Heaven In Your Eyes
79 Hug Me
Notas iniciais
– Emmett? O que está fazendo aqui? — Me desesperei. Mas que horas são, afinal?
– Não conta pra mamãe que eu to aqui.
– Espera. Primeiro você tem que entrar, está bem? — O convenci chegando para trás dando passagem ao meu filho
– Você não vai brigar comigo, né?
– Depende. Você errou em sair assim, não errou?
– Errei — Ele disse sentando-se no sofá sentindo-se o dono da casa e, na verdade, era mesmo — Mas a mamãe errou mais ainda em ter mentido. Eu to muito triste com isso.
– Triste por eu ser seu pai?
– Não, triste por não terem dito pra mim. Eu sempre gostei tanto de você, tio Jay. Por que não podiam dizer logo?
Tio Jay? De novo?
– Porque eu e sua mãe estávamos buscando uma maneira de dizer sem te machucar.
– Mas machucou aqui oh — Emmett apontou para seu coração — Eu sempre vi vocês brigando e nunca entendi.
– Agora entende?
– Mais ou menos.
Sentei-me ao lado do meu filho e o puxei para o meu colo abraçando-o como se meus braços fossem asas protegendo-o, como se eu pudesse de alguma maneira ser seu anjo da guarda. Beijei-lhe a testa com ternura e apertei-o um pouco mais.
– O que posso fazer para você se sentir melhor? — Perguntei tentando ser útil
– Você pode brincar comigo.
– Brincar contigo? — Indaguei surpreso
– Você é meu pai, não é mesmo? — Não era uma pergunta, era apenas uma reafirmação.
– Sim, é claro que eu sou.
– Então brinca comigo, por favorzinho?
– Brinco — Respondi ainda estranhando o pedido. Emmett tirou da mochilinha dois bonecos de heróis de ação e entregou-me um.
– Aqui, esse é você. Pode ser o papai?
– Posso.
– Então eu vou ser o filhinho, tá?
Concordei e Emm começou a simular uma brincadeira onde o personagem dele feria-se em batalha exatamente no coração. Em sua fantasia, ele pedia-me que o salvasse e meu dever, como pai, era fazê-lo. No lúdico e através da história contada, Emmett estava me dizendo claramente o quanto precisava que eu fosse aquele que estaria ali para socorrê-lo, salvá-lo e ajudá-lo. Eu deveria estar presente e ser seu pai não importa o que acontecesse. Por meio das brincadeiras, essa era uma chance de reafirmá-lo a convicção de que eu não era apenas o tio Jay, como também o homem disposto a curar-lhe o coração partido.
– Remenda aqui, tio Jay. Você tem o remédio, não tem?
– É claro que eu tenho. Os outros heróis não sabem, mas eu tenho o pote do super pai com o remédio milagroso.
– Então cura logo, super pai — Ele pediu orgulhoso — Tá doendo muito.
E estava, é claro que estava. Era curioso como, por meio de brincadeiras, uma criança era capaz de dizer tanto. Eu curei seu personagem e a brincadeira logo chegou ao fim. Emmett parecia satisfeito com a ideia de termos compartilhado um momento juntos, mas para mim aquela havia sido uma oportunidade de dizer-lhe que eu sempre resgataria seu pobre coração de qualquer lamuria.
– O que acha de um lanche heim?
– Milk shake de novo? — Seus olhos brilharam
– Vou te dever essa, campeão, está tarde. Posso pedir uma pizza, o que me diz?
– Pizza, tio Jay? Quero fazer bagunça.
– Ah é? Bagunça?
– Aham, bagunça bagunçona! — Gargalhou
– Quer dizer que eu tenho um filho bagunceiro? — Cheguei mais perto fazendo-lhe cosquinha na barriga
– Para, titio, para — Ele pediu tentando tirar minhas mãos em meio a divertidas risadas — Sério, papai, eu to sem ar.
– O que me disse? — Perguntei parando com as cócegas
– Eu disse "papai". Já tinha dito antes. Você é meu papai, tio Jay.
Não pude deixar de rir. Emmett definitivamente ainda estava confuso e eu não forçaria que ele me chamasse de uma maneira ou outra. Isso viria expontâneamente e aos poucos, eu apenas teria que aceitar e deixar que o tempo o trouxesse cada vez para mais perto de mim.
– Tudo bem. Bom, que bagunça quer fazer?
– Quero cozinhar e sujar a cozinha toda.
– E você sabe, por acaso? — Ergui uma sobrancelha desafiando-o
– Não. Você sabe? — Meu filho ergueu-a também imitando-me. Estávamos idênticos um ao outro.
– Não mesmo. Que falta sua mãe faz. Acho que deveríamos chamá-la.
– Não, por favor. Ela vai brigar comigo. Quando acordar e ver que não estou na cama, vai começar a chorar. — Emmett abaixou a cabeça sentindo a culpa
– Então vamos ligar para ela e evitar que ela chore, né? A gente poderia avisar.
– E se ela brigar? — Seu tom era choroso
– Sou seu pai, te protejo. Posso dizer que te peguei para um passeio, tudo bem?
– Não, tio Jay, sem mentiras. — Emm cruzou os bracinhos como se fosse me dar uma bronca
– Esse é meu garoto! Tudo bem, sem mentiras. — Baguncei seu cabelo e segui até o quarto para pegar meu celular.
