Heaven In Your Eyes
66 Lord, forgive me.
Os dois primeiros casais de padrinhos caminharam pelo longo corredor da Igreja lotada. Eu e Amanda ficamos por último e quando chegou nosso momento de trilhar aquele trajeto senti meu coração acelerar desesperadamente em meu peito. Olhei para ela com o maior dos sorrisos e, curiosamente, ela também sorria para mim. Uma das luzes da iluminação alcançou seu belo rosto e seus cabelos em ondas largas parecia iluminado por uma auréola. Amanda estava como um anjo ao meu lado caminhando a passos lentos e não pude deixar de parafrasear Camões que inteligentemente disse: "Ainda que eu falasse a língua dos anjos (...) sem amor eu nada seria". Meus batimentos se tornarem uma escola de samba quando ela apertou os dedos um pouco mais em meus bíceps conforme passamos por sua família. O que era aquilo dentro de mim que me faria querer... Chorar? Fui pego de surpresa por emoções que desconhecia. Eu estava emocionado como se estivéssemos nos casando, como se aquele fosse o nosso casamento e em uma utopia de sonhador imaginei que ela estava dando aqueles passos lentos para ir ao meu encontro. Minha consciência sempre culpada puniu-me ao lembrar que se não fosse pelos meus erros passados, eu teria tido a chance de vê-la linda em véu e grinalda. Injustamente, o tempo que passou não pode ser reavido e jamais seria. Mas e se eu fosse capaz de seguir em frente e interromper tudo? Se eu pudesse escrever um novo final para nossa história que parecia fadada ao horror? Seus olhos castanhos encontraram os meus uma última vez e os percebi tão negros quanto os pensamentos que me assombravam. Amanda parecia tão perdida quanto eu em nosso universo particular de mágoas e nostalgia. Nos separamos ao chegar no altar — maldita ideia da Ingrid de separar os padrinhos em gêneros — e tudo que me restou foi observá-la de longe assim que soltou meu braço.
A mãe da noiva e o pai do noivo entraram, sendo logo seguidos pela mãe de Logan e o próprio. Eu podia ver sua respiração aceleradíssima e ele ergueu as sobrancelhas para nós, os padrinhos, como quem diz "me socorram porque vou desmaiar". Eu sorri em sua direção e apenas assenti lhe passando segurança, o que mais poderia ser feito? Ligar para o 911? Quando Logan finalmente se posicionou, foram exatos vinte minutos de demonstração do que era uma pessoa hiperativa. Ele ficou inquieto, passou a mão pela gravata diversas vezes e finalmente as segurou em frente ao corpo tentando se controlar. De repente todos calaram-se e eu sabia o que estava por vir. As portas da Igreja se abriram e eu pude ver meu filho vir lado a lado com a daminha. Discretamente, ele aproximou sua mãozinha da dela puxando-a e entrelaçando os dedos. Garoto danado esse, eu não havia falado sobre entrelaçar! Suas bochechas estavam coradas e eu percebi que ele poderia tropeçar nos próprios pés tamanho o nervosismo. Emmett olhou para cima procurando por mim e meu sorriso alargou-se. Ele sorriu de volta tão orgulhoso de si mesmo quanto eu estava dele e admito ter ficado surpreso, pois apesar de ter-lhe aconselhado a paquerar, jamais achei que de fato o fosse fazer. Amanda estreitou o olhar para mim e logo vi uma de suas sobrancelhas se erguerem em curiosidade.
— O que disse a ele para fazer? — Ela moveu os lábios pausadamente e sem som
— Dei uma dica — Respondi da mesma forma
— Tão galinha quanto você — A vi tentar falar entre mimicas
— A seu dispor — Sussurrei para que ela escutasse e fiz uma pequena reverência em sua direção, logo ajeitando-me novamente pois a cantora lírica havia começado a cantar romanticamente uma música que dizia algo sobre "I sure it's you".
Na porta apontou então Ingrid e ela estava tão linda quanto jamais havia visto. O vestido tomara que caia parecia perfeito em seu corpo e uma enorme calda se arrastava atrás de si conforme ela dava passos vagarosos junto com o pai. Eu poderia afirmar categoricamente que ela parecia flutuar sobre o chão tamanha graciosidade e encanto que esbanjava. Me permiti dar mais uma olhada em Logan e percebi que quanto mais se encurtava a distância da noiva entre nós, mais ele parecia emocionado. Meu amigo deslizou o dedo pelo olho fingindo estar coçando, mas eu havia notado claramente que enxugou uma lágrima. Ele apertou os lábios fortemente na intenção de conter o choro, no entanto, era tarde demais.
