Hell Between Us
20 Capitulo 20 - Afeto
Notas iniciais
Pov – Abby
Eu não acredito no que acaba de acontecer, e menos ainda no quanto foi bom, nem sabia que queria até já estar completamente rendida, ele me deixou fora do ar, saí do corpo, me abandonei em seus braços, e foi como se o inferno que nos separa tivesse se fechado.
Como se todos os demônios que me perseguem tivessem fugido assustados, enxotados pelo simples toque de seus dedos, um momento perfeito, talvez apenas isso e meu coração se aperta um pouco quando penso nessa possibilidade, queria que tivesse durado para sempre, queria ser outra pessoa e apenas me render a ele, deixar que me guiasse, mas eu não sei fazer isso, foi só sair de seus braços e então lá estavam todos os demônios de volta.
Gosto de estar ali, deitada ao seu lado, me refazendo daquele momento, olhando para o teto descansado e úmido enquanto sinto seus dedos tocando os meus, apenas isso, nada de me deitar em seu peito, ter ser braços me envolvendo, só uma quase mãos dadas, acho que nenhum dos dois consegue lidar bem com o que aconteceu.
Eu adoraria ter forças para me abraçar a ele, mas ainda tenho medo, as pessoas mais importantes da minha vida me traíram e abandonaram, não sei se todos os seres humanos são assim, ou se são assim apenas comigo, mais é assim que é e sinto medo.
Do modo como ele me arrebatou, se deixar me dominar, se me deixar entregue a ele e Daryl me abandonar, trair, eu não suportaria, me protejo do que sinto, ou tento, muito mal por sinal, já que me sinto fraca quando estou com ele, como se apenas não pudesse resistir.
É estranho como fico completamente consciente de sua presença ao meu lado só pelo leve toque de alguns de seus dedos em alguns dos meus dedos, a madrugada vai ganhando força, quando o dia chegar algo vai acontecer, vamos parar de fingir e queria apenas agarrar aqueles momentos e me prender a eles para sempre.
Será que Daryl está tão confuso quanto eu? Será que está assustado como eu estou?
Ele sempre me parece tão dono de si, selvagem, intenso e livre, mas ao mesmo tempo tem tanto escondido em seu olhar, tantas coisas que ele não superou ainda, me pergunto se isso que vivemos não foi para ele apenas um meio de descarregar a tensão.
Não entendo nada disso, nada de sentimentos e relações românticas, nunca vivi um momento como esse e nunca achei que viveria, sempre que pensava a respeito só conseguia sentir repulsa, as imagens na minha mente me levavam para o reformatório e até Daryl me beijar naquela pequena creche quando caçávamos leite para Judy eu nem sabia que meu corpo podia sentir coisas como aquelas.
─Logo vai amanhecer e então, como vai ser? – Ele me pergunta me tirando dos meus devaneios, ainda encara o teto assim como eu.
─Você volta para sua família e eu sigo em frente?
─Não! – Ele me responde.
─Você volta para sua família, me dá uns dois dias para ficar pronta e vou encontrar vocês lá?
─Não! – Ele continua.
─Vamos juntos e enfrento aquelas pessoas? – As formas no teto ganham vida, um cavalo marinho, um pássaro, me lembro da infância, das tardes de primavera assistindo as nuvens dançarem no céu com suas formas, das lambidas de cachorrinho que não me lembro o nome porque apaguei as boas lembranças.
─Boa escolha.
─Acho que não tive opções.
─Não. Definitivamente não tem outra opção.
Meu coração se aperta um pouco, acho que ele não sabe o que me pede, não entende como me sinto, o quanto me fere arriscar, se ao menos eu tivesse certeza sobre nós, sobre como vai ser.
─Eu... – Queria dizer, mas sempre trava, me abri tanto, ele sabe de mim mais do que qualquer pessoa, mesmo assim ainda me escondo, me protejo.
─Se não disser não posso ajudar.
─E quer?
─Ajudar você? – Ele me pergunta, meu coração de novo batendo rápido.
─Segui você até aqui, o que acha?
─Que estava preocupado com o Sam? – Daryl ri, o dedo que descansava na boca se afasta e ele passa a mão pelo cabelo.
─Usei a mesma desculpa quando te seguia.
─Somos bons em arrumar desculpas.
Ele não diz nada, continua ali, deitado ao meu lado no chão sujo de uma cabana apodrecida no meio da floresta.
─Não vou deixar ninguém entrar.
Eu aviso, é bom que ele saiba que sou imune aquelas pessoas.
─Já deixou, lutou por eles.
─Não. Eu lutei pelo lugar, não pelas pessoas.
─Então porque pegou suas espadas e foi se juntar a nós em busca de resgatar Glenn e Maggie? Retire o que disse, não somos bons em arrumar desculpas.
─Me dê um tempo e penso em algo.
Talvez ele esteja certo e não seja imune e isso só torna tudo ainda mais assustador. Porque ele tem que estar aqui? Porque não me deixou seguir em frente? Será que não consegue enxergar o quanto isso tudo me apavora?
