Hardest of Hearts
21 Your Life Serving Daughter
Notas iniciais
“Você fica fazendo isso, ela disse, os olhos cheios de raiva presa e jamais dita. Você quer recontar a minha história. Mas é a minha história. Não é sua. Não pode simplesmente inventar coisas porque você iria gostar mais se eu tivesse sido mais corajosa, ou se eu tivesse matado o lobo, ou o fodido na floresta, ou começado uma coletiva de lésbicas com a caçadora e a minha avó e as parteiras locais, e feito geléias e picles sustentáveis por um lucro modesto. Porque você gostaria mais de mim se eu fosse um símbolo de menstruação e poder sexual. Essas coisas aconteceram comigo, e foi a pior coisa que já me aconteceu. Foi a única coisa que já me aconteceu. Essas tragédias são minhas. O lobo é meu, e a floresta, e a minha cesta cheia de pães e a minha avó com seus dentes dentro de uma jarra. Não pode apenas fingir que você é o caçador, ou o lobo, e transformar isso em uma história sobre nós dois. É uma história sobre mim, e sobre como a minha avó morreu, e como um dia eu podia entender o que monstros diziam e pensei que estava enlouquecendo. Você quer transformar isso num sermão instrucional. Uma história com moral. Mas não deveria fazer coisas desse tipo se ama alguém. Isso é roubo."
— Catherynne M. Valente, O Pão Que Comemos Em Sonhos; “A Garota de Vermelho”
O pai dela estava furioso.
Aethelflaed não precisava que Dustan dissesse uma única palavra para saber, não enquanto ele entrava no quarto dele com passos duros e batia a porta pesada de madeira com força o bastante para a fazer se sobressaltar.
Ela estava esperando por seu pai depois de finalmente conseguir escapar da confusão de nobres e planos para o casamento, fumegando silenciosamente em sua própria raiva e frustração. Aethelflaed não tinha completa certeza se as palavras de Judith eram verdadeiras, se realmente existira uma proposta de casamento de Príncipe Aethelred, mas duvidava que a rainha mentiria sobre algo assim, mesmo se o prazer de arrancar o equilíbrio de Aethelflaed valesse a pena.
Dustan a encarou, a boca fina apertada com força, a linha severa das sobrancelhas loiras franzida, os olhos azuis tão pálidos que pareciam prateados. As mãos deles estavam apertadas em punhos, e o estômago de Aethelflaed revirou nervosamente com a irritação no rosto de seu pai.
Aethelflaed se levantou e fez uma reverência formal, mantendo os olhos no chão.
Alguma coisa havia acontecido hoje na reunião com o Conselho, e o que quer que fosse, jogara a compostura de Dustan pela janela.
— O que — Dustan começou, a voz dura e raivosa. Ele não conseguiu continuar, no entanto. Uma tosse violenta começou, os sons molhados e pesados que o sacudiam parecendo ser arrancados dolorosamente do peito dele. Dustan se inclinou contra a porta, o rosto ficando vermelho com o esforço.
Aethelflaed se apressou até ele, tentou massagear as costas arfantes de seu pai, o apoiar para que conseguisse ficar reto, respirar mais facilmente, porém Dustan afastou as mãos dela com irritação. Ela inspirou afiadamente, magoada que seu pai a afastaria tão facilmente, que ignoraria sua preocupação descuidadamente.
Aethelflaed fizera tudo o que seu pai pedira dela, investigara os lordes do Wittan para saber quais pareciam estar conspirando, havia falado com as filhas e esposas deles, mandara suas damas de companhia pelo castelo para coletar fofocas dos criados, arriscara a ira de Judith quando acusara silenciosamente o filho dela de traição.
Aethelflaed era uma filha boa e fiel. Ela estava cumprindo com sua parte, como era exigido. Dustan não tinha razão alguma para tratá-la desta maneira, ela pensou enquanto buscava água para ele.
Seu pai havia parado de tossir quando ela retornou, mas ainda respirava pesadamente, parecendo exausto. Ele tomou o copo das mãos dela e drenou o conteúdo rapidamente, as veias do pescoço saltadas como se estivesse se controlando para não começar a tossir novamente.
Aethelflaed trocou o peso de uma perna para a outra, sem saber o que deveria fazer.
— Você está bem? — Ela perguntou, esfregando as mãos nervosamente. Dustan assentiu de maneira concisa. — Quer que eu mande trazer seu chá? — Aethelflaed ofereceu, o seguindo enquanto seu pai avançava pelo quarto.
— Não quero a porcaria do chá, — Dustan disparou contra ela. — E pare de me seguir como se eu fosse desmaiar a qualquer momento, menina, não sou um inválido ainda.
Aethelflaed congelou, tremendo com a raiva que começava a fervilhar dentro de seu peito. Ela cruzou as mãos atrás das costas e apertou os punhos, as unhas afiadas enfiando dolorosamente em suas palmas. Aethelflaed apertou a mandíbula e desviou os olhos de Dustan.
— Me desculpe, — ela disse, a voz tensa.
