– Tem certeza que não vou incomodar? — Insisti mais uma vez enquanto Kendall tirava minhas malas do bagageiro de seu carro preto.

– Juro que se perguntar isso mais uma vez, jogo suas malas pela janela.

– Você não faria isso.

– Não? — Ele riu erguendo uma sobrancelha e pude perceber um sorriso moleque surgir em sua boca delineada — Como acha que sua Barbie veterinária desapareceu?

– NÃÃÃO! — Eu dizia surpresa com a revelação — Foi você, seu cachorro? — Aproximei-me de Kendall que prendia o riso e dediquei uma série de tapas em seu ombro. O som das minhas mãos sobre seu corpo era extremamente audível e ele tentava escapar.

– AAAAI, tá doendo! — Suas risadas eram debochadas e em consequência dei-lhe um beliscão — PORRA AMANDA! Não precisava maltratar assim.

Kendall esfregou a palma da mão mesmo por cima da blusa em seu biceps e logo cruzou os braços mostrando insatisfação.

– Você sabe quantos meses passei procurando aquela boneca?

– Mesma quantidade de meses que passei tendo que te aguentar carregando-a para todos os cantos.

– Babaca! — Respondi revirando os olhos

– Mamãe — Emmett estava na porta do carro com a cabeça pendurada para fora da janela. Ele me olhava intrigado enquanto eu e Kendall nos mantínhamos na calçada um olhando para o outro com desdém, típicos irmãos adolescentes. — O que é um "bababa"? — Ele pronunciou erradamente com seu sotaque libanês evidente. Apesar de crescer escutando-me falar inglês e de saber falar até que bem para uma criança da sua idade, não havia como fugir das raízes fincadas no Líbano e da influência do ambiente em seu desenvolvimento.

– Um o que? — Kendall não aguentou e o ar pesado se dissipou. Ele pôs a mão na barriga gargalhando e quando Emmett repetiu "bababa" foi o suficiente para que ele se divertisse.

– Para de implicar com o meu principe de olhos verdes! — Falei o descendo do carro — Não é nada, meu amor. Aliás, é sim, é o que seu tio é.

– Tio Ken é "bababa"? — Ele perguntou

– Exatamente, um grande bababa — Eu falei já gargalhando e também entrando na pilha do meu pequeno

– Vocês dois me pagam, seus pestinhas, vou deixar os dois no calabouço sem comida. — Meu irmão respondeu

– Oh e agora, quem poderá me defender? — Brinquei colocando a mão na testa e com a outra segurando Emmett que se distraia batendo os pézinhos no chão

– Olha que eu defendo, heim! — Uma voz familiar soou atrás de mim e eu mal podia acreditar no que ouvia

– CAAAAAAAARLOS! — Larguei meu filho e corri até meu melhor amigo na época. Pulei em cima dele da mesma maneira que fiz com Kendall anteriormente e, caramba, como ele estava mudado. Soltei o abraço aos poucos e minhas mãos escorregaram pelos seus braços. — Ops, esses músculos não estavam aqui! — Fingi flertar e ele gargalhou

– Posso dizer o mesmo, senhorita Amanda Connelly. Isso tudo não estava ai! — Carlos fez uma carinha de safado e apontou para o meu corpo, o que me fez corar

– Sossegue, você pelo visto continua o mesmo tarado.

– Às suas ordens! — Ele fez reverência e gargalhei

– Não mesmo, Garcia. Você sabe que a irmã é minha! — Kendall chegou trazendo meu filho junto consigo

– Sempre protetor. WOOOOW brother, que porra é essa? É dia das crianças e não to sabendo? — Ele disse arregalando os olhos para Emmett.

– Até então a única coisa que não to sabendo é o que você está fazendo aqui, animal. — Ken respondeu. "Por que homens se tratam dessa maneira tão amigável e romântica?", ironizei em meus pensamentos.

