Heaven In Your Eyes
11 Movin' On
Notas iniciais
– Bom dia, tio Ken! — Emmett gritou ao descer as escadas pulando degrau por degrau. O peguei antes que se estabacasse e fomos até a cozinha. Sorri ao ver meu irmão na mesa do café, ele estava passando geleia no pão e isso fez meu estômago revirar. Definitivamente, nunca fui fã de doce com salgado.
– Bom dia, família. — Ele nos saudou assim que aparecemos. Eu e meu filho nos sentamos ao seu lado enquanto eu respondia ao cumprimento. Preparei um sanduíche para Emm e adicionei um pouco de achocolatado ao seu leite. Ele sorriu satisfeito e deu uma mordida.
– Hm, tá gostoso mamãe! — Emmett disse ainda mastigando
– Que bom, filhote! — Baguncei seu cabelo delicadamente — Agora feche a boquinha, lembra o que a mamãe ensinou?
– Ai, Amanda, deixa o menino! — Kendall revirou os olhos dando um longo gole em sua xícara de café
– Xiu, sossega! — Bati de leve com o jornal em seu ombro, o que fez com que ele me respondesse com uma careta
– Então, está melhor?
– Na verdade, estou sim. Andei pensando e conclui que não posso me esconder ou me abater. Se James aparecer não irei sair pela outra porta ou ignorá-lo.
– Isso seria uma forma de se enganar para ficar perto dele? — Kendall encarou-me
– Não. — Respondi exitando enquanto passava a ponta do indicador na borda do meu copo — Só acho que fugi demais e por muito tempo. Sou uma mulher madura, não uma garotinha que foge por medo.
– Ainda acho que você sente falta dele.
– Tive seis anos para sentir falta, por que diabos isso aconteceria justamente hoje?
– Porque você passou esses anos sentindo falta do "James-engravidador-de-mocinhas", não do babaca que bancou o louco apaixonado ontem. — Emmett olhou para Ken com uma expressão engraçada, o que me fez acreditar que tenha sido pela palavra "babaca" que tanto o fez rir da última vez.
– Apaixonado? Você acha?
– Está vendo! É isso que eu estou falando.
– Não estou encantada por ele, já falei. — Disse deixando meu prato de lado, perdi totalmente a vontade de comer meus waffles. Levantei da mesa sendo seguida pelos olhos do meu irmão.
– Onde vai?
– Caminhar, preciso me exercitar um pouco. Você consegue terminar seu café da manhã sozinho, Emm? — Falei a segunda parte dirigindo-me ao meu filho
– Sim, mamãe.
– Não quer ir junto comigo?
– Não, vou ver Bob Esponja.
– Ah é? Estou sendo trocada pelo Bob? — Fui até ele e o agarrei fazendo algumas cócegas em sua barriguinha
– Para mamãe, para! — Emmett dizia em meio a gargalhadas. Dei uma mordidinha em sua bochecha e o deixei em seguida.
– A mamãe já volta, tá meu príncipe? — Ele assentiu com a cabeça em resposta a mim — Ken, passa o olho nele?
– Pode deixar.
Subi rapidamente as escadas trocando de roupa. Coloquei uma legging preta com um moletom confortável da Forever 21 e nos pés um par de tênis. Sai de casa apressada externalizando em meu rítmo de corrida a energia que estava presa dentro de mim, quase que incrustada. Conforme meus passos se tornavam mais rápidos e meu corpo arfava de cansaço, pude ir pensando na noite anterior e em como James havia mexido comigo de uma maneira inesperada, quase como um imediatismo mágico como aqueles que só acontecem em filmes. Maldito! Será que ele pensava mesmo que seria simples assim? Apesar de ter levado longos seis anos tentando perdoá-lo, não há como perdoar o ofensor quando a ofensa ainda dói dentro de mim. Ainda assim, a maldita pulga já estava aqui atrás da minha orelha junto com a ansiedade que me deixava pilhada e uma parte nada sã de mim insistia em dizer que algo havia de diferente naquele homem. Claro que havia! Ele havia potencializado sua sensualidade em cem porcento e sua lábia havia melhorado muito mais. "Isso, Amanda, lábia. É isso que ele tem: apenas um bom papo, uma conversa fiada e nada de sentimentos", o lado que ainda tinha sanidade gritava.
– MERDA!