Logan deu mais alguns passos encontrando-a antes de chegar ao altar. Sua ansiedade era tão grande que ele não pode esperá-la e de alguma forma acho que posso imaginar como está se sentindo, até porque creio que meu coração estaria tão acelerado que eu não pararia quieto. O pai de Ingrid soltou o braço da filha com gentileza, mas manteve sua mão junto a dela. Ele inclinou o punho da noiva na direção do meu amigo e antes que Loggie pudesse pegar-lhe a mão, a cerimonialista veio trazendo um microfone.
— Pai, o que está fazendo? — Ingrid arregalou os olhos ao ver do que se tratava
— Boa noite a todos — Começou — Como sabem, eu sou o pai dessa encantável jovem que se casa essa noite. No entanto, não poderia entregar meu maior tesouro sem dizer a esse rapaz o quanto ela é importante para mim. Logan, eu gostaria de te contar uma história. Quando descobri que minha esposa estava grávida, desejei com todo coração que pudesse ter uma menininha e, graças a Deus, meu pedido foi atendido. Eu fui o primeiro a segurá-la em meus braços, fui o homem que a protegeu por anos quando caía ou era chamada atenção na escola, eu era o centro do seu mundo até que fui meio deixado de lado. Acho que você pode imaginar por que, não é mesmo? — Ele riu — Eu sempre desejei que minha filha fosse feliz e foi ai que ela conheceu você. Consegue ver esse lindo rosto? Ela está sorrindo e esse sorriso só aparece quando ela está contigo. Por isso, hoje estou lhe entregando o maior dos meus presentes e quero que prometa amá-la.
— Eu o farei, senhor. Eu me sacrificaria pelo amor de Ingrid todos os dias da minha vida se fosse preciso. — Logan o respondeu deixando as lágrimas caírem e finalmente pegou na mão de sua futura esposa — Eu te amo, meu amor. — Disse ajoelhando-se diante dela e beijando sua mão — Seja minha esposa não apenas hoje como todos os dias.
Ingrid puxou-o delicadamente fazendo-o reerguer-se e, ainda mantendo suas mãos juntas, ela quebrou todo o protocolo puxando-o para perto e dando um selinho. Os convidados aplaudiram tanto pelo discurso quanto pelos gestos dos noivos: ele que se colocava a seu dispôr desde o início curvando-se diante da amada e ela que esbanjava espontaneidade beijando-o antes do sim. Logo, eles viraram-se para o altar ajoelhando-se diante do padre que dava início à cerimônia.
Eu estava no lugar designado a mim, parado junto de Carlos e Kendall — que insistia em ignorar minha existência quase que de maneira infantil. Acredito que ele suportava minha presença no mesmo ambiente apenas por educação e nada mais. Isso ainda me incomodava e não posso negar que sentia falta da época em que nossa amizade existia. No entanto, sei que tudo que somos agora nada mais é do que uma consequência das escolhas que fiz em um passado não tão distante. Balancei a cabeça negativamente tentando focar-me em outras coisas e olhei para Amanda que observava atenta cada detalhe, prestando atenção nas palavras pronunciadas. Nossos olhares se cruzaram e eu percebi que haviam algumas lágrimas em seus olhos.
— Não chora — Pronunciei sem som como fizemos anteriormente.
— Não dá — Ela mordeu o lábio contendo-se enquanto ergueu os ombros como quem diz "sinto muito".
Apenas sorri e voltei a focar em Ingrid e Logan, que se olhavam com tanta paixão que fazia com que qualquer um se sentisse envolvido naquela atmosfera romântica de um matrimônio. Eu respirei fundo e devagar sentindo o ar invadir meus pulmões em uma purificação de tudo que um dia poderia ter me feito mal. Senhor, eu não sei rezar e acho que nunca fui ensinado sobre como ser religioso. Mas, ainda assim, me peguei observando a enorme cruz atrás do padre e suplicando a Deus uma nova chance de fazer as coisas certas, nem que essa fosse a última.
— Logan e Ingrid, viestes aqui para celebrar o vosso matrimónio. É de vossa livre vontade e de todo o coração que pretendeis fazê-lo? — O padre perguntou aos noivos
— Sim. — Ambos afirmaram com tamanha veemência que me surpreendeu
— Vós que seguis o caminho do matrimónio, estais decididos a amar-vos e a respeitar-vos, ao longo de toda a vossa vida?
