Hell Between Us
1 Capítulo 1 Sobrevivendo
Notas iniciais
Pov – Abby
Desde que a infecção começou só o que faço é isso, correr, fugir, esperar, tentar sobreviver, nunca soube muito o porquê não desisto, mas não desisto e pronto, essa sou eu.
Abby Coleman nunca foi de se esconder e não começaria agora, nos primeiros dias foi a confusão e a incompreensão que me fizeram seguir em frente, eu não tinha ninguém, nada para me prender a lugar nenhum, apenas fiz uma mochila e cai na estrada.
Assistir as pessoas perdendo amigos, familiares e amores me fez sentir um certo alivio, esse é o tipo de dor que não conheço, não mais, meus talentos com armas brancas ajudaram a mim e algumas pessoas que passaram por minha vida.
Mas todo mundo está sempre morrendo, é inevitável, não que tivéssemos perdendo algum dom, ou que tivéssemos vida eterna e então nos foi tirado, não, sempre morremos, mas não na boca de outros como nós, daquele modo nojento, dolorido e devastador.
Acreditei numa cura, intervenção militar, salvação, mas não aconteceu, nunca nem perto disso chegamos, foi tudo se deteriorando mais rápido que o tempo.
Acampamentos caiam antes mesmo de ficarem prontos, refugiados eram abrigados e do dia para noite um era mordido e então estava tudo perdido, me acostumei a não me apegar a pessoas, na verdade me acostumei a não me apegar a nada.
Nem comida, nem abrigo, hoje está bem, protegido e alimentando e no dia seguinte pode estar sozinho, faminto e correndo, é só seguir em frente, mesmo não sabendo onde isso vai me levar é assim que vivo, sempre em frente.
─Abby, não acha que devíamos parar um pouco? Já vai anoitecer.
─Sam, você viu a horda que estava seguindo para esse lado ontem, tem planos de dar de cara com eles? – Eu respondo ao garoto sem parar, ele toma um gole de água do seu cantil.
─Tudo bem, você manda! – Me diz seguindo meus passos, a respiração pesada, o rosto abatido.
Sam, está comigo há dois meses, foi nos dias mais frios que nos encontramos, numa casa velha onde me escondia da neve, desde esse dia me segue feito um carrapato, perdeu tudo e todos, mal sabia atirar e como costuma dizer está vivo pela sorte, mais do que pelo talento.
Seguimos de carro um tempo, mas me sinto mais segura na floresta, depois que nosso carro quebrou há uma semana estamos caminhando apenas.
Anoitece, a floresta ganha seus ares sinistros, as sombras sem rostos, o farfalhar das folhas e seus sussurros sombrios, diminuímos, nos aproximamos, puxo as espadas.
─Adoro quando faz isso! – Sam me diz sorrindo, reviro os olhos, na maior parte do tempo ele falava sozinho, eu não sou uma pessoa de muito dialogo – É sério, esse x nas costas e quando puxa as duas ao mesmo tempo, é incrível.
─Obrigada, agora silencio, chega de conversa, vamos ouvir a noite.
Sam concorda, puxa a pistola do coldre e a aperta na mão, eu o encaro, quantas vezes preciso ensinar a mesma coisa ao garoto?
─Guarda essa merda e pega a faca, um disparo e estamos mortos!
Ele obedece, só estamos juntos até hoje porque Sam é obediente, se fosse diferente já o teria mando para o inferno há muito tempo, não seria a primeira vez, ninguém me diz o que fazer, nunca perco uma discussão, prefiro morrer a abrir mão do que acredito.
Encontro o rio que procurava, água era tudo que precisava, molho a nuca, encho meu cantil e depois o dele, verifico o local, parecia seguro, eu tiro os sapatos, era uma noite quente, ao menos perto do inverno que tivemos que enfrentar.
─Vou me lavar um pouco, fica de olho, já sabe o sinal, depois é você.
Sam obedece, aperta a faca, entro na agua depois de me livrar das minhas coisas, mergulho, nado um instante e logo deixo o rio, me sinto viva e capaz de suportar as horas que viriam.
─Posso mesmo ir? Quer dizer, está escuro.
─Deixa de ser covarde Sam, vai de uma vez! – Ele corre para água, não demora nem três minutos, quando saia um zumbi se aproxima, caminho até ele, se tem uma coisa que aprendi é a matar essas coisas, não tem erro, basta que entre em meu caminho e vai terminar com uma perfuração na testa.
Enfio minha espada, ela atravessa seu cérebro, apoio a bota em seu peito, empurro o corpo enquanto puxo a espada, ela sai pingando é sempre aquele sangue lodoso, fétido e quase negro, o corpo despenca ao chão.
─Estou pronto X, podemos ir.
─Não gosto que me chame assim, é Abby, deixa de ser bobo.
─Tá! Hoje está difícil viu!
─Andando Sam, já vai amanhecer.
Encontramos uma pequena cabana logo pela manhã, eu bem precisava de umas horas de sono, Sam também, podíamos entrar, não tinha nenhuma segurança, mas era melhor que cordas em volta de umas árvores.
