Hell Between Us
17 Capítulo 13 - Herói
Notas iniciais
Pov – Merle
─Que tipo de criminosos eles prendiam nessa porcaria de lugar? – Uso a faca que agora ocupa o lugar de uma mão para rasgar os colchões, é inútil, já acabei com quase um bloco e nem uma porcaria de uma droga que seja, nada, devia ter um abando de maricas presos aqui.
Escuto passos e já sei que um dos idiotas vem me encher o saco com alguma porra de discurso anti droga ou qualquer merda dessas, uma porcaria de família feliz que acha que pode sobreviver a essa merda de mundo sendo bonzinhos, Rick surge na porta da cela, continuo meu trabalho.
─Só procurando uma distração a melhor droga que já tive estava guardada num colchão.
─Você sabe por que faz essas coisas? Tem alguma ideia do porque faz isso? – Rick me pergunta, paro o meu trabalho e me sento, não eu não sei, o que sei é que não se pode baixar a guarda, nunca ou você é devorado e isso não tem nada a ver com o apocalipse.
Ele fica ali me olhando e espero que me diga o que afinal quer, se é só lição de moral já ouvi o bastante do velho com aquela bíblia, conheço a bíblia, conheço todas aquelas palavras, mas elas não se aplicam a gente como eu.
─O Governador quer a Michonne, se entregarmos ela, Woodbury não vai atacar.
Fico de pé, a princípio não acredito em suas palavras, esse não é o cara que conheci, o homem que me prendeu na merda daquele telhado era o policial certinho que achava que ainda estava de serviço, aquele homem não entregaria uma mulher nas mãos do Governador.
Apenas eu, Hershel e Daryl sabemos disso ele me diz, só a diretoria provoco Rick, ele se mantem firme.
─Faça isso, ele não vai matá-la, só vai fazer coisas com ela, arrancar um olho, talvez os dois, sim, ele vai arrancar os dois olhos dela – Fico bem diante dele, os olhos fixos nas reações do xerife, observando seu escarnio, por mim e pelas minhas palavras, gosto disso, se ele vai fazer é bom que saiba o que está fazendo, não vou deixar que finja que não é grande coisa, quero ele no mesmo lugar que eu. – Deixaria isso acontecer por uma chance? – Suspiro encarando Rick – Você é tão frio quanto gelo policial amigo.
Rick continua me encarando, se mantem firme diante de mim, mas sei que aquilo o coroe por dentro, o bom homem lutando contra a besta, essa luta não existe mais dentro de mim, dei a mão ao diabo e segui com ele para o inferno há muito tempo.
─Precisamos de fios, nada de cordas, nada que ela possa roer. Sabe de uma coisa? Eu nunca sei porque faço as coisas que faço. Nunca soube, é um grande mistério para mim. – Nos encaramos longamente, não sei bem o que sinto por aquele homem, ele é tudo que não sou, que não posso ser, eu sou tudo que ele despreza, foge. – Te conheço Rick andei pensando em você e quer saber? Você não tem culhão para fazer o que é preciso.
─Temos que entrega-la ao meio dia.
Rick me dá as costas e fico sozinho ali, pensando em toda a droga que isso representa, a besta se remexe dentro de mim, prestes a ganhar espaço.
Ando pela prisão, encontro Abby e suas espadas, paramos diante um do outro, se ela souber dos planos de Rick põe essa merda a baixo, sinto vontade de contar só para assistir o circo pegar fogo, mas não vou fazer isso.
─Desocupado Merle?
─Sempre! – Respondo rindo. Ela me olha e é estranho como não vejo nela a repulsa que brilha nos olhos dos outros.
─Aposto que tem muitas ideias de como controlar as coisas, sei que está aqui pelo seu irmão, mas já que está, porque não se envolve?
─Como você? – Eu a provoco, ela ri.
─Ponto para você.
─Quem sabe não podemos evitar essa guerra?
─Vai se oferecer em sacrifício? Não acho que o infeliz queira muito você.
─Nisso está certa, ele pisaria na minha cabeça como se fosse um rato, não sou nada para ele, o Governador quer mais, muito mais.
─Pois ele que venha buscar, assim vamos ter alguma diversão.
