Heaven In Your Eyes
6 Photography
Notas iniciais
- Ok, pode me explicar que história é essa de você e o falecido não se falarem mais? — Indaguei enquanto subia as malas para o andar de cima. Kendall estava logo atrás carregando a mais pesada a eu já escutava o som vindo diretamente da enorme televisão da sala de estar. Os Backyardigans cantavam alegremente e isso me dava a tranquilidade de que Emmett estava quieto, mesmo que por pouco tempo.
- Falecido? — Kendall riu debochando do termo que usei e sua gargalhada sempre escandalosa ecoou pelos corredores
- É, você sabe que ele está morto para mim. — Me limitei à uma resposta curta — Mas pelo visto quem matou o defunto foi você.
- Ah Amanda, por favor, isso é passado. — Ele deu de ombros e colocou a mala sobre a cama do meu quarto. Uau, nada ali havia de fato mudado desde a minha saída! Os móveis permaneciam os mesmos, a pequena mancha de esmalte vermelho sobre o carpete bege ainda estava ali demonstrando minha presença habitualmente desastrada e, puxa vida, a pequena luminária com lâmpada cor de rosa ainda estava encaixada no cantinho do quarto. Céus, algumas coisas definitivamente não mudam. Me abaixei próxima à lâmpada e ingenuamente tentei acender, estava queimada assim como a garota imatura que fui um dia.
- O que quer que tenha acontecido, creio que fui o pivô, não é mesmo? — Levantei e Ken me encarava intrigado
- O motivo foi ele ser um filho da puta, não você. — Meu irmão cruzou os braços defensivamente, típico.
- Um filho da puta com quem mesmo? — Insisti
- Nem pense em fazer joguinhos psicológicos comigo.
- Não pense você em me enganar. O que aconteceu depois da minha ida?
Kendall bufou e apoiou-se na escrivaninha. Seu olhar encontrou o chão como se buscasse em sua memória algo específico, mas após conhecê-lo tão bem, eu poderia jurar que sua íris havia ganhado um tom mais escuro. Depois de um tempo no qual permaneci calada respeitando seu espaço, meu irmão finalmente começou:
- Depois que te levei à rodoviária, voltei ao jantar de Carlos. Sabia que aquele filho da puta estaria lá com a maior cara lavada e não errei. Invadi o evento e o arranquei da mesa de jantar, todos ficaram loucos, nosso pai tentou me segurar, Logan tentava apartar a situação, mas o ódio que eu sentia era tão grande. — Ele fez uma pausa e percebi suas mãos se fecharem como se estivesse pronto para uma briga — Eu o soquei e foi preciso muito esforço para que me tirassem de cima daquele vagabundo. Ninguém entendia o por quê de você não estar lá ou os motivos que me levaram a agir daquela forma, mas eu não tinha que dar explicações. Fiz o meu melhor para deixar algumas marcas roxas no rosto daquele viado narcisista e tenha certeza que ele não saiu inteiro.
- Kendall... — Eu não sabia o que dizer
- Na mesma noite todos se deram conta do seu desaparecimento quando voltamos para casa e, obviamente, os rapazes também souberam. Eles supõe que James deva ter sacaneado você e que por isso a defendi, mas ninguém sabe a gravidade da situação ou quão longe ele foi, apenas nossos pais. Eu nunca contei a eles e desde então sempre evitam que nós dois nos encontremos.
- Mas e a banda? Vocês tinham um projeto juntos.
- Depois que a poeira baixou, eu tentei voltar, ensaiei por algum tempo e as coisas estavam dando certo até.
- Sim, eu lembro disso. — Afirmei
- Mas eu simplesmente não podia encarar aquele babaca de novo, entende? E o pior foi quando meses depois de você ter ido para o Líbano, ele veio me perguntar de você.
- ELE O QUE? — Minha voz aumentou o volume sem que eu percebesse e meu coração queria sair pela minha boca para percorrer Nova York atrás daquele cachorro. Por sorte, minha consciência manteve o pouco de sanidade que ainda me restava. — Você nunca me falou sobre isso! — Acusei
- Eu simplesmente não poderia, Amanda. O que você queria que eu fizesse? Fosse atrás de você e te dissesse que o James perguntou a seu respeito?! Isso resolveria algo?
- Na verdade não resolveria. — Assumi caindo em mim
- Então não me culpe, eu apenas protegi você. — Por fim Kendall desencostou-se, mas seu olhar não fixava em mim ou em qualquer coisa concreta. Não resisti e caminhei até meu irmão abraçando-o com ternura.
