Hell Between Us
8 Capítulo 8 - Provando teorias
Notas iniciais
Pov – Abby
Não consigo parar de pensar, tanta coisa acontecendo e aquele beijo não sai da minha mente desde que aconteceu, é estranho que me rendi no primeiro segundo, quando ele me puxou para ele eu simplesmente me deixei dominar, mais do que isso, quase pedi por aquilo.
A droga é que eu não esperava gostar, mas gostei, das mãos dele, do cheiro, do gosto, do corpo dele de encontro ao meu, de como me encaixei a ele.
Pela primeira vez na vida senti falta de carinho masculino, de proteção, afeto, eu o acusei, joguei nele toda culpa de não ser gentil, simplesmente porque eu queria que fosse, mas porque ele seria gentil comigo? Não era um beijo de amor, desejo ou qualquer coisa, ele só queria me provocar, magoar, conseguiu, de um jeito que nem imagina.
Está sempre me acusando de não ser delicada, já fui assim e o que ganhei com isso? Sangue, dor e medo, tive que abandonar as delicadezas femininas e sobreviver, mas não quer dizer que elas ainda não estejam aqui dentro, escondidas, subjugadas, de qualquer modo não faz diferença, não muda nada a confusão se instalou dentro de mim.
Mas não bastava me deixar completamente confusa e assustada, não foi suficiente não entender que eu queria mais do que aquilo, ele tinha que chegar na maldita prisão e simplesmente ser perfeito com o bebê.
Foi como me dizer, “Olhe aqui X, posso ser gentil com quem me importo” não consegui me afastar, fiquei como todos, rendida a ele e seu jeito perfeito com a criança, fico tão confusa que acabo falando sobre mim, sobre minha mãe, o maldito passado sempre me lembrando quem eu sou.
Deixo minha cela, não posso dormir, não posso parar de pensar e preciso respirar, a prisão está aberta, tudo tão confuso que ninguém fecha o bloco e acho muito bom, as chaves estão com Rick e não suportaria ficar trancada toda uma noite.
Me lembro da torre, é um bom lugar para ficar isolada, preciso disso, de um tempo sozinha para olhar para mim.
Subo a escada e respiro o ar fresco da noite, o cheiro de morte parece não chegar até lá, não se pode ver quase nada, só a lua para iluminar a noite, que bom que estamos aqui, já passei tanto tempo na rua, as noites eram tão assustadoras e solitárias.
Estava sempre ficando sozinha, não adiantava me unir a um grupo, logo uma desgraça nos encontrava e acabava sozinha, até encontrar o Sam, então ele ganhou um espaço e passamos a dividir o medo da noite, agora estamos aqui e essas pessoas ficam o tempo todo pedindo passagem, e como se não fosse o bastante aquele bebê chegou e queria muito ajuda-lo a sobreviver, mas não posso deixar espaço, isso seria uma grande burrice.
O gosto de Daryl me invade mais uma vez, a voz grave um tanto rouca, as mãos gesticulando em seus ataques de fúria, ele é bonito, mas isso não seria nada não fosse o fato de que tem algo nele que me impele em sua direção, me convida.
Se não fosse ter prometido a Sam uma chance eu pegaria minhas coisas e correria dali agora mesmo, sem olhar para trás.
A noite está esfriando, o inverno rigoroso já partiu, mas um vento frio ainda sopra em contraste com o calor úmido dos dias de sol.
Escuto movimentos de alguém subindo para me encontrar, sorrio, o garoto é mesmo um carrapato, me lembra uma criança pequena do tipo que se dá a mão para atravessar a rua, estamos atravessando essa avenida movimentada há meses, nunca chegamos a calçada segura do outro lado.
─Sem sono garoto? – Pergunto sem me virar quando sinto alguém se aproximando de mim – Aqui é bonito e tranquilo, nem parece o inferno.
Uma mão toca meu ombro e claro que não é Sam, conheço aquele toque, me viro e estamos colados um no outro, os olhos azuis me encaram fixos em mim, cheios de segredos, mistérios que me fascinam e me aprisionam, Daryl Dixon decidiu que nunca mais vai me dar paz.
