Heaven In Your Eyes
90 He Deserve It
Notas iniciais
MEHMET POV:
Acho que desde o início sempre estive pronto para perder Amanda. Preparado não, mas sim pronto para algo que seria inevitável. Meses atrás, enquanto a tinha deitada em meus braços após fazermos amor, seus olhos encheram-se de lágrimas. Eu contemplei seu doce rosto — tão perdido em pensamentos que jamais saberei — e acariciei seus cabelos receando o motivo que a levara ao choro.
– Está tudo bem? — Perguntei buscando seus olhos agora fixos em um ponto qualquer do teto
– Uhum, estou sim — Ela mentira e eu sabia
– Tem certeza? — A puxei para mais perto aconchegando-a em meu peitoral. Minha noiva deitou a cabeça em meu corpo e me apertou um pouco mais contra si. Ela sempre fazia esse movimento quando queria se agarrar a mim não apenas fisica quanto mentalmente.
– Tenho sim — Respondeu evasivamente, com um tom de voz fraco como se seus pensamentos estivessem vagando por qualquer outro lugar que não fosse nosso quarto.
– Desculpe, mas fiz algo mais cedo que a tenha chateado?
– Jamais, Met — Amanda dissera sentando-se na cama.
Repeti seu movimento e percorri rapidamente meus olhos por seu corpo descoberto. Me aproximei segurando seu queixo de forma que a fizesse olhar-me. Assim que alcancei meu objetivo, deslizei meus dedos por uma mecha de seu cabelo colocando-a atrás da orelha e minha noiva deu um fraco sorriso em resposta.
– Sabe que pode me contar o que está te perturbando, não é?
– É claro que eu sei, você é incrível — Respondera apertando os lábios um contra o outro enquanto seus olhos ficavam um pouco mais úmidos.
Mais tarde, naquele mesmo dia, Amanda confessou estar confusa em relação a tudo que estavamos vivendo, disse que não estava se sentindo segura para casar e ter um compromisso desse tipo, exemplificou com erros anteriores de sua vida e, por fim, manifestou o desejo de voltar à Nova York. Claro que a notícia me pegou de surpresa como um soco na boca do estômago. Eu estava decidido a dar a ela meu sobrenome e oficializar nossa relação já tão antiga, estava certo de que seria capaz de preencher os espaços que seu coração ainda possuia e que, em uma utopia maior, cicatrizaria todas as feridas deixadas por um amor antigo. No entanto, outra parte de mim sabia que este mesmo amor era o que a impedia de se entregar por completo a todos os planos um dia idealizados. Amanda estava presa a um relacionamento e ao fantasma de um homem que havia lhe feito mal e sabia que voltar à sua terra natal poderia ser a saída para enfrentar os próprios medos e receios. Escolhi por deixá-la livre tendo a fé de que se fosse para ser minha — não como posse, mas minha porque havia me escolhido como o homem que a faria bem — , ela retornaria aos meus braços e ao nosso lar. Caso contrário, eu estaria correndo o risco de que James nos assombrasse e rompesse com todo meu empenho por todos esses anos. Eu não era tolo e, certamente, não estava enganado diante das possibilidades. Sabia dos riscos e apostei as fichas. Apostei e perdi.
Talvez você esteja se perguntando se James será capaz de fazê-la uma mulher realizada, se ele seria capaz de abdicar de suas próprias vontades como eu fizera. Talvez questione até mesmo se ele a ama da mesma maneira pura que eu fiz. Acho que também passei tempo demais questionando sobre tudo isso ao invés de admitir que ele merecia uma segunda, terceira e até quarta chance. Somos humanos, mutáveis e suscetíveis ao erro. Se até mesmo as folhas de uma árvore podem cair durante o outono e renascer na primavera, ele também pode se transformar e florescer bons sentimentos. Hoje sei que entrego meu maior tesouro nas mãos de alguém que não confiava e torço para que o melhor possa vir de seu coração agora renovado. Sei que James não será capaz de decepcioná-la como outrora e sei também que o que sentem é o tipo de amor que não pode ser interrompido por uma terceira pessoa ou por qualquer mágoa e dor que tenha ocorrido. Eu sou essa terceira pessoa, sou quem sobra em meio a todo esse conto de fadas interrompido.
