Notas iniciais
Muita gente vai comemorar, mas eu chorei escrevendo. Chorei pra valer :( Mehmet era um personagem que eu particularmente adorava. Há meses estava esperando para escrever essa cena e gostaria de agradecer a uma amiga que me contou sobre isso. Um rapaz fez o mesmo por ela e me inspirou a dar esse final ao Met. Acalmem-se, a fic ainda não acabou, mas Mehmet já teve seu fim :(

– Posso entrar? — Mehmet anunciou assim que abri a porta.

Apenas vê-lo era o tipo de coisa que fazia o sangue fever em minhas veias e pulsar sob minha pele. Retesei o maxilar respirando devagar para conter qualquer sentimento aversivo que viesse de mim. Ele estava lá por alguma razão e, seja qual fosse, eu não exitaria em arrancar suas cordas vocais para nunca mais ter que ouvi-lo falar o nome da minha futura mulher. Dei um passo para trás permitindo que Mehmet entrasse em minha casa. Ele parecia nervoso e apreensivo mas, ao mesmo tempo, seus olhos castanhos não expressavam medo.

– Se espera que eu diga que é bem vindo, está muito enganado. Bata a porta quando entrar! — Notifiquei virando-me de costas para seguir até a sala.

Ouvi o som da porta sendo fechada e segui caminhando até o cômodo. Meus músculos estavam tensos pela fúria contida em meu corpo e a gana de batê-lo antes mesmo de ouvir qualquer uma das suas baboseiras era latente. "Ao menos espere", uma voz em meu cérebro insistia, mas eu não estava para muitos amigos.

– Prometo que não irei demorar. O que temos para tratar, apesar de importante, não demanda muito tempo.

– Hum — Ignorei-o e fui até o bar no canto da sala servindo-me um copo de whisky. O virei com agilidade na boca tragando-o de uma única vez sob os olhares rigoros do libanês.

– Se pretende ingerir álcool durante a nossa conversa, não falarei nada.

– Ótimo, isso significa que beber a garrafa inteira é uma maneira de te expulsar — Ironizei. É claro que eu não tinha intensão alguma de me embebedar.

– Vim falar sobre Amanda. Deveria se importar com ela e, honestamente, é esse tipo de comportamento que me faz pensar que não está preparado para assumir essa família.

– Já falei que é bom você não se meter com eles — Apontei o indicador em sua direção — Você não sabe nada a sobre nossas vidas para opinar a respeito.

– Pelo contrário, eu sei mais do que você jamais saberá. Sei que Emmett sofria de cólicas quando era apenas um bebê. Sei que Amanda chorava baixo todas as noites durante a gravidez e até alguns anos depois. Sei que quando se machuca, Emmett gosta de colocar band-aids de super heróis porque acredita que ali tem um super poder que vai curá-lo. Sei que Amanda gosta que cozinhe para ela, principalmente porque saiu de casa muito cedo e sentia falta da comida da mãe. Sei que todos os dois sempre se apoiaram em mim e que Emm precisa de um exemplo para se tornar um homem de bem. Se você não for capaz de entender essas coisas, não sei se pode estar no meu lugar.

– Esse lugar nunca foi seu — Larguei o copo sobre o móvel e aproximei-me vociferando

– Sei bem disso — Ele apoiou as mãos nos bolsos e balançou os ombros — Sempre soube. James, eu estive noivo da Amanda por anos e permiti que ela voltasse a Nova York mesmo sabendo que isso a traria de volta para você. Não sou alguma espécie de vilão idiota como julga. Tudo que eu quero é que ela possa ser feliz e, se for contigo, que seja honrado para merecê-la.

– O que você parece se negar a entender é que a minha vida mudou muito nos últimos anos. Eu mudei e fiz tudo isso sem oferecer a menor resistência porque sabia que era importante para o bem do relacionamento que estava construindo.

– Mudou? Como tem a coragem de dizer isso se tem crises de ciúme, bebe quando está irritado e ainda me agrediu quando tentei ter essa conversa pela primeira vez?

– Entenda uma coisa: eu não devo nada para ninguém e muito menos para você.

– Deve, James. Está mais do que na hora de você se tornar um homem. Emmett tem cinco anos e está em uma fase de imitar tudo que o pai faz. Lembre-se que da próxima vez que pegar uma garrafa e virar, ele vai fazer o mesmo com a garrafa de refrigerante. Hoje, é a coca cola. Em alguns anos ele estará virando tequila e quando você perguntar o por quê, ele vai responder claramente que foi o exemplo que presenciou.

– Eu não vou permitir que isso aconteça com meu filho.

