declaração inesperada.
─Vamos. – Ele toca meu braço.
As ruas estão vazias, apenas alguns zumbis vagam perdidos, Noah se entrega a dor, acaba de ter seu mundo arrancado de suas mãos, perdeu, acabou. Perdemos todos, mas quando a verdade é atirada em nossos rostos não resta nada se não cair de joelhos e se entregar.
Tyreese fica com ele enquanto saímos em busca de qualquer coisa que possamos encontrar. Somos de novo apenas mendigos, buscando qualquer migalha, aquilo é tão degradante, será que sempre foi esse o plano?
Onde foi que falhamos? Rick segue para um lado enquanto eu e Daryl vamos na direção oposta.
Caminhamos por um quarteirão, dois zumbis nos seguindo de perto, Daryl para decidido a espera-los, mas sou impaciente, se vamos pega-los porque esperar?
Apresso meu passo sacando as espadas, o primeiro cai antes que me aproxime, uma flecha atravessa seu cérebro, reviro os olhos, depois sorrio, é bom ter alguém que se importe, minha espada atravessa metade da cabeça do outro, massa cefálica, sangue negro e cabelos se espalham a minha volta, recolho a flecha de Daryl antes de caminhar de volta para ele.
Encaramos duas casas grandes, nos decidindo em qual delas entraríamos, escuto algo, aguço a audição, a principio penso em algum animal ferido, preso em qualquer lugar pelo som abafado, então o som fica mais evidente.
Choro, não qualquer choro, é o choro de uma criança, um bebê talvez, meus olhos encontram os de Daryl e eles refletem a mesma angustia, depois de compreender de onde ele vem, corremos.
Invadimos a casa sem qualquer preparação, só consigo pensar em uma criança em perigo. Dois zumbis estavam caídos no chão da sala, pelo sangue ainda úmido tinha sido a pouco. Um rastro de sangue nos leva a uma porta fechada que Daryl empurra com a besta em punho.
Uma mulher estava de pé, apontava uma pistola com mãos tremulas para o berço de onde vinha o choro continuo e desesperado, enfraqueço apenas em pensar no que está por vir.
─Não! – Eu grito, o coração aos pulos, Daryl erguia a besta quando ela se vira de modo lento, o rosto pálido está coberto por lagrimas, uma mão mantém a arma agora apontando para o chão, a outra segura a barriga, um ferimento aberto tem partes de órgãos expostos, ela deixa a arma cair, tenta se segurar quando a fraqueza a domina e eu corro para ampara-la, a criança ainda chora no berço.
Olho para Daryl que parecia paralisado, pela primeira vez sinto que ele está perdido diante daquela cena devastadora, me sinto responsável por aquele momento. O choro do bebê, a respiração pesada da mulher, os olhos apavorados de Daryl Dixon, tudo me atordoando, engulo em seco.
─Vai ficar tudo bem. – Minto. Para eles, para mim, é só isso, uma mentira, não vai ficar tudo bem, nunca mais vai ficar. O mundo acabou e esse é só seu modo de nos esfregar isso na cara. Uma arma apontada para um bebê aos prantos.
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