Heaven In Your Eyes
53 Overreact
Notas iniciais
JAMES POV:
Então era isso? Amanda havia mesmo cruzado a porta no dia anterior garantindo-me que havia escolhido por Mehmet? Desculpe, mas ainda não sou capaz de me convencer de tamanha mentira. Tenho que admitir que os últimos dias foram confusos o suficiente e que posso ter sido levado por um sentimento maior do que meu corpo jamais conseguiria controlar: o ciúme. Meus ciúmes envenenam minha vida e minha paz. Eles vão correndo por minhas veias queimando-me, dominando cada pensamento, minha forma de respirar e até mesmo meus batimentos cardíacos, até que a minha razão não aceita mais essa obsessão que dói. Por vezes parece que são punhais cravados no fundo da minha alma e que vão me destruir, são mais que uma loucura que me afunda na amargura de um amor irracional. Eu tento não ligar, tento dizer pra mim mesmo que não é nada e que vai passar, mas como de imediato um nó cresce em minha garganta, meu coração se aperta e me pego pensando “porque?”. Tento culpá-la, me convenço que meu amor não é o suficiente e logo se torna um momento de auto piedade e acusação no qual eu sou o único réu. Minha mente discute consigo mesma como em desenhos animados nos quais um anjo e um diabo debatem, até que me culpo novamente por esse ciúme obsessivo que parece consumir-me inexplicavelmente. Eu sei, sei muito bem o que dizem sobre o ciúme ser mais amor-próprio do que verdadeiro amor, mas e se eu não estivesse simplesmente pronto para perdê-la? Nossa história sempre fora conturbada, repleta de desvalorização, sofrimento e humilhações vindas de ambas as partes. Eu, principalmente, fui o maior culpado por causar-lhe feridas que talvez jamais venham a cicatrizar. Até que ela se foi, se foi levando comigo toda a alegria e entregando-a a alguém que — por mais que eu tente me enganar dizendo que não — a merece muito mais do que em algum momento na vida irei merecer. Desde então eu me fechei, não quis que ninguém mais visse meu coração, pois estava cansado de mostrá-lo vazio, complicado e solitário o tempo inteiro e então a tive de volta, dando a mim mesmo a chance de entregar em suas pequenas mãos a chave que abriria as portas de todos os sentimentos que tenho. Sei que não posso escapar do passado que eu fiz, de todos os erros que cometi e todos os atos que hoje me arrependo mas, sinceramente, eu só gostaria de deixar tudo para trás. Gostaria de ter a coragem dentro de mim para me impulsionar a resgatar nossa história sem o receio de que ela ainda esteja presa a tudo que viveu com aquele cara. Quer dizer, eu tinha essa coragem, eu tive e ia fazê-lo até que a vi naquela noite. É incrível como as coisas são! Você acorda de manhã achando que independente das adversidades poderá ser um dia especial e ai cai em desespero quando percebe que todas as situações saem do seu controle. Acho que não consigo fazer nada sem me machucar. Não consigo cortar uma cebola sem cortar o dedo, não consigo andar num dia de chuva sem tomar um tombo, não consigo conversar sem ouvir algo que doa e não consigo amar sem me magoar. Acho que no final nunca saio inteiro independente da situação, ou nunca a deixo inteira. Será que estávamos fadados a sempre ferirmos um ao outro como verdadeiros porcos espinhos que quando juntos se espetam? Não é isso que planejei. Aliás, nada do que tem acontecido estava em meus planos e se esse é um jeito de Deus brincar com o meu destino, por favor, que pare.
Ter bebido no sábado com Chuck fora a maior estupidez do ano. Eu sei lá, acho que no fim das contas eu só gostaria de perder o controle porque não conseguia esquecê-la, perdê-la ou rejeitá-la. Creio que tentei inutilmente calar os monstros em minha mente com uma quantidade generosa de bebida até que toda a podridão dentro de mim se esvaísse pelo meu corpo. Eu estava mesmo tentando fugir dos demônios que me assombram sem me dar conta que eu mesmo era um deles. No dia de domingo dormi, acordei, dormi de novo, voltei a acordar e dormi novamente. Parecia um ciclo vicioso no qual cada vez que ousasse despertar, teria que dormir. Era uma expectativa de escapar — mesmo que seja um pouco — de estar acordado e encarar minha cara de canalha no espelho. A quarta tentativa foi falha e despertei. Despertei e permaneci deitado como se pudesse enganar a mim mesmo que meus olhos estavam abertos ou então apenas estava esperançoso de que o sono poderia voltar a meu corpo e salvar-me. Mas não voltou, eu já havia dormido o meu limite e doía crer que teria que levantar. Acredite, amar vai te deixar acordado a noite por culpa de uma insônia que não irá embora — ou te fazer fugir para um mundo de sonhos como tentei — , vai te dar um coração partido cheio de buracos a serem consertados, vai te proporcionar altas doses de vodka pura seguida de horas