– Isso o que? Que ele se torne você? Pois é. Eu tentei impedir isso por anos e agora essa decisão não está mais nas minhas mãos. Amanda é adulta e sei que pode sair magoada, mas aos poucos seu coração será concertado. Estou mais preocupado com o que será de Emmett se você não assumir suas responsabilidades...

– Se há algo autêntico em mim é que transformei a mim mesmo depois de tanto sofrimento, mágoa e dor. Eu não aceitarei perder Amanda e Emmett. Eles são minha família e se houver alguma porcentagem de erro da minha parte, eu aniquilarei.

– Não sei se consigo confiar — Ele admitiu em um longo suspiro

– Porra. Eu nem sei porque ainda tento te convencer. Quer saber? Eu não sou o "senhor perfeição" como você tenta fingir que é. Vou errar e é errando que vou aprender a ser um bom pai.

– E em relação à Amanda?

– O que tem ela? — Minha expressão ficou cizuda novamente. Tocar no nome da minha noiva tornava os animos tensos novamente.

– Como vai fazer quando ela se ferir novamente?

– Eu não vou ferir.

– Espero que não seja para ela o homem que costumava ser.

– Se esse é seu medo, saiba que serei melhor do que fui e que continuarei me empenhando para fazê-la feloz. Olha, que merda de conversa é essa, afinal?

– Amanda foi até o hotel hoje de manhã.

– Ela o que?

A ficha parecia não cair. Inclinei-me para frente como se as palavras dele pudessem chegar melhor aos meus ouvidos enquanto semi-cerrava os olhos prestando atenção.

– Ela me procurou. Precisava de ajuda porque você a pediu que morasse contigo. Não sei se sabe, mas Amanda tem grandes dificuldades para manter e assumir um compromisso. Isso acontece desde que você a traiu e eu tentei durante anos que ela conseguisse perder esse medo ao meu lado mas, obviamente, fora em vão.

– Se você não conseguiu, isso é problema teu. Amanda aceitou morar comigo.

– Eu sei disso, a empurrei para essa escolha.

– Do que está falando?

– Estou dizendo que ela não sabe a quem ama. Amanda quer manter a nós dois perto e sabe o quanto é impossivel por sua causa e pelo amor intenso que sente por você. Posso não ser a grande paixão dela, mas há algo por mim também naquele coração e temos que cair na real: ela não sabe lidar com essa dualidade.

– Não existe dualidade alguma. — Reforcei a ideia

– Existe. Você pode querer não enxergar, mas essa é a verdade. Eu a questionei sobre o que sentia e não consegui obter resposta alguma.

– Porque ela não queria dizer que não te amava — Tentei me enganar

– Ou porque não queria dizer a si mesma que ainda sente algo por mim.

– Isso é loucura. Não tenho que dar ouvidos a qualquer merda que me diga!

– A Amanda não será feliz enquanto eu estiver aqui. — Ele insistiu apesar de eu ter deixado claro que não estava interessado em saber mais nada — Ela se sente presa a mim como se tivessemos uma divida eterna e eu sei que isso não está correto.

– Finalmente disse algo coerente.

– Eu estou dizendo desde o momento que cruzei sua porta. O que quero que entenda, James, é que Amanda não fará a escolha entre nós dois. Ela nunca vai conseguir isso.

– E o que espera? Que eu saia fora e a deixe para você? — Ironizei estampando um sorriso sarcástico em meu rosto

– Não. Eu estou fazendo isso.

– Você o que?

Fui pego de surpresa. Como assim ele estava desistindo? Isso era pegadinha, certo?

– O que ouviu: estou deixando que Amanda seja livre e feliz ao seu lado. Estou voltando para o Libano amanhã mesmo.

– Está falando sério? — Questionei ainda espantado

– Sim.

– Ela não vai permitir que vá embora.

– Vai sim, porque eu fiz questão de fazer com que ela tenha raiva de mim — Ele murmurou em um tom mais baixo. Seu olhar encontrou o chão e eu percebi o quanto sua voz estava embargada — Eu a destratei quando me procurou essa manhã. Fiz algo que nunca achei que faria a uma mulher, a tratei como se fosse descartável e fui grosseiro. Sei que ela nunca esperava essa atitude minha e apenas Allah sabe o quanto meu coração se partiu em pedaços por ter que fazer essa escolha.

– Não tente bancar como se estivesse se sacrificando por ela...

– Mas eu estou. Quando se ama de verdade, você passa a compreender que alguns sacrifícios são necessários em prol de quem se ama. Não sou nenhum mártir ou santo e não tenho pretenção alguma de alcançar esse rótulo. A todo momento meu coração implorava para que eu ajoelhasse diante dela e pedisse perdão, mas tive que engolir todo o sentimento que tinha porque se Amanda sequer suspeitasse do quando a amo, seria o suficiente para fazê-la ficar.