Nos olhamos um tempo, ela é realmente muito bonita, mas a beleza dessa mulher não está apenas nos traços perfeitos, está na coragem e na fibra, se meu irmão não fosse tão imbecil já tinha roubado a garota para ele, por algum motivo estúpido ele é o único que pode.
─Ele virá buscar, e vai fazer um por um se arrepender de não ter se atirado aos zumbis.
─Você o põe em muita alta conta, acho que é só um lunático, megalomaníaco que vai acabar morto pela própria arrogância.
─Você o menospreza demais, ele é tudo isso, mas sabe conseguir o que quer, não tem qualquer pudor, isso o faz perigoso.
─Todo mundo tem um limite.
Rio de Abby, que fica firme diante de mim.
─O dele era a filha, mas pelo que sei Michonne extrapolou esse limite, agora nada mais o detém.
Ela toca as espadas, sorri daquele jeito cínico e sedutor que não acho que perceba, me faz sorrir também.
─Ele não é imortal, é?
─Não, ele não é, mas se podemos evitar, então não pode condenar ninguém por tentar.
Sigo meu caminho, ela vai ao encontro do grupo, estão todos envolvidos preparando o lugar, é bom que façam isso, porque ele vem, de um jeito ou de outro ele vem.
Observo o grupo unido trabalhando, Michonne com eles, inocente como uma criança, eles não vão fazer, claro que não.
Mas eu vou, se isso pode dar uma chance ao meu irmão então eu faço, ele me acusou de não ter sido bom o bastante, eu posso ser um canalha, mas ele é meu sangue, se antes eu não pude ficar, agora estou aqui, e não aguentei essa merda toda de olhares de reprovação para assisti-lo morrer.
Desço aos porões, me enfio lá dentro juntando o que é preciso para fazer eu mesmo o que os bonzinhos não farão, escuto passos, disfarço e lá vem o caçula com sua besta em punho, não conheço um homem que seja melhor do que ele com uma arma daquelas, mas nunca vou dizer isso, deixe que ache que pode fazer melhor, assim ele nunca para de tentar.
Ele me faz perguntas, está desconfiado e olha em volta, procura sinais de algo errado, digo que estou à procura de anfetaminas, ele se convence, sempre espera apenas isso de mim.
─Falou com o Rick? – Me pergunta um tanto confuso, meu maninho está sempre um tanto confuso, de olhos baixos, andar constante, no lugar errado, sempre se sentindo no lugar errado.
─Eu falei, eu vou, já disse que vou, mas ele não vai ter culhão para fazer isso.
─Se for isso está bem! – Daryl dá de ombros escondendo muito mal que é exatamente isso que espera de Rick.
─Quer que ele não faça?
─Ele decide.
Aquilo me irrita, o fato de Daryl dar tanta importância a Rick e suas escolhas, de admira-lo e segui-lo, eu sou seu irmão, eu, não Rick.
─Cara você ainda tem colhões? Porque se tiver eles são seus, você chamava gente assim de ovelhas, o que aconteceu com você? – Ele não vê que isso o torna fraco, que esse Daryl bom coração vai acabar morto e ninguém vai dar a mínima? Que ninguém se importa com a porra do que acontece com um maldito Dixon?
Daryl me olha, sinto seu desconforto, seu olhar de crítica, nos perdemos para sempre quando ele foi caçar e eu fiquei naquele telhado, talvez antes disso quando peguei a merda da minha mochila e cai na estrada deixando ele para trás nas mãos do canalha, não importa, nos perdemos e pronto.
─O que aconteceu comigo? O que aconteceu com você, Maggie e Glenn?
─Eu já fiz pior, você precisa crescer, eu já fiz pior – Olho para ele e é o mesmo olhar de menino, o garotinho assustado que mora lá dentro salta para fora e me perturba, quero agredi-lo, esse mundo não cabe fragilidades, ele precisa entender – Vocês me olham como se eu fosse o demônio, me condenam pelo que fiz com o casalzinho, mas agora querem fazer igual, as pessoas fazem o que tem que fazer ou elas morrem.
─Não dá para fazer as coisas sem contar com as pessoas, mano! – Aquele olhar suplicante e assustado me provoca.
