Hell Between Us
61 Capítulo 61 - Alerta
Notas iniciais
Pov – Daryl
Entro sem ser notado, ela está linda, mais do que sempre, short jeans curto, curto demais, penso franzindo um pouco a testa, camiseta branca, botas longas, um coque prendendo os cabelos, as duas espadas encostadas num canto da sala.
Empurrava móveis e mexia nos objetos que deviam enfeitar a sala, cantarolava uma canção em francês enquanto Bela está sentada no sofá, tem uma boneca no colo, tenta acompanhar a canção, estranhamente parece entender, solta uma silaba ou outra. Cruzo os braços no peito e me deixo ficar ali, sem ser visto, apreciando aquele momento absurdamente familiar que não lembra em nada o fim do mundo.
Ela tem um vaso na mão, faz uma linda careta para ele, a princesinha republicana chegou com tudo, então me vê e para de cantarolar, atira o vaso numa caixa a seu lado, o objeto se quebra ao cair, Abby dá de ombros.
─Ops! – Brinca comigo, sorrio.
─Não gostou dele? – Pergunto ainda parado ali, de braços cruzados olhando para a mulher mais linda do mundo.
─É o tipo de coisa que aquela pessoa da jaqueta amarela compraria, se é que me entende.
─Claro a jaqueta amarela! – Me lembro do dia que fomos em busca de roupas para Larissa, sorrio com a lembrança de sua cara horrorizada ao me ver com a jaqueta amarela na mão. – A princesinha republicana resolveu redecorar?
─Deixaram a gente aqui, só nós dois, três. – Ela corrige olhando Bela que agora tinha os olhos em mim. ─ Pensei em deixar as coisas mais seguras para ela, é só isso.
─Uhum! – Brinco e ela faz careta. – Não vai me perguntar como foi meu dia e me servir um uísque? – Provoco para ganhar uma careta.
─Não vamos brincar disso Daryl! – Ela diz séria.
─Ótimo, estava começando a ficar com medo. Mas acho que o beijo de boa noite cairia bem, não seria nada demais, não acho que cairíamos na boca do povo por isso.
Solto a besta e caminho para ela, Abby me beija, depois se encosta em mim e suspira, gosto de tê-la em meus braços.
─Papai. – A voz suave de Bela nos afasta, sorrimos os dois feito idiotas. Caminho para ela, me sento depois de fazer um carinho rápido em seus cabelos, ela não se contenta e vem para meu colo. Abby coloca a boneca numa mesa ao lado do sofá que antes estava em algum outro lugar, nunca presto muita atenção nessas coisas.
─Oi Bela! Tudo bem aqui? Trabalhou muito essa tarde? – Ela ri, se ajeita no meu colo.
─Poupée! – Bela diz apontando a boneca.
─Oui cher, une Jolie poupée. Le voici. – Abby entrega a boneca a ela sorrindo.
─O que estão falando?
─Ela disse boneca, respondi, sim querida, uma linda boneca, aqui está. Foi isso, te incomoda? – Ela me pergunta preocupada.
─Não. Não sei, talvez. – Penso um instante a respeito. – Se ela souber as duas línguas não, se um dia estiver sozinho com ela e não souber o que quer, do que precisa?
─Pensei nisso enquanto estava lá fora. Ela me pediu comida em francês. Pensei que queria que ela conhecesse suas raízes. – Seu olhar entristece um pouco, encara Bela que deixa a boneca cair e escorrega do meu colo para brincar no chão. – Que raízes não é? Não tem mais isso, ser humana é o mais próximo de raízes que ela tem, não vai passear pela ponte de Alexandre num fim de tarde me Paris. Que diferença faz afinal?
─Talvez nenhuma, mas também pode ser que um dia ela possa ensinar para alguém a língua de sua família que vai passar para outro e outro, sei lá, acho que tudo que eles sabem ou podem aprender é importante para eles.
─Não vou reprimi-la, se ela falar em francês respondo em francês, se não, também não vou ensinar, ao menos não agora.
─Tudo bem para mim. – Abby sorri. Essas eram preocupações que não tínhamos antes de Bela, nunca nos passou pela cabeça uma criança.
─Papai boneca! – Troco um olhar com Abby, rimos, não sei como e nem porque, mas ela nunca diz nada em francês quando se dirige a mim.
─É Bela, sua boneca. Cadê seu peixinho? – Ela olha em volta, dá uns passos para longe se abaixa e quando se ergue trazia o brinquedo. – Muito bom, traz aqui.
Ela caminha de volta, me entrega o brinquedo, afago seus cabelos, depois devolvo o peixinho para ela.
─Não sei não Abby, acha que estamos fazendo isso certo? Pareceu que eu estava treinando um cachorrinho. – Abby me encara com a testa franzida, olha de mim para Bela, da de ombros.