Dustan finalmente olhou para ela. Aethelflaed não se moveu, não tentou parecer mais agradável ou respeitosa. O pai dela suspirou e esfregou o rosto violentamente, os ombros caindo.
— Não, está tudo bem. Eu é quem deveria estar pedindo desculpas. A reunião com o Conselho hoje foi terrível. — Dustan colapsou pesadamente em uma das poltronas macias do quarto, apertando os músculos tensos dos ombros como se sentisse dor.
— O que aconteceu? — Aethelflaed indagou.
Os olhos de Dustan cintilavam com raiva. — Alguns dos idiotas no conselho acham que podem ameaçar levar nossas desavenças ao Papa.
Aethelflaed franziu o cenho em confusão, seus lábios se partindo em puro choque. — O Papa? Por que, em nome de Deus, trariam o Papa para o meio de uma disputa interna por poder?
A influência do Papa era sentida em todo o império cristão da Europa, mas a interferência direta dele se reservava principalmente ao continente, não à ilha da Bretanha. Além disso, os conflitos com o Império Otomano em Constantinopla ocupavam a atenção do Papa o suficiente. Ele não se dera ao trabalho de intervir durante as piores invasões dos vikings, não tinha razão para o fazer agora.
— Eles parecem pensar que o comando de Alfred para que as missas sejam celebradas em saxão é contrário aos comandos da nossa Santa Mãe Igreja, — Dustan disse, o desprezo evidente. — Bispo Cuthred também parece querer que Heahmund seja transferido o mais rápido possível. Ele teme a espada de Heahmund, e teme ainda mais a influência que ele poderá ganhar junto à nossa família. Um bando de tolos covardes.
Aethelflaed respirou lentamente, considerando. Se os assuntos da corte de Wessex chegassem aos ouvidos do Papa, ela sabia o que certamente seguiria. Anulação de seu casamento por fés diferentes. Se o Wittan continuasse a pressionar sobre outros assuntos, essa sugestão não tardaria a aparecer.
— Acha que há a possibilidade de que realmente consigam a atenção do Papa?
Dustan bufou uma risada cansada. — Sempre existe a possibilidade de qualquer coisa acontecer, Aethelflaed. Mas eu duvido. Com o casamento de Alfred com a Princesa Elsewith, teremos o apoio total da Ânglia Oriental, e Mércia está sob o controle de Wessex desde que a Rainha Kwenthrith morreu. Northumbria não vai se virar sozinha contra o resto do país. O Papa certamente não irá interferir agora. Os tempos são incertos demais.
— Então por que o Conselho faria uma ameaça como essa?
— Porque pensam que Alfred é fraco, — Dustan latiu, veneno escorrendo da voz rouca dele. — Porque acham que podem pressionar o menino até que ele ceda. Não posso esperar para que ele coloque a cabeça de alguns deles em estacas, — cuspiu odiosamente.
Dustan começou a tossir de novo, tentou conter o acesso e acabou se engasgando.
Aethelflaed se apressou até ele novamente, porém não o tocou, pairando inutilmente ao redor dele e assistindo enquanto o rosto de seu pai ficava vermelho novamente. Esse homem ridiculamente teimoso. Por que ele se recusava a aceitar a ajuda dela?
— Pai, — ela começou hesitantemente — Estou preocupada com você. Já está tão frio, e ainda nem é inverno, e você passa todo seu tempo nessas reuniões intermináveis, se exaurindo. Talvez seja melhor que descanse mais, — Aethelflaed sugeriu suavemente, quase implorando.
Ela pensou em se ajoelhar na frente dele, segurar as mãos frias de seu pai como fizera antes. Pensou em implorar a ele, com os olhos cheios de lágrimas, até que seu pai cedesse, nem que apenas para fazê-la feliz.
Mas suas lágrimas não eram o suficiente para Dustan desde que haviam deixado o castelo deles para trás, e ele deixara claro que não apreciava sua ajuda.
Dustan virou o rosto para ela subitamente, os dedos se curvando nos braços da poltrona belamente decorada como se fossem garras.
— Não vou me esconder em meus aposentos na frente de uma lareira como um homem moribundo, — Dustan disse, a voz dele cortante com ressentimento. — Jamais me peça isso novamente, Aethelflaed.
Você é um homem moribundo, Aethelflaed queria gritar para ele, sua garganta ficando apertada, seus olhos doendo. Você está morrendo, e vai me deixar sozinha, e parece não se importar mais comigo.
— Por favor, — ela sussurrou, a voz embargada.
Ela estava implorando por tantas coisas ao mesmo tempo. Pela atenção dele. Por uma palavra bondosa. Para que ele entendesse quão devastada Aethelflaed ficaria quando ele se fosse desse mundo e as últimas semanas que eles tivessem juntos fossem nada além de políticas e artimanhas.
Ela implorava pela menina que fora, amada e feliz, e pela órfã que seria, com o peso do mundo em seus ombros.
Dustan escarneceu, os lábios se curvando com nojo. — Não vou ser fraco agora. Nenhum de nós dois será. Os abutres desta corte já estão me circulando. Eles sonham em despedaçar Wessex quando eu me for. Não vou fazer isso mais fácil para eles.
