Hell Between Us
2 Capítulo 2 - A prisão
Notas iniciais
Pov – Daryl
Essa droga não vai acabar, não tem cura ou salvação, somos agora apenas um bando de mortos de fome, maltrapilhos, perdidos no meio de lugar nenhum, não tem mais esperança, é só caminhar, correr e esperar sua vez, um minuto de distração e está morto.
Mas como sou um Dixon as coisas para mim têm sempre que ser mais complicadas, claro que eu acabaria assim, misturado a um monte de gente fraca, assustada, e dependente. Uma gravida, quem pode ser idiota o bastante para engravidar no meio do fim do mundo? Nem mesmo ter certeza se o filho é do marido ou do amante morto?
Uma adolescente filha de um velho cheio de boas intensões e nenhuma força física, um garotinho cheio de raiva, dois ou três adultos confiáveis e o resto dependentes, frágeis criaturas que precisam ser protegidas, alimentadas e guiadas.
Se realmente acredito nisso, se sei que não vão viver até o início do verão, porque fico? Se não me importo, como vivo repetindo, porque não vou embora?
Talvez porque Daryl Dixon não saiba viver sozinho, talvez porque tenha me acostumado com eles, me envolvido, porque não consigo odiá-los mesmo depois de terem deixado meu irmão num telhado de Atlanta para morrer.
O fato é que me importo, simplesmente me importo e faço o que é preciso, mato, caço, protejo, e tem sido assim todo o inverno e antes disso quando a fazenda caiu.
Sophia me vem à mente, e Dale, parece que nunca paramos de perder e nem desistimos de tentar, mas o fato é que estamos no limite, uma maldita coruja idiota foi o que dividimos nas últimas horas, para onde quer que se olhe só o que se vê é morte e escombros, um mundo caído, perdido e silencioso.
Paramos na estrada, T-Dog quer pegar água num rio antes de seguirmos para oeste, posso aproveitar para caçar um pouco, Rick me acompanha, gosto de tê-lo como líder, é pragmático, mas tem seus instintos e confio neles.
Pegamos velhos trilhos como rota, andamos um tanto silenciosos, não sou bom com palavras, Rick não é insistente e podemos apenas caminhar, então eu a vejo, olhava para o chão e a primeira coisa que noto são um par de botas pesadas, pernas torneadas num short jeans, camiseta clara, espadas em x nas costas, cabelos longos e escuros e então ergo a besta quando de modo calmo e despreocupado ela se vira, os olhos iluminam o dia nublado com sua arrogância visível, não tem medo, pura imprudência no meio do caos.
Ela quer a prisão que se anuncia majestosa diante de nós, me impaciente, irrita, incomoda e não sei porque, decide com Rick tomar o lugar, muita autoconfiança para uma garota, mesmo que com uma pistola e duas espadas.
Eu e Rick nos afastamos uns metros, seguindo em busca do restante do grupo, mudo de ideia. E se não estiver sozinha?
─Rick! – Eu chamo e ele para – Vai buscar todo mundo e nos encontramos na prisão, vou seguir a mulher, e se for uma emboscada?
─Está certo, mas cuidado, não faça nada, apenas fique de olho.
Assinto e lhe dou as costas, caminho silencioso, a besta em modo caçador, olhos e ouvidos atentos.
Ela se aproxima um pouco mais da prisão, observa atenta sem chamar atenção dos zumbis, depois volta para os trilhos, caminha uns metros, emite um som baixo, quase como um assobio, para olhando para as árvores, eu sabia que não estava sozinha, tenho ela em mira, uma tolice e acabo com sua pompa de rainha do apocalipse.
Sinto um movimento na copa de uma árvore, um rapaz salta desengonçado e manco, um zumbi surge atrás dele, é sempre apenas um segundo e tudo acaba, a mulher saca a pistola quando o jovem pressente algo em seu olhar, se movimenta e então disparo a besta, a flecha passa por ela e depois pelo garoto e atravessa a cabeça do zumbi pela lateral, ele despenca num baque surdo que reconhecemos como o som da vida agora que a morte aprendeu a caminhar.
Ela se vira de imediato, a pistola erguida, nos olhamos longamente, não me dou conta que aponto a besta para ela, nem ela que me tem sob sua mira.
─É preciso flecha caçador! – Diz num sorriso cínico, baixo a arma de mal humor.
─Acho que usei para salvar seu namorado, devia ser mais grata!
A mulher ri de modo largo, que coisa mais irritante, o rapaz se ergue desengonçado, caminha em nossa direção pálido, me estende a mão ignorando nosso embate.
─Obrigado, nem sei o que dizer! – Ele sorri fracamente para a mulher que o fuzila com o olhar – Eu sei Abby, me descuidei e vou acabar morto porque sou um idiota e vai me deixar virar um zumbi só para eu aprender.
─Garoto esperto! – Ela diz guardando a arma – Vamos, nós vamos morar na prisão.
─Abby não sei se reparou, mas tem zumbis lá – Ela passa por mim, tem um caminhar altivo, me perturba – É sério Abby! – O garoto agora está ao meu lado, me olha suplicante, dou de ombros.