– Mano, não tá vendo mesmo? — Ele apontou para o próprio corpo que possuía roupas de academia — Olha o estilo da criança, eu estava malhando e agora estava indo para casa, mas vi uma gostosa e parei para cumprimentar.

– Carlos! — Repreendi me envergonhando

– Mas e ai? Qual é o do Little Jay?

Gelei assim que ouvi a expressão. Carlos mantinha o sorriso bobo no rosto enquanto Emmett encarava seus tênis coloridinhos. Eu estava assustada, meus olhos saltaram acompanhando o ritmo em que meu coração batia e Kendall procurava respostas que meu rosto não sabia transmitir e minha boca se recusava a dar.

– É meu...

– É meu filho. — Senti que meu irmão iria mentir por mim e interrompi antes que o fizesse

– O QUE? Não brinca! — Carlos sorria contente, parecia que não tinha compreendido a gravidade da situação — Eu fico anos sem te ver e quando volta traz essa gracinha com você? — Ele falou se aproximando de Emmett — WAAAAZA boy?!

Meu filho escondeu-se atrás de Ken com a investida repentina e estrondosa de Los.

– Não vai falar com o tio Carlos, meu amorzinho? — O chamei delicadamente e aos poucos ele saiu do "esconderijo"

– Nossa, rapazinho, você é a cara do James. — Ele disse esticando a mão devagar e tocando os cabelos de Emmett.

– Você acha? — Kendall disse — Na verdade, acho que só os olhos. Você andou fumando algum bagulho.

– Será mano? — Ele parecia confuso e coçou a nuca

– Sim, é pelos olhos e na família de Mehmet todos tem olhos claros. — Completei

– De quem?

– Meu pai — Emmett disse e fiquei orgulhosa do meu filho que, inocentemente, ajudou-me com a farsa.

– Ah não! Você está casada? — Carlos fez uma falsa expressão de desapontamento e eu ri

– Não, a história é longa.

– E você vai me contá-la amanhã a noite, não é mesmo?

– Oi?

– Qual é! Vamos jantar juntos, por favor. Você sumiu de repente e depois de anos to tento a oportunidade de ver a minha magrela de novo. Tenho certeza que o Logan e a Ingrid vão adorar te ver.

– Ingrid? Espere. A Ingrid que ele meio que gostava? — Fofoquei como uma menina de colegial

– Exatamente, estão noivos.

– Não posso acreditar! Que saudade daquela criatura, ela vivia aqui em casa, se lembra Ken?

– Como esquecer? Vocês cantavam Backstreet Boys a noite toda.

– Ah cale a boca! — Rebati para não perder os velhos hábitos

– Então, venha por favor? Oferecerei um jantar lá em casa para todos nós e você e o seu... Hum, seu filho... Podem ir também.

– Por que engasgou?

– Não sei. É estranho te ver assim, sabe? Mulherão, com filho nos braços e sem estar com o James.

Assim que Carlos pronunciou o nome do meu ex, algo em mim acelerou. Era como se borboletas voassem pelo meu estômago causando-me uma sensação indescritível. Los pareceu ficar sem graça, mas ao contrário do que pensei, não foi por minha causa.

– Nossa, mano, desculpa. Eu esqueci completamente que vocês não se falam e...

– Relaxa!- Kendall o tranquilizou

– O que? Como assim não se falam?

– Ih, já vi que fui o fofoqueiro da vez. — Carlos deu um passo para trás — Bom, vou deixar os irmãos se entenderem e darei uma rápida corrida até a outra rua que, aliás gatona, fica a minha casa. Querendo passar por lá... — Ele deu uma piscadela de brincadeira e eu sorri em resposta

– No caminho você encontra uma mulher melhor ou agarra um poste.

– Bem pensado, postes são excitantes — Ele gargalhou — Te vejo amanhã Amanda?

– Ela irá. — Kendall respondeu por mim e me perguntei o por que dessa decisão