Posso matar zumbis, enfrentar inimigos de todo tipo, posso fugir, me esconder e ficar sozinha, mas não sei o que fazer quando sinto algo, não sei buscar afeto, corresponder a ele quando encontro, não que já tenha encontrado qualquer coisa além de Sam, me movo para olhar para Daryl, não sei o que nos mantem assim, juntos, se isso é para ele afeto.
─Eu tento ser justa, fui resgatar Maggie e Glenn por justiça.
─Melhor, essa quase me convenceu, mas não muda nada, vai voltar comigo e isso é como vai ser.
─Não pode achar que manda em mim, eu não...
─Ou pode carregar o peso de me afastar para sempre da minha família e pegamos a estrada para onde quiser ir.
E ele acha que está me dando escolha? Eu nunca poderia fazer isso, nem acredito que Daryl faria mesmo algo assim.
─Não acredita? Pague para ver.
─Eu vou voltar com você! – Digo por fim, eu sabia que iria no minuto que ele surgiu na minha frente quando me sentei na varanda, não adianta fugir, só preciso agora aceitar que ele veio e que fez isso por mim.
Ele se aproxima mais de mim, sinto seus olhos me aprisionarem de novo, gosto da cor, de parecer um lindo dia de sol, sua mão toca de leve meu rosto, de novo seus dedos tocam meus cabelos, ele sente a textura, os afasta do meu rosto.
─O que fiz com você na torre...
─Já se desculpou, esquece isso – Desvio meus olhos, não gosto de me lembrar daquilo, de ter sido justo ele a trazer minhas lágrimas de volta, meu coração se aperta um pouco, sinto aquela velha angustia que conheço tão bem e quase nunca se separa de mim.
─Escute! – ele me faz olhar para ele – Sinto muito, depois de tudo que me disse aqui... Eu não podia ter feito aquilo, não era o que eu queria fazer naquele momento.
─Não? – É difícil de acreditar, ele foi mesmo bem convincente em me repelir, me deixar sozinha e magoada.
─Não, o que eu queria mesmo era... – Fico à espera de sua resposta desesperada para acreditar nele – Queria isso.
Ele toma meus lábios mais uma vez, nunca pede licença, nunca me avisa, estou sempre desprevenida e só consigo corresponder, nenhuma maldita vez eu o afastei e sei que simplesmente não posso fazer isso.
Aquilo era mesmo confuso demais, eu achava que todas aquelas sensações anteriores vinham do fato de ser a primeira vez que ele me tocava ou quem sabe porque eu estava sensível, frágil, mas então porque estava tudo ali mais uma vez, me dominando, arrebatando?
Ele sussurra meu nome, diz isso com os lábios em meu ouvido e minhas pernas ficam bambas, que bom que estamos no chão, quando a mão dele corre por meu corpo, deixa suas marcas, me fazem gemer e arquear, desejar por mais e mesmo que quisesse e não quero, eu não poderia controlar nada.
─Daryl! – Eu queria ser dele e não queria ali, na cabana apenas, queria ser dele.
De novo Daryl está dentro de mim, de novo eu sinto meu corpo corresponder, minhas mãos não respondem a qualquer comando, nada em mim obedece.
Dessa vez ele não me solta, fica comigo em seus braços, me olha de modo intenso e quer dizer tantas coisas, mas somos sempre reticentes, vivemos de meias palavras e pequenas verdades porque somos os dois quebrados, eu sei, ele sabe e isso nos junta e nos afasta, é só o inferno entre nós.
─Precisamos voltar! – Ele me diz depois de um beijo leve, me surpreende, parece carinhoso, intimo, é bom e estranho, assustador até.
─Não precisamos, não precisamos fazer nada, o mundo acabou.
É minha última e inútil tentativa que não surte qualquer efeito e só arranca um sorriso de lado do homem sobre mim.
─Se lembre que vim atrás de você por causa do Sam, o garoto te espera.
─Ele tem a Beth!
─Começo a achar que sente ciúme! – Daryl me diz e seus olhos parecem mesmo me investigar, me espanta um pouco, ele está brincando ou aquilo é sério?
─Sam merece mesmo uma garota como ela, são tão iguais que parecem ter sido feitos para esse encontro, quero que ele seja feliz, mesmo que não acredite em felicidade.
─Então precisa voltar, não tem escolha e não vou mais discutir isso, chega, vamos para casa, minha família deve estar preocupada.
Daryl diz decidido e se senta, começa a se vestir e meio no susto faço o mesmo, afasto da mente o quanto aquilo é constrangedor, nem tinha me dado conta até começarmos a vestir roupas, então quando estamos vestidos ele se ergue e só me resta fazer o mesmo, recolho minhas coisas enquanto ele faz o mesmo, minhas espadas voltam para seu lugar de origem, minhas costas.
─Pronta? – Me pergunta de novo mais suave, o jeito Daryl Dixon de ser suave, só um olhar a uns metros de mim, afirmo, não vou me comportar como uma garotinha assustada, ele olha pela janela, ergue a besta e abre a porta.
Saímos e não tem mais a mesma atmosfera, agora estamos de novo no meio do inferno, um zumbi que passava despercebido nos nota e se vira faminto, puxo apenas uma das espadas, mas então ele cai com uma flecha na testa, escondo um sorriso, de algum modo estamos sempre competindo.
