Heaven In Your Eyes
49 Chuck
Notas iniciais
– James? James Diamond? — O homem com aparência um pouco envelhecida gritou assim que desci do meu carro no posto de gasolina. — Puta que pariu, maluco, não acredito que é você.
\nEle veio em minha direção com um sorriso de orelha a orelha e, de fato, sua aparência não era nenhum pouco estranha para mim. O até então desconhecido abraçou-me e deu dois tapas fortes em minhas costas que eu poderia jurar ser uma tentativa de arrancar meu pulmões.
\n– Ahm, oi. — Respondi sem jeito
\n– Não está reconhecendo mesmo, né? Sou eu, cara, o Chuck.
\n– CHUCK? Não pode ser! Quanto tempo não nos vemos, hm?
\n– Não sei mano, acho que desde que você ficou sóbrio heim — Ele gargalhou como se fosse a piada do ano e voltou a me abraçar — Bom te ver, você sumiu.
\n– Aquela vida não era mais para mim.
\n– Você pode sair do estilo de vida, mas o estilo de vida não sai de você — Chuck sorriu
\n– Não, cara, eu realmente tomei jeito. E você, o que tem feito?
\n– O mesmo de sempre, sabe como é: festas, bares e algumas mulheres. Esse é o verdadeiro prazer da vida!
\nEra assim que eu pensava? Sério mesmo?
\n– Mas e de trabalho?
\n– Jay, por favor, você sabe que meus pais abriram aquela porra de restaurante pra mim e está lá as moscas. Só passo uma vez por mês, pego os lucros e está de bom tamanho.
Sem expectativas de vida. Dei uma boa olhada em Chuck que costumava ser uma cópia fiel minha e por um instante foi como se estivesse olhando a forma que eu ficaria depois de anos em uma vida desregrada. Meu ex amigo — se é que posso usar essa denominação — parecia muito mais envelhecido do que deveria, sua pele estava desgastada, os olhos pareciam cansados e sem vida, além de possuir um par de olheiras abaixo dos mesmos — o que fez com que eu me perguntasse se em algum momento saíram dali — junto com duas bolsas de cansaço que davam um ar ainda mais afadigado. Eu teria ficado assim?
\n– Entendo cara. Bom, se você está feliz assim!
\n– Feliz? Eu estou em um verdadeiro paraíso, você que não parece estar de boa. Como anda tudo?
\n– Hey! — O frentista me chamou — Terminamos aqui.
\n– Eu vou ter que ir, Chuck — Tratei de me despedir
\n– Não mesmo. Vamos nos encontrar mais tarde e não aceito um não como resposta!
\n– Ah mano, eu não frequento mais esses lugares.
\n– Um dia não vai matar, amanhã você volta a ser o santo do pau oco de novo. Passo na tua casa mais tarde, valeu?
\n– Chuck, Chuck...
\n– Relaxa, brother, só vou te tirar essa cara de velório!
**
\n\n– Era isso que chamava de tirar minha cara de velório? — Perguntei olhando a mala do carro de Chuck que estava repleta de engradados — Eu não vou beber.
\n– Não bebe mais? Não fuma mais?
\n– De vez em quando dou uns tragos, mas só em cigarro.
\n– Cara, você tá careta heim! — Ele fez uma expressão de desgosto e bateu a mala, entrando no veículo em seguida. Apenas fiz o mesmo e passei o cinto contra meu corpo.
\n– Para que aquelas garrafas todas?
\n– Estou dando uma festa, uma reuniãozinha íntima.
\n– Íntima? — Ergui uma sobrancelha imaginando que estava mais lotada que um estádio em dia de final
\n– Íntima no sentido eu íntimo delas e elas íntimas de mim.
\n– Festas regradas a sexo, por que mesmo acreditei que estavamos indo apenas falar sobre o passado e tentar ser amigos de novo?
\n– De novo? Jay, ainda somos. Se eu não fosse teu amigo estaria te tirando desse tédio em pleno sábado? Nem pensar.
\n– Claro, afinal, somos amigos de copo né? — Ironizei revirando os olhos conforme Chuck acelerava pelas ruas de Nova York até sua casa.
\n– Quer um cigarro? — Ele jogou o maço para mim descuidando-se do trânsito momentaneamente. Apenas o encarei sério — O que? Você disse que dava uma tragada.
\nSegurei o maço em minhas mãos e retirei o isqueiro que estava junto ao mesmo. Peguei um dos cigarros e o acendi deixando-o entre meus dedos para levá-lo aos lábios. A última vez que o havia feito fora com Amanda meses atrás e, devo admitir, eu ainda gostava da nicotina.