De dentro do cômodo e esperando que Emmett não estivesse ouvindo atrás da porta, disquei o número da minha noiva. Não demorou para que a voz sonolenta atendesse do outro lado da linha.
– Alô — Um bocejo seguiu a palavra
– Boa madrugada, bela adormecida — Brinquei
– Boa madrugada, amor. Você pode esperar um minuto? Tenho que ver onde Emmett está.
– É exatamente isso que eu vim te dizer.
– Como assim? — Seu tom mudou
– Esse pimpolho veio parar aqui em casa.
– O QUE? COMO ASSIM? — Ela gritou e, se bem a conheço, sentou-se na cama e já estava tremendo.
– Bom, ele já veio algumas vezes e até na primeira veio sozinho. Somos vizinhos, não foi um trajeto tão longo.
– James, não ironize!
– Não estou ironizando, amor.
– Eu vou ai agora mesmo deixá-lo de castigo até os oitenta anos!
– Mandy, aos quinze ele certamente já vai estar com o pau dentro de alguma menina, o castigo não vai ser considerado. — Brinquei para descontraí-la, mas acho que não tive resultado
– Exatamente como você, não é? — Recebi a patada
– Amor, eu estou brincando — Falei pausadamente
– Desculpa, só estou nervosa. Está tudo bem com ele? Chegou inteiro?
– Sim, minha vida.
– Sem arranhões? — Certificou-se
– Sem arranhões. — Garanti
– Nenhum estranho ofereceu doces?
– Não que eu saiba. — Como eu poderia saber, afinal? Só Amanda mesmo para ter essas ideias.
– Você não perguntou?
– Não ...
– James!
– O que? Amor, ele não está faltando pedaços, os olhos não estão juntos, as pernas estão assimétricas e os rins estão no lugar.
– James, Emmett tem cinco anos.
– Sim e ele fugiu de casa. Já entendi a gravidade, mas ele está bem. A questão é: precisamos de uma super mãe no clã dos super heróis.
– O que? — Ela pareceu não entender
– Queremos você aqui.
– Eu vou mesmo! Tenho que buscar esse baixinho, ele tem aula amanhã.
– Não amor, não para isso. Vem pra cá? Traz roupa e dorme aqui. O Emmett já trouxe as dele.
– Ele foi de mala e cuia?
– Com certeza, aquela mochila vermelhinha.
– Esse garoto está cada dia pior. — Lamentou — Você tem noção de quão levado ele tem andado?
– Não reclama, Amanda Conelly futuramente Diamond, apenas venha.
– Está mandão assim? — Ela finalmente ficou leva e riu
– Ah estou! E você sabe que eu posso mandar muito mais do que isso — Brinquei novamente — Sério, amor, eu e Emmett estamos desnutridos. Precisamos de comida!
– Me querem apenas por comida? — Ela fingiu-se ofendida
– Bem, eu realmente estou interessado em qualquer coisa que relacione "você" e "comer".
– Tarado. Chego ai em vinte minutos, pode ser?
– Muito tempo. Vamos morrer de desnutrição, amor. Quando chegar só vai restar os ossos!
– Se estivessem com tanta fome assim, tinham ido comer algo na rua. Sejam pacientes, homens da minha vida! Amo vocês.
– Também te amo.
Desliguei a ligação e sai do quarto. Emmett estava do lado de fora do quarto com as mãozinhas para trás do corpo. Suas bochechas estavam vermelhas.
– O que foi que está com essa carinha de quem aprontou?
– Você é canibal, papai? — Ele arregalou os olhos
– Por que está perguntando isso? — "Você vai se arrepender de ter perguntado", algo me avisava.
– Porque você disse que quer comer a mamãe.
– Não, eu disse que quero que ela venha fazer algo para a gente comer. — Menti tentando contornar a situação
– Disse sim, mamãe diz que eu escuto mais do que devia.
– Você é um fofoqueirinho — Apertei a pontinha do seu nariz
– Ela diz isso também — Ele resmungou — Pai.
– Eu mesmo.
Ah, como fazia bem ouvir isso. "Diga de novo, diga de novo!", minha vaidade implorava.
– Posso fazer uma pergunta? — Ele disse enquanto voltava a caminhar para a sala
– Claro que pode.
– O que é um engravidador de mocinhas? *
– Um o que? — Ri sem entender
– Tio bababa falou assim de você uma vez.
– Ele falou assim porque eu deixei sua mãe grávida de você.
– E isso foi ruim? — Ele fez uma careta
– Não, claro que não. Você foi o melhor presente que eu ganhei.
– Melhor que um xbox?
– Bem melhor que um xbox.
– Então eu também quero um filho, tio Jay.
– Não mesmo, rapaz. Está muito cedo para isso!
– Cedo demais? — Sua careta ficou maior ainda — Mas eu vou ter filhinhos, né?
– Quantos quiser.
– E eu vou poder ficar perto?
– Vai e eu vou estar perto também.
– Para sempre?
– Para sempre.
– Papai Jay? — Ele chamou-me
– Sim.
– Me dá um abraço?
Abaixei-me na altura do meu pequeno e envolvi seu corpo com o meu. Eu, por vezes, parecia sua capa protetora impedindo que qualquer mal o atingisse. Emmett era tão pequeno, frágil e delicado que merecia todo o amor do mundo. E eu? Bem, eu estava disposto a dá-lo, não importa o que fosse preciso.
Fale com o autor