- Como ele se atreve? — Entrei resmungando chocada e ao mesmo tempo um pouco aborrecida. Kendall estava com os braços cruzados e não se dignou nem mesmo a olhar para mim.
— Está tudo bem? — Carlos foi o único a perguntar e veio até mim passando o braço ao meu redor. Ele me abraçava meio de lado e isso foi acolhedor o suficiente para que eu apoiasse a cabeça em seu ombro.
— Está sim. Na verdade só me aborreço com a cara de pau que ele tem! — Balancei os ombros em desdém e antes que percebesse revirei meus olhos.
— Não se preocupe com isso agora, tá? — Meu amigo disse e beijou minha cabeça com carinho. — Quer que pegue o Emmett lá em cima com a Ingrid?
— Não, pode deixar que eu pego. Obrigada, Carlitos! — Sorri verdadeiramente para ele e me desfiz do abraço aos poucos. Passei pelos rapazes apressada subindo as escadas ao som agoniante dos meus saltos a cada degrau.

Assim que subi, podia escutar as gargalhadas que uma das minhas melhores amigas dava com meu filho. Emmett parecia se divertir e fui seguindo o som de suas vozes até uma porta encostada. A empurrei devagar e pude me deparar com os dois assistindo um desenho animado. Ingrid se divertia tanto — ou mais — que o meu pequeno e não pude evitar sorrir enquanto os observava. Fiquei encostada na parede por longos minutos vendo como meu principe de olhos verdes estava se sentindo em casa mesmo em meio a uma mudança tão radical. Emm era o alívio do meu coração ainda que a tempestade parecesse não ter fim, era o sol que nascia após a tormenta trazendo um brilho inigualável à minha vida. Di aproximou-se para fazer-lhe algumas cócegas e logo que o puxou, ambos me viram.
— MAMÃE! — Emmett levantou imediatamente e abraçou minhas pernas
— Oi, meu amor! — Falei com um sorriso maior ainda e beijei-lhe o topo da cabeça. Logo meus olhos encheram-se d'água. Por céus, a quem eu queria enganar? Não seria fácil esconder a verdade. Meu coração apertou ao imaginar a decepção que causaria ao meu filho, ao pensar que poderia chegar a perdê-lo e o apertei ainda mais forte. Ingrid percebeu meu nervosismo e também levantou-se.
— Hey, o que aconteceu? — Ela chegou pertinho e me abraçou.
— Nada! — Menti fungando devagar
— Ah qual é, Amanda! Você encontra seu antigo amor de uma hora para outra e me diz que foi "nada"? Pelo menos um drama mexicano era esperado. — Ela disse impaciente, o que me arrancou um pequeno sorriso.
— É só que... Não esperei que as coisas fossem assim. — Caminhei até o sofá tomando Emett pelas mãos. Puxei meu filho para o meu colo e minha amiga sentou-se ao meu lado. — Quando cogitei voltar, sabia que corria o risco de James saber a meu respeito. No entanto, nunca imaginei que ele estaria aqui e muito menos dizendo essas coisas para mim.
— Coisas? — Ela ergueu uma sobrancelha — Que coisas?
— Ah, você sabe! — Desdenhei
— Não. Eu não sei! — Insistiu
— A respeito de querer meu perdão e de tentar me recompensar. Disse que ficou louco com o meu desaparecimento, vê se pode uma coisa dessas!
— Ele não mentiu, Mandy. — Minha amiga desviou o olhar — Assim que James percebeu que havia te perdido para sempre, ele se desesperou. Você por acaso tem noção de quantas vezes ele bateu na porta da casa dos seus pais?
— Ele procurou meus pais? — Meu coração acelerou. Não, ele não podia ter feito isso.
— Sim e da última vez que o fez, seu pai ameaçou chamar a polícia para ele. Disse algo sobre caras como ele terem que ir para a prisão. Ninguém entendeu direito na época!
— Hmm.. — Mordi o canto da boca
— Mas não parece tão complicado assim agora que eu vejo melhor.
— Do que está falando? — Prontamente senti minha nuca gelar, minha mão estremeceu denunciando o nervosismo já instalado de maneira tão frenética como se tivesse recebido uma descarga de 220v.
— Nada, absolutamente nada. Só achei curioso o Emmett ter as mesmas manias de erguer as sobrancelhas enquanto fala algo que o empolga, juntar os lábios um pouco antes de dizer algo, gesticular o tempo todo, dar um sorriso fechado e depois sim mostrar os dentes e, claro, estreitar os olhos quando dá uma gargalhada.
— Reparou demais no meu filho, heim! — Tentei brincar para escapar das acusações já estabelecidas no discurso dela
— Claro que não Mandy, só fiquei pensando que já vi isso em algum lugar antes. — Ironizou
— Você está louca, isso sim. — Tirei Emmett do meu colo colocando-o no chão e prontamente me levantei
— E quanto ao fato dele ficar batendo nas coisas pra fazer som quando está entediado? — Ela levantou-se junto
— O pai dele é músico!
— Ah, isso eu realmente concordo! — Di sorriu abertamente e eu sabia que ela estava lendo cada pensamento meu apenas ao ver a maneira como estava me comportando
— Onde quer chegar, Ingrid? — Me dei por vencida
— A lugar nenhum, amiga, mas você sabe que alguns segredos não ficam escondidos por muito tempo. Não é?
— Eu não tenho nada a esconder. — Menti
— Não de mim. Você pode não dizer, mas não quer dizer que eu não perceba.
— Alguém mais percebeu?
— Até agora creio que não.
— Por favor, não conte ao Logan. — Implorei — Depois de hoje não tenho mais certeza a respeito de quem ele está protegendo ou ajudando.
— Eu sou noiva do Logan, não informante dele. — Ela brincou — Não se preocupe!
Ingrid puxou minha mão e passou o polegar por ela devagar passando confiança. Não pude resistir a dar-lhe um abraço mais forte e inesperado.
— Que momento lindo! — Carlos chegou na porta nos interrompendo e a soltei — Kendall está soltando fumaça pelas orelhas enquanto você não desce.
— Já vou, já vou!
Emmett correu até Los e os dois sairam do quarto cantando algum tipo de música alegre. Meus olhos procuraram os de Di de novo, ela também estava os observando até olhar para mim.
— Ele realmente tem todo o carisma do James.
— Não fale naquele filho da puta, por favor.
— Você não pode escondê-lo para sempre e nem negar a existência de um pai que pode amá-lo.
— O James não é capaz de amar uma mosca.
— Ele foi capaz de amar você.
— Depois que me perdeu? Uhum! — Ri irônicamente
— Ele mudou.
— Para pior! — Fiz uma careta — Agora tenho que ir, você sabe como Kendall fica.
— Sim senhora. — Ela bateu continência — Vamos descendo!

