No sábado de tarde eu fui embora, meus pais não tinham deixado eu ficar ali e ir para uma festa, então fui para casa. Não contei para ninguém sobre o que aconteceu, até porque Gabi se dizia apaixonada por ele – mas eu não sabia até onde se estendia a sua paixão, se era uma brincadeira porque Marcus era muito bonito ou se era realmente verdade.
Fiquei o dia todo pensando no que acontecera, desde a madrugada que Marcus aparecera bêbado em casa até o momento em que ele me beijou. Por que ele me beijou? Será que tinha sido uma forma de agradecimento… ou porque eu estava ameaçando contar algo para alguém? Essa seria a alternativa mais plausível, claro. Não existe motivo nenhum para isso ter acontecido.
Aquilo me confundiu. E se fosse algo mais? De certa forma, queria que ele gostasse de mim mas para que e por que, eu me pergunto. Não é possível que eu estivesse gostando desse cara. Ele era irmão da Iza, e eu era só uma garota nova de dezessete anos.
O resto do dia passou e eu não fui para essa tal festa. Eles me mandaram algumas fotos pelo grupo e fiquei feliz pela diversão deles. Até me disseram que Marcus os levou – e isso me surpreendeu, será que ele tinha ficado bonzinho de repente? O pensamento me fez rir, não é como se eu o conhecesse, realmente.
Quando era meia-noite, fui dormir, não tinha muita coisa para fazer.
***

No dia seguinte, vulgo domingo, tomei café com meus pais e eles me perguntaram o que faríamos para a formatura.
– Bom, vamos fazer brigadeiro para vender no colégio e estamos vendo algumas empresas de festa – eu disse, enfiando um pão na boca.
– Ótimo, fico feliz que você esteja se enturmando, Sam – minha mãe disse.
– É, eu também. Talvez, hoje, eu vá na casa da Iza para começar os preparos dos doces. Temos que começar a vender logo.
– Vocês podiam vender mais coisas – meu pai começou – além de vender brigadeiro.
– Ah, sim, existem outros doces.
– Não, mas vocês podiam, não sei, tocar música nas praças, fazerem dan…
– Ah, claro – eu revirei os olhos mas dei risada. Meu pai sempre tinha essas ideias malucas. — Com toda certeza eu e as meninas vamos dançar a cantar na praça para arrecadar dinheiro.
E assim a conversa seguiu até acabarmos de comer.
***

Quando foi mais tarde, lá pelo final da tarde, Iza perguntou se eu não queria dormir lá para ajudar a fazer os doces para a venda. Apesar de meus pais não estarem gostando da ideia de eu dormir fora várias vezes por semana, eu disse que sentia Iza muito sozinha – não que isso fosse mentira, já que ela só via os pais durante a noite e normalmente eles estavam dormindo.
Meus pais me levaram até lá e eu levei algumas coisas para o preparo – leite condensado, achocolatado, potinhos. — A casa da Iza era bem grande, e talvez por isso os pais nunca estavam, muito provável que eles tinham que trabalhar para manter aquela mansão – o.k, talvez um pouco exagerado para uma mansão, mas ainda sim, era muito bem construída, decorada e grande, diferente do meu apartamento pequeno.
Toquei a campainha e ela veio atender a porta.
– Oi Sam, entre – e então me deu um beijo na bochecha. — Estávamos te esperando para começar a fazer.
E então entrei. Fomos em direção a cozinha e quando cheguei, Lucas e Gabi estavam cochichando. Iza revirou os olhos como se soubesse sobre o que era. Algo me incomodou. Será que era sobre mim? Bom, talvez não. Dei de ombros e coloquei as coisas no balcão.
– Trouxe algumas coisas para ajudar – eu disse.
– Hm – Lucas olhou dentro da sacola. — Ótimo! Vamos lá!
– Antes, eu preciso contar para a Sam o que aconteceu! — Gabi disse, animada.
– Ei, fala baixo – Iza fez uma menção com os olhos, indicando para o andar de cima.
– O.k, bom, ontem fomos para uma das festas semanais da faculdade do Marcus – ela começou – e então todo mundo bebeu e até mesmo o Marcus! Óbvio que ele bebia mas eu nunca tinha visto ele com os amigos, parece outra pessoa.
– Até fiquei surpresa que ele não ficou mandando em mim – Iza disse, colocando as coisas numa panela.
– Enfim, enfim, a questão é que, eu estava conversando com o Nicolas quando eu notei que Marcus estava olhando para mim. Tipo, para mim! Os amigos dele conversavam alguma coisa e olhavam também e – ela balançou as mãos, como se não fosse importante. — Quando eu fui para o banheiro, ele veio atrás.
– Quem? — Eu perguntei.
– Marcus!
E então meu coração deu uma leve disparada.
– Bom, eu tinha achado que era para falar comigo mas ele realmente foi para usar o banheiro. Quando eu saí, ele estava conversando com uma moça morena e eles pareciam bem próximos. Fui lavar minha mão e quando a moça saiu, eu perguntei se ela era namorada dele e Marcus disse que não.
– Meu Deus, que enrolação! — Lucas revirou os olhos.
– E então eu disse, “Ah, que bom então”, e ele perguntou o porquê e eu disse que era porque eu queria beijar ele. Mas meu Deus, eu estava bêbada, sabe? Não era para isso ter saído da minha boca!
– E o que aconteceu? — Eu perguntei, mesmo sabendo a resposta.
– E então ele me beijou, lá no banheiro. Nossa, foi mágico. Ele beija muito bem!
– Isso é nojento – Iza disse.
– Meu Deus, Izabella, seu irmão é uma obra de arte – Lucas disse. — Nada que aquele homem faça é nojento.
– Ele parecia estar bêbado também mas… bom, — ela deu uns pulinhos e então um grito. — Meu sonho se realizou.
Eu não sabia como reagir. Ele era um babaca nojento! Minha vontade era gritar bem alto “ELE ME BEIJOU NO MESMO DIA, SUA IDIOTA”, mas ela estava tão feliz. Não consegui esconder que tinha ficado incomodada.
– O que foi? — Lucas perguntou.
– O que? — eu me fiz de idiota.
– A sua cara está estranha. Você está brava?
– Ah, não, só algumas coisas que aconteceram em casa e – eu olhei para Gabi e dei o meu sorriso mais forçado. — Que bom que você beijou ele, espero que esteja contente agora – e dei uma leve risada.
Idiota, idiota, idiota! Como ele pode ser tão… babaca? Sujo! Eu estava tentando reprimir um sentimento que eu não podia sentir por ele, algo que estava muito confusa na minha mente, mas agora que Gabi me contou sobre o beijo dos dois, o fato de eu ter ficado instantaneamente incomodada e irritada só mostra que eu estava gostando dele. Ódio! Como ele pode fazer isso?
E eu queria o que? Que ele gostasse de mim só porque ele me beijou? Isso é ridículo, uma voz fala na minha cabeça. Bufei e tentei voltar a conversar normalmente.