─É talvez precisem de alguém como eu aqui, um cara mal, não é assim agora? O que acha disso? – Encaro Daryl, ele me olha de lado, meio sem forças, ele sempre fica assim diante de mim, como o pequeno Dixon choramingando para brincar na rua com os outros garotos.
─Eu só quero meu irmão de volta! – Daryl me diz, ele não pode fazer isso, não pode me enfraquecer, eu sou Merle Dixon, fui longe demais para voltar agora.
─Cai fora daqui! – Digo para afasta-lo, isso nós dois fazemos bem, afastamos pessoas, pessoas machucam e ao menos isso o infeliz aprendeu, Daryl me dá as costas e eu assisto enquanto ele me deixa cabisbaixo, estamos em mundos opostos, agora eu posso ver e sei que os idiotas não vão fazer nada, vão ficar aqui brincando de heróis, não eu, vou pegar a negra vadia e levar de uma vez.
Enganar Michonne é fácil como tirar doce de uma criança, ela me segue decidida a salvar a prisão, não sabe que eles pensaram em manda-la para o inferno.
Amarro a mulher, ela não é fraca nem fácil, se não estiver bem presa vai me dar muito trabalho, sair de lá com ela também não é problema e então estamos caminhando, ela acorda rápido da pancada na cabeça, anda ao meu lado do mesmo jeito imponente de sempre, como se ainda estivesse com sua espada, mas agora eu guardo sua arma e sua vida.
Vamos nos provocando enquanto caminhamos em busca de um carro, ela não vai desistir de me convencer e é boa com o jogo de palavras, mas eu também sei brincar disso, eu a deixo um instante para testar sua espada, um misto de curiosidade e provocação, quando me volto depois de cortar a cabeça de um zumbi ela se mantem no mesmo lugar, quer a espada me avisa, imagino que sim, aquilo é o mais perto que tem de um amigo e sei como é, a faca que ocupa agora o lugar da minha mão tem o mesmo valor para mim.
─Você fala do peso das coisas que tem que fazer, de como suportar as coisas. Um homem ruim do mal mesmo, não sente nada, tudo é leve! – Ela me encara, não vai me convencer, sei quem eu sou e o quanto fui longe, não tem volta, vou fazer o que é preciso.
─Já matei dezesseis homens desde que começou. Andando.
Acabo com o assunto, não me orgulho disso, não me orgulho de nada na porcaria de vida que tive, há muito tempo parei de tentar entender e achar culpados, sou como sou e isso é tudo.
Encontro um carro diante de um motel de beira de estrada, amarro Michonne enquanto vou fazer ligação direta, o alarme dispara, zumbis vem de todos os lados, mas é disso que gosto, do limite, de viver no meio fio, na corda bamba, é assim que respiro, faço a ligação enquanto a mulher mesmo amarrada consegue se livrar de uma coisinha bem feia, entramos no carro e pego a estrada, nada de me atrasar para o encontro.
No carro ela continua seu trabalho de me convencer, fala do quanto Daryl é importante agora, que ele tem uma nova família, que não passo do cara que recolhe o lixo, me acusa de não tentar, de ficar de fora, é onde sempre estive, do lado de fora.
As coisas que me diz ficam martelando minha cabeça, me fazem ver quem eu sou afinal, me perturbam mais do que já deixei alguém fazer, remexem a sujeira toda que levo dentro de mim, deixam a besta ansiosa, atenta.
─Podemos voltar, nós dois podemos voltar.
─Eu não posso voltar, não entende isso? – Tudo em mim está no limite, minhas forças, meu desejo de viver, não sei mais o que me tornei, mas sei que não tem mais volta para mim, paro o carro decidido.
─Volte você para eles e se prepare, tenho que fazer uma coisa sozinho! – Eu a liberto, entrego sua espada e pego a estrada, para mim é o fim, mas se vou sair não vai ser feito um covarde, eu vou em grande estilo, e vou levar muitos comigo.
Antes preciso de uma bebida descente e alguma companhia, encontro o que preciso, uísque e zumbis em volta do carro, música, sim música é bom, coloco o som no último volume, meus convidados adoram, se grudam no vidro do carro em busca da minha carne, acho que é só o que restou, vamos todos em busca do governador, com um pouco de sorte vamos juntos para o inferno e quem sabe meu irmão tem uma chance de viver e comer a ninja gostosa? Ele bem que anda precisando.
