Notas iniciais
Segundo capítulo atrasado, compensando o dia 10. Faltam apenas dois, meninas e meninos da titita ♥

– Conversar? — Questionei franzindo a testa — Está tudo bem?
– Não, não está. — Ele disse e percebi que o tom de calma não estava em sua voz. Poucas, talvez quase nulas, foram as vezes em que o vi dessa maneira. Mehmet aproximou-se sentando-se ao meu lado e eu foquei minha atenção em seu rosto preocupado.
– Se for pelo fato de eu e Emm termos saído com James hoje...
– Não só por isso — Ele interrompeu-me — Vocês dois possuem uma história que eu já não posso e nunca pude interromper. Veja bem, não que essa tenha sido minha intenção. Eu vim a Nova York depois de tantos anos em busca da mulher que amo, em busca de ti. — Proferiu enquanto segurava minhas mãos entrelaçando nossos dedos — Eu sabia claramente que não sentia nada mais por mim, que não seria capaz de casar-se comigo nem agora e nem nunca. No entanto, permiti que voltasse porque era o certo para você, porque precisava enterrar seus demônios ou até mesmo revivê-los e foi isso que você fez. Entendo que sua vida agora está direcionada a uma outra pessoa e que você e James tem que recomeçar nem que o façam centenas de vezes.
– Onde está querendo chegar? — Perguntei receosa da resposta
– O que quero dizer é que vim a Nova York por sua causa, mas não apenas por isso. Vim por Emmett, porque sinto saudade de vocês dois e porque passei seis anos da minha vida protegendo-os. Ter ficado no Líbano tanto tempo afastado foi como perder meu único objetivo de vida que era justamente tê-los sob minhas asas para sempre. Eu vim até esse país tão distante para cumprir meu papel como pai e como seu companheiro, mas agora esse lugar já está ocupado. James está na posição que tanto exigiu, não é mesmo? — Ironizou — Deixe-o permanecer nela.
– Mehmet... — Murmurei sem saber se pedir para ficar seria alimentar suas esperanças. — Eu...
– Você está confusa, eu sei. — Ele voltou a interromper-me — Percebi que estava dividida assim que cheguei, mas agora sua decisão está tomada e você fica entre a cruz e a espada porque teme perder-me.
– Exatamente — Confessei encarando o chão com medo da retalhação que poderia vir mas, ao contrário, meu ex noivo abraçou-me com ternura beijando o topo da minha cabeça calmamente.
– Você não vai estar jogando fora nada do que vivemos nos anos em que você foi minha. Eu ainda preciso de um tempo para assimilar tudo e até mesmo para preparar Emmett mas, por hora, gostaria de não ficar mais na casa da sua família.
– Não, não mesmo. Eu fiquei na sua casa por anos, Met!
– E justamente por isso não tem que se sentir na obrigação de retribuir na mesma moeda. Eu cuidei de você porque são meus princípios! Minha cultura preza pela felicidade nas minimas coisas, pelo respeito, pela dedicação, pela humanização e eu posso me sentir contente por ter lhe estendido a mão sem nada em troca. Lhe cuidei não apenas por te amar, mas porque faria isso com qualquer mulher em perigo.
– Não fale como se eu fosse uma donzela em perigo — Resmunguei com meu rosto contra sua camisa, o que o fez rir.
– Tudo bem, não vou me referir dessa forma. Todavia, você precisa seguir.e continuar sua vida sem minha presença.
– Eu não vou permitir que vá embora.
– Mas eu irei em algum momento, nunca tive pretenção de mudar-me para os Estados Unidos.
– E Emmett? E eu?
– Vocês construirão uma nova família.
– Mehmet, isso não é certo.- Deslizei minha mão devagar pelo meu rosto limpando uma lágrima rapidamente. Met acolheu-me por tanto tempo, cuidou não apenas de mim como também deu um nome e uma vida digna à Emmett. Como posso agora agir com tamanha ingratidão quando sei que tenho consigo uma divida eterna?
– Vamos tornar isso fácil para nós três, por favor. Eu já arrumei meus pertences e consegui uma reserva emergencial no Cosmopolitan. Pretendo ficar lá por mais um mês ou um pouco mais e então partirei.
– Met, não faça isso. Você pode e deve ficar aqui.
– Minha presença anula suas chances de continuar. Acha mesmo que James vai descansar enquanto eu estiver por perto? Eu não descansaria.
Encolhi os ombros, ele tinha razão.
– Falarei com Emmett para que venha se despedir.
– Não, por favor. Nessa idade ver pessoas indo embora pode não ser algo bom, ele pode achar que o estou abandonando e não estou. Deixe-o terminar de assistir televisão, diga que precisei sair para resolver umas coisas e amanhã virei vê-lo para explicar que estou em um hotel. Só quero, por favor, que me ajude a tornar esse desapego algo gradativo.
– Vai ser dificil.
– Para quem? — Indagou com uma sobrancelha erguida
– Para Emmett e, claro, para mim.
– Você tem braços a consolá-la, a mim resta o vazio.
– Met, não fale dessa forma. Parece que de alguma maneira me culpa!
– Eu não sou de ferro, Amanda. Entendo sua situação e meu amor por você é o suficiente para compreender tudo que tem acontecido, mas é cristalino que estou magoado. Acha mesmo que eu não gostaria de voltar à meses atrás quando estavamos nós três na minha casa sendo uma família de verdade? Acha realmente que eu não queria o meu lugar de volta? Eu queria. Eu quero. Só que não é meu!

