MEHMET POV:

– Eu quero ver o Emmett, posso? — Pedi encarando seus olhos castanhos. Amanda colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha demonstrando quão meiga conseguia ser algumas vezes e pareceu exitar.
– Bem, ele está dormindo agora, mas... Acho que com certeza ele vai adorar acordar com essa surpresa. Venha cá!

Em um impulso a senti puxar minha mão com carinho e quando me dei conta do que havia feito pude prestar maior atenção no contato que tínhamos estabelecido. Seu toque era suave, aveludado e delicado em contraste com minhas mãos grandes e bem estruturadas. Toquei as pontas dos seus dedos devagar e ela sorriu envergonhada enquanto me guiava até o cômodo. Eu sentia falta de sua pele e da maneira como costumava acarícia-la. Ter Amanda ali tão perto e ao mesmo tempo tão distante fazia com que eu me questionasse a respeito de onde errei em nossa história. É claro que nas poucas horas que estamos juntos tive o ímpeto de beijá-la, abraçá-la com o máximo de força e sussurrar em seu ouvido sobre o quanto preciso de sua presença para me sentir bem. É como se alguma parte minha ainda sentisse seu beijo em meus lábios e isso faz com que eu continue desejando-a. Ainda assim, tenho que respeitar suas decisões e sei que elas apontam para uma única pessoa: James.

Quando conheci Amanda a seis anos atrás, sempre soube a quem seu coração pertencia e, apesar disso, lutei ao máximo para galgar um espaço dentro dele. Eu havia a encontrado sentada em uma praça, chorando enquanto acariciava sua barriga. Aquele havia sido um dia estressante para mim, tinha me arrependido amargamente de ter escolhido Oklahoma para visitar e quando atravessei a rua e observei aquela garota tão entristecida observando o nada, não pude travar meu próprio impulso de ir até ela. Assim que viu minha aproximação, a mesma constrangeu-se e limpou uma lágrima rapidamente com o polegar. Eu? Eu apenas sorri para ela e nada mais.
FLASHBACK ON:
– O que foi? Encara estranhos agora.
– Não, só distribuo sorrisos. Quem sabe um sorriso meu pode te trazer alegria!
– Acho meio difícil. — Ela mordeu o canto da boca disfarçando e encarou o chão. Eu apenas me sentei ao seu lado mantendo um pouco de distância para que não pensasse mal a meu respeito. Olhando-a de perto pude perceber o quanto era linda e como aqueles olhos mereciam mais do que carregar uma profunda dor.
– Quer conversar a respeito?
– Não, está tudo bem.
– Bem? Acho que não.
– Me desculpa, mas eu não... Não quero desabafar com um estranho.
– Claro. Sendo assim, prazer, eu sou Mehmet — Estiquei a mão para que ela apertasse e a garota a minha frente não fez o mesmo — Vamos lá, eu sou libanês, mas não sou terrorista! — Dei um sorriso amigável e finalmente consegui arrancar-lhe uma risada
– Ok, você venceu. Sou Amanda, Amanda Connelly.
– Prazer, senhorita Connelly. Quantas semanas? — Apontei para sua barriga e ela respirou fundo
– Alguns.
– Ah, qual é? Me conte, eu realmente adoro crianças.
– Desculpe, eu não sei.
– Não sabe quantas semanas? — Ela corou e baixou a cabeça pesarosamente
– Eu tenho que ir. — Amanda se levantou, mas desequilibrou-se assim que seus pés tocaram o chão. Eu a segurei a tempo, mas era tarde o suficiente, ela já havia desmaiado.

Em desespero e sem conhecer absolutamente nada, a levei para o hospital mais próximo e dei toda a assistência que precisava. Envergonhada, Amanda contou-me sua história e eu pude perceber que ela trazia consigo um coração frágil que já havia sido quebrado anteriormente. Nos tornamos amigos e as poucas semanas que eu teria que passar naquela cidadezinha foram estendidos sem nenhuma razão. Eu queria apenas tê-la por perto e nada mais, só gostaria de protegê-la para que não tivesse que suportar nenhuma outra dor. Por isso, me prontifiquei desde sempre a fazer com que esquecesse seu passado, a ser o homem que ela merecia, mesmo que isso implicasse em ser apenas um amigo ou fiel escudeiro. Não me pergunte o porquê, mas me comovi com sua história, com sua carência e com a situação em que estava. Aos poucos, fui tentando quebrar a parede que mantinha em torno de si mesma e quando me vi estava apaixonado por ela e pela criança a quem vi nascer, a quem mimei e a quem um dia chamaria de filho — porque de fato o sentia como meu. Quem diria que o destino me levaria para um outro país justamente para encontrar o amor? Ambos tivemos as direções de nossas vidas mudadas com algum motivo e dentro de mim acredito perfeitamente que isso foi feito para que nos encontrássemos. Sem ao menos notar, quando Amanda apareceu fora capaz de salvar-me de dias comuns e vazios. Ela foi aquela que despertou em mim sentimentos mais puros e ingênuos, que me fez amar quando até então eu estava desenganado em relação a qualquer tipo de sentimento e por isso tenho tentado todos esses anos mostrar-lhe que eu sou o cara com quem ela deve estar. Deste modo, sem sequer me importar com o que pensariam — ou se minha família encararia com bons olhos uma nova yorkina mãe solteira — a levei para o Libano comigo, tendo como garantia de que transformaria suas dores nos mais belos momentos de felicidade. É assim que venho lutado e esperado em uma fila imensa de ciúmes e tristezas pela oportunidade de ser o próximo a tê-la e, na verdade, espero que ela possa corresponder a isso algum dia. Acho que foi assim que nosso relacionamento foi se construindo: a passos de formiga, aos poucos, arquitetando a confiança que ela mesma já não possuía em mais ninguém. Vagarosamente, fui me tornando o homem a abraçá-la, a protegê-la dos pesadelos a noite, aquele que pôde oferecer-lhe carinho e segurança. Assim consegui convencê-la de que não havia razão para ficar sozinha quando poderíamos ficar juntos e que eu poderia fazer sua vida valer a pena, poderia fazer com que começasse a sorrir de novo. E eu fiz, isso tenho certeza que fiz, mesmo estando ciente de que um dia teria que abrir mão de seu afeto para seu verdadeiro amor.
FLASHBACK OFF