Começamos a caminhar, primeiro nos mais profundo silencio, depois escuto os velhos gruídos, a verdade é que eu sabia que não resistiria muito tempo sozinha, não sabia mais viver desse modo.
Apressamos o passo e mudamos de direção, nenhum dos dois disposto a mais uma luta, os sons somem um pouco depois e podemos apenas caminhar.
Eu devia agradecer a ele por ter vindo me buscar, pela preocupação, mas depois de tudo fica parecendo tão ridículo fazer aquilo, tento não pensar nele e no que vivemos.
Tento não pensar no meu retorno, nas pessoas que estão lá agora, no quanto magoei Sam, meu coração vai se apertando um pouco, a confiança me deixando a cada passo.
Todas as verdades que disse a ele, o quanto sabe de mim, de quem eu sou, a intimidade que dividimos, meu corpo, seu corpo, o modo como me comportei enquanto fazíamos amor.
Era isso que fazíamos? Amor? Não sei nem mesmo responder a isso e preciso ficar forte de novo, afastar toda aquela confusão na minha cabeça e buscar a Abby que não se importa com nada, a mulher que segue em frente e sobrevive.
─Sobre o que eu te contei... Meu passado...
─É seu e não vou sair falando por ai, já devia saber.
Bom o Daryl suave sumiu, esse eu sei lidar e isso é bom, olho para ele meio de lado, depois fico muda e acho que ele se arrepende um pouco, instintivamente dá um passo em minha direção e caminhamos mais ao lado um do outro.
Um zumbi sai de trás de uma árvore, não dou chance a ele de usar a besta e passo minha espada, metade do rosto do zumbi se separa dele quando cai, Daryl me olha, não diz nada e seguimos em frente.
─O que aconteceu com mestre Ioda? – Ele me questiona, suspiro pulo um galho de árvore caído.
─Ele tinha família, quando a infecção começou pegou a mulher, os três filhos e foi embora.
─Não quis ir com ele? – Lá vem ela de novo, aquela maldita angustia que me consome, eu queria evitar a resposta, ao menos esconder um pouco a magoa, mas ele parece ser capaz de me virar do avesso e não consigo esconder muito dele.
─Não fui convidada. É como eu disse, ele apenas me deu um emprego, um lugar para morar e aulas de artes marciais, não era meu amigo.
─Te deu as costas e partiu? O conhecia há anos não? – Ele pergunta e paro de andar, olho para Daryl, ele precisa me deixar me refazer, não pode querer tudo assim, de uma vez.
─Foi isso que ele fez, não me devia nada, eu não era da família dele, nem amiga ou qualquer coisa, apenas uma funcionária que dormia nos fundos do trabalho, ele disse “O mundo acabou e vou embora com minha família, boa sorte!”
─Abby eu não devia... Só achei que podia ter sido diferente.
─Comigo nunca é diferente – Volto a caminhar, ele segue ao meu lado.
─Agora vai ser, aquelas pessoas, meus amigos, Rick, Carol... todos eles, a gente não faz isso.
─Todo mundo faz, fizeram com você, eu vi, aconteceu bem diante dos meus olhos.
─Estávamos todos nervosos, passou, tanto que voltei, Merle veio comigo e ninguém fechou a porta para nós, não guarde isso, foi um desentendimento...
─Você é quem sabe! – Desisto do assunto, eles são uma família como gostam de dizer que se entendam como acham certo.
Chegamos a uma clareira, barracas e corpos estavam pelo chão, o pequeno perímetro que antes tinha sido fechado com arame farpado agora era só um monte de entulho, paramos com nossas armas nas mãos, Daryl pula o arame agora no chão.
─Faz dois ou três dias – Me conta com seu olhar de caçador – Zumbis, um bom número.
Remexo nas coisas com os pés, encontro uma pistola nove milímetros, uma foice, dois martelos, algumas roupas e objetos, são seis corpos pelo chão, ou o que restou deles.
Bocas famintas abriam e fechavam, vou acertando minha espada em suas testas, se posso fazer não tem porque deixar que fiquem daquele modo.
─Vamos! – Ele toca meu braço, aquilo é constrangedor, será que toda a vez que me tocar vou sentir aquele choque?
Pegamos tudo que era útil e seguimos em frente, agora precisamos voltar para nosso curso, nos afastamos do caminho da prisão e Daryl me guia, eu o sigo.
─Mais duas horas só por conta daquele desvio.
─Não me importo.
─Eu sei! – Ele diz e mais um zumbi surge, esse tão atrapalhado que simplesmente cai diante de nós, tem a cabeça pendurada, alguém o acertou com uma faca, mas não tinha muito talento, a cabeça termina de se soltar e rola em minha direção, me desvio e no movimento estou em seus braços, me desequilibro e ele me apoia, ficamos ali, abro a boca para agradecer, mas então eu o beijo, ou ele me beija, eu não sei e não importa porque gritos desesperados chegam até nós e nos separamos correndo em direção aos gritos a princípio inteligíveis. Seja quem for está encrencado.
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