Deixo o carro ligado quando salto, os zumbis seguem o som, depois enquanto me escondo eles se espalham e os homens do governador começam a ser atacados, vamos todos para o inferno, o diabo vai pedir demissão essa noite.
A música no último volume, os tiros e a pequena horda de zumbis me ajudam a confundir os homens e vou derrubando quantos posso, diminuindo a vantagem.
Envolvido em derruba-los esqueço de me proteger e quando sinto estou sendo mordido, que se dane, já estou morto há muito tempo, pego o infeliz, atiro ele para fora do galpão que me escondo e então Martinez e os homens que um dia me obedeceram cegamente me acertavam, quando estou fraco o bastante o Governador me arrasta de volta para o galpão.
Lutamos, sim eu estou em desvantagem, o homem é movido por uma insanidade difícil de competir, caio no chão, sou chutado, tento acerta-lo com minha faca, depois estou de pé, engalfinhado ao maldito, só quero poder leva-lo comigo, tento afastar o infeliz, enfio dois dedos em sua boca e ele os arranca com os próprios dentes, se afasta quando me vê enroscado em canos e lataria, é apenas isso que sou, um monte de metal morto.
─Eu não vou implorar – Encaro o homem que me levou para o inferno mais rápido que a corja de mortos que agora caminham pela terra, eu fiz o que tinha que fazer, ao menos uma vez na vida escolhi o lado certo, e ali diante dele não sinto medo, e pela primeira vez na vida não me envergonho de quem sou – Eu não vou implorar para você! – Aviso quando ele ergue a arma, não me importo, sabia que esse dia chegaria eu sou Merle Dixon e decido quando morrer, pode ser agora, nada mais tem importância.
─Não.
A arma dispara e meu peito arde, vou escorregando de modo lento enquanto a luz vai deixando para sempre meus olhos, é meu irmão, eu fiz por ele e sei que ele vai entender isso e sentir orgulho de mim, então acabou.
Pov – Daryl
Quando não encontramos Merle eu já sei o que significa, ele fez sozinho, pegou Michonne e foi porque sabia que no fim não faríamos, decido segui-lo, Abby surge num misto de preocupação e raiva, não tenho tempo para ela, Rick quer ir comigo, mas sei que é tarde, talvez a guerra chegue antes que eu.
─Você fica, eu vou, não sabe rastrear e precisa deixar sua família pronta.
─Vou com você! – Abby me comunica, olho para ela, não parece que posso convencê-la do contrário, seguimos juntos pelo caminho que acho que Merle fez – Michonne lutou conosco, pensaram...
─Um bebê, um velho sem uma perna, o que esperava? Tínhamos que considerar tudo!
Ela não diz nada, só caminha ao meu lado acho que sabe como me sinto no momento, ele deve ter conseguido um carro ao longo do caminho, não vamos chegar a tempo de impedir a entrega.
─Como soube o que estava acontecendo? ─ Pergunto no meio do caminho, ela caminha ao meu lado, as espadas nas costas enquanto levo apenas minha besta nas mãos.
─Seu irmão não foi muito discreto, ele queria que eu descobrisse, conversei com ele mais cedo e ele me deu muitas dicas, fiquei pensando a respeito, quando tudo fez sentido fui procurar Michonne, não a encontrei, mas logo vi você e o Rick caçando Merle e entendi que era tarde.
─Sei, pode nos odiar o quanto quiser, não queria ter que fazer, mas teria feito.
─Eu posso entender, já fiz coisas assim... Não, eu não fiz, acho que não faria, mas... o mundo acabou, não importa como me sinto sobre isso, de qualquer modo eu teria impedido se soubesse a tempo.
Depois de algum tempo caminhando calados damos de cara com Michonne paraliso um instante, não faz sentido, ela ali contraria tudo, onde está Merle? Ela se libertou? Matou ele? Fugiu do governador e ele ficou?
─Ele está morto? – Questiono com medo do que vou ouvir.
─Me libertou e disse que tinha algo para fazer sozinho.