Descemos as escadas e Kendall estava com a minha bolsa batendo o pé esquerdo no chão impacientemente. Nos despedimos de todos — inclusive de Logan que sussurrou um pedido de desculpas no meu ouvido — e fomos embora. Apesar de ter me chateado de início com o fato dele ter colaborado para que esse encontro acontecesse, jamais ficaria aborrecida com meu amigo de infância. Loggie e James sempre foram como irmãos e seria injusto da minha parte puni-lo por tentar fazer o que considerava certo. Durante todo o caminho Kendall permaneceu calado, ora ou outra xingava um motorista que fazia alguma merda no trânsito, mas nada além disso. Eu já estava me sentindo constrangida com o clima instaurado, era como se ter ouvido Jay tivesse sido uma escolha entre ambos, o que certamente não foi.
— Me desculpe. — Pedi. Eu não sabia pelo que estava me desculpando, mas ainda assim parecia o certo
— Eu estou simplesmente farto de tentar te proteger.
— Não precisa fazer isso.
— Eu não posso permitir que ele te engane de novo, Amanda. Tem noção de como me senti quando te vi entrar naquele ônibus em destino a Oklahoma?
— Você precisa confiar em mim ao invés de tentar quebrar o nariz de James a cada vez que o vê. Não sou mais aquela menina tola e você sabe bem disso. Além do mais, eu o quero distante de mim e do meu filho.
— Não é simples assim. Eu tive minha parcela de culpa, deveria ter percebido que ele só estava te usando, deveria ter impedido o relacionamento de vocês.
— Isso só teria piorado tudo e, além do mais, você não tem culpa alguma. Ninguém além de mim e do James tem. Você não deve ficar magoado com Logan pelo que houve hoje.
— Ele facilitou as coisas.
— Eu facilitei mais ainda quando fiz amor com o Jay.
— Por favor, me poupe desse detalhe.
— Mas é a verdade, Ken. E acho mesmo que um dia você vai ter que perdoá-lo por isso também! Se não fosse por esse erro, eu jamais teria a coisa mais linda do meu mundo comigo. — Sorri e olhei para trás, Emmett estava adormecido no banco
— Não sou capaz, Mandy, não agora. Todas as vezes em que ele aparece, eu te perco.
— Você não vai me perder. Nunca.

Apoiei minha mão sobre a do meu irmão e lhe fiz carinho. Então era isso? Ciúmes? Aproveitei que ele parou no semáforo e lhe dei um beijo estalado no rosto. Kendall sabia cuidar de mim — apesar de exagerado -, mas isso não seria o bastante para me proteger de tudo que estava prestes a acontecer. Reencontrar James foi como um terremoto que desestabilizou minhas funções vitais e eu sabia que dormir essa noite seria uma missão impossível já que a cada vez que fechava os olhos o sentia perto de mim, tão perto que poderia beijá-lo pela última vez.