Ela entendia, realmente. Aethelflaed também odiava demonstrar fraqueza na frente dessas cobras. Mas não podia simplesmente deixar que seu pai corresse mais rapidamente em direção ao túmulo.
— Me deixe ajudá-lo, então, — argumentou. — Posso ser útil, sabe que sim. Foi para isso que o senhor me criou.
Dustan franziu o cenho, confuso. — Você já faz tudo o que pode, — ele disse, perdendo um pouco da aspereza. — Confirmou as minhas suspeitas quanto às lealdades dos lordes, e até se tornou amiga da futura rainha. Elsewith tem afeição por você. Você suporta seu casamento com graça. Fez tudo o que eu poderia pedir.
— Mas posso fazer mais, — Aethelflaed insistiu, acalorada. — Posso trabalhar para mudar as alianças e inclinações do Wittan, como você faz. Fazer com que o Conselho seja mais obediente a Alfred.
Dustan balançou a cabeça. — Pensarão que seu marido a está forçando a fazer isso. Apaziguar a mente dos lordes sobre o seu casamento é o bastante. Eles não gostariam de uma mulher envolvida tão diretamente com assuntos de Estado, por mais estúpido que isso seja.
— Eu sou mais do que apenas a esposa de Ubbe! — Aethelflaed sibilou, o volume de sua voz aumentando. Ela sentiu Dustan ficar perigosamente quieto com o tom dela, porém sua frustração era grande demais. As palavras de Judith ecoavam em sua mente. Não poderia fingir ser uma flor inocente para sempre. — Sabe que sou! Você me criou para ser um herdeiro assim como uma filha. Jamais permitiria que me casasse com um homem que conseguisse me subjugar. Não pode me dizer que concordou com esse matrimônio para que eu tivesse mais controle, mais liberdade, para que pudesse ser o futuro da nossa casa, e depois se recusar a me deixar liderá-la. Não pode continuar escondendo coisas de mim!
Dustan se recostou na poltrona, o maxilar rígido. Ele precisava inclinar a cabeça para olhá-la nos olhos da maneira como estavam.
Levante-se, Aethelflaed pensou fervorosamente. Levante-se e vacile como um homem doente de novo. Prove que estou certa.
— Você tem toda a informação de que precisa. Não te conto o que acontece no conselho? Não fiz com que aprendesse tudo sobre as grandes famílias de Wessex, as histórias e escândalos deles? — Dustan disse, baixo e constante, perigoso na calma dele.
Os lábios de Aethelflaed se curvaram em um esgar raivoso. — Por que não me contou sobre o pedido de casamento de Príncipe Aethelred? — exigiu.
As sobrancelhas de Dustan subiram em surpresa. Ele parecia perplexo. — Por que eu faria isso? Você recebeu dezenas de pedidos de casamento, Aethelflaed. Não te contei sobre cada um deles.
Uma risada incrédula se desprendeu dela. Aethelflaed jogou a cabeça para trás, encarando o teto. — Não pode estar falando sério, — ela sibilou, fechando os olhos com força por um momento. — Você diz que a rainha é uma adúltera, que o filho mais velho dela é soberbo e impulsivo, conhece a vida deles, e ainda pensa que não importa? Os dois poderiam se ressentir de você por ter rejeitado Príncipe Aethelred. Como pode ter certeza de que não foi por isso que me escolheram?
— Aethelflaed, — o pai dela a chamou lentamente, a voz dele um aviso marcado em seus ossos por anos, porém ela não conseguia se forçar a parar agora.
— Você pode pensar apenas em termos de contratos e alianças, mas eu sei o que desejo e sentimento podem fazer com um homem. Sei que uma mulher com o orgulho ferido é dez vezes pior do que um homem com raiva. Não pode me pedir para enfiar minhas mãos em um ninho de cobras e depois se recusar a me dizer como não ser mordida.
— Qual é o significado de tudo isso? Judith mandou uma carta perguntando se eu consideraria casar você com Aethelred assim que Alfred se tornou rei. Ele nunca te cortejou, nunca houve um contrato. Por que isso importa?
— Importa sim! — Aethelflaed esbravejou. — Importa porque Judith sabia de algo que eu não tinha ideia, importa porque ela pôde me pegar de surpresa, com a guarda baixa, me fez perder meu equilíbrio. Informação é a única coisa que eu tenho para lutar dentro das paredes desse maldito castelo, e você nem ao menos se incomoda em me dar informações sobre a minha prórpria vida. Acha que a rainha não sabe sobre cada mínima coisa que acontece com os filhos dela, comigo, aqui dentro? Acha que ela não sabe até mesmo o que os lordes do Wittan comem no café da manhã e quantas vezes dormem com suas esposas?
Aethelflaed não tinha certeza sobre o que a estava fazendo explodir desse jeito, mas ela estava cansada, e temia tanto pelas pessoas que amava, e seu pai estava morrendo na frente dela e se recusava a deixá-la ajudar, a forçava a sentar e assistir enquanto ele definhava, enquanto fazia ser tão mais difícil proteger a família deles.