─Daryl eu não tenho a menor ideia. Vamos só... Sei lá, o que importa é ela ser saudável.
Nos encaramos e temos um acesso de risos que Bela gosta muito de participar mesmo sem saber porque. O riso se vai, penso no que me trouxe de volta para casa. Abby suspira.
─O que foi? Algo com aquela Ellen? Porque o que ela fez hoje cedo, tive que ter muito auto controle para não socar aquela cara de coitada.
─Não. Eu não vi mais nenhum deles hoje. É sobre esse lugar, sobre como as coisas vão ser agora. Amanhã vamos todos nos reunir. Rick e Roxana decidiram que é preciso reformular tudo, todos concordam que Rick é o cara para liderar todos.
─Depois daquele ataque estúpido. – Ela diz balançando a cabeça, sei que pensou que quase perdemos bela.
─Sim. O fato é que amanhã o grupo vai se reunir, dividir funções, reorganizar, em outros tempos eu diria que somos as pessoas que vão lá fora, mas agora. – Olhamos imediatamente para Bela. – Agora eu não sei bem o que somos.
─Daryl eu não sei se posso simplesmente ficar aqui, não quero ser comandada por ninguém, gosto do Rick, sinto ele como parte da família como você queria, mas não meu líder, seja honesto, ele também não é seu líder, você como eu só faz o que quer, precisa, acha certo.
─Eu sei, não é uma decisão fácil para nós, sempre estivemos do lado de lá. Ficar aqui dentro simplesmente pode ser sufocante.
─Quero ser livre Daryl, quero ir lá fora se achar que devo, construir muros se for preciso, assar torta se me der na telha, sou assim, lutei para ser livre, arrebentei as correntes usando a força bruta e não posso...
─Não precisa Abby, nem o Rick vai nos pedir isso. Somos membros dessa comunidade, vamos estar com eles para o que for preciso, mas vou deixar claro que não vamos simplesmente assumir uma função como um emprego.
Abby me abraça aliviada, eu sei o quanto tudo isso é confuso e difícil para ela, beijo seus lábios e a envolvo em meus braços.
─Mas sobre ir lá fora... – Ela me olha, sorri quando Bela decide que chega de chão e se apoia nos meus joelhos tentando me escalar, fica irritada quando não consegue, reclama, me estica os braços, se esforça mais, reclama mais.
─Vem. – Eu a ajudo. – Toda irritadinha! Será que alguém puxou o humor da mamãe? – Abby torce o nariz. – Parece que sim.
─Para de dizer que sou mal humorada! Que chato! E para de rir de mim! – Ela reclama completamente de mal humor e amo aquilo, nem sei muito porque, mas amo, assim como amo todo o resto. – Vem Bela! – A pequena se senta em seu colo, mas vê meus botões e se distraí com eles.
─Como eu ia dizendo antes de você começar a rir da gente como um idiota.
─Sim mimadinha diga! – Ela pensa em ficar brava, mas acaba rindo.
─Eu queria saber onde você guarda seu nariz de palhaço, ia ficar um charme com ele. – Não respondo, apenas tento com muito esforço guardar o sorriso. – Sobre ir lá fora, quero dar um tempinho de uns dias, até ter certeza que Bela vai ficar segura aqui.
─Pensei nisso depois daquele ataque, não sei, nem consigo pensar em me afastar dela, agora olho para o Rick e penso, como ele consegue? Quer dizer, ele tem sempre que se afastar, quase os perdeu tantas vezes – As palavras saem quase que forçadas da minha garganta, mas preciso dividir com Abby.
─A gente não teve muitas escolhas, ele não teve.
─É. Acha que foi rápido demais? Quer dizer, ela não nasceu da gente, mas olho para ela e parece que sim, então... Ela chegou outro dia.
─Você não devia ser assim Daryl, isso é meio injusto. – Sorrio sem entender. – Perfeito, eu nem sei se mereço. – Beijo Abby. – Ela foi feita para nós, enviada para nós, tudo que aconteceu, nos separarmos eu acabar no Grady, salvar Noah, traze-lo comigo e decidirmos ir a Richmond, tudo aconteceu por que a Bela nos esperava. Precisava de nós dois.
─Acho que está certa, e se a temos vamos apenas aproveitar.
─E cuidar dela. – Ela beija a garotinha entre nós. Uma batida na porta nos faz franzir a testa, sorrimos achando aquilo divertido.
─Quem bateria na porta? Que coisa estranha. – Me ergo seguindo até lá. Abro achando tudo meio novidade. – Bill.
O homem me encara completamente constrangido, Larissa está com ele.