─Tem duas portas, se vierem pela frente saímos pelos fundos, vem, vamos entrar.
Forço a porta, nenhuma resistência, abro e um zumbi que arranhava a porta dos fundos se vira, a mesma porcaria de sempre, uma mordida no pescoço, a cabeça pendendo para o lado, pelo estado do lugar aquela coisa estava ali há muito tempo, ele vem em nossa direção, retiro só uma das espadas, não precisaria de mais do que isso, enfio em sua testa, puxo com força, ele bate em uma mesa, escorrega lento e acaba sujando tudo de sangue.
─Que merda! – Eu me aproximo dele, a cabana é só um cômodo, pego seus braços, aponto os pés e Sam os ergue ─ Pelos fundos, vamos joga-lo lá fora, só tem um cômodo e não vou ficar com essa coisa do meu lado.
─Certo! – Atiramos o corpo sem muito cuidado, isso foi outra coisa que fomos perdendo, o respeito pela morte, agora a verdade é que não tratamos essas coisas melhor do que trataríamos os ratos.
Deixamos de pensar que um dia foram pessoas como nós, que sentiram medo, amor, que lutaram, são monstros querendo nos devorar, se estão assim, inanimados tanto melhor.
─Vamos encostar uns móveis e dormir.
Lacramos as portas ou perto disso e nos deitamos, Sam se joga na cama que com seu movimento ergue uma nuvem de poeira que o faz ter uma crise de tosse, eu me ajeito em uma poltrona, nunca relaxo demais, sempre prefiro estar de orelhas em pé.
Apago na mesma hora, fazia pelo menos dois dias que não dormia, tínhamos ainda um vidro com frutas secas na mochila, alguma carne já assada e umas latas de sopa, mas deixamos para mais tarde.
Quando acordo, estava anoitecendo, me espreguiço, nem acredito que dormi um dia inteiro, escuto o barulho irritante e conhecido de zumbi em sua porta.
Sam dá um salto, os olhos assustados, o rosto pálido, sinto pena, ele ergue a pistola e a pena da lugar a raiva.
─Se erguer essa porra de novo eu vou tira-la de você! – Ele guarda a arma ─ É apenas um, deixe que fique lá, já devíamos ter ido embora mesmo.
─Nunca vamos parar? Nunca descansamos, eu me sinto cansado, as vezes acho que só quero...
─Cala a boca Sam, vamos vencer esses merdas, eu e você, agora vem, no caminho a gente mastiga um pouco e vai se sentir melhor.
Ele me segue, abro lentamente a porta da frente dou uma olhada e depois saímos para ganhar a noite e a floresta, Sam fica mudo, me segue assustado, tem dezessete anos, o que eu queria?
Acho que nunca fiquei tanto tempo com alguém desde que a epidemia começou, não importava quantas pessoas eu encontrasse sempre acabava sozinha, mas com Sam foi diferente, ele me obedece, é um rapaz sério, atento e com isso conseguimos sobreviver, mas sei que está cansado, no fundo também estou.
O que preciso é achar um lugar para nós dois, um lar de verdade, tem que haver um lugar, um abrigo, grades, paredes, tentamos uma pequena cidade a um mês, não deu certo, ficamos num apartamento três dias, e depois fomos cercados e não morremos por sorte.
Mas onde? Onde pode haver um lugar seguro para nos proteger dessa merda de fim do mundo?
Desde que o inferno abriu suas portas viver é um desafio que apenas poucos vencem e sempre pode ser seu dia, vi acontecer muitas vezes, quando menos se espera acabou, está sendo devorado.
E como se não bastassem os mortos ainda tem todo tipo de lunático, desde inofensivos malucos gritando palavras de ordem e elevando o nome de Deus até assassinos e estupradores, não se pode baixar a guarda, não sem acabar morto.
─O que está pensando X?
─Que vou arrancar sua língua se me chamar assim de novo.
─Gosto, devia gostar também, é toda poderosa, um nome assim imporia respeito.
─Combinado, me chame assim na frente de um zumbi, vamos ver como ele reage.
Ele ri, tropeça e quase cai, torce o pé, geme de dor e paramos, era só o que me faltava, Sam machucado.
─Ai, que merda! Nossa torci o pé!
─Consegue andar?
─Sim! – Ele me acompanha mancando, não podemos parar ao menos até amanhecer.
─Ouviu? – Pergunto e ele me encara ansioso, afirma apertando a faca – Vem, temos que ir, pelo visto são muitos.
Sam tem dificuldade em andar, por isso demoramos a sair da rota dos zumbis, pego um caminho inverso ao que tinha em mente, mas nos livramos dos infelizes, acabamos seguindo por velhos trilhos.
A Geórgia e seus trilhos, de todos os lugares, para todos os lugares, quem sabe nos levam a uma vida nova?
─Acho que não aguento mais Abby, desculpa, tenho que parar um pouco! – Ele me olha assustado – Não me deixa aqui.