Ela se ressentira dela desde o momento em que Dustan dissera que se casaria com um viking, se ressentia de quão horrível ele fora no dia de seu casamento, se ressentia das palavras e das mãos dele, e odiava que ele se sentia culpado mas não parava, não pedia desculpas, não fazia nada para a situação entre eles ser melhor.
Do que importava a culpa de seu pai para ela, se tudo o que fazia era roubar as forças de Dustan mais rapidamente? Do que importava todo amor de Aethelflaed, todo o sacrifício que ela era obrigada e suportar, se ele nem ao menos podia ser incomodado para ajudar com a tarefa que colocara nas mãos dela?
De que importava toda sua obediência, seu cuidado em cumprir com seu dever, se no momento em que Aethelflaed ousava questionar seu pai, ela era silenciada e jogada de lado?
Dustan havia decidido acabar com a infância dela. Ele não podia ficar com raiva se ela não se comportasse mais como uma criança.
O pai dela podia marchar para dentro deste castelo, um duque respeitado mesmo entre seus inimigos, importante demais para ser contrariado, o maior apoiador do reinado de Alfred. Ele não seria punido pelas decisões que tomasse, não seria crucificado pelos desejos que tinha.
Aethelflaed não possuía tal privilégio.
Ela era uma filha para ser dada em troca, como milhares de outras, e não importava seu dinheiro ou sua beleza, ela era uma mulher, a ser controlada pelos homens em sua vida. Primeiro seu pai, depois seu marido. Mesmo se houvesse se tornado uma órfã solteira, algum primo distante e de menor posição teria tomado esse lugar.
Como um cordeiro para o abatedouro ela fora conduzida a esse castelo, à uma rainha que segurava uma espada sobre a cabeça dela, a homens que a viam como uma extensão de alguém, e ela ainda tinha que agradar a todos eles se quisesse alguma esperança de sobreviver.
Aethelflaed estava farta de tudo isso.
Dustan se levantou, com mais força e agilidade do que ela pensava que conseguiria. Uma veia estava pulsando na testa dele.
Dustan se assomou sobre ela ameaçadoramente. Aethelflaed se recusou a retroceder.
— Eu não gosto do seu tom, — Dustan avisou, como fazia quando ela era uma criança fazendo birra, logo antes de surrá-la com uma vara.
Porém Aethelflaed não era uma criança, e suas preocupações não eram birras infantis. E se seu pai encostasse a mão nela novamente, Ubbe teria algo a dizer.
Se ele te machucar de novo, haverá consequências.
Ubbe prometera isso na noite de núpcias deles. Ele havia cumprido todas as promessas que fizera até agora.
O que Ubbe faria se a despisse hoje a noite para encontrá-la marcada? O que ele faria se Aethelflaed saísse do quarto de seu pai com a boca sangrando?
Aethelflaed sorriu lentamente frente à fúria de Dustan, e o choque nos olhos dele quando ela não se amedrontou era delicioso de presenciar.
— Há muitas coisas que eu não gosto sobre a nossa situação. Você nunca pareceu se importar com nenhuma delas.
Dustan pendeu a cabeça, a mandíbula tão tensa que devia doer. — Eu escuto a sua voz, mas são as palavras de Judith que saem da sua boca. Me diga, menina, que doces mentiras a rainha tem sussurrado no seu ouvido?
Aethelflaed levantou o queixo e endireitou os ombros. — Você escuta a voz de uma mulher. Você escuta as dores de uma mulher. Não é minha culpa se não gosta das consequências das suas próprias ações.
Dustan expôs os dentes em um esgar de escárnio. — Consequências? O que você sabe sobre consequências? Sua garota ingrata.
— Ingrata? Quando eu já fui ingrata com você? Me casei com o homem que ordenou, eu agrado o meu marido, agrado os lordes, eu encanto as esposas e filhas deles, eu arrisco o desprazer da rainha, porque é isso que você pede de mim. Eu ofereço a minha ajuda, e você a despreza. Eu não sou ingrata, pai. Eu estou encarando a sua morte todos os dias — a voz dela falhou, subitamente embargada de novo, o peito doendo com as palavras que não queria dizer. — Eu estou encarando a sua morte, e tentando ser a lady que nosso povo vai precisar que eu seja quando você partir. Eu nunca pensei…
A voz de Aethelflaed a abandonou, morrendo em sua garganta enquanto encarava o rosto subitamente pálido de seu pai. Ela piscou com força para conter as lágrimas que queriam vir.
Eles jamais haviam discutido a doença de Dustan. Jamais haviam discutido como ele sofria com ela.
Ela percebeu, em um átimo, que se ressentia dele por estar morrendo, também. Por a estar abandonando. Por colocar o peso do nome da família deles apenas sobre ela.
— Eu nunca pensei que teria que liderá-los, — Aethelflaed admitiu. — Pensei que você me casaria com algum lorde, e que eu comandaria o castelo dele e carregaria os filhos dele, o ajudaria. Jamais pensei que me colocaria no meio disso, no meio de vikings e de irmãos disputando o trono. E eu estou tentando, realmente estou, mas estou apavorada. Eu temo por nosso povo, temo por Mina, temo pelo que vai acontecer se houver uma guerra civil depois que você morrer. Eu estou tentando o meu melhor por eles, mas preciso que você me ajude, pai.
Dustan a encarou, as lágrimas que ela lutava para não derrubar, a boca trêmula. Ele mal parecia respirar.
Dustan se afastou.
Aethelflaed franziu o cenho, confusa, perdida.
Ele parecia… assustado. Ela não via seu pai assustado há anos, não desde que ele a segurava enquanto sua mãe gritava de dor e do delírio da febre.
— Saia, — Dustan disse sem olhar para ela.
— Pai —
— Não vou discutir a minha morte com você, Aethelflaed. Saia. Preciso pensar.
Ele parecia tão cansado, tão exaurido.
Aethelflaed esperou por um longo momento, o observando, porém seu pai parecia tão distante, mesmo que há apenas dois passos dela.
Aethelflaed assentiu, entorpecida, e finalmente saiu, a cabeça girando.
Dustan fechou a porta atrás dela, e parecia que uma tumba havia sido selada.
{...}
— O que aconteceu? — Amice demandou no momento em que pousou os olhos em Aethelflaed. Ela segurou seu rosto, forçando os olhos perdidos de Aethelflaed a entrarem em foco. — Aethelflaed, o que aconteceu?
Aethelflaed engoliu com dificuldade. Não se lembrava exatamente de ter chegado até seus aposentos, ou de ter se sentado na cama. Ela não tinha chorado, porém sua garganta doía com o esforço de ter se controlado, sua respiração rápida e o rosto quente.
Aewynn entrou em seu campo de visão, o cabelo ruivo reluzindo nos últimos raios de sol do dia, e Aethelflaed estremeceu. Havia uma razão para que, dentre todas as filhas de lordes vassalos de Dustan, Aewynn houvesse sido escolhida para ser uma de suas damas de companhia. Caso houvesse algum ataque, caso precisassem fugir, Aewynn deveria se passar por ela, ser mandada em uma direção enquanto Aethelflaed escapava por outra.
Ambas sabiam disso, porém nunca fora uma ameaça verdadeira. Agora, Aethelflaed temia que esse dia chegasse.
— Onde está Mina? — Aethelflaed perguntou em lugar de responder a Amice. Sua voz soava estranha e distante a seus próprios ouvidos.
— Ela está com Jojen. Está segura, — Aewynn disse, aproximando-se dela também. Ela afastou o cabelo do rosto de Aethelflaed, olhando-a como se procurasse por machucados. — Senhora, o que aconteceu?
Aethelflaed arquejou uma respiração difícil. Seu peito doía. — Nada, eu estou bem.
— Você não está bem merda nenhuma, — Amice disparou, o rosto tempestuoso. Aewynn se encolheu com o palavrão e um sorriso trêmulo apareceu no rosto de Aethelflaed, apesar de tudo. — O que foi? Judith fez alguma coisa? Se aquela vagabunda está —
— Eu estava com meu pai, — Aethelflaed interrompeu antes que Amice dissesse algo que poderia colocá-la em confusão.
Um olhar passou entre Aewynn e Amice, entendimento e raiva.
— Oh, — Aewynn murmurou baixinho, sentando-se ao lado dela na cama. Pressionada a Aethelflaed como estava, podia sentir cada respiração de sua dama de companhia, e Aethelflaed se forçou a acompanhar o ritmo dela.
O que havia acontecido? Ela estava com tanta raiva, e tão frustrada, e com tanto medo, e Dustan estava morrendo, ele a abandonaria nesse mundo para resolver os problemas que ele havia criado, e se Aethelflaed falhasse, o sangue de seu povo estaria em suas mãos.
— Eu fui falar com ele. — Uma risada quase histérica escapou de Aethelflaed. — Eu pedi ajuda a ele, e meu pai me mandou embora.
Amice franziu o cenho em confusão. Ela segurou os ombros de Aethelflaed e a sacudiu levemente.
— O que aconteceu, exatamente? Sua Graça pode ser insensível, porém ele não é estúpido. Não ignoraria você dessa forma, minha senhora.
Aethelflaed balançou a cabeça. As mãos dela estavam tremendo. Ela as pressionou na cama e respirou lentamente, forçando sua mente a cooperar, engolindo sua mágoa e seu medo.
— A rainha já quis que eu me casasse com Príncipe Aethelred.
— O que? — Aewynn interrompeu, surpresa, os olhos castanhos arregalados no rosto sardento.
Aethelflaed sorriu amargamente. — Essa foi a minha reação também. Ela sabia exatamente o que estava fazendo quando me disse isso, como eu ficaria abalada. Foi uma retaliação, porque sei que o filho dela pode estar planejando uma traição. Eu deveria ter esperado, ter me controlado melhor, porém fui confrontar meu pai sobre isso. Foi uma decisão impulsiva e estúpida.
— Você pode sentir raiva, milady. Nós somos apenas humanos. Sua Graça não deveria ter mantido um segredo desse de você. — Aewynn tentou acalmá-la gentilmente.
— Sua Graça também não estava de bom humor, — Aethelflaed continuou. — O Conselho está ameaçando levar as divergências deles até o Papa.
Aewynn inspirou afiadamente, ficando tensa ao lado de Aethelflaed. Amice não parecia surpresa, porém ela sempre fora difícil de ler quando ficava com raiva, a fúria dela a única coisa capaz de aparecer nas feições belas, e naquele momento os olhos dela prometiam uma tempestade.
— Então vocês dois estavam irritados e acabaram brigando. Acontece, — Amice disse, dando de ombros irreverentemente. — Seu pai ainda está errado por não ter te dito sobre Aethelred, — ela afirmou. Amice estreitou os olhos, parecendo considerar algo por um momento, e então um sorriso malicioso se espalhou no rosto dela. — Mas tenho que dizer, minha senhora, que gosto muito mais do seu marido atual do que gostaria do príncipe. É difícil achar um homem como Ubbe entre os saxões. E ele parece te manter feliz e satisfeita também, quando vocês dois conseguem escapar da porcaria dessa corte.
Uma risada surpresa escapou de Aethelflaed, súbita e genuína. Aewynn corou imediatamente e desviou o olhar das duas enquanto Amice gargalhava com o desconforto dela.
— É verdade, Aewynn. Sabe que é minha responsabilidade vestir a nossa senhora todas as manhãs. Eles parecem ser sempre entusiastas quanto ao dever matrimonial deles. — Amice provocou, piscando para Aewynn enquanto a menina engasgava.
Aewynn balançou a cabeça, tentando parecer severa, mas os lábios dela estavam se curvando em um sorriso involuntário. — Bem, suponho que devo te parabenizar então, milady, — ela disse para Aethelflaed, a voz mais fina e tremendo com o esforço de não começar a rir também.
Aethelflaed empurrou o ombros dela, sorrindo incrédula para ambas as suas damas de companhia. — Vocês duas são absolutamente incorrigíveis, — reclamou, seu rosto ficando quente com as memórias de tudo que ela e Ubbe já haviam feito na cama em que estava sentada. — Mas suponho que estejam certas. Apesar de todos os problemas que casamento com um saxão possa evitar, duvido que eles sejam tão… ardentes quanto meu marido é.
Amice ergueu as sobrancelhas, sorrindo tanto que os cantos dos olhos dela enrugaram. Ela serviu do vinho que ficava perpetuamente nos aposentos de Aethelflaed a todas elas, levantando a própria taça em um brinde.
— Um viva aos maridos hereges e aos leitos matrimoniais! — Ela disse, tentando e falhando soar solene.
— Viva! — Aewynn ecoou, ainda corada.
E simples assim, Aethelflaed conseguia respirar novamente, conseguia esquecer, apenas pelo momento, que Aethelred provavelmente estava planejando um golpe de Estado, que metade do Wittan parecia apoiá-lo, que a decisão de a qual lado se aliar provavelmente recairia sobre ela, e que se escolhesse errado, veria a cabeça daqueles que amava em estacas antes que a forca apertasse seu próprio pescoço.
— Viva! — Aethelflaed ecoou também, o vinho gentil e rico em sua boca. Elas beberam, e Aewynn começou a falar sobre como o senso de moda das ladies da Ânglia Oriental era horrível, com Amice a interrompendo esporadicamente para reclamar sobre os servos delas que haviam chegado ao castelo com a comitiva da Princesa Elsewith.
Elas estavam esperando, dando a Aethelflaed tempo para se recompor, para explicar exatamente o que havia acontecido. Elas também deixariam que Aethelflaed simplesmente ignorasse tudo se quisesse, iriam fingir que não a viram quase às lágrimas sobre algo que seu pai dissera, a esperariam até que ela estivesse pronta.
Mas se seu povo fosse dar a Aethelflaed a lealdade deles, então ela devia a eles coragem.
— Falei sobre a morte do meu pai com ele, — Aethelflaed confessou sem aviso. O quarto ficou em silêncio tenso imediatamente, apenas o som da madeira estralando na lareira mantendo companhia a elas. Aethelflaed fechou os olhos. — Ele parecia tão assustado quando eu falei sobre isso. Tão pálido. Como se já fosse um fantasma. Eu não — a voz dela falhou. Aethelflaed engoliu com dificuldade. — Eu não entendo. Ele sabe que está chegando. Está se aproximando há anos.
— Saber de alguma coisa e falar sobre ela são duas coisas muito diferentes, Aethelflaed, — Amice disse, mais gentil do que já a escutara falar.
Ambas sabiam disso. Existiam coisas as quais nenhuma das duas mencionava, mesmo que ambas e todos ao redor delas soubessem sobre isso também. A morte da mãe de Aethelflaed e o peso que se tornar a senhora do castelo tão jovem colocara nela. O que havia acontecido com Amice no castelo do pai dela, antes de ser mandada embora.
Há quanto tempo Aethelflaed já sabia que Amice escapava para a floresta às vezes, porém jamais dissera nada sobre isso?
Algumas coisas existiam melhor em silêncio, no espaço entre um olhar e uma respiração.
— É uma coisa saber que está doente e que isso eventualmente será a causa da sua morte. É outra escutar as palavras da boca de um filho, — Aewynn murmurou. Como se as palavras de Aethelflaed pudessem fazer a morte de Dustan mais real. Como se ela pudesse apressar o destino com elas. — Mesmo um homem como Sua Graça pode temer a morte, minha senhora. Dê algum tempo a ele. Têm sido semanas difíceis para vocês dois. Ele perceberá o erro e virá até você.
Aethelflaed sorriu condescendentemente para Aewynn. Dustan não havia se desculpado por machucá-la, por tê-la casado com um viking. Ele não se desculparia por um desentendimento entre eles. Dustan poderia vir até ela com uma solução, ignorar todas as coisas feias e horríveis haviam gritado um para o outro, e simplesmente apresentar a ela algum novo ardil que teriam que executar. Mas não haveria admissão de erros, ou de arrependimento.
Aethelflaed olhou para Amice, e os lábios de sua amiga estavam pressionados em uma linha severa. Ela, também, sabia que não haveria arrependimento de Dustan. Talvez ela sempre houvesse sabido que tipo de homem Dustan era, e simplesmente houvesse decidido poupar Aethelflaed desta verdade e rezar para que nunca houvesse razão para que o amor do duque precisasse confrontar a ambição e o orgulho dele.
Mas o dia chegara, e o amor não havia prevalecido.
Aethelflaed assentiu, no entanto, porque nada disso era culpa de Aewynn, e magoada ou não, seu povo ainda precisava dela.
— Tenho certeza que ele fará isso, — Aethelflaed disse, imprimindo o máximo de convicção que conseguia à sua voz.
— Tem algo que preciso contar à você, — Amice começou assim que ficou claro que o assunto de Dustan não prosseguiria. — Algo que uma criada excepcionalmente tagarela de Bispo Cuthred me disse hoje enquanto estávamos lavando roupas.
— Não é sua responsabilidade lavar as minhas roupas, sabe disso, Amice, — Aethelflaed reprimiu imediatamente.
Amice revirou os olhos para ela. — Não posso simplesmente ficar sentada enquanto converso com os outros servos, posso? Seria suspeito. E isso não importa, de qualquer jeito. Essa criada em particular acontece de ter acesso íntimo ao nosso amado bispo.
— Eles estão dormindo juntos? — Aewynn perguntou, parecendo levemente horrorizada.
— Um erro grave da parte dela. Se quer foder um bispo, Heahmund é muito mais bonito, — Amice provocou.
— Ele parece assustador, — Aewynn rebateu, torcendo o nariz para a profanidade.
— O marido de Aethelflaed parece assustador. Ainda assim é um homem bonito. Mas eu duvido que a pobre menina tenha muita escolha se vai ou não estar na cama do bispo. Servos raramente tem escolha. — A boca de Amice se retorceu com nojo. — Ela me disse que vários lordes fizeram perguntas sobre seu status legal ao Bispo Cuthred, Aethelflaed.
— Meu status legal? — Aethelflaed repetiu estupidamente, irritação borbulhando dentro dela quando percebeu onde isso estava indo.
Amice assentiu gravemente. — Ela me disse que escutou rumores sobre o Papa, também. Na casualidade que a parte rebelde do Wittan realmente consiga a atenção de Sua Santidade e ele considere o seu casamento inválido, os lordes já estão alinhando seus filhos mais velhos para se casarem com você.
— Meu pai jamais toleraria tal conversa.
— E é precisamente por isso que Sua Graça não está ciente dela, — Amice rebateu. — Se todos os planos cuidadosos de Alfred falharem, seu pai ainda pode casar você com o herdeiro de algum lorde inimigo e todo esse fiasco será esquecido e jamais usado contra ele.
— Assumindo que ele ainda esteja vivo, — Aethelflaed disse entre dentes cerrados.
— Assumindo que ele esteja vivo, — Amice confirmou sombriamente. — E se ele não estiver, bem, só deixa o processo ainda mais fácil para eles.
Aethelflaed sentiu o gosto de bile em sua garganta. Nenhum dos lordes com quem havia conversado mencionaram casamento. Eles poderiam ter insinuado, poderiam ter falado sobre herdeiros solteiros, poderiam ter oferecido promessas veladas de segurança dentro da família deles.
A própria Aethelflaed poderia fazer um apelo para um anulamento, se quisesse.
Porém nenhum deles ao menos considerou essa possibilidade.
Ela continuaria casada até que seu pai escolhesse outro marido para ela ou traição cortasse a garganta de Ubbe, e então Aethelflaed se casaria com alguém escolhido para ela por um estranho e ficaria quieta sobre isso.
Tratada como gado para ser vendido novamente, um rostinho bonito que vinha com terras e dinheiro, piedosa e obediente, graciosa em seu sofrimento. Exatamente o que eles queriam, exatamente o que havia mostrado a eles.
— Estou farta disso, — Aethelflaed rosnou para o quarto, sua voz como uma sentença. — Não serei mais uma presa.
Se seu pai se recusasse a ajudá-la, então Aethelflaed ajudaria a si mesma.
{...}
Ubbe retribuiu o olhar ríspido de uma senhora nobre que entrava na igreja. Ele sorriu quando a mulher torceu o nariz para ele, mais predador do que um gesto amigável, e ela se benzeu antes de se apressar para tomar o lugar dela, as jóias que usava tilintando.
Ele revirou os olhos, impossivelmente entediado antes mesmo que o casamento de Alfred começasse. Ubbe vasculhou a multidão mais uma vez, uma confusão de tecidos caros e jóias pesadas que brilhavam quando passavam pela escassa luz do sol que entrava na igreja.
Os assentos eram reservados por ranking de nobreza, e Ubbe deveria se sentar na frente com Aethelflaed e Dustan, e apesar de conseguir enxergar claramente o cabelo branco de seu sogro, mais alto do que a maioria dos saxões, Ubbe não tinha a menor inclinação de ir até ele antes que fosse estritamente necessário, e Aethelflaed não estava ali ainda.
Ela estivera agitada e irritadiça na noite anterior, os longos dedos inquietos batucando incessantemente na mesa. Ubbe sabia que ela estava prestando atenção a cada uma de suas palavras, e a conversa entre os dois continuou tão fluida como tendia a ser nos últimos dias, porém alguma coisa a estava incomodando.
Ubbe perguntara, apenas uma vez, o que estava acontecendo.
“Não há nada que você possa fazer,” fora a resposta de Aethelflaed. Ao menos ela não estava tentando esconder a preocupação dele, ao menos ela admitira, sem precisar ser pressionada, que de fato havia algo de errado.
Ubbe podia imaginar, pelo estado que seu sogro deixara mais uma das intermináveis reuniões com o conselho e pela frustração de Alfred, do que se tratava. Aethelflaed tinha razão, havia poucas coisas que Ubbe podia fazer sobre um Wittan dividido.
Ele poderia matá-los, porém duvidava que Alfred gostaria de tal coisa.
Um sorriso mórbido repuxou os lábios de Ubbe ao se imaginar arremessando um machado na cabeça daqueles saxões teimosos, o segundo de choque e dor antes que colapsassem.
— Acha que todos os casamentos dos cristãos são assim? — Bjorn resmungou ao lado dele, vasculhando a igreja com o cenho franzido. Ubbe deu de ombros. — Ao menos o seu foi um pouco mais interessante.
Ubbe ergueu as sobrancelhas para o irmão. — O meu casamento foi quase exatamente igual a esse, Bjorn.
Um sorriso zombeteirocruzou o rosto de Bjorn. — Eu ao menos tinha a esperança de que alguma luta começaria no seu casamento, que algum desses lordezinhos tentaria salvar a virtude da sua esposa antes que pudesse fode-la.
— Bjorn, — Ubbe murmurou em aviso. Não precisava que nenhum saxão escutasse a maneira como Bjorn falava de Aethelflaed e realmente começasse uma briga pela honra de sua esposa.
E não gostava do desrespeito implícito nas palavras de seu irmão, também.
Bjorn suspirou, exasperado. — Pelo menos houve alguma emoção. Esse casamento é simplesmente chato.
— Dê algum tempo aos saxões. Algumas taças de vinho e tenho certeza que ao menos cinco integrantes do Wittan vão começar um duelo, — Ubbe replicou secamente.
Poderia ser pior, ele poderia estar em uma das reuniões do Wittan. Ao menos aqui Ubbe não precisava convencê-los de que mandar camponeses de quinze anos para um campo de batalha não era uma maneira inteligente de se lutar guerras.
— Onde está a sua mulher, afinal? — Bjorn perguntou, olhando ao redor como se simplesmente não houvesse percebido Aethelflaed.
Ubbe abriu a boca para responder. Atrás dele, alguém ofegou.
A atenção no salão se voltou para as portas da igreja, um murmúrio suspeito passando pela multidão. Ubbe se virou, esperando ver Alfred, até mesmo Elsewith.
Não havia nada que Ubbe pudesse fazer para desviar o olhar dela quando a viu. Sua respiração parou na garganta.
Aethelflaed estava parada em frente as portas como uma miragem, como se uma deusa houvesse descido até midgard, como um dos anjos de vingança sobre os quais os cristãos falavam.
Ela estava vestida toda de vermelho, tão profundo que Ubbe podia apenas imaginar quão caro seria aquele tecido. As saias dela eram mais armadas do que de qualquer outra mulher na igreja, fazendo com que a cintura de Aethelflaed parecesse ainda menor do que era, os ombros e o colo dela expostos, um flash de branco cremoso no meio de todo aquele vermelho. Não era um vestido que seria considerado escandaloso como o que ela usara no casamento deles, Ubbe não podia ver a curva dos seios de Aethelflaed, mas certamente chamava muito mais atenção.
No entanto, eram as pedras pretas e brilhantes costuradas no corpete do vestido em linhas próximas e ordenadas, subindo pela linha do colo dela até formarem