─Vem Sam, temos muito trabalho, melhor a gente ir.
Que mulher idiota, passo pelos dois e sigo em direção a prisão, nem um obrigado, nada, apenas aquele olhar de desdém, mulher maldita!
Chegamos todos juntos, Rick guiava o comboio de carros, nos reunimos, os zumbis que rondavam a prisão pelo lado de fora se aproximam famintos, dominamos o lado de fora em pouco tempo, Abby, como acabo de descobrir e Sam seu companheiro, não são tão imbecis como pareceu à primeira vista e nos ajudam a limpar, fazemos um furo na cerca, passamos pelo corredor de grades com zumbis nos perseguindo pelos dois lados.
A morte uniformizada, não sei se sinto pena ou nojo, mas deve ter sido aterrorizante passar por aquilo preso ali, sem saída ou ajuda.
─Quem são eles Abby? – O rapaz pergunta nos olhando tenso.
─Vamos dividir o lugar, limpamos, eles ficam entre ele e nós ficamos juntos, apenas isso Sam, não se preocupe.
─Se conseguirmos fechar aquele portão ficamos com esse pátio inteiro para nós – Rick comunica, deve ter uns vinte, talvez um pouco mais no pátio, mas não sabemos bem o que tem depois do portão.
─E quem vai entrar lá? – Maggie questiona.
─Eu vou, sou rápido! – Glenn se oferece, o coreano está sempre se oferecendo como isca, ao menos é como Maggie o provoca ás vezes e está certa, ela não esconde o desconforto.
─Não, eu vou, me dão cobertura pelo lado de fora.
─Porque não entramos, matamos eles e pronto? – Abby diz entediada, Sam arregala os olhos.
─O jeito deles é melhor! – Sam sussurra e é ignorado.
─Eu disse que vou. – Rick comunica, nos olhamos, Lori não parece contente, não consigo não sentir certa pena dela, não é um momento fácil para nenhum de nós, mas nada se compara ao que ela tem vivido.
Um segundo de silencio afirmativo, Rick respira, olha para todos, a mente trabalhando apressada, meu olhar segue para Abby, ela parecia contar os zumbis do lado de dentro, mal escuta o que combinamos.
─Como é seu nome? – Rick questiona Sam apressado.
─Samuel, Sam, pode me chamar de Sam.
─Certo Sam, você sobe com o Daryl, ficam lá naquela torre, sabe atirar não? – Sam concorda –Ótimo, Hershel e Carl ficam na outra torre, os outros matam zumbis pelas grades, distraiam eles, Lori abre eu entro fecho o portão me tranco na outra torre e mandamos bala.
Subo com o garoto para torre, ele ergue a pistola e parece mais tenso que qualquer outra coisa, as grades começam a balançar enquanto todos gritam chamando os zumbis, faço mira esperando a confusão começar.
Rick entra, acerta um zumbi enquanto tenta se aproximar, derrubo um com uma flecha quando ele fica à mercê do inimigo em suas costas, tudo ia bem, mas os zumbis o sentem, por alguma razão ele se torna um alvo mais fácil e ele dão as acostas as cercas caminhando para ele, começo a achar o plano estúpido.
─Sabia que ela nunca ficaria quieta! – Sam me diz e olho para o portão, Abby passa para dentro, puxa as espadas das costas num movimento elegante, os zumbis estão agora dispersos e indecisos, ela caminha para eles e não o contrário, a espada vai fazendo seu estrago, furando cérebros e arrancando cabeças enquanto fico um segundo hipnotizado, mas ela é uma só e começo a atirar, todos nós juntos, Rick chega a torre depois de fechar o portão, quando acabamos o pátio está limpo, e lá está ela, de pé cercada por corpos.
─É isso ai X! Mandou bem! – Sam grita ao meu lado, sorri orgulhoso – Ela é uma força da natureza, não acha? – Sou pego desprevenido – Quando puxa assim as espadas, bom, não sobra muito depois disso.
─Sua namorada é forte, mas é uma só, devia ser mais prudente.
Sam ri despreocupado, me olha enquanto devolve a pistola ao coldre e começamos a decida.
─Abby tem vinte e cinco anos, só tenho dezessete, ela é apenas uma amiga, nada além disso, e X é a prudência em pessoa, infernalmente preocupada com a segurança, se entrou é porque sabia que podia dar conta.
─Por que X?
─O x que forma em suas costas quando as espadas estão embainhadas – Abro a porta da torre deixando que ele passe a minha frente – Mas não chama ela assim, a Abby odeia a brincadeira.
─Odeia é? – Comemoro secretamente.
Estão todos eufóricos, conseguimos um lugar, espaço finalmente e alguma segurança, uma noite, ao menos uma noite tranquila, melhor que qualquer dia nas últimas semanas.
─Não temos tanto espaço assim desde a fazenda! – Carol sorria animada quando finalmente nos reunimos do lado de dentro.
─Vamos buscar nossas coisas, colocar esses corpos para fora, fazer uma fogueira e descansar.
Rick comunica, todos concordam, Abby e Sam caminham para longe, ele sorria, ela parecia feliz, mas um pouco mais comedida, não sei porque estou sempre buscando seu olhar, suas reações, mas o fato é que não confio nela e nem ela em mim, melhor garantir.