Aquilo é meio chocante de ouvir, será que era essa a impressão que causava até mesmo em Sam, mesmo depois de dois meses juntos ele realmente achava que eu simplesmente lhe daria as costas e seguiria em frente?
─Acha que eu faria não é? Que te deixaria aqui e só seguiria em frente? ─ Aquilo me magoa um pouco, não é como se não tivesse sentimentos, apenas os mantinha trancados, quem podia me condenar por me proteger?
─Desculpe Abby, não eu sinto muito, apenas estou no limite das minhas forças, não sei mais o que estou dizendo.
Era dia, um dia nublado, úmido e comum, como todos os outros, ajudo Sam a sentar, me sento a seu lado, tomo uns goles de água, comemos um pouco, faz uns dias que comida não é problema, isso é raro, mas tem nos mantido fortes.
─Acha que consegue subir numa árvore e ficar um tempo sozinho? – Ele me olha depois olha para algumas árvores.
─Sim, mas...
─Sam, você está ferido, cansado e nossa comida não é eterna, precisamos de comida para ter forças de seguir em frente, não vou longe, só dar uma volta, ver o que consigo, prometo voltar, preciso de um lugar seguro ao menos até seu pé melhorar.
─Claro, eu sei que pode voltar e vai, somos amigos, quer dizer quando foi a última vez que vimos gente?
─Semanas.
─Toma cuidado? – Ele me pede e afirmo.
─Prometo, agora vai, quero ver você subindo antes de te deixar.
Sam sobe com dificuldade, eu espero enquanto olho de um lado para outro com medo de um zumbi nos ver e outros se juntarem em baixo da arvore.
─Pronto! – Ele me diz lá em cima – Estou bem! – Aceno tento sorrir, não tenho muita pratica nisso.
─Eu não demoro! – Aviso.
─Abby, tem uma prisão, da para ver daqui, caramba, um monte de zumbi preso!
Uma prisão, grades, muros, concreto, quem sabe? O que custa tentar? Sorrio.
─Que direção?
─Segue os trilhos!
─Fica ai, não sai até vir busca-lo!
Deixo Sam seguro e sigo os trilhos, depois de uns minutos posso ver a construção, meus olhos brilham, eu vou tomar esse lugar, ele será nossa casa, limpo um pátio, entramos e ficamos, depois vamos fazendo aos poucos, nem que seja um por vez, eu posso fazer, matar zumbis é algo que simplesmente sei fazer.
Sam também não é de todo indefeso, juntos podemos ter uma chance, é o lugar mais seguro que já vi desde que o apocalipse começou, o rio ao lado, foi feito para isso, vai funcionar.
Dois homens surgem ao meu lado, carregam armas e não escondem o cansaço, um deles tem uma besta, há quanto tempo não vejo uma, eles me olham, depois olham para a prisão, o arqueiro está com a besta em punho, me apontando suavemente, apenas um lembrete, não sinto medo, indiferença talvez, medo nunca.
─O que estão olhando? Essa é minha casa!
O cara da besta ergue a sobrancelha, desdenha. O outro olha de mim para a prisão.
─Vou limpar aquele lugar e viver lá – Desafio os dois.
─Podemos ajudar – Um deles me diz, o outro se incomoda, aperta mais a besta – Dividir o lugar, afinal como vai fazer isso sozinha?
─Quem disse que estou sozinha?
─Olha moça, nós não estamos, temos uma mulher gravida, uma criança e um idoso.
─Que merda! E acham que uma gravida, uma criança e um idoso vão me ajudar? Só vão me causar problemas, não obrigado, é minha casa, eu vou limpar.
─Rick, vamos de uma vez, pegamos todos e voltamos, ela está blefando – Acho que o cara é tão impaciente quanto eu, ele me intriga, muito mais que o tal Rick.
─Já disse a casa é minha! – O encaro de queixo erguido.
─Mostre a escritura – O idiota me desafia de mal humor, eu o ignoro.
─Não precisa ser um problema, um ajuda o outro e logo temos um lugar seguro para todos, está claro que não tem um grupo, não andaria por ai sozinha se tivesse um, é burrice nos dias de hoje – Rick pondera, olho para eles, tem armas, são fortes e são homens, isso pode significar ajuda ou encrenca, mas só tem um jeito de saber.
─Vamos lá Rick, junte seus dependentes e vamos tomar a prisão!
Olho mais uma vez para o arqueiro, ele me encara cheio de irritação, um machãozinho idiota que se acha melhor que os outros, dou as costas aos dois e sigo em direção a prisão, Sam vai me ver de lá de cima e vai ficar maluco.
Preciso ficar atenta a essa gente, não sei o quanto de verdade tem nisso tudo, mas eu encontrei o lugar e ninguém vai me tomar, não mesmo, é grande o bastante para todos, é só ficarem longe de mim, mas se tentarem entrar no meu caminho então vamos ter problemas.
Notas finais
Me contem!
Beijos
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