─Boa noite Daryl. – Abby surge ao meu lado abraça Bela. – Abby, eu... se importam se eu entrar um pouco?
Dou espaço, Abby não gosta, sua pouca paciência presente nesses momentos, ele deu sorte de ser eu a lhe abrir a porta.
─Pedi para a Larissa vir comigo, acho que se não se importarem ela pode ficar com a Bela lá no quarto, assim conversamos.
Olho para Abby, ela pensa um instante, depois entrega a menina a Larissa que já sorri com a menina em seus braços.
─Qualquer coisa chama Larissa.
─Certo. Vamos bela, brincar lá no quarto. – As duas desaparecem escada a cima. Caminhamos para o sofá, aponto convidando Bill, ele se sente muito pouco à vontade.
─Bela é nossa! – Abby comunica fria, os olhos pregados nos do homem que estremece.
─Eu sei, eu vim... Olha não é fácil falar sobre isso, mas vim me explicar, quero que entendam um pouco Ellen, para... Bom, vamos ficar todos aqui, então eu acho que é bom nos entendermos, não quero fazer inimigos.
─Diga. – Abby, pede sem muito ânimo.
─Perdemos uma garotinha, nossa filha mais nova. Lizzy, ela tinha a idade da Bela, um ano e meio. Quando a infecção começou eu não dei muita importância, juntei suprimentos e fiquei em casa com Ellen e as duas meninas. O noticiário dizia para seguirmos para os centros de refugiados, igrejas, escolas, hospitais, não fomos a princípio, ainda se podia chamar a polícia ou os bombeiros quando a coisa acontecia, mas um dia os telefones pararam de funcionar, eles começaram a caminhar pelas ruas livremente e então peguei minha família e fui para um desses lugares. A coisa estava feia, vivíamos em barracas militares, acho que sabem como é. Tinha todo tipo de brigas, os militares que deviam nos proteger tinham que cuidar de pequenas disputas por espaço e comida, o ser humano, sabem do que são capazes.
─Onde quer chegar Bill? – Pergunto sentindo o ar tenso de Abby.
─Nós ficávamos o tempo todo juntos, eu tinha como arma um facão de jardim e apenas isso. Chegava gente todos os dias, alguns feridos, então alguém se transformava e meia dúzia morria. Um dia simplesmente eles chegaram, aquilo foi... Uma horda deles, foi uma confusão, as pessoas se atropelando, se desesperando, Eu segurava a mão de Anna enquanto Ellen carregava Lizzy, no meio daquele caos, ela tentou, lutou, eu lutei, mas Lizzy foi tomada de suas mãos por eles, um grupo deles se dobrou sobre o corpo do nosso bebê e se não fosse por Anna eu teria me rendido, teria deixado ela se render como queria, mas a tirei de lá, nas semanas seguintes chegamos aqui.
Abby tinha os olhos arregalados em direção a Bill, o homem encarava o chão e penso em nossa conversa de mais cedo, não se pode ouvir esse tipo de relato sem pensar a respeito.
─Ellen não falou por semanas, depois Anna foi trazendo ela de volta, nunca mais tocamos no nome de Lizzy, nunca mais falamos sobre aquele dia até vocês chegarem.
─Bela não vai substituir sua filha perdida! – Abby avisa com a voz embargada.
─Eu sei, mas Ellen... o fato é que Bela tem a mesma idade, os mesmos olhos claros, lembra nossa filha, quando chegou parecia... Bom deram a entender que ela era sozinha e Ellen criou coisas, só vim aqui para mostrar que ela não é louca...
─É exatamente isso que ela é Bill, louca! – Abby se põe de pé. – Não quero sua mulher por perto, agora menos ainda. Sinto por sua perda, imagino o quanto Ellen está sofrendo, mas ela não pode transferir isso para Bela. Essa doença, amor, sei lá como chamar.
─Estou cuidando disso Abby, só quero que tentem ser compreensivos, ela me prometeu não se aproximar mais, mas caso se encontrem... Bom, só quero pedir alguma paciência, você é... Forte, suas espadas...
─Não sou inconsequente Bill, se teme pela vida de sua mulher não precisa, não vou enfiar minha espada nela, mas não quero ela por perto.
Bill fica de pé, caminha para porta e o acompanhamos.
─Obrigado, estou cuidando de Ellen, vou evitar que ela os procure.
─Ótimo. – O homem deixa a casa e eu e Abby trocamos um longo olhar. – Sobre ser das pessoas que vão lá fora... Eu não posso.
Abby me avisa assustada, eu a abraço. Ela se encosta em mim e está tremendo, ser mãe é algo novo para ela, mas a tomou por completo, dominou Abby de um modo que é grande e bonito.
─Está tudo bem, vamos ficar bem.