─Disse que não sou gentil – Sua voz é suave, sinto uma de suas mãos tocarem minha cintura, me aproximarem dele, devia resistir, mas aceito ser conduzida, sinto seu corpo de encontro ao meu, sua respiração, meu peito subindo e descendo em movimentos ansiosos, a outra mão caminha suave por meu braço, faz a curva em meu ombro, afasta meu cabelo e repousa em minha nuca me causando arrepios adolescentes. ─ Eu posso ser gentil – Ele sussurra sua boca tão junto a minha que seus lábios tocam os meus quando fala, me torturam, então ele me beija, é suave, profundo, sua língua pede passagem e permito, aprecio, vamos nos envolvendo, nos misturando, nossas línguas se entrelaçando, o beijo mais envolvente que já troquei com alguém, não quero que acabe, não quero nunca mais ter que respirar, mergulho minhas mãos em seus cabelos quando devia afasta-lo, mas simplesmente não quero fazer isso, meu coração bate alucinado, ele me deixa um segundo para respirar e sinto sua falta, depois me beija mais uma vez, longamente, até que fique sem forças, até que não possa mais controlar meus movimentos, então se afasta, me olha – Posso ser gentil, mas apenas quando quero.
Me solta sem aviso e preciso me segurar para não cair, me dá as costas, me deixa ali, sozinha, sem resposta, força, me sento no chão, perplexa com o que me fez sentir, magoada com o modo que brincou comigo, como se eu não tivesse sentimentos, como se não fosse ninguém.
Sinto meu rosto molhado, toco minha pele, lágrimas, quando foi a última vez que chorei?
Aos quinze logo depois do estrondo quando corri para o escritório do meu pai e o encontrei com uma arma na mão e uma bala na cabeça? Uns meses depois quando fui enfiada em um carro de polícia e levada para um reformatório? Não, não foi essa a última vez, talvez depois da primeira surra, ou a segunda, talvez quando estava na enfermaria, sem conseguir me mover depois de mais espancamento? Não eu sei exatamente quando foi a última vez que chorei, foi com quase dezoito anos, na última vez que fui espancada, humilhada e abusada, foi quando finalmente eu me ergui e espanquei aquela maldita vadia na frente do seu grupinho de capangas até quase desfigura-la, foi quando fui atirada numa solitária por uma semana sem poder ver a luz do dia, recebendo comida por um buraco maldito.
A última vez que chorei foi quando a porta finalmente abriu e vi o sol, senti aquela luz em meu rosto, tive que fechar os olhos inchados porque a claridade me incomodou e então eu decidi que nunca mais perderia tempo com lagrimas e pessoas, as lagrimas sumiram e me tranquei para sempre, ninguém nunca mais entrou.
Eu estava indo bem, quando a merda desse mundo estúpido começou a acabar eu pensei, “Que se dane, não tenho nada a perder”.
Depois de tanto tempo abri uma fresta e deixei Sam se acomodar num cantinho, sem usar muito espaço, não foi de propósito, mas quando o vi caído, morrendo solitário e com medo... era eu ali, um minuto antes que a vida me engolisse, se alguém tivesse tentando, se tivessem me estendido a mão eu teria aceitado, não seria quem eu sou hoje, resgatei o garoto e fiz por mim, mais do que por ele, depois ele conseguiu seu espaço, não é grande coisa, não tenho muito a oferecer de qualquer modo, carrego minha dor e não me livrei dela, nunca quis fazer isso por que é ela quem sempre me manteve de pé.
Então chegamos a essa droga de lugar, e ele está aqui, e não vai derrubar os muros que construí, não posso deixar que faça isso por um capricho malvado, como pude me render tão rápido?
Daryl Dixon me feriu, fez isso de um jeito que nunca deixei ninguém fazer, aquela é uma nova dor, não se parece com as que carrego, não sei lidar com ela e por isso as lagrimas que não querem parar de correr, mas vou seca-las, Abby Coleman não é mais uma garotinha, não choraminga pelos cantos, não mais.
O dia amanhece, as lagrimas vão embora junto com a noite e me obrigo a descer e enfrentar o apocalipse mais uma vez, caminho de volta para o bloco de celas.
Entro caminhando firme, ou tentando ao menos, não foco minha visão em ninguém em especial, embora estejam todos ali, pela visão periférica eu vejo Daryl e o leve espanto que minha presença causa nele, acho que esperava nunca mais me ver.
─X! Abby! – Sam caminha para mim, a voz urgente. – Onde estava? Porque sumiu e não disse nada?
─Estava na torre, fui só olhar a noite, acabei pegando no sono.