Gritei no meio da rua pouco me importando quem ouvisse. As vezes é assustadoramente complicado ouvir a si própria quando existe uma batalha interna dentro de mim e, se eu for esperta o bastante, tenho que calar esse ser estranho e romântico que quer me aproximar do erro. Decidi que seria uma boa hora para parar e respirar fundo. Já estava correndo há quanto tempo mesmo? Nem eu mesma sabia. Essa tentativa de fugir da dor como o diabo da cruz havia até sido um excelente paliativo. Sorri satisfeita com meu objetivo alcançado até que pude observar do outro lado da calçada um cara vestindo um jeans surrado, descalço e usando uma regata preta que evidenciava seus braços definidos. Ele se abaixou perto do porta malas de seu carro para pegar uma caixa e entrou novamente em casa, carregando-a para dentro. Apesar de tê-lo visto apenas de perfil e de costas, eu já havia desvendado aquela anatomia anos atrás — e como havia. James acabara de estar em frente a mim sem sequer perceber e meu coração disparou dentro do meu peito querendo sair pela minha garganta e ir atrás dele. "Fique onde está", me peguei falando em voz alta e logo me dei conta de que não sabia se aquela ordem era para mim ou para o estúpido órgão culpado pelas minhas dores sentimentais. Jay voltou bebendo uma garrafinha de água mineral e pude perceber os fones do Ipod em seu ouvido. A forma como seus lábios encostavam na garrafa me dava vontade de tê-los em qualquer outra parte do meu corpo, o que fez com que eu sorrisse lembrando das inúmeras vezes em que ele explorou-me dessa forma. "Será que ele ainda é tão bom de cama assim?", a loba dentro de mim questionou e isso me deixou ainda com mais raiva. Porra, tenho mesmo mais uma voz aqui dentro? "Vá embora, Amanda!", ah sim. Oi sanidade, você por aqui? Tarde demais. Eu já estava atravessando a rua em um movimento que, francamente, não lembro de ter ordenado minhas pernas a fazerem. James estava de costas para mim mais uma vez, virado para dentro do porta malas. O que eu poderia fazer? Continuar correndo até esquecer que o vi? Não. Fugir da dor é a melhor maneira de perpetua-la e eu certamente não queria torná-la ainda mais latente.
– Oi! — Foi a primeira coisa que passou pela minha cabeça. Que diabos eu estava fazendo aqui?
Logo me dei conta de que os fones impediam a comunicação e fiquei em duvida entre puxá-los ou ir embora, mas sorrateiramente estiquei o braço puxando um deles da sua orelha.
– Oi James!
Jay levantou rapidamente assustado com minha voz e bateu com a cabeça na porta do bagageiro que estava sobre si, o que me fez gargalhar.
– Merda! — Ele disse ainda sem me encarar e passou a mão sobre o local onde a pancada havia sido dada. Aos poucos James foi erguendo o rosto e ao me ver a irritação desapareceu. Ele parecia tão surpreso quanto eu com a minha presença. — Amanda!
– É.. sou eu. — Porra, é isso que você diz mesmo, Amanda?
– Caramba, o que está fazendo aqui?
– Eu que pergunto. É mudança? — Apontei para o porta malas
– Sim, comprei essa casa há algum tempo, mas estava protelando para mudar. — Ele disse pondo as mãos nos bolsos. Sexy demais. — E você, hun?
Seus olhos percorreram meu corpo e me lembrei da legging que marca extremamente o corpo, droga! Encostei na lateral da sua BMW e cruzei os braços, não ia permitir que ficasse me cobiçando daquela maneira.
– Nada, só espairecendo. — Dei de ombros. James enfiou de novo metade do corpo no porta malas e eu fiquei sem saber o que fazer. Ele saiu com uma última caixa na mão e me deu aquele maldito sorriso antes fechado e depois aberto que Emmett diversas vezes reproduzia. — Quer ajuda?
– Ah não se preocupe, essa é a última. Quer entrar?
– Não, não. — "NÃO MESMO", o lado são gritava. — Eu tenho que ir.
– Mas eu queria mesmo falar contigo. Você sabe né? Sobre ontem.
– Relaxa, somos adultos e uma hora vamos ter que esquecer tudo isso.
– Você seria capaz de perdoar?
– Não é assim.
– Então não é capaz de esquecer. — Ele concluiu — Vem, por favor. Uma cerveja e te libero!
– Não dá, eu tenho mesmo que ir para casa cuidar do Em... — Interrompi na metade quando me dei conta de que falaria sobre meu filho.
– De quem? — James pareceu não entender
– Do Kendall, ele está pegando uma gripe.
– Hm, certo. Nesse caso acho que será bom sermos vizinhos mais uma vez, nada como os velhos tempos. — Jay disse e expandiu seu sorriso. Ele estava com uma caixa pesada nas mãos, seus braços estavam contraídos, seus músculos gritavam pedindo pelo meu toque e ainda assim ele parecia não estar fazendo o mínimo esforço.
– Sendo assim, acho que terei que procurar uma nova vizinhança! — Brinquei, mas o fundo de verdade estava presente
– Desde que não fuja de mim de novo.
– Ah eu não farei isso, James, acredite.
– É mesmo? — Ele mordiscou o canto da boca sem perceber, como sempre tivera a mania de fazer, e eu tive que desviar o olhar para não parecer derretida.
– Sim, agora eu tenho motivos suficientes para ficar. — Falei já me desencostando do carro — Bom, eu tenho que ir.
– Certo. Nos vemos por aí?
– Quem sabe!
Sorri como uma adolescente flertando e dei alguns passos para trás logo retomando minha corrida. O que eu estava fazendo? Estava flertando com James, com o homem que há poucos dias atrás era capaz de abominar? Achei que o tinha enterrado, mas me dei conta que o coveiro do meu coração estava fazendo uma autopsia desde o momento em que o vi de novo.
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