— Estamos
— Estais dispostos a receber amorosamente os filhos como dom de Deus e a educá-los segundo a lei de Cristo e da sua Igreja?
— Mais do que tudo — Dessa vez Ingrid fora ainda mais firme em sua resposta. Acredito que ter Emmett por perto possa ter lhe aumentado a vontade de ser mãe. O que posso fazer se meu filho conquista os corações femininos em todos os sentidos?
— Uma vez que é vosso propósito contrair o santo Matrimónio, uni as mãos direitas e manifestai o vosso consentimento na presença de Deus e da sua Igreja.
Nossos amigos viraram-se frente a frente e estenderam as mãos segurando-as com delicadeza. O padre estendeu a eles uma espécie de livro — seria a bíblia? — indicando o trecho que teriam que ler. Logan aproximou-se um pouco mais forçando a vista para enxergar e pronunciou devagar cada uma das palavras.
— Eu, Logan, recebo-te por minha esposa a ti Ingrid e prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença por todos os dias da nossa vida.
Ele apertou os lábios firmemente um contra o outro ao mesmo tempo em que percebi seu polegar escorregar pela mão da noiva. Seus olhos castanhos estavam marejados e sua voz embargada denunciava que ele choraria em breve.
— Eu, Ingrid, recebo-te por meu esposo a ti Logan e prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença por todos os dias da nossa vida.
Minha mais nova "cunhada" disse e ergueu a mão esquerda para seu rosto para enxugar uma lágrima que caia pela sua pele. Logan fora mais rápido e levou sua mão à face da amada deslizando com calma o indicador em sua bochecha. Devagar, ele desceu até o queixo da esposa e manteve seus dedos ali segurando-o enquanto os olhares de ambos estavam fixos como se naquele momento só existissem os dois no recinto.
— Confirme o Senhor, benignamente, o consentimento que manifestastes perante a sua Igreja e se digne enriquecer-vos com a sua bênção. Não separe o homem o que Deus uniu. Pode beijar a noiva.
Logan aproveitou-se da posição de sua mão e puxou a noiva carinhosamente trazendo seus rostos para perto. No entanto, ele não a beijou. Seus narizes roçaram-se com lentidão e suas testas encostaram-se com tamanha vagarosidade que aumentava as expectativas de todos. Ele ficou admirando-a tempo o suficiente até que finalmente seus lábios puderam unir-se em comunhão assim como os dois que agora possuiam um laço inquebrável. Os convidados começaram a aplaudir e gritar felicitações, até mesmo Amanda aplaudia com um largo sorriso no rosto e eu pude ver quando ela desviou a atenção para onde os bancos jogando um pequeno beijo no ar para Emmett que fez o mesmo para ela. Aqueles dois eram a minha família e eu os resgataria.
**
- Segura as pontas ai enquanto eu vou em casa.
- Você o que? — Carlos arregalou os olhos. Tinhamos acabado de sair da Igreja e cumprimentar os noivos. Todos estavam se encaminhando para o salão de festa, inclusive Amanda e Mehmet que estavam de braços dados elegantemente como se ainda fossem o casal mais glamouroso de Hollywood. Já disse o quanto isso me irrita?
- Tenho que ir em casa, esqueci umas coisas.
- O que? Suas bolas? — Ele ironizou
- Vai se foder, eu to falando sério. Você quer ou não quer que a Amanda seja minha novamente?
- Opa, isso está começando a me interessar. O que pretende fazer?
- Isso é um detalhe a parte. Vou pegar o carro e ir em casa, acha que consegue me dar cobertura se Logan perguntar onde estou?
- Isso é moleza.
Assim que Los confirmou, o deixei falando sozinho já buscando a chave do carro em meu bolso. Corri — literalmente corri — até o estacionamento desviando de convidados mais apressados do que eu e tive que esperar um senhor de idade levar cerca de dez minutos para manobrar o carro na minha frente. Porra, meu senhor, isso não é hora de lerdeza!
Meu velocímetro variava entre noventa e cem quilômetros por hora, o que facilitou para que logo alcançasse a rua da minha casa. Subi as escadas como louco indo até o meu quarto e buscando desesperadamente por algo que pertencia a Amanda e apenas a ela. Peguei o que precisava e coloquei de volta no carro voltando desesperado para a festa. Eu tinha que chegar a tempo, não apenas a tempo para que os noivos não sentissem minha falta, mas também para ter minha mulher de volta para mim.
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