Mehmet levantou-se e tratou de ajeitar a coluna tentando forçar a postura para parecer forte. Eu continuei sentada, desbundada, procurando o chão sob meus pés metaforicamente. Porra, eu ia mesmo deixar um dos meus melhores amigos e meu fiel escudeiro ir embora da minha casa como um cão sarnento? Met deu alguns passos afastando-se e foi ate a sala de jantar, trazendo consigo as malas. Nesse instante percebi que elas já estavam ali esperando por nossa conversa, por nosso quase adeus e pela certeza que ele tinha de que eu permitiria que fosse embora. Então ele sabia, sabia que eu não impediria! Essa realidade caiu como um peso sobre meus ombros, assim como a palavra ingrata bailava livremente em minha consciência sobrecarregada.
– Eu tenho que ir — Ele murmurou sem jeito puxando a mala atrás de si
– Tem certeza?
– Tenho.
– E o taxi? Como vai até o hotel? — Levantei-me tentando parecer útil
– Já está me esperando. Aliás, estava tudo pronto apenas esperando por você. Promete que vai se cuidar?
– Prometo. Promete que vai vir aqui sempre?
– Quão sempre?
– Não sei, sempre que der. Ainda vai estar em Nova York, não é? — Escondi as mãos nos bolsos parecendo uma menininha envergonhada que implora por algo.
– Claro. Eu não estou indo embora definitivamente, Amanda.
– Isso é um alivio — Me permiti sorrir
– Nos vemos amanhã?
– Com certeza — Afirmou antes de caminhar até a porta e fechá-la atrás de si.

Eu gostaria de tê-lo abraçado e demonstrado algum tipo de afeto, mas se o próprio Mehmet — que sempre fora tão gentil comigo — havia mantido uma distância segura entre nós, esse devia ser um indicador de que as coisas não estavam fáceis e que qualquer atitude minha poderia feri-lo ainda mais. Além disso, eu já estava sendo tiranizada pela minha consciência que insistia em dizer o quanto havia errado com o homem que me dera tanto afeto, ternura e compaixão quando mais precisei. A sensação de que minha felicidade automaticamente vinha acompanhada do sofrimento e tristeza de alguém que amo era um fardo pesado de carregar, um fardo pesado o suficiente para me fazer questionar minhas próprias atitudes. Acho que, por fim, cheguei a uma encruzilhada onde se sigo para James — minha verdadeira paixão e aquele que apesar de errado parece ser tão certo — corro o risco de destruir em pedaços o coração de Mehmet. E se sigo para Mehmet — aquele que me acolhera, que fora como um anjo da guarda e que parece ser moldado para mim tamanha a maneira com que me faz bem — assumirei os riscos de perder um amor intenso e antigo. Cada caminho me leva a uma vida. Em uma, sou capaz de ter a felicidade apesar dos momentos tempestuosos e dos autos e baixos. Em outra, consigo encontrar a calmaria, a paz, a tranquilidade e a felicidade como em um nirvana. É como escolher entre a cidade e o campo, entre correr por horas e nadar em um rio em um dia de calor; é como cair de cabeça em um salto de paraquedas ou simplesmente não saltar porque a segurança me cai bem. Ainda assim, escolhendo ferirei a opção descartada e não escolhendo me mostro incapaz de amar mais a um ou outro. James é meu verdadeiro amor, é o homem que compreendi depois de meses que amo independente de quem aparecer em minha vida. Essa escolha foi feita! Consciente ou inconscientemente, eu o escolhi! Ainda assim, como lidar com a culpa de ver sair pela minha porta a opção mais saudável de toda a minha história?