Heart By Heart
26 Eu vou pedir pros anjos cantarem por mim
Notas iniciais
Não sei por que sou tão apaixonada por água. Deve ser a tranquilidade que ela me passa, e o fato de você conseguir enxergar através dela sem muita dificuldade. Agora mesmo, no meio da prova, com todas essas competidoras atrás de mim eu me sinto mais leve e determinada. Cada braçada, cada batida de pé é mais um passo para a vitória. A dor física é esquecida e substituída por felicidade. Eu sei que o importante é competir pelo prazer de praticar aquilo, sempre dizem isso, mas o orgulho e a satisfação de ser o primeiro a chegar à borda da piscina e poder gritar, festejar... Não tem limites. Saber que isso tudo é fruto da sua forca de vontade, treino e apoio dos amigos deixa a sensação ainda melhor.
Agora estou aqui, tomando o ultimo gás na ultima virada, a poucos metros do meu objetivo final. Quando volto à superfície, vejo ao meu lado os braços de uma competidora, aumento mais o meu ritmo e logo só vejo a água. E de repente sinto o toque frio da parede sobre meus dedos. Levanto meus braços em comemoração, meu grito se juntava ao de vários gritos e palmas que rolam por todo o ginásio.
Saio da piscina e Laís vem correndo ate mim me entregando uma toalha e me abraça.
_ Parabéns, Nemo. — ela grita meu apelido, ela costuma me chamar porque sou pequena e fofa, pelo menos eu acho que esse é o motivo. "Me julguem".
_ Valeu, chegou em qual marca?
_ Terceiro, a menina de Floripa chegou à minha frente.
_ È, mas tá bom. — vejo Aline me esperando ali e aceno para ela esperar. — Nos vemos na próxima chamada, vou ali ser bajulada um pouco.
_ Até deixo, mas só se depois me apresentar aquele gato com quem você estava conversando mais cedo. – Eu aceno enquanto ela ri e vai para o outro lado.
_ E ai amore, quase não chegou a tempo hein. — digo dando um selinho em Aline.
_ Não perderia por nada desse mundo, tive um contratempo quando estava vindo para cá.
_ O que aconteceu?
_ Hum, nada. — ela diz colocando os braços no meu pescoço e tirando minha toca.
_ Então ta né... Que bom que chegou. — disse e a puxei para um beijo. – Ops... — Sorrio sobre seu lábios ao perceber que sua roupa tinha molhado ao encostar na minha. Ela também ri e me beija de novo, quando nos separamos vejo Anna nos observando num canto ali perto. Devo ter ficado tensa porque Aline olha para o mesmo lugar que eu. Ficamos assim por um tempo ate ela quebrar o silencio.
_ Ela já veio conversar com você?
Volto meu olhar para Aline esperando ela continuar. Ela estava olhando para Anna e não olhou ou falou mais nada para mim.
_ Como você sabe disso? – ela franze os lábios e seguro seus lábios a obrigando olhar para mim. – Me conta.
_ Bom, eu ia deixar ela te contar, mas vou tentar resumir. Quando estava indo com Gabe, eu a vi brigando com aquele cara, ele deu um tapa na cara dela e saiu com a moto. — Inspirei fundo tentando conter a raiva que crescia em mim. — Ela estava chorando e fui tentar ajudar. Ela estava muito abalada e acho que nem percebeu que fui eu quem a socorreu ate chegarmos no parque. Eu esperei ela se acalmar e perguntei sobre o que aconteceu, ela me disse um pouco, mas se reteve um pouco. Ela me perguntou por que a ajudei mesmo sabendo que ela me odeia. — ela fez uma pausa e continuei em silencio segurando sua mão, dando um apoio para ela.
_ Perguntei o motivo do ódio dela por mim e nos duas começamos a conversar. Eu disse tudo para ela, sobre como você ficou e até do que aconteceu no shopping aquele dia, ela me contou sobre algumas coisas sobre ela também. E no final ela me pediu desculpas... Falei que não era para mim que ela devia pedir desculpas.
_ Então você convenceu ela a vir conversar comigo? — pergunto ainda não acreditando no que estava ouvindo. Ela acena, e eu me afasto um pouco para pensar. Olho para Anna e imagino o quanto ela deve ter se sentido um lixo quando Carlos bateu nela, para uma pessoa como ela levar um tapa significava acabar com toda o orgulho dela. Aline vem ate mim e coloca o braço em volta do meu.