─A mulher é louca, talvez obcecada, não quero ela perto, gente assim é perigosa e acredite, posso matar, Daryl você sabe disso.
─Calma, vamos cuidar da Bela pessoalmente até isso acabar, eu e você, ninguém vai se aproximar dela.
─Essa merda nunca acaba? – Abby me pergunta cansada. Não sei responder a ela, parece que não, sempre tem um inferno entre nós, nos impedindo a felicidade, os mortos parecem nunca ser o bastante.
─Ela dormiu! – Larissa surge na sala. — Troquei ela e a coloquei no berço e ela acabou dormindo.
─Obrigada! – Abby sorri de modo cansado.
─Vou te levar Larissa. – Aviso beijando Abby. Ela fecha a porta quando saímos.
─É aquela mulher não é? A tal de Ellen?
─Sim. Fique de olho. E não quero que ande por ai com ninguém que não seja da família, e muito menos assim, desarmada.
─Desculpe, você está certo, fui imprudente.
─Estão todos em casa? – Pergunto quando chegamos a porta. Ela afirma subindo os degraus, Noah surge na porta, estava esperando por ela e acabo sorrindo. – Estou de olho em você Noah. – Aviso antes de dar as costas a eles e voltar. Larissa é muito menina para ficar por ai com ele, é bom que o garoto saiba que ela não é sozinha.
Passo pela casa de Bill, Ellen estava na janela, nos olhamos e sinto um calafrio, não gosto do seu olhar, decido não contar a Abby sobre esse breve encontro, mas meu instinto grita para ter cuidado.
Abby está na cama quando entro no quarto, mal me deito e ela se enrola em mim, eu a abraço, ela nem imagina o quanto a garota frágil me emociona.
─Ela me enfraquece. – Me diz com dificuldade.
─Não, ela não faz isso, ela te deixa forte, muito mais forte, você só precisa equilibrar as coisas ai dentro, sempre acha que só porque ama e se preocupa enfraquece e não é assim.
─Me ensina então. – Ela me pede. A voz suave, os olhos marejados.
─Quando fiquei sem você, depois que a prisão caiu, eu queria me deixar ficar ali, estávamos cercados pelos mortos e eu queria apenas ficar ali, naquele segundo eu tinha perdido você para sempre. Então tinha Larissa, Sam, Beth, eu precisava mantê-los vivos, isso me fez ficar de pé.
─Fiquei de pé algumas vezes apenas por você.
─Vê. É por amor, então isso não é fraqueza.
─Odeio sentir medo.
─Abby, a gente sempre tem medo, os zumbis...
─Não tenho medo deles, tenho nojo, asco, mas medo não, aquelas coisas não são páreo para mim.
─Que ótimo rainha do apocalipse. – Rio dela. Abby me beija.
─E ela não tinha nada que dormir antes de nos dar boa noite.
─Estava cansada, passou o dia redecorando!
─Eu não estava... – Ela sorri, se move para me olhar melhor. – Certo, eu estava, meu senso estético é apurado.
─Sério madame? Não tinha notado! – Me movo, faço Abby se deitar e fico sobre ela, sei do que ela precisa. Precisa de carinho, assim vai esquecer Ellen e todo o resto.
─Você foi rápido com essa coisa de berço.
─O que esperava? Quando disse na cama não, eu logo corri. Agora temos um berço, um bebê dormindo profundamente nele e essa cama enorme em que estamos agora. Acho que tínhamos que aproveitar um pouco.
─Está certo, vamos dormir. Boa noite! – Ela diz me provocando.
─Ok, boa noite! – Me afasto dela, Abby me puxa de volta.
─Você me faz esquecer as coisas. Isso é bom.
─Podia fazer o mesmo por mim o que acha? – Pergunto beijando seu pescoço, ela ri.
─Mas que homem apressado! – Abby provoca, suas mãos seguem para meus botões. Minha mão corre por sua perna, adoro sentir sua pele.
─Estava sexy hoje de short e camiseta arrumando a casa. – Me lembro que o achei bem curto na hora, agora gosto um pouco mais dele, mais ainda quando desabotoo para tira-lo – Mas achei meio curto demais.
─Não seja ridículo! – Abby coloca as duas mãos em meu peito, fica brava.
─Tudo bem! Não falamos mais disso, o short fica.
─Fica? – Ela me pergunta fingindo não entender.
─Fica. Não! Ele sai! – Ela não pode ficar assim, linda, entregue inteira para mim e ainda achar que consigo articular alguma frase com sentido. – Está me confundido Abby, não estou pensando direito no momento.
Ela tem os olhos verdes claros como cristal, está feliz é isso me deixa mais louco por ela, saber que provoco isso nela, tomo seus lábios, tudo mais perde o sentido e a importância.
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