\n– Fala ai, o que tem te incomodado?
\n– Amanda.
\n– Amanda? Wow, a gostosa que você comia?
\n– Não fale assim dela — Repreendi deixando a fumaça sair pela minha boca dentro do carro sem me incomodar em estarmos em um ambiente fechado
\n– Já saquei, gosta de exclusividade. Mas o que tem ela? Não estava desaparecida ou sei lá o que? Olha que já te aguentei choramingando por ela demais.
\n– Quanta consideração. Na verdade ela voltou e nós estavamos juntos.
\n– Então qual a neura?
\n– Ela me traiu.
\nChuck freou bruscamente o carro e se não fosse pelo cinto eu certamente teria sido arremessado para frente.
\n– JAMES DIAMOND É CORNO? — Ele gritou
\n– Quer espalhar para Nova York toda?
\n– Na verdade eu pretendo mesmo — Gargalhou — Ela te meteu mesmo o chifre?
\n– Sei lá cara, acho que sim. Ela não sabe se me quer ou se quer o cara que esteve com ela esse tempo todo.
\n– Nesse caso você pode sair e se divertir, então. — Ele parecia não se importar — Lembre-se: antes um chifre na cabeça que um dentro do rabo.
\n– Mas eu a amo, sabe o que é amor?
\n– Bla bla bla, "amor". Uhum, claro! Você a ama e ela está com outro. — Falou como se fosse simples — Não acha que tem perdido tempo demais com uma mulher que nem se importa contigo?
\n– Ela é a mãe do meu filho! — Me irritei e dei mais uma tragada
\n– Filho? Opa, ninguém falou que esse kinder ovo vinha com surpresa.
\n– Ela estava grávida, por isso foi embora.
\n– Mano, eu vou ser bem sincero: você escapou de uma furada. Jogue as mãos para o céu e agradeça!
\n– Não. Muito pelo contrário, eu quero cuidar do Emmett.
\n– Você tem problemas, sabia? Aposto que isso é a falta de álcool. — Ele respondeu embicando o carro de qualquer maneira quase pegando o meio-fio — Vamos, uma boa festa vai te fazer esquecer da Amanda.
\n– Cara, eu realmente não quero beber — Respondi descendo do carro. O cigarro em minhas mãos já estava quase acabando e dei uma última tragada jogando-o no chão. Pisei em cima já buscando mais um no maço que ficou comigo e acendendo.
\n– Claro, diga essa depois de algumas horas — Ele ignorou-me e eu pude olhar a casa à minha frente. O local estava repleto de pessoas de todas as idades e estilos, a piscina tinha alguns casais em situações um pouco inapropriadas e eu poderia afirmar sem nenhuma dúvida que tinham algumas menores e prostitutas por ali. Um homem tão acabado quanto Chuck veio com uma lata de cerveja barata e a atirou no ar para ele. — Manda mais uma porque o rei da farra está de volta! — Meu antigo amigo apontou para mim e ouvi uma gritaria em volta como se estivessem me ovacionando. Por acaso alguém ali lembrava de mim? Duvido.
\n– Fala ai, mano! — Um outro rapaz aproximou-se com um balde metálico — Aqui tem uns sucos, pode misturar com a vodka e se quiser algo mais forte é só falar.
Ele largou o balde sobre meus braços e quando tentei entregá-lo para Chuck, ele já havia sumido. Não consegui nem mesmo murmurar nada porque o cigarro estava em meus lábios — quase caindo, na realidade. Olhei ao redor e pude ver que todos pareciam estar centrados o bastante em sua própria embriaguez para me notar, perfeito! Andei pelo quintal esbarrando em mulheres vulgares e homens musculosos o bastante até encontrar a porta que dava entrada à casa em si. Quem disse que eu encontraria silêncio e paz lá dentro? É mais do que óbvio que seria estupidez subir para um dos quartos, então sentei-me na escada e coloquei o balde de bebidas do meu lado. A quem estou tentando enganar? Eu estava sim com vontade de beber, principalmente para esquecer quão magoado estava com Amanda e tudo que acontecera em nossa história. Misturei um pouco de vodka e suco em um copo plástico — Chuck fora mesmo consciente em não usar vidro? — que estava jogado pelo caminho e virei. Aos poucos a quantidade foi alterada e a dose de vodka estava quase pura até se tornar a única coisa que meu organismo recebera. Meu corpo recebeu a bebida com graça, reconhecendo com prazer a sensação de entorpecimento, eu estava mesmo sentindo falta do álcool em meu organismo. Acendi mais um cigarro que rapidamente fora tragado e terminado, por que diabos minha consciência continuava pesando?
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