─Não pode fazer isso comigo! – Sam está transtornado – Não sabia onde estava, pensei que tinha ido embora, me deixado, não pode brincar assim, não vê que é tudo que eu tenho? – Aquilo me espanta, as coisas não vão nunca parar de me confundir e assustar?
─Então você não tem nada Sam! – Passo por ele em direção a minha cela, ninguém precisa me dizer que acabo de magoar o garoto, sei que fiz isso e já começo a me sentir culpada, me sento no beliche e lá vem Sam se sentar ao meu lado.
─Quem te fez chorar? – Me pergunta e olho confusa para ele.
─O que?
─Seus olhos estão inchados, seu rosto... qualquer um pode ver que chorou muito.
─Não chorei porra nenhuma Sam, eu dormi, foi isso, me deixa em paz!
─Você é minha família, me salvou e não pode se livrar de mim mesmo que queira, gosto da Beth, das pessoas todas aqui, mas você é minha família, eu não ligo quando tem seus pequenos ataques, eles sempre são para me proteger, porque pode até não gostar, mas sou tudo que tem e precisa de mim.
─Sei disso garoto! – Acho que não adianta mentir para ele.
─Mas agora, bom isso que fez não foi para me proteger, foi para se proteger e claro que não de mim, então me diz quem foi e a gente dá uma surra nele, quer dizer, mais você mesmo, sou meio devagar ainda, e vai que foi o Oscar, o cara é grandão.
─Vamos só esquecer essa noite? – Peço a ele sabendo que eu não poderia esquecer.
─Então diz que sou sua família e que me adora!
─Está brincando com a sorte! – Advirto, ele sorri, dá de ombros.
─Ela fica linda com um bebê nos braços, já reparou?
─Homens! – Resmungo – Fica linda com um bebê, claro fica feminina e parece dependente e delicada, é só isso que importa a vocês.
─Daryl Dixon! – Sam me olha espantado – Foi ele que te fez chorar, agora entendi, definitivamente vai ter que pegar ele sozinha, não sou páreo para ele!
─Acabou o recreio Sam, levanta e vamos limpar nossa prisão, tem muito a ser feito! ─ Tiro a camiseta suada e pego outra na mochila.
─Detesto quando me trata como uma menina e se troca na minha frente! – Tiro o short, pego outro limpo, ignoro seu comentário – Sou homem sabia, e se sentir desejo por você?
─Cala a boca Sam!
─Tá, eu não sinto, seria meio pecado até, tipo a gente é como irmão, mas eu podia sentir, tem que se cuidar, é bem bonita, uma gata mesmo, de fazer os caras virarem o pescoço, tem um monte de homem aqui agora! – Arrumo meu coldre e devolvo as espadas ao seu lugar de origem, minhas costas – Não vai sair por ai se trocando na frente deles vai?
─Vai ficar sentado ai falando bobagens até que horas? Tem muito trabalho a ser feito, vem. – Ele se levanta, dou uns passos pelo corredor depois me volta para olha-lo. – Estou com cara de choro ainda?
─Sabia! – ele sorri – Não. Está linda. – Começamos a descer as escadas – Uma chorona linda!
─Esse lugar está te fazendo mal garoto, vou ter que te colocar na linha.
Chegamos de volta ao refeitório, o grupo começava a se armar, me junto a eles, olho em volta, pelo visto Rick não tinha dado as caras ainda, isso não era da minha conta, cada um sabe como lidar com a própria dor, talvez esse seja o jeito dele.
─Vamos descer e recolher os corpos, limpar a sala do gerador assim o Axel pode tentar arruma-lo, pode ser muito bom.
Daryl diz sem me olhar, que se dane, não quero mesmo que me dirija um único olhar.
─Não temos muita munição, então economizem ao máximo.
Descemos, Sam vem comigo, vamos caminhando pelos corredores, derrubando um zumbi ou outro, juntando corpos que depois seriam removidos, trancando corredores e então umas horas depois a sala do gerador surge e Axel fica lá para mexer nele, subimos todos, precisamos comer qualquer coisa e voltar ao trabalho.
Rick surge quando comíamos, os olhos esbugalhados, o rosto perdido, desconcentrado e simplesmente ignora a filha, sinto raiva, é dele, devia superar suas perdas e cuidar dela, mas não é da minha conta e continuo comendo quando ele pergunta sobre estarmos armados, toca o ombro do filho, ignora Glenn troca algumas palavras com Daryl e volta para as tumbas.
