Depois de ter me acalmado e colocado na minha cabeça que um beijo não significa nada, realmente, terminamos de fazer os brigadeiros e colocamos todos dentro dos potinhos decorados, cada um seria vendido por três reais.

Eu já estava pronta para dormir quando o idiota passou pela cozinha. Lucas cutucou a Gabi discretamente e ela fez uma cara sorridente. Ele olhou para o monte de doces em cima das caixinhas de venda e então fez uma cara de interesse.

— Eu posso pegar um?

— Claro que… — Gabi ia dizendo mas eu a cortei:

— Não. Se quiser, vai ter que comprar.

— É só um, não vai fazer diferença – Gabi pegou um copinho e entregou para ele. Aquilo estava me dando muita raiva, cínico!

Ele provou e pareceu aprovar.

— Hm, nada mal.

— Gente, se vocês não se importarem, vou deitar, amanhã vamos acordar cedo e eu já ultrapassei minha cota de horário – eu disse, todos me deram boa noite, menos ele.

— Logo vou subir também – Gabi avisou e eu sorri em resposta.

Quando estava subindo as escadas, percebi que ele estava fazendo o mesmo caminho – mas não propositalmente, o quarto dele ficava no mesmo corredor. — Então, eu fingi mexer no celular para disfarçar e tentar não parecer tão constrangedor.

— Boa noite – ele disse. A voz rouca estava séria. Eu não respondi. Continuei mexendo no meu celular. — Você já ouviu falar que educação na casa dos outros é o mínimo? — Ele parou e se encostou na parede do corredor.

— Ah, — fiz a minha melhor cara de cínica. — Boa noite, Marcus – mas a minha entonação foi mais grosseira do que eu gostaria. Ele arqueou a sobrancelha em resposta, como se realmente não esperasse.

— O que foi? Dormiu mal, lindinha? — Como ele podia ser tão cínico mesmo só dizendo poucas coisas?

— Não, e você? — cruzei os braços. — Como foi ontem?

— Ótimo, pena que você não pode ir – ele deu de ombros. — Bom, agora eu me vou. Espero que seu mau humor melhore até amanhã. Não quero ninguém de cara feia no meu carro.

— O que? No seu carro?

— Surpresa! Fiquei de levar vocês para a escola amanhã. É caminho para onde tenho que ir – ele fez uma cara de pouco-caso.

— Uau, se eu soubesse, arrumaria uma desculpa para não ter vindo.

Ele estreitou os olhos.

— Achei que era você que não gostava de grosseria – e deu um sorriso falso.

— Aprendi que tenho que ser com quem merece – e entrei no quarto.

Depois disso, o xinguei mentalmente inúmeras vezes mas decidi dormir, eu estava caindo de sono.

***

— Vamos logo! — Ele gritou, encostado no seu carro. Gabi estava ao seu lado, aparentemente tímida, como se eles não tivessem conversado sobre o que aconteceu. Talvez ele estivesse ignorando a lembrança, e eu não me surpreenderia. É a cara dele fingir que esqueceu.

Eu estava com a minha mochila atrás das costas e quando me aproximei do carro, tentei não olhar muito para ele. Marcus estava com uma roupa confortável, porém, bonita – qualquer coisa cairia bem nele, na realidade. — Iza e Lucas estavam atrasados.

— Mas que saco! Eu tenho hora! — Ele gritou mais uma vez.

Eu estava segurando umas das caixas com os doces e não vi quando Marcus se aproveitou para pegar outro. Decidi ignorar. Não vou demonstrar importância, assim, a bola dele ia cair.

— Muito bom o brigadeiro, foi você quem fez? — Não respondi porque achei que ele estava falando com a Gabi. — Ei, eu te fiz uma pergunta! — Tomei um susto e até Gabi me olhou espantada com sua entonação grosseira.

— Não, Marcus, não fui eu quem fiz a porcaria do brigadeiro! E por favor, será que você pode parar de pegar os doces? São três reais a menos na nossa conta.