Ela se junta a nós, ainda em círculo analisando a pequena vitória.
─Que tal nos apresentarmos? – Hershel convida.
─Abby Coleman, esse é o Samuel.
─Sam! – O garoto diz ainda com o mesmo sorriso no rosto, alguns apertos de mão, sorrisos e eu com minha besta nas costas e uns metros distante, não vou me deixar enredar por suas artimanhas.
─Bom sejam bem-vindos, acho que temos um bom lugar aqui – Hershel olha em volta – grande e cheio de possibilidades.
─Rick é nosso líder! – Carol avisa – Estamos juntos há um bom tempo.
─Rick é o líder de vocês, não me levem a mal, sobrevivemos até aqui sozinhos e estamos bem assim, limpamos e cada um segue sua vida! – Abby avisa de modo incisivo, ninguém rebate, todos surpresos com a notícia.
─Vamos trabalhar gente, depois conversamos sobre os detalhes! – Rick pede.
Começamos o trabalho exaustivo de retirar corpos, caçar gravetos para o fogo, vasculhar as cercas em busca de um furo, todos ocupados, Lori tenta ajudar, Rick pede que se sente, ela obedece a contra gosto, são tudo, menos felizes no momento, escurecia quando afinal o trabalho acaba, acendemos o fogo, os zumbis ficam pelas cercas, gruindo como de costume, o inferno em sons e cores fracas.
Subo no ônibus que está tombado próximo ao portão, é um bom lugar para vigiar um pouco, Rick fica em seu trabalho metódico de caminhar pelas cercas, Abby e Sam se sentam afastados do grupo, ele tira a bota, ela examina seu pé, abre a mochila, não consigo não prestar atenção, enfaixa o pé do rapaz, depois se acomoda a seu lado.
─Quanta atenção! – Carol me desperta, eu a ajudo a subir no ônibus, ela me entrega um pote com qualquer coisa mastigável dentro, pego de sua mão – Se não guardo para você não sobra nada.
Tem alguma acidez em suas palavras, mas é Carol, talvez a pessoa mais próxima a mim depois de Merle, sorrimos, meus olhos se voltam mais uma vez para a mulher e seu acompanhante, eles conversam.
─Está... impressionado, para dizer o mínimo! – Olho para ela com a testa franzida – ela é mesmo bonita.
─Estou atento Carol, não impressionado, preocupado com uma desconhecida entre nós.
Ela massageia o ombro, se contorce cansada, foi um dia longo, imagino seu cansaço.
─Não estou acostumada com essas armas.
─Vem cá! – Massageio seus ombros, ela geme num prazer de duplo sentido, me afasto.
─Quer transar? – Pergunta rindo, usa um tom de brincadeira, mas sei que é mais do que isso.
─Vamos descer! – Não estou nessa para isso, se vou enfrentar essa porra de apocalipse vou fazer isso sozinho, sem envolvimentos, romance só serve para te deixar fraco, tem muito em jogo para isso.
Caminhamos em direção ao fogo, Rick faz o mesmo, meus olhos buscam mais uma vez os dela, a verdade é que ela está sempre me observando também, e nosso olhar se encontra para em seguida ser desviado, um jogo irritante que não sei jogar e não gosto.
─Vi que vocês têm pouca comida, aqui está! – Abby entrega uma sacola a Lori, tenta sorrir quando Lori aceita a oferta sorrindo – Temos o bastante, dividam.
─Obrigada Abby! – Lori agradece – Deviam se juntar a nós – Convida, Abby abre a boca para negar, depois seus olhos seguem para Sam, ela pensa um instante, faz sinal para o garoto e se senta com o grupo, me mantenho de pé à margem como de costume, me sinto melhor assim, numa distância segura de qualquer envolvimento.
Hershel quer que Beth cante, ela reluta, mas atende ao pedido, The Parting Glass, uma doce canção de despedida, sua voz suave ecoa pela noite fria, envolve o grupo silencioso a sua volta, Maggie nota sua insegurança, decide acompanhar a irmã, Abby fixa o olhar no fogo crepitando a sua frente, se perde na melodia e mesmo sem saber nada sobre ela sei que a música a atinge. A canção acaba num tom melancólico.
─Lindo! – Hershel agradece, elas sorriem uma para outra, as irmãs Grenne e a esperança aprendida em lições diárias de um pai carinhoso, um pai que nunca tive.
─Vamos dormir, amanhã temos trabalho, vamos tomar a prisão, Deus sabe o que podemos encontrar lá dentro, suprimentos, remédios, podemos e vamos fazer! – Rick avisa, olho para os zumbis gemendo nas grades, se for para morrer que seja em batalha, gosto da ideia.
─Finalmente! – Abby se levanta – Essa droga de fim de mundo não vai me vencer! Vamos Sam.
Os dois se afastam um pouco, deitam na grama um ao lado do outro, ele diz qualquer coisa, ela responde com um sorriso.
Me obrigo a esquecer sua presença, tentar relaxar um pouco, dormir como não faço a uma eternidade.
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