Notas iniciais
Oi meus meninos e meninas, como estão? Acreditam que eu estou desde julho sem aula? Não aguento mais isso. Tinha tempo que não atualizava vocês sobre a minha vida né? kkkk AAAAAAAAWN eu estou morrendo de peninha do James, vocês não estão? :// O capítulo de hoje foi bem tristinho. Se liguem na nota final ta? Amo vocês ♥

Acertei o boné em minha cabeça apertando-o bem e puxando contra meu rosto de forma que ficasse camuflado. Você certamente deve estar se perguntando o que estou fazendo disfarçado em meu próprio veículo e eu lhe digo com todas as letras: fui trapaceado, excluído da vida do meu próprio filho. Hoje são exatamente dez de agosto, o sábado que antecede o segundo domingo deste mês e, consequentemente, o dia dos pais. Essa é a única razão plausível para a família estar sendo reunida na escola: uma homenagem para o pai. Filhos da puta desgraçados, acham mesmo que vão me tirar o lugar que é meu por direito? Que vão fingir com aquelas porras de sorrisos reluzentes o quanto são uma família feliz quando na verdade há segredos o suficiente por baixo dos panos? Pois que fique claro para todos os Connelly que não vou participar desse teatro, não colocarei essa máscara se é o que estão pensando! Peguei meus óculos de sol que sempre estão no porta luvas e também os coloquei. Passei pelos portões da pré escola com facilidade e me posicionei no final do enorme salão decorado. Meus braços cruzados demonstravam a posição defensiva na qual me encontrava e os músculos contraídos na minha face exalavam raiva. A família feliz estava sentada em uma das mesas, Emmett estava entre Amanda e Mehmet, brincando animadamente com as mãos do "pai". Ele sorriu encarando-o e parecia estar tentando ensinar um dos milhares de cumprimentos esquisitos que já vi Carlos fazer — apostaria minha vida que meu amigo o ensinou algum.
Continuei ali pelo que pareceram horas intermináveis, até que uma senhora acima do peso e com cabelos negros presos em um coque se pronunciou no microfone.
— Senhoras e senhores, queridos pais, é com muita honra que os alunos da turma 202 apresentarão uma coreografia feita com muito carinho em homenagem a essa data.

Procurei com o olhar a presença do meu filho na mesa e observei Amanda acenar animadamente para o palco. Como um caçador em busca da presa, minhas pupilas focaram o corpo de Emmett que, envergonhado, se escondia no fundo junto a alguns outros alunos desajeitados. Ele pareceu ganhar força com o incentivo materno e deu mais alguns passinhos a frente. Olhei com maior atenção todas as crianças, cada um estava vestido de uma maneira diferente e quando examinei cuidadosamente as roupas de Emmett percebi que eram vestimentas diferentes das ocidentais. Que diabos era aquilo? Uma música antiga que falava sobre amor paterno começou a tocar: "Quando eu olho pra você, acomodando o meu coração, dou a você tudo que eu tenho. Filho, eu sei que existirá vezes em que você se sentirá sozinho e eu compartilharei com você as palavras que meu pai disse. Você nunca estará longe, eu estarei onde você estiver e quando você vier a mim pode apostar que estarei de braços abertos. (...) Eu sei filho, é bom apenas ver seu rosto"

As letras começaram a invadir meus ouvidos como uma tortura chinesa. Imaginei o quanto Mehmet partilhou da vida do meu Emmett, o quanto eu gostaria de ter estado presente em cada pequeno passo, em suas primeiras palavras, como desejaria ter lhe ensinado uma brincadeira, reclamado com Amanda sobre quem trocaria as fraldas, ter-lhe beijado a barriga enorme, segurado sua mão no parto e, principalmente, ouvir meu filho chamar a mim de pai. As crianças seguiam a coreografia e Emmett a fazia com vergonha e pouca desenvoltura, mas ainda assim meu coração acolhia aqueles pequeno passos com amor e orgulho. Suas bochechas estavam rosadas assim como meu rosto fica de vez em quando e ele terminou a dança praticamente pedindo para se enfiar em algum buraco, mas eu estava pouco me importando. Aplaudi com a maior das minhas forças sentindo o tão reconhecido nó em minha garganta denunciar o quanto meu filho me comoveu. Por sorte, muitos pais estavam na mesma situação de comoção e elogios, então minhas palmas não sobressaíram naquela multidão.

Em fila, os alunos começaram um por um a explicar porque estavam vestidos daquela maneira e isso fez com que eu entendesse do que se tratava: eles iriam representar as profissões de seus pais. Em um momento de utopia, imaginei Emmett todo largado em uma mesa escrevendo desesperadamente palavras que rimassem enquanto mordiscava a ponta do lápis. Bobagem, ele seria muito mais que isso. Talvez fosse exatamente como... Mehmet. Foquei o olhar na mesa da minha ex novamente e o libanês a abraçava enquanto ela chorava de felicidade pela performance do nosso Emm. Em cerca de quinze minutos chegara sua vez. Com roupas tipicas e trazendo consigo um derbake, Emmett o colocou no chão e sentou-se em um banquinho. Em seguida, o apoiou em seu colo e deslizou os dedos pelo instrumento esquentando-o.
— Essa música é para o melhor pai do mundo, foi a primeira que ele me ensinou a tocar.

Sua voz infantil ganhou a platéia que estava em silêncio atenta esperando seu talento e não demorou para que o som agudo preenchesse o espaço. As nuances daquela melodia me deixaram perplexo, apesar de não conhecer a respeito, pude ver que Emm acertava com facilidade os ritmos e marcações sem fazer qualquer esforço. Ele se empolgou conforme os outros pais começaram a aplaudir seguindo suas batidas e percebi seus olhinhos procurarem pelos pais. Mehmet estava tamborilando na mesa identicamente a Emm — provavelmente se recordando de quando o ensinou — e Amanda moveu os ombros sutilmente para trás e para frente claramente dançando a música apesar de o estar fazendo disfarçadamente.

Assim que terminou, Emmett recebeu uma série de palmas e gritos — dos quais eu também participei — e correu do palco diretamente para Mehmet que o recebeu de braços abertos. "Eu te amo, pai", pude ler seus lábios e meu filho tinha a expressão de choro assim como o libanês que estava em meu lugar. Era para eu estar ali, eu! De longe olhei os três como uma família perfeita, Amanda sorria e aos poucos pude sentir meus olhos ficarem úmidos, eu estava chorando, chorando ao ver tudo que abri mão, tudo que perdi e o quanto gostaria — e precisava — estar ali recebendo o amor do homenzinho que ainda pretendo criar. Sentindo como se um punhal tivesse atravessado meu peito, sequei as lágrimas que deixavam meu rosto extremamente molhado e caminhei no sentido contrário buscando a saída desesperadamente. Assim que atingi a rua, olhei para os céus questionando a Deus o porque disso tudo e me vi livre do boné e do óculos tirando não apenas o disfarce como também numa tentativa de arrancar de mim toda a dor que meu coração parecia não suportar. Em um impulso, peguei meu celular e disquei os números que já havia decorado. A voz feminina atendeu do outro lado e eu não exitei:
— É do escritório do Dr. Morgan?

Notas finais
Imaginem o Emmett tocando assim: http://www.youtube.com/watch?v=2tTNVsmG4Cs