- Obrigada por cuidar de mim.
- Hey, não há o que agradecer. Irmãos são para isso, certo? — Ele beijou o topo da minha cabeça e senti meus olhos marejarem. — Bom, chega dessa bobeira! — Ken disse dando uma leve fungada que denunciava sua emoção tão clara como a minha e soltou-me tomando distância até a porta — Vou te deixar matar a saudade do seu quarto.
- Não apenas dele, mas das histórias que ele presenciou. — Sorri ao lembrar de uma parte boa do passado
- Erg! — Ele disse fazendo careta — Não quero saber quais as merdas que fez aqui dentro!
- Aiiii seu besta! — Gargalhei pegando uma almofada e atirando-a contra meu irmão que fechou a porta rapidamente — Isso, corre mesmo, corre da fera! — Brinquei
Assim que me vi sozinha em meu quarto, um sentimento estranho invadiu-me. Sentir coisas que não sei nomear ou explicar é praticamente um ato de terrorismo à minha alma e isso me angustiava. A última vez em que estive naquele cômodo fora trágica, triste e decisiva para minha história. A seis anos atrás, eu jamais poderia achar que entraria aqui de novo ou que algo iria dar certo. Jamais pensei que Emmett teria uma vida estável, que meu irmão me entenderia e que seria acolhida em minha terra natal mais uma vez. No entanto, aqui estava eu. Fechei os olhos devagar respirando calmamente controlando uma pequena lágrima que brotava, mas inevitavelmente a senti escorrer. Nunca quis quebrar a promessa que fiz a mim mesma de escapar desse lugar para curar meu coração e proteger o do meu filho, todavia, a quebrei e teria que encarar de cabeça erguida todas as reações emocionais que entravam em ebulição dentro de mim. Passei os olhos pelo quadro de fotos que visualizei quando sai daqui e me aproximei para apreciá-las com detalhe. Havia um trio de polaroids tiradas com Carlos em uma cabine fotográfica, estávamos fazendo caretas e em uma delas ele puxava minha língua. Eu ri, eramos verdadeiramente os melhores amigos do mundo e ele me divertia como ninguém. Continuei olhando-as por distração e havia uma foto de família. Meu cabelo estava preso em marias chiquinhas, creio que devia ter uns dez anos de idade e estava com um sorriso forçado que mamãe me obrigou a dar de qualquer jeito. Lembro que fiquei envergonhada, havia acabado de perder o dente da frente e Ken vivia me dizendo que possuía uma "janela" na boca. Idiota, sempre fazendo graça das minhas desgraças. Ainda assim, o que seria da minha vida sem o loiro mais ciumento e protetor do mundo? Nada. Outra das fotos era com James. Seu sorriso perfeito levemente puxado para o lado, os cabelos cortados de forma que caíssem sobre a testa, os olhos esverdeados fitando a lente como se pudesse penetrar minha alma. Merda, isso não deveria mais estar aqui! Retirei o imã e peguei a fotografia, assim que a virei percebi que havia algo escrito. Eu torci o nariz para minha caligrafia de adolescente arredondada e perfeitinha — o que me faz lembrar o quanto minha letra tem ficado deformada com o tempo — e tentei ler o que estava escrito. "Eu te amei desde o primeiro instante e isso é para sempre, A&J". A quantidade de corações vermelhos em volta me embrulhava o estômago e não suportei permanecer encarando as lembranças tão marcantes de James. Olhar seu rosto que por tantas vezes encarei com ternura, aqueles lábios que muitas vezes beijei, os olhos que costumavam fitar dentro dos meus, ver sua imagem tão perfeita e idealizada, ler as palavras que eram tão verdadeiras e profundas... Palavras essas que para mim possuíam o peso de uma tonelada e que para ele se equivaliam a um papel. Papel este que depois de rascunhado o suficiente não possuía mais espaço para escrever falsas promessas, sendo descartável na primeira lixeira. Merda, quando menos dei por mim, meu indicador contornava seu rosto sobre a imagem em minhas mãos. Maldita razão idiota que fez com que eu me perdesse nesse monte de coisas velhas sem nenhuma utilidade. Amassei a foto e a arremessei pela janela com toda a força que podia. Eu não tinha sequer ideia de como ele estava ultimamente e nem possuía interesse em saber... fazia quanto tempo mesmo? Seis anos. Exatamente, seis anos que o enterrei e é assim que deveria ficar.
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