– O que o titio Jay disse, mamãe? — Emmett apareceu encolhendo-se na porta. Os olhinhos estavam cheios de lágrima e sua boquinha tremia.
– Emmett.. — Amanda balcubiou e apressou-se em ir em direção ao filho. Ela colocou as mãos na boca reprimindo um choro enquanto abaixava-se na direção do pequeno.
– O meu papai não é meu papai? — Ele esfregou os olhinhos ao passo em que a pontinha de seu nariz ficava vermelha. Eu estava pasmo, atado ao chão e a sensação de que uma estaca estava entrando pela minha garganta e saindo pelo meu rabo era evidente. Eu estava fodido... Mesmo.
– Oh meu Deus, Emmett... — Kendall estava buscando palavras para reverter
– Emm, vamos lá para fora com a titia. — Savannah tentou de alguma maneira também
– Não, deixe-o aqui. — Mandy pediu em um fio de voz. — Acho que nós três precisamos conversar ... Civilizadamente — Ela completou encarando a mim e Mehmet.
– Vamos deixá-los a sós — Savannah disse à Kendall puxando-o delicadamente pelo braço. Meu cunhado ainda mantinha os olhos arregalados tão abismado quanto eu.
– Me diz a verdade, mamãe. Você sempre disse que mentir é feio. — Emm pediu ainda com os olhos aguados
– Vem cá, meu anjinho — Ela disse pegando-o no colo e colocando sobre sua própria cama. — Vocês dois venham também — Ordenou
Aproximei-me um pouco sem graça, me sentindo um intruso em minha própria pele. Mehmet fez o mesmo e me olhou de rabo de olho enquanto cruzava os braços. Ele parecia extremamente mais preocupado com Emmett, apesar de não ter aberto a boca para dizer nada sobre a descoberta.
– Tio Jay — Meu filho disse — Você não é meu titio?
Olhei para baixo. O que dizer em um momento como esses?
– Emm — Amanda tentou obter sua atenção salvando-me da pergunta — Quer saber a verdade, não é?
– Quero
– Posso te contar uma histórinha, então?
– Pode — Ele respondeu escondendo-se no pescoço da mãe ainda confuso pela bomba
– Era uma vez uma menina bem novinha que amava muito um moço bem bonito. Eles se gostavam bastante e essa menina de tanto que amava o moço ficou grávida. Mas ela e o namorado brigaram, brigaram bem feio sabe? E ai ela foi embora e ficou na casa de um amigo bem especial que a ajudou a cuidar do bebê. Esse amigo gostava muito da menina e do filhinho dela também, então ele ajudou e se tornou o novo pai desse menininho que nasceu. A mamãe do menino sentia falta do papai de verdade, mas ela tinha medo de dizer pra ele e ele ficar bravo.
– E o papai de verdade não quis ficar perto do menino? — Emm perguntou e desviou o olhar para mim. Meus olhos se inundaram e eu percebi que estava chorando. Mordi minha boca com força tentando ser forte o bastante para não desabar.
– É claro que ele queria. O papai de verdade amava muito muito muito o menino. — Amanda mentiu, eu sequer sabia de sua existência — Mas ele e a mamãe ainda estavam brigados, então não podiam se ver.
– E por que o papai brigou com a mamãe?
– Porque o seu papai estava tendo um momento dificil e a mamãe também — Mehmet interviu defendendo-me. Como é que é?
– Então eu fui parar na barriguinha da mamãe porque ela amava muito o meu pai de verdadinha?
– Isso, meu amor — Amanda respondeu
– E como que eu parei lá?
– Quando duas pessoas se amam de verdade, eles fazem amor e ai uma sementinha do papai fica na barriga da mamãe. — Ela tentou explicar com todo o cuidado
– Eu sou uma sementinha dele? — Emmett apontou para mim receosamente
– Não. Você é um pedaço meu. — Respondi aproximando-me um pouco mais até segurar sua mãozinha — É um pedaço que eu sinto muita falta.