─Que merda! – Maggie diz ao meu lado – Isso não está bem!
─Não, isso não está nada bem, tem muito a ser feito aqui, se esconder apavorado não resolve.
─Ele está fugindo, mas acho que não é medo dos zumbis, é medo do que vem agora.
─Isso sempre esteve a caminho Maggie, qualquer um podia ver, só se pode seguir em frente!
─Eu sei, vou com o Glenn em busca de leite e quem sabe achamos armas e munição?
─Espero que tenham sorte, posso ajudar se precisar, não me importo de sair.
─Abby você foi uma das melhores coisas que nos aconteceram, tem sido muito importante, e sabe se vou sair com o Glenn queria muito que ficasse, confio na sua força, pode proteger a todos junto com o Daryl, no momento somos apenas nós quatro para realmente proteger todo grupo que agora inclui um recém-nascido.
─Pode ir então, fico e ajudo.
─Obrigada! – Ela sorri, sorrio de volta sem muita expressão, me ergo quando Daryl deixa o prato na mesa, ele me olha, mas dessa vez sou rápida em me livrar do seu olhar, me sinto fraca sobre ele, ainda não posso enfrenta-lo.
─Carl, a Beth cuida da Bravinha, você me ajuda lá em baixo, preciso de todos os fortes agora! – Odeio quando ele faz essas coisas e me mostra que pode ser sensível com todos.
Carl pega logo a pistola, sorri para Daryl, Sam vai ficar com Hershel e Beth, cuidar dos portões da frente enquanto estamos lá em baixo.
Oscar segue conosco, parece ser descente, isso me basta no momento, vamos caminhando, Daryl na frente com Carl, eu e Oscar um pouco mais atrás.
Daryl começa a contar sobre sua mãe, como morreu pulverizada num incêndio em sua própria cama, a história diz muito sobre quem ele é, mãe alcoólatra, pobreza, alguém chamado Merle se mostrando dominador e impedindo o garoto de brincar com os amigos na rua.
Uma infância difícil, uma morte dura que ele finge não ter importância, mas que marcou sua vida, disse que pareceu que não era com ele, sei como é isso, já me vi assim, sem acreditar no que estava acontecendo.
─Atirei nela Daryl, aquilo foi real, ela estava apagada, não tinha se transformado ainda e eu dei fim aquilo!
Sinto pena do garotinho, não faz muito estava sorrindo e brincando com minhas Sai, feliz, ou o mais perto disso que o apocalipse permite, agora atirou na própria mãe para não vê-la voltar como um zumbi desejando sua carne.
─Sinto pela sua mãe! – Ele diz a Daryl.
─Sinto pela sua! – Daryl responde, me sinto mais uma vez fora do lugar, não faço parte daquela turma. Vamos seguindo em frente, tem zumbis presos a uma cela, ele quer deixar para a volta e por mim tudo bem, continuamos, agora tudo parece limpo, é só começar o trabalho de recolher corpos.
─É disso que estou falando! – Oscar pega um par de chinelos em uma cela.
─Para que quer isso?
─Para o fim do dia, relaxar depois do trabalho! – ele sorri, ouvimos o gemido de sempre, nos viramos todos ao mesmo tempo, Daryl acerta sua flecha, Oscar e Carl disparam também, acho aquilo enfadonho e cansativo.
─Não estamos com pouca munição! – Reclamo quando Daryl se abaixa sem responder e recolhe a faca de Carol cravada no rosto do infeliz, por isso prefiro espadas, não tem erro.
─Acho que está limpo, vamos começar a levar os corpos para fora, Carl agora você sobe e o Sam vem ajudar aqui.
─Está bem! – Ele sorri.
─Pode leva-lo? – Daryl me pede, não tem como não encara-lo, sinto como se ele quisesse dizer algo, mas não vai, nem quero ouvir.
─Quem diria não a tamanha gentileza? Definitivamente Daryl Dixon é um homem gentil, provou sua teoria! – Dou as costas a ele, meu coração batendo forte – Vamos Carl!
Carl se apressa para me alcançar, me olha por sob o chapéu, até o pequeno pode notar a tensão, ignoro caminhando com ele ao meu lado e a espada em punho.
Quando é que aquele homem vai parar de me afetar tanto?
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