Heaven In Your Eyes
36 Lying.
KENT POV:
Acho que quando os nossos filhos nascem, desejamos dar a eles tudo o que não tivemos e as vezes por tanto insistir em sermos bons, deixamos de lado algumas outras questões prioritárias. Fui criado de maneira simples, com valores que sempre tive a certeza que passaria a Kendall e Amanda. Eu idealizava que ambos teriam uma carreira de sucesso e conseguiriam ser bons independente de todas as influências que o mundo traz. No entanto, jamais poderia imaginar que ao ser um pai carinhoso, afetivo e que supria suas necessidades financeiras, estaria deixando uma falha quando se tratava de controlá-los de maneira mais rude. Eu nunca fiz questão em ser aquele que proibiria uma saída, que negaria algo ou que seria o carrasco. Minha esposa conseguia suprir esse papel muito bem e, por alguma razão, era mais confortável ser aquele com quem eles poderiam conversar, se abrir e até mesmo encontrar abrigo. Ser uma espécie de paizão, infelizmente, era válido para mim e para meu egoísmo. A verdade é que dentro de mim havia uma certeza de que tinha dado a vida à duas bençãos e tapei os olhos para as festas que compartilhavam, os namoros descontrolados e todo o resto. Quero dizer, eu confiava em Amanda e confiava mais ainda que Kendall estaria ao seu lado protegendo-a de tudo. Pena que me dei conta tarde demais que estava enganado e descobri isso da pior maneira possível.
Ter me dado conta de que Amanda havia ido embora tão deliberadamente sem ao menos saber a razão foi minha fraqueza. A garotinha a quem criei com tamanho cuidado como se fosse uma boneca de porcelana havia saído de baixo das minhas asas e eu havia entrado em desespero. Minha cabeça formulou tantas hipóteses para a fuga — até mesmo que James poderia tê-la convencido a uma escapadela — mas admito que nenhuma delas fora tão drástica quanto a possibilidade de tê-la grávida.
Eu já estava magoado o suficiente, me encontrava ressentido pela partida e quando a verdade me atingiu fui incapaz de encontrar o perdão. Amanda havia falhado ao engravidar, mas sua maior falha fora ir embora. Nós eramos seus pais, a amávamos e por mais que fossemos julgados, gostaríamos de tê-la conosco, de dar o suporte necessário e protegê-la. Eu estava pronto para tentar deixar minha tristeza de lado e ir ao seu encontro quando soube que estava indo embora... Indo embora com um mais um homem, um que havia conhecido recentemente. Nesse momento me dei conta de que minha filha não pertencia a mim. Ela não era mais aquela a quem ensinei a andar de bicicleta, era a mulher de qualquer um, era fácil e estava perdida. Nesse momento a enterrei dentro de mim e para tentar esconder qualquer sentimento fui obrigado a desenvolver uma aversão a tudo que vinha dela. Seria melhor esquecer que em algum momento fizemos parte da vida um do outro. Eu não queria continuar tendo a sensação de que havia criado uma obra de arte para que um maníaco desavisado viesse e a destruísse. Amanda estava destruída e se fosse possível não receberia de mim nenhum carinho ou qualquer outra coisa. Ela havia rejeitado o amor que oferecemos, traído nossa confiança, abandonado seu lar e agora estava indo embora? Era decepção demais e para todos os efeitos estaríamos mortos um para o outro.
Dessa forma, saber de sua presença dentro de minha própria empresa, dependendo de mim, do meu dinheiro e do salário que de alguma maneira saía do meu bolso foi como uma traição pelas costas. Agora que havia voltado precisava de mim? Não. Eu não permitiria que se esgueirasse sorrateiramente para mim e isso foi o suficiente para que a raiva me incapacitasse de pensar. Principalmente quando James apareceu. Aquele garoto metido a rei do mundo, este que anos atrás seduziu minha filha e a levou para um caminho sem volta, aquele responsável por tirá-la do seio de sua família... Nós já tinhamos um acerto de contas pendente e eu não deixaria esse momento escapar por nada. Se me arrependo? De maneira alguma, fez o que meu coração mandou fazer, se é que ainda possuo um.