passando mal na esperança de esquecer a dor. Amar vai arrancar um pedaço da sua alma, mais um pedaço do seu amor próprio e outro do seu orgulho. Vai te jogar no fundo do poço, despir sua felicidade, roubar-lhe os últimos sorrisos. Vai matar sua fé, sua esperança, seu eu e no final, mesmo com tudo isso, cometerás o mesmo erro. Por que? Por que eu continuo cometendo? Porque mesmo sendo idiota o suficiente eu quero que Amanda esteja ao meu lado, a quero envolvendo seus braços ao meu redor abraçando-me da forma mais apertada que puder. Tudo que preciso quando meu coração está machucado é do seu amor e da maneira mágica com a qual consegue juntar os pedaços mesmo quando sou eu quem a quebra constantemente. Se ao menos tivesse a oportunidade de entrar na sua mente e conhecer seus pensamentos mais profundos, de invadir seu coração para saber cada pequena mágoa que ali se esconde. Queria até mesmo que ela gritasse e confessasse entre lágrimas salgadas que escorrem de seus olhos toda a dor que nunca pôde dizer, aguentaria até mesmo outra surra do maldito velho se isso fizesse com que as coisas se tornassem claras entre nós dois. As vezes o "não saber" fazia com que minha mente criasse situações irreais nas quais eu acreditava e meu medo é que meu orgulho estúpido nos separe. Desculpa mas não vou mais esperar, não sei se estou disposto a passar mais um dia plantado vendo nosso castelo ruir novamente. Eu só quero corrigir todos os problemas que causei, me desculpar por todas as vezes que errei, por desistir de correr atrás e pelas palavras imundas. É que as vezes magoa me esforçar tanto e não receber o mesmo empenho de volta, magoa vê-la como uma ostra quando quero lhe oferecer o mar. Ainda assim, todas as minhas súplicas para que desista de mim são um jeito diferente de pedir que não desista nunca. Eu não gosto — e nem quero — sentir essa sensação de vazio que parece me dominar cada vez que sinto sua ausência, não quero entregá-la de bandeja e se por acaso Mehmet foi o escolhido, eu irei lutar pelo meu direito de ter minha família. Foi assim que parei aqui, na porta da empresa musical da família Connelly, encostado no seu carro esperando até seus longos cabelos castanhos serem castigados pelo vento quando ela aparecer e eu sei que aparecerá.
— O que quer aqui? — A primeira coisa que ouvi já pareceu hostil o suficiente, permaneci encostado com meus braços cruzados observando-a da cabeça aos pés. A calça que usava alongava sua silhueta, haviam alguns cachos nas pontas dos seus fios e eles, como previ, moviam-se graciosamente com a brisa. As maçãs de seu rosto estavam coradas e o batom rosado ressaltava sua boca. — Eu te perguntei o que quer aqui.
— Toma — Estendi em sua direção um envelope pardo ainda olhando-a com precisão
— O que é isso? — Ela o segurou e abriu percebendo a quantia em dinheiro — Não precisamos disso!
Amanda empurrou o pacote contra meu peitoral e eu teria desequilibrado se não fosse o carro atrás do meu corpo.
— Pode deixar de ser orgulhosa? Pega isso aqui. — Voltei a entregar-lhe e a vi bufar irritada
— Está pensando que vai me comprar? Eu não sou uma das suas vagabundas.
— Me desculpa, eu sou meio louco e sei disso, mas não estou tentando comprar seu perdão.
— Posso entrar no meu carro? — Ela apontou para o veículo atrás de mim, mas permaneci no mesmo lugar.
— Se não me ama mais e não quer estar comigo, eu entendo. Eu sou um perdedor, mas eu ainda sou pai do Emmett e ainda posso dar coisas pra ele.
— Você nunca vai ve-lo de novo se continuar se comportando como um bêbado.
— Isso não iremos resolver aqui e agora. Só use esse dinheiro para comprar o que ele precisar, por favor.
— Vai me deixar ir embora agora?
— Sim, mas verei meu filho antes mesmo que tente negar isso.
— James...
— Sem "James", eu participei, isso não foi uma produção independente — Dei meu melhor sorriso de canto e seus olhos castanhos focaram minha boca por um segundo, mudando imediatamente a direção para qualquer outro ponto.
— Como quiser — Ironizou fazendo uma pequena reverência
— E você?
— Eu o que?
— Como está?
— Eu estou bem, muito bem — Reforçou, mas sua voz vacilou um pouco — Faço o que tenho que fazer. Estou estudando, eu cuido do Emm, trabalho aqui, tenho um homem.. É isso que to fazendo, é a minha vida.
— Bem ocupada. — Comentei levando a mão ao meu queixo e o alisei devagar sentindo minha barba por fazer
— É, muito ocupada. — Seus olhos mais uma vez seguiram meus movimentos
— Eu não quero atrapalhar, vou indo. Até depois, Amanda.
Acenei devagar saindo de sua frente e indo em direção ao meu carro. Não olhei para trás para garantir se ela estava prestando atenção em meus passos, mas tenho a certeza de que a única forma de ter minha família de novo é fazendo parte dela seja com ou sem a permissão da minha ex.
Fale com o autor