Os olhos de Mehmet estavam marejados e eu já podia ver uma ou duas lágrimas escaparem pelos cantos. Balancei a cabeça negativamente, ainda me negando a crer em tudo que escutava.

– Eu a expulsei do quarto — Ele continuou — Eu fiz de tudo para que ela saísse e, em um ato de desespero e também de dor, a tomei em meus braços e a beijei.

– VOCÊ FEZ O QUE? — Alterei minha voz sentindo meus batimentos ficarem mais fortes contra meu peito. Em passos rápidos o segurei pela gola da camisa jogando-o contra a pilastra — Repete o que você fez.

– A beijei e não me arrependo — Mehmet respondeu com os olhos fixos nos meus — Fiz isso não apenas porque minha alma pedia, como também porque era a última vez que veria seu rosto e, principalmente, porque essa seria a única coisa que faria com que ela me odiasse de verdade. Amanda te ama com uma intensidade louca e é incapaz de traí-lo. Ela me deu um tapa e foi embora provavelmente com uma raiva que não passará por muito tempo.

– Você se aproveitou dela. — Vosciferei contra seu rosto e o soltei

– Eu a manipulei para que minha partida não seja tão dolorosa.

– Ela vai se dar conta se você for embora, porra.

– É por isso que vim pedir sua ajuda.

– Do que você está falando? Espera que eu te ajude depois de dizer que beijou a minha mulher?

– Espero que me ajude a fazê-la feliz e estou deixando que seja você a pessoa que irá fazê-la.

– Isso é loucura! — Esbravejei passando as mãos pelos cabelos

– Prometa que vai me ajudar.

– Não posso, isso... Isso vai feri-la.

– Não tanto quanto se eu ficar aqui. Amanda já está com raiva de mim e tudo que te peço é que acoberte minha saída do país. Ela provavelmente procurará por mim e eu preciso que você os deixe distante de mim. Tanto ela quanto Emmett.

– Mehmet... — Ele estava mesmo fazendo isso? Algo dentro de mim sentia pena. — Por acaso não vai mais vê-los?

– Não, James. Estou entregando todos os pontos, passando a bola e espero que você seja o homem que fará o gol. Entende agora toda minha preocupação em relação a sua postura como marido e pai? Preciso ter certeza que eles estarão bem mesmo sem mim.

– Eles estarão, eu te prometo.

– Fala do fundo do coração, entendeu? Isso não pode ser dito da boca para fora.

– Não é, cara, não é — O tranquilizei — Deixe que ela ao menos se despeça.

– Não. Não existe hora certa para dizer adeus e nenhum de nós é bom em despedidas. Só preciso que cumpra o combinado.

– Farei isso. Por ela.

Algo em mim mantinha um nó na garganta. Não, eu não choraria por causa desse cara. Quer dizer, seria ridículo da minha parte! Mas, ao mesmo tempo, eu estava eternamente agradecido pelo que estava fazendo por Amanda. Em meu íntimo, me questionei se eu seria capaz de amá-la com tanta veemência, se abriria mão do que sinto por sua felicidade. Acho que nunca encontrarei a resposta para essa pergunta.

– Mantenha a raiva dela por mim, entendeu? — Ele repetiu passando o dorso da mão sob os olhos para limpar uma lágrima — Ela precisa me odiar para conseguir ser feliz contigo.

– Não farei isso. Se vai sair dessa história, sua imagem será preservada.

Era o mínimo que eu poderia fazer!

– Tudo bem. Só não deixe que ela me procure ou encontre. Certamente será muito dificil, ainda mais no principio. Mas, por favor, não a deixe se abater e não deixe que Emmett sinta tanto a minha falta. Seja o pai que ele merece.

– Eu serei — Prometi

Mehmet deu uma pequena fungada e mordeu os lábios com força impedindo a si mesmo de deixar mais lágrimas cair. Eu não sabia o que fazer ou o que reagir. Toda aquela situação havia me pegado de surpresa e eu estava dividido entre a plenitude do êxtase de saber que não o teria por perto, a tristeza que sentiria pela dor que minha noiva passará e a culpa por saber que contribui para isso.

– Mehmet... — O chamei e não dei tempo para que respondesse. Caminhei até o homem parado diante de mim e o abracei com força. Passamos meses o bastante em uma rivalidade sem fim, no entanto, agora me sentia inferior a alguém tão evoluído e altruista. Soltei o abraço dando dois pequenos tapinhas em suas costas e ele encarou-me ainda com os olhos avermelhados — Obrigado — Pedi com sinceridade — Eu não vou te desapontar, prometo.