– Aqui está — Amanda sussurrou abrindo a porta do meu quarto e isso foi o bastante para despertar-me dos meus pensamentos. Pude avistar Emm estava dormindo em sua cama — Vai mesmo acordá-lo?
– Acho que valerá a pena. — Sorri largamente para ela e caminhei até Emmett que dormia encolhidinho. Com cuidado, sentei-me ao seu lado na cama e deslizei os dedos carinhosamente pelos cabelos um pouco claros do pequeno. Que falta fazia tê-lo comigo! — Filho. — O chamei com delicadeza despertando-o aos poucos — Olha quem veio te ver.
Emmett pulou desesperadamente da cama e abraçou-me jogando-se sobre o meu corpo, o que fez com que eu retribuisse com um pouco mais de força. Amanda nos encarava com uma expressão engraçada como se estivesse se perguntando em que momento um de nós dois soltaria, mas nenhum queria dar o braço a torcer. Eu sentia falta do meu filho e ele de mim, isso bastava.
– Eu to sonhando, não to? — Os olhinhos do meu filho estavam com um pouco de lágrimas e isso de alguma forma quebrou meu coração.
– Não, meu filho, não está. — Respondi beijando-lhe o topo da cabeça
– Senti tanta sua falta, papai.
– Eu sei, também senti muito a sua. — Finalmente o soltei para observa-lo melhor enquanto Amanda nos via como uma fiel expectadora — Tem se comportado, pequeno?
– Não muito, você sabia que eu quase me abundei?
– Você o que? — Minha antiga noiva perguntou em gargalhadas
– Aquele negócio na água, mamãe. — Emm tentou explicar
– Ele quis dizer que quase se afogou — Corrigiu
– AFOGOU? — Me desesperei momentaneamente. Como assim ele se afogou e ninguém fora capaz de me dizer isso? Ainda guiado pelo instinto paterno, deslizei minhas mãos pelos bracinhos de Emmett me certificando de que ele estava seguro e inteiro.
– Ai papai, isso faz cosquinhas! — Ele riu
– É sério, Emmett, você quase se afogou?
– Foi, mas o tio Logan me salvou. Ele pulou na piscina — Emm se levantou e pulou na cama imitando a cena — e me resgatou como um super herói.
– Você viu tudo, Emm? — Dei corda à imaginação do filho.
– Claro que vi papai!
– Oras, deixe de ser mentirosinho! — Amanda se meteu e o pegou no colo deitando-o na cama para fazer algumas cócegas em sua barriguinha. Emmett deixou uma risada gostosa escapar e ela parou aos poucos beijando-lhe em seguida a pontinha do nariz.
– Ai, mamãe, assim eu fico sem ar. — Emm pôs a mão no coração fingindo cansaço e sentou-se mais uma vez.
– Você errou em não ter me contado, Amanda — A encarei com seriedade e ela apenas desviou o olhar
– Eu não queria te assustar.
– Mas eu podia ter vindo antes, de repente ter ido até o hospital.
– O tio Jay foi me ver, sabia? — Emmett abriu sua boca e, claro, teve que explanar.
– É mesmo? — Ergui uma sobrancelha constatando o que já sabia: James estava agindo como um perfeito pai.
– Uhum e me trouxe um monte de presentes. O quarto todo ficou cheio de coisas, tinha até uma capa de super herói, quer ver?
– Meu amor, depois você pega a capa. — Amanda disse
– Não, quero mostrar pro papai.
Meu filho desceu da cama e deu pequenos passinhos até a cômoda na qual eu guardava suas coisinhas. Ele abriu a última gaveta e — se sentindo um homemzinho — procurou em suas roupas até achar a capa vermelha. Emmett a amarrou em volta do pescoço e pulou de volta na cama correndo sobre a mesma de um lado para outro com os bracinhos esticados.
– O que achou, pai?
– Você ficou um verdadeiro super herói.
– Também achei, titio me deu um presente bem legal.
– Titio, hun? — Pronunciei olhando diretamente para minha ex e ela apenas encolheu os ombros como quem diz "o que eu posso fazer?"
– Bom, acho que está na hora de você voltar a dormir pequeno Superman. — Foi sua deixa de escapar
– Não, eu agora vou brincar com meu pai.
– Mas você tem amanhã para brincar, não só amanhã como muitos dias.
– Não, eu vou brincar com ele. — Emmett estava sendo birrento mais uma vez
– Emmett, pare com isso — Tentei controlá-lo.
– Não! — Ele bateu o pé sobre a cama.
– Já chega, rapazinho, ou você vai deitar e dormir como um bom herói ou te colocarei de castigo.
– Você não pode me chamar de super herói, só o tio Jay pode.
– Tio Jay, né? — Repeti — Dá licença, Amanda.
Me retirei do quarto deixando os dois sozinhos. Sim, eu estava tomado pelo ciúme e quem não estaria? Alguns meses afastado e me sinto como se estivesse usurpando o lugar dele. Ironia, talvez eu realmente estivesse!