Ela me avisa e sei o que vai fazer, Merle só pode ter enlouquecido se acha que pode lutar contra ele sozinho.
─Não deixem que me sigam! – Aviso apressando meu passo, Michonne está de volta e agora Abby pode seguir com ela já que veio para resgata-la, demoro uns minutos para me dar conta que ela continua seguindo comigo, eu a encaro.
─Seu irmão é um idiota, mas não fujo de uma boa briga, além disso, três é melhor que dois.
─Ele vai começar a guerra, não precisa se arriscar por nós.
─Não, eu não preciso.
Ela me diz, mas continua ao meu lado, seguimos juntos apenas porque não quero parar agora para discutir, e no fundo não quero fazer aquele caminho sozinho, não sei o que vou encontrar.
Chegamos ao local, está silencioso não fosse os gemidos de sempre, tem corpos espalhados por todos os lados, zumbis, homens devorados com suas entranhas abertas, restos de gente agora prontos para se erguerem mais uma vez, por que não se pode mais morrer em paz.
Um zumbi se alimentava de um corpo no chão, acerto uma de minhas flechas, ele tomba, pego outra flecha, tem mais um, também se alimenta de um dos homens do governador, me aproximo, sinto Abby paralisar um pouco mais atrás e então eu faço o mesmo quando um buraco se abre dentro de mim, é ele, Merle está ali, ajoelhado, comendo carne humana como se aquilo fosse um banquete, esquecido de tudo que não seja sua fome mórbida e constante, é igual a todos os outros.
Ele me sente, ergue a cabeça e os olhos agora amarelos me encaram, aquela dor me consome enquanto escuto as espadas de Abby cortarem cabeças longe de mim, ela me deixa viver meu drama, me dá tempo de encarar Merle pela última vez.
Meu irmão se ergue, não sei se ainda posso chama-lo assim, agora é só um corpo, a dor me consome por inteiro, me faz chorar feito o menino que ele sempre me acusou de ser e eu fico ali, esperando que se aproxime, quem sabe me vê, o que ele fez? Porque fez?
Empurro seu corpo, ele se desequilibra, mas seus instintos falam mais alto e ele volta, eu o empurro mais uma vez.
─Sai daqui! – Grito com ele, com tudo que aquele corpo representa agora.
Mais uma vez ele retorna e pego minha faca, acerto Merle, caímos os dois, eu sobre ele, todo o ódio e medo de uma vida vem à tona, toda a dor da rejeição, do abandono, tudo que os Dixons representam me dominam quando eu o golpeio, odeio Merle, odeio o apocalipse, o Governador e a dor de ser quem eu sou, de não ter tido tempo de traze-lo de volta.
Liberto tudo em golpes seguidos que desfiguram aquele rosto que me acostumei a amar e odiar, ao mesmo tempo, por toda a vida.
Depois tudo fica vazio e me deixo cair a seu lado, me entrego pela primeira vez na vida e choro por nós dois, não sei quanto tempo se passa até a sombra de Abby surgir diante de mim, abro meus olhos e ela me estendia uma mão.
Me controlo, puxo o ar buscando calma e aceito a mão silenciosa que ela me estendia, fico de pé, o último Dixon de pé, suas espadas estão pingando sangue, ela derrubou muitos para que eu pudesse chorar minha perda, nos olhamos um longo minuto, ela me compreende e apenas isso, não sente pena, não está abalada, apenas me compreende, Abby sabe o que é perder e isso nos torna iguais.
Me abaixo, recolho minha besta, uma flecha caída ao lado e nos colocamos mais uma vez em movimento, não se pode parar, os mortos agora caminham e quando você para, eles te alcançam.
O silencio dura metade do caminho, ela não me olha nem uma vez, respeita minha dor, derruba um zumbi no meio da estrada, depois volta para meu lado.
─Quem diria que Merle Dixon acabaria como herói! – Diz olhando para o chão – Sabe disso não é? Entende o que ele fez?
─Sim! – Respondo.
─Nesse caso acho que já pode erguer sua cabeça.
Olho para ela sem parar de caminhar, um olhar profundo e cheio de significados, mas entre eu e essa mulher que agora caminha ao meu lado tem um inferno e não sei se podemos transpor.
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