E, então, me pergunto: estou errado em aliar-me ao homem que tirou de mim meu motivo de sorrir? Não se ele for o motivo dela sorrir. Não tenho razões para empacar a vida da pessoa que tanto amei e que ainda amo. Se há algum recanto do meu coração que tem alguma consideração por ela — e eu sei que ele por inteiro pertence a aqueles olhos castanhos e àquela boca cor de rosa -, tenho que ser corajoso e permitir a mim mesmo um recomeço, por mais doloroso que possa parecer. Mais do que isso: tenho que permitir a ela que sua história seja repleta de uma alegria que não pude oferecer devido a todos seus medos de se deixar ser amada. Se não fui o homem que ela amou — por motivos óbvios e maiores que eu — , espero ao menos ser capaz de deixar que Amanda saia da minha vida dignamente, com honras e, quem sabe, até com aplausos. Sim, aplausos. Não é qualquer mulher que se propõe a trazer cor para seus dias acinzentados e ela fez muito mais que colorí-los. Sua presença e de Emmett em minha vida transformaram-me em um homem melhor e agora consigo compreender que é esse tipo de milagre que uma família faz. É esse milagre que farão a James.
Por isso, parte de amá-la dessa maneira tão verdadeira e sincera foi perceber que uma hora tenho que tirar o time de campo. Não por covardia, fuga ou medo, mas sim porque reconheço que perdi a batalha. E, aliás, não há pelo que lutar. Eu a amei demais e esse amor se converteu em pensamentos de luz que serão enviados a ela em todas as vezes que me recordar de seu rosto e sorriso. Acredito que tem que amar muito para abrir mão do maior milagre da sua vida para que essa pessoa se torne o milagre da vida de outro alguém e posso afirmar, sem medo ou receio, que estou permitindo que ela saia pelas janelas da minha alma como um pássaro livre.
Guardarei em meu coração todas as juras de amor que um dia já fiz, os beijos dados e até os olhares sinceros. Sei que Amanda foi uma provação de Allah para que eu expandisse meu amor a alguém que precisava e que, nesse instante, ela já não precisa mais de mim como seu anjo da guarda. Por mais que a tristeza pese em meu peito, levo a fé de que nem tudo está perdido porque estou triste ou abalado. Uma porta se abrirá no meu caminho, mais cedo ou mais tarde e sei que encontrarei um novo caminho a seguir. Até lá, sei que meus mais profundos sentimentos permanecerão de maneira mais permanente que uma tatuagem, marcado em meu peito quase que eternamente.
Respirei fundo contendo uma lágrima que brotava em meus olhos e entreguei ao motorista do táxi as notas equivalentes ao valor da corrida.
– Tenha uma boa viagem, senhor — O americano desejou
– Obrigado.
Desci do carro e abri o bagageiro, pegando minhas malas e levando-as para a parte interna do aeroporto. Fiz o check in, despachei minha bagagem e esperei pelos longos minutos que me levariam de uma vez por todas ao Líbano. Não sei se vir à Nova York foi a decisão mais sábia, mas certamente minha presença aqui fora fundamental para moldar a personalidade de James e fazê-lo valorizar a família que tanto lutou para ter.
Após entrar no avião e buscar meu acento, peguei pelo aparelho celular em meu bolso para desligá-lo antes da decolagem. A notificação na tela indicava uma nova mensagem. Desbloqueei o teclado e abri sem reconhecer o número que a enviara, mas logo percebi se tratar de uma mensagem de video. Descarreguei o conteúdo e assisti. Era uma pequena filmagem de Emmett dizendo "eu te amo, papai" e, logo em seguida, mandando um beijo para a tela. Aquela imagem fez com que algumas lágrimas escorressem involuntariamente pelos meus olhos. "Eu também te amo", murmurei à criança na tela do meu celular mesmo sabendo que ele jamais escutaria. Rolei a tela para baixo e um trecho em texto dizia: "Acredito que você mereça escutar isso muitas vezes. Obrigado por proteger meu filho por tantos anos. James." Fechei os olhos e desliguei o celular tendo certeza de uma vez por todas que os havia deixado em boas mãos.
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