JAMES POV:
- Eu não vou poder ir te pegar, meu amor. Sei que prometi, mas surgiu um problema aqui em casa e vou ter que ficar. — Menti para Amanda ao telefone enquanto encarava meu rosto diante do espelho. As marcas um pouco roxas já começavam a aparecer e senti piorar quando encostei o gelo sobre o hematoma. Uni meus lábios tentando evitar que um gemido de dor denunciasse meu estado e esperei pela reprovação dela. Sei que havia prometido estar dando o suporte que ela merecia e, como um bom namorado, deveria estar ao seu lado, mas a chatearia mais se visse meu estado deplorável.
— Jay, você me prometeu que viria. — Sua voz parecia entristecida e até mesmo decepcionada. Larguei o gelo em minha pia desistindo de anestesiar meu rosto.
— Eu sei, Mandy, me desculpe por não poder. — Estava envergonhado por abandoná-la e isso fazia meu tratamento se tornar frio sem que eu sentisse.
— Está tudo bem? — Perguntou receosa
— Claro que sim, amor. — Tentei amenizar a situação - Eu que tenho que perguntar isso: está tudo bem?
— Ainda estou um pouco chateada, mas ele não apareceu aqui na empresa e isso me deixa mais tranquila.
— Espero que ele não apareça e tire seu emprego.
A escutei respirar fundo como se estivesse cansada do assunto e respeitei seu limite de tempo.
— Você acha mesmo que não vai tirar? Eu já estou com os pés na rua.
— Não vai não, eu garanto que não vai.
— Como garante? James, do que você está falando?
— Nada, meu amor, só acho mesmo que ele não vai te importunar mais. Afinal, ele é seu pai e não vai fazer da sua vida um inferno.
— Você tem razão — Ela concordou e me senti aliviado por não ter sido descoberto
— Conversou com Kendall sobre isso tudo?
— Conversei. Ele não sabia da vinda de Kent e assim que pudemos conversar, foi imediatamente para casa para tirá-lo de lá.
— Acha mesmo que o Connelly vai embora assim?
— Não sei, mas estou me sentindo desprotegida. Queria que estivesse aqui, que viesse me buscar, nos pegasse para jantar e esquecesse todo o resto.
— Eu também adoraria estar do seu lado. Você sabe que te proteger é minha maior meta, não é?
— Sei Jay e sei o quanto ficou magoado com toda essa situação, mas você não pode comprar uma briga que não é sua.
— Passa a ser minha quando a mulher que amo está com o coração ferido. Eu jamais vou deixar que lágrimas caiam de novo do seu rosto, Amanda, vou te proteger de quem quer que seja, não importa o que eu tenha que fazer.
— Eu te amo, sabia? Não sei o que faria se não estivesse ao meu lado novamente.
— Eu estou e vou estar por muitos anos — Prometi tendo a certeza de que cumpriria — Te amo, minha rainha. Nos vemos depois?
— Quão depois? Não quero demorar a te encontrar, estou te achando tão esquisito.
— Não é nada, fique tranquila.
— Vou acreditar. Amor, tenho que desligar. Assim que terminar o expediente, irei para casa com Emmett tá?
— Uhum. Eu te amo, amor, bom trabalho.
Desligamos a ligação e eu estava atordoado por ter tido que mentir. Não queria começar um tipo de relacionamento assim, mas se Amanda soubesse do meu embate com Kent e que fui agredido por ele, a raiva que possui do pai se intensificaria muito mais. Eu não queria a infelicidade dela, pelo contrário, queria um festival de sorrisos e se fosse preciso manter essa briga em sigilo, eu a manteria.
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