Meu filho permaneceu calado por alguns instantes. Seus olhinhos pareciam buscar respostas nos rostos ao seu redor com tamanha necessidade como se a dúvida fosse seu impulso de vida.
– Por que vocês mentiram pra mim? Todo mundo diz que mentir é feio, mas os adultos mentem.
Emm tirou a mão da minha e colocou-a no rosto começando a chorar. Olhei para Amanda que fungava enquanto lágrimas lhe escorriam pela face e ela apenas suplicou com o olhar para que eu fizesse algo. Tão indefeso quanto a criança diante de mim, o peguei em meus braços apertando-o contra meu corpo para consolar seu choro.
– Shhh, eu estou aqui. Eu estou aqui. — Murmurei enquanto o balançava devagar aninhando-o junto a mim — Eu nunca quis te deixar, eu nunca quis que crescesse longe de mim.
– Eu sei que você não me deixou, tio Jay. — Ele disse finalmente colocando os bracinhos ao meu redor — Mas estou muito triste porque todo mundo mentiu para mim.
– Ninguém quis mentir, Emmett. — Amanda chegou mais perto mexendo nos cabelos do nosso filho
– Mas mentiu, mamãe. Não ligo de ter dois papais, só não quero que os adultos sejam tão malvados!
– Sua mãe não foi malvada, eu e ela estavamos brigados na época — Justifiquei e
– Por que me deixaram chamar de titio, então?
– Porque você é um garotinho muito especial e nós não queriamos te deixar triste.
– Me deixaram do mesmo jeito — Ele moveu-se no meu colo emburrado — Me coloca no chão, tio Jay.

Eu fiz o que meu filho pediu e o vi bater o pé pelo quarto até sair porta a fora. Emmett estava agindo como em um filme hollywoodiano e apesar da cena ser clássica, eu podia entender seu momento de reclusão, de querer estar sozinho e de pensar a respeito. Não iria atrás do pequeno, ao menos não agora. Ele precisava considerar tudo que lhe foi dito e elaborar dentro de si as angustias criadas. Neste instante, naquele cômodo espectador de tantas cenas marcantes, restava o trio que diversas vezes causou dor um ao outro. Restava o filho da puta que dera inicio a isso tudo.
– Isso tudo é culpa sua. — Vociferei contra Mehmet
– Minha? Você quem veio me agredir. — Ele defendeu-se
– Porque você veio até aqui cuspir em cima de mim todos os meus erros de anos atrás. Eu vou te dizer pela última vez: eu não sou o mesmo homem! Já entendi que você amou Amanda por muito tempo e que a cuidou, mas agora EU vou fazer a minha parte. Estamos entendidos?
– James, para — Amanda pediu ainda com a voz baixa — Mehmet, por favor, vá embora.
– Mas Mandy...
– Olha, ninguém teve culpa de nada por aqui. Acho que já tivemos problemas demais e o ideal é esperar que a poeira abaixe. — O libanês pareceu relutante — Por favor. — Ela pediu
– Tudo bem. Ligo mais tarde para saber como Emmett está.
Mehmet saiu do quarto sem esperar uma resposta. Eu pensei que fosse bater a porta ou coisa do tipo, mas ele manteve o cavalheirismo tão característico. Porra, até pra dar um ataque o cara tem que parecer ter saído de um conto de fadas? Tomar no cú.
– Você exagerou hoje. — Minha noiva disse. Seu tom de voz era seco e ela não me olhava nos olhos.
– Não pude suportá-lo dizer na minha cara que eu não seria capaz de amá-los ou cuidá-los. Vocês são minha vida, Amanda. Será que não enxerga isso?
– Eu enxergo, James. No entanto, agredir Mehmet dentro da minha casa sabendo que nosso filho poderia ver foi muito descontrole da sua parte.
– Eu sei, meu amor. Me desculpe. — Tentei me redimir e dei um passo à frente procurando maneiras de me aproximar — Não costumo agir assim, ao menos não mais. Sei que deve estar pensando que sou o mesmo de antes e todas aquelas loucuras que sempre pensou mas...