_ Sei que deve ser difícil para você, mas isso já e um grande passo para ela, e para você também. Você não tem que perdoá-la se não quiser, mas pelo menos ouve o que ela tem para dizer.
Olho no fundo dos seus olhos e vejo verdade ali. Meu coração aperta ao ver essa atitude dela, mesmo com toda a situação com Anna, ela ainda consegue enxergar o lado bom e tenta ajudar ao máximo. Sorrio para ela e tiro o meu braço do seu.
_ Ok. Vou ir lá agora. — tento ir, mas ela coloca a mão no meu braço me parando.
_ E a competição?
_ Você me manda ir conversar com ela, mas me barra quando me preparo para ir? – digo sorrindo para ela, mas paro quando vejo o roso dela. — Devo nadar de novo só daqui a algumas rodadas, e alem do mais... Ela parece aflita, ou sei lá o que. Preciso conversar com ela.
_ Ta bem. Boa sorte.
Aceno e dou alguns passos, só que acabo voltando para perto dela.
_ Obrigada. — digo e a puxo para um abraço. Ela me aperta forte e da um beijo no meu pescoço, sinto seu sorriso abrir ao ouvir minhas próximas palavras. — Eu te amo. E depois chama a Maíra para mim, vai ser bom ter ela por perto.
Saio dali e vou ate Anna. Ela esta sentada em uma área vazia da arquibancada, eu me sento ao lado dela e ficamos olhando para frente em silencio. Eu estava aqui, agora é com ela.
_ Oi. — ela diz baixinho.
_ Ei... Não adianta eu te perguntar se está tudo bem porque obviamente você não esta. Aline me contou um pouco sobre o que aconteceu hoje cedo.
_ Muita coisa aconteceu. Eu tenho que te pedir desculpas, eu sei que eu agi como uma idiota preconceituosa. Eu... — ela para e respira fundo antes de continuar. — Eu pensei que estava com raiva de você e de Aline, mas eu só estava com raiva de mim mesma. Raiva de não conseguir ser a amiga com quem você poderia sempre contar, estava na cara que alguma coisa acontecia entre vocês e em nenhum momento você comentou sobre isso comigo. Não somente sobre você estar com Aline, mas o fato de estar gostando de meninas ou estar confusa, eu fiquei com medo de te perder. Não te culpo sabe, em momento algum eu te perguntei ou dei chance de falar alguma coisa. Vocês sempre estavam muito juntas e quando vi vocês duas lá na piscina, eu vi todas minhas desconfianças se confirmando bem na minha frente. Então agi daquele modo, sei que não tem perdão o que fiz. Depois daquele dia eu pensei sobre o que você disse, que eu estava jogando uma amizade de anos fora. Naquele momento eu não enxergava isso, só conseguia ver o quanto você estava estragando sua vida se envolvendo com uma menina. Convenhamos que isso não seja muito convencional e de alguma forma eu te admirava por isso, por não ligar nem um pouco para o que os outros pensavam. Mas e claro que não ia confessar isso. — ela abre um sorriso enquanto fungava. Eu me encostei mais no apoio da arquibancada e olhei para ela com um leve sorriso. As palavras de raiva se quebraram antes de sair, olhando para ela, daquele jeito só sentia pena dela.
_ Eu nunca imaginaria que você se sentia assim Anna. Por favor, não pense que você não é importante para mim, porque sofri muito quando nos separamos. Eu queria te contar, mas o medo foi maior, eu não sabia como vocês iriam reagir. Só que mesmo com medo eu ainda era negligente, beijava Aline mesmo sabendo que vocês estavam ali. Não queria que tivesse descoberto daquela forma. — digo olhando nos seus olhos.