Dito isso, ele fez um bico e fechou a cara. Fechei a minha também, ORAS, ele estava pensando o que?

Iza e Lucas apareceram correndo com as outras caixas e entramos no carro. Ninguém dizia uma palavra e eu sentia uma certa tensão vindo de Gabriela, mas Marcus parecia neutro, como se não tivesse acontecido nada. Como se ele não tivesse beijado a mim e ela no mesmo dia.

Quando chegamos, todos se despediram e agradeceram ele, inclusive eu.

— Obrigada – eu disse e ele sustentou o meu olhar.

Todos saíram do carro e eu também, mas antes de fechar a porta, vi que meu celular tinha ficado no banco. Me estiquei para pegar e então ele disse:

— Você pode ir mais rápido? Eu tenho hora.

— Eu só vou pegar o meu celular.

Fechei a porta do carro com força e não me importei se isso fosse ou não danificar o carro. Entramos no colégio e guardamos as coisas na cozinha para que no intervalo pudéssemos vender. Dez minutos depois meu celular vibrou e vi que tinha uma notificação no Instagram. Quando vi, era Marcus pedindo para me seguir. Hum, olha só. Aceitei mas não o segui de volta. Bloqueei meu celular e guardei no bolso, mas logo senti outra vibração e dessa vez, era uma mensagem pelo direct.

“Da próxima vez que você bater a porta do meu carro, eu juro que te jogo na piscina no dia mais frio do ano. Obrigado pela atenção.”

Não consegui reprimir uma risadinha. Aquela mensagem, mesmo que grosseira e ridícula, tinha um pouco de humor. Pensei se responderia ou não, mas eu queria muito provocá-lo, então escrevi:

“Eu nunca mais vou entrar no seu carro, então não precisa se preocupar.”

Ele visualizou instantaneamente e começou a digitar. Não conseguia sair da conversa, meu coração estava muito acelerado.

“Você quer brincar de ser grosseirinha? Logo comigo…”

“Alguém aqui está brincando?” eu respondi.

“Não foi você que ficou toda ofendida com a minha grosseria?”

“Meu querido, você não tinha motivo nenhum para ser um idiota comigo. Nem me conhecia.”

“E por acaso você tem motivo para TENTAR me atingir com as suas palavras de pouca importância?”— Parei. Eu tinha motivo realmente para estar brava com ele?

“Não tenho, realmente, inclusive não tem mesmo sentido eu conversar e dar bola para você, por que não vai encher o saco de outra pessoa? A Gabi, por exemplo.”

Ele digitou e então continuou digitando, mas então não enviou mais nada. Aquilo me irritou, estava ficando ansiosa. Bloqueei o celular e voltei a prestar atenção na aula.

— Com quem você estava conversando? Seus dentes até brilharam de tanto que estava sorrindo – Lucas me perguntou.

— Eu não estava sorrindo! — Não é possível que eu realmente estava fazendo isso.

— É algum paquerinha?

— Ah, — balancei as mãos, como se não fosse importante. — É só uns amigos do meu outro colégio. Só isso.

Ele me olhou desconfiado e então se convenceu – ou, pelo menos, foi o que aparentou. Meu celular vibrou de novo e eu fui ver qual era a idiotice que ele tinha mandado agora.

“Então é por isso."

“O que?"

“Você está com ciúme da Gabi porque provavelmente ela te contou que nos beijamos na festa.”

“Eu não tenho ciúme de você, eu hein.”

“Hm.”

“Só acho que você agiu como um idiota.” então mandei e não me dei por satisfeita. “Não que eu te conheça, talvez você faça isso sempre. Uma pena eu ter gastado minha saliva com alguém que não vale nada.”

“É. Uma pena, bem que você gostou de ter me beijado. Admite.”

“Foi insignificante.” eu disse, mesmo sendo um total mentira. Dito isso, ele não me respondeu mais.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.