– Shhh — Ela colocou o indicador em meus lábios selando-os enquanto me interrompia — Eu não estou pensando nada disso. Met não agiu certo vindo até aqui, mas entendo que ele estava tentando alertá-lo a respeito de como deveria se portar. Ele de alguma maneira procurou pelo que aconteceu e, mesmo não apoiando a atitude de nenhum dos dois, não posso te culpar pelo que sucedeu.
– Então não está com raiva de mim? — Ergui uma sobrancelha incrédulo
– Estou chateada, mas não com raiva. Minha preocupação com Emmett é tão grande que não consigo desviar a atenção para outras coisas. Tomamos tanto cuidado acerca de como ele saberia e, por fim, foi da pior maneira possível.
– De alguma maneira a culpa também foi minha. — Assumi
Era verdade. Ter agido em prol dos meus impulsos e da minha gana de acabar com a pose de soberania de Mehmet fizeram com que eu despertasse a atenção de todos, o que atraiu Emmett para perto de nós e fez com que escutasse tudo que não deveria.
– Jay...
– Se eu tivesse me controlado mais ou ignorado tudo que disse, as coisas não chegariam à esse ponto.
– Se foi a hora dele saber, não haveria o que pudessemos impedir. — Ela rendeu-se sentando na cama derrotada. Sentei-me ao lado da mulher que amo envolvendo-a em um abraço lateral e protetor transmitindo-lhe a segurança de que eu estaria ali não importa o que acontecesse. Mandy apoiou a cabeça em meu ombro e eu beijei-lhe a testa em sinal de respeito e abrigo. — Você acredita em destino, amor?
– O que disse? — Perguntei no intuito de que ela repetisse a pergunta
– Acredita que há um destino que nos trouxe até onde estamos? Acredita que Emmett deveria ter descoberto assim?
– Eu não sei. O destino seria cruel com uma criança? — Destino? EU fui cruel com meu próprio filho.
– Não houve crueldade. Te repeli tantas vezes por medo de fazê-lo sofrer e, bem, olhe para nós!
– Nosso filho é uma criança, vamos saber ajudá-lo a entender isso.
– Eu só não quero que o faça escolher, James. Não o force a optar entre você e Mehmet.
– Não farei isso.
– Me prometa! — Seus olhos castanhos buscaram os meus
– Eu te prometo, não se preocupe — Garanti com toda a certeza do mundo. Apesar de não suportar a presença daquele homem, eu não poderia tirá-lo de perto do meu filho completamente. Ao menos não dessa maneira.

**

Saber que Emmett estava magoado era imperdoável para mim. Eu estava entre matar o mundo ou matar a mim mesmo pelo erro cometido. Acho que de todas as dores que causei e de todos os sofrimentos que presenciei, não há nada pior do que ter um filho sofrendo diante de um pai. Vê-lo chorando foi decepcionante, cada lágrima parecia sangrar dentro do meu peito deliberadamente e o pior era saber que todos meus esforços para resgatar sua alegria seriam em vão. Quando saí da casa de Amanda tentei ao máximo vê-lo, mas Kendall não permitiu qualquer aproximação alegando que eu havia estragado tudo. Quem é ele para opinar em alguma coisa? Todavia, ao invés de debater, engoli todos os desaforos que vieram à ponta da minha lingua e me calei. Não valia a pena, não hoje. Assim que cheguei em minha própria casa tomei dois analgésicos para dor de cabeça e deitei no sofá, eu precisava de um bom sono nem que fosse para tentar esfriar a cabeça depois de todo o tumulto gerado durante o dia. Dormi sabe-se lá Deus por quantas horas até que as repetidas batidas na porta me acordaram. Levantei esfregando as mãos no rosto tendo certeza de que ainda enxergava tudo embaçado e abri a porta.
– Papai, posso ficar aqui com você? — Emmett perguntou.
Sua mochilinha vermelha estava nas costas, seu corpo pequeno e indefeso provavelmente havia percorrido as ruas sozinho. Emmett havia fugido?