_ Eu sei disso... Na segunda feira eu queria conversar com você, fui com esse intuito, mas briguei com Marcos na porta da escola, por sua causa. Toda a raiva que tinha sentido voltou, eu sabia que ele estava certo, só que não queria aceitar o fato dele ficar contra mim afinal eu era a namorada dele. Então decidi a continuar te ignorando, depois de alguns meses nós dois terminamos. Ai veio à coisa com a Maíra, ela também estava do seu lado e sempre que estávamos juntas ela tentava me fazer ir conversar com você. Aos poucos fui me afastando dela e nossa amizade acabou também. Estava sem minhas duas melhores amigas e sem meu namorado... — ela fala com os olhos cheios de lagrimas. — E tudo por causa de você. Não conseguia nem te olhar direito sem me lembrar de tudo. Então como estava sem ninguém resolvi mudar, conheci o Carlos numa festa do Diego. Ele era cheio de tatuagens e piercings, um verdadeiro bad boy com moto e tudo. Era tudo o que eu mais abominava e também era a oportunidade perfeita de esquecer tudo, pelo menos na minha cabeça era. Acabamos ficando, depois de um tempo descobri que ele vendia drogas. No começo me afastei, mas não durou muito tempo, depois de alguns dias fui atrás dele e pedi algumas gramas de maconha. — Inspiro forte ainda não aceitando que Anna tenha se envolvido com isso. Sua cabeça estava baixa, provavelmente estava com muita vergonha por revelar tudo isso.
_ Era só uma vez, não queria me viciar. Só que quando você experimenta pela primeira vez é uma viajem tão doida que quer sentir isso toda hora, e quando estava chapada perdia totalmente o rumo de onde estava e eu não controlava minha boca, falava de tudo e de todos. Percebia que cada vez mais você e Aline ficavam próximas, começaram a namorar e viviam juntas... Era um casal perfeito e eu continuava a não achar sentido na sua decisão. Comecei a frequentar as mesmas festas que o Carlos ia, fumava todas e no final, transava com ele aonde dava. No carro, no banheiro, na mesa... No meio da pista. — ela diz isso olhando para o nada, como se estivesse vendo isso bem na sua frente. — Estava tão fora de mim que nem ligava. Adorei ver a sua reação quando nos pegou no beco, a sua cara vendo como eu estava desgraçando a minha vida e sabendo que foi por sua causa, eu só via a diversão que ele trazia. Continuei com essa rotina de festas, bebida, drogas, meus pais percebiam que tinha algo de errado, mas você sabe como eles são... — sua expressão fica negra por um instante. — Preferem deixar quieto para não sofrer, a saber, que a filha querida deles estava se drogando. E nisso se foram meses, ate ontem. Há um tempo eu estava com enjoos e mudança de humores, pensava que era por causa da droga, estava fumando para caramba, mas então minha mãe insistiu para ir ao medico e ele pediu alguns exames. No resultado saiu que... — ela tenta segurar o soluço, mas não consegue. Chego perto dela e passo meus braços por seu corpo, ela se aperta contra mim e chora no meu ombro. Esperei ela se acalmar antes de falar algo.
_ E ai o que? — digo acariciando suas costas.
_ Fernanda, ele disse que estou grávida. E o filho é do Carlos.
Gelei na hora, perdi toda noção do ambiente onde estava. Larguei Anna e me levantei, fiquei andando de um lado para o outro enquanto ela chorava. Olhei para ela e me lembrei da garota cheia de vida do meio do ano, como é que aquela garota virou isso. Se envolver com gente que não presta, fazer o que não deve e ainda por cima estar grávida. Como alguém pode desgraçar a vida de uma vez desse jeito?!
_ Merda. — Não sabia por que estava tão brava, só conseguia pensar na palavra grávida... Grávida... — Por isso que ele te bateu hoje? — pergunto quando fiquei um pouco mais calma.
_ Eu não quero que meu bebê fique convivendo com essas merdas, — ela falou entre o choro. — então falei para Carlos que não queria mais nada com ele. Ele não gostou e ficou com raiva de mim e me bateu. Não posso continuar com ele Nanda. Eu não quero isso mais, eu quero Marcos de volta, quero você e Maíra de volta. Quero minha vida de antes.
Ela estava muito mal, deixo a raiva para trás e a abraço com lágrimas nos olhos. Ficava triste vendo ela assim, não estou acostumada vendo ela assim tão emotiva.
_ Não sei se tenho o direito de pedir para me perdoar, eu entendo se não quiser. Tudo o que eu fiz foi egoísta e imaturo...
_ Tem razão, foi muito egoísta. Eu contava muito com sua amizade e você me abandonou por um motivo besta. Era complicado de entender? Tudo bem, talvez fosse, mas não era motivo para essa cena toda. – digo não conseguindo evitar a acidez na minha voz, ela abaixa a cabeça com minhas palavras. Fungo e continuo. – Só que eu não me perdoaria se eu te abandonasse agora, quando você mais precisa.
Ela me olha sem acreditar no que disse, sua expressão estava num misto de vergonha e surpresa.
_ Voc... Você tá falando sério? Mesmo depois do que eu fiz?
_ É claro, mas eu quero que você me prometa que vai parar com as drogas e vai parar de ver Carlos. Se eu souber que você o procurou, não precisa mais vir atrás de mim. Só te dou uma chance Anna. Por favor, não a jogue fora.
Ela não consegue conter o choro e joga os braços sobre mim. Também choro junto com ela, comovida por causa da emoção em mim. Saber que nós duas conseguimos nos acertar me deixa muito feliz, talvez nossa amizade não volte a ser o que era, mas pelo menos vai estar melhor do que aquela merda toda de uma nem olhar para a outra.
_ Eu prometo, mas e se eu precisar de qualquer coisa para o bebê?
_ Você não vai procurar ele e ponto. — Maíra fala atrás de mim. Olho para ela assustada, Anna também. Estava começando a ficar com medo dessas aparições dela.
_ De onde você veio demônio? – Pergunto com a mão no coração.
_ Eu peguei boa parte da conversa, estava aqui do lado, mas isso não importa. Anna, eu vou estar aqui para te ajudar, a Nanda vai estar aqui para te ajudar e seus pais vão estar aqui para te ajudar, você não vai precisar daquele canalha de forma alguma. Nem que eu tenha que me virar, mas eu vou te ajudar a cuidar dessa criança. Estamos aqui para isso.
_ Desculpa gente, eu faço essa merda toda e trago mais problemas para vocês. – Anna diz chorando.
_ Amigo é para isso. – Maíra diz simplesmente.
_ Mas eu não fui exatamente um exemplo de amiga.
_ O que passou, passou. Agora só importa o que você vai fazer daqui para frente.
Ela sorri e nós três nos abraçamos. Sentia falta dessa nossa união, ficamos assim por algum tempo e nos separamos. Vejo Aline escorada de braços cruzados numa viga ali perto, estava com um sorriso no rosto nos olhando. Ela me vê e vem ate nós.
_ Você vai nadar daqui a pouco, mandaram te chamar. – Ela diz enquanto se sentava.
_ Ok já estou indo. Você vai ficar bem, Anna?
_ A hã. Boa sorte lá, daqui a pouco nós vamos. – ela diz levantando. Aceno e vou saindo dali de mãos dadas com Aline. – Nanda... – ela me chama e olho para trás. – Obrigada. E eu quero que dê tudo certo entre vocês, de verdade. – ela diz apontando para nossas mãos juntas. Dou uma piscada para ela e sorrio.
_ Taí... uma coisa que nunca pensei ouvir. – diz Aline do meu lado rindo.
_ Somos duas, mas fico feliz que aconteceu.
_ Eu também. Agora corre se não vai acabar perdendo a largada.
_ Ganho um beijo antes? – pergunto parando e a puxando para mim.
_ Só se você ganhar.
_ E o incentivo moral... Onde fica? — finjo uma carranca e faço um bico
_ Ô menina resmungona essa minha. – ela diz sorrindo.
_ Você adora, pode confessar.
_ E ainda por cima é convencida. — ela morde o lábio e meu olhar recai sobre ele. Me inclino devagar e encosto lentamente nossos lábios, quando ela abre para aprofundar o beijo me afasto.
_ Você já devia ter aprendido que sempre dou um jeito de contornar a situação, e você sempre cai feito uma patinha. – Digo rindo. Ela me olha com um olhar feroz, mas cheio de desejo.
_ Um dia eu vou me vingar, Nanda e você vai ver quem manda.
_ Até esse dia chegar, continuo no comando. – digo e me inclino para perto do seu ouvido. – Você nervosa fica muito sexy.
_ Ah, cala a boca e me beija logo.
Faço o que ela manda, ela me puxa e me empurra na parede ali perto. Nos afastamos ofegantes quando ouvimos um pigarrear
_ Senhoritas, eu creio que este não seja o lugar mais adequado para esse tipo de envolvimento. – Nossa digníssima diretora estava atrás de nós com uma cara não muito boa. — Senhorita Betcher, os organizadores estão atrás de você para poderem realizar a prova, eu acho melhor correr. Já você, senhorita Goullart, venha comigo até a arquibancada para deixar sua companheira livre de distrações.
_ Sim senhora. – dizemos juntas, e eu completo. – Nos vemos mais tarde.
Digo e saio correndo para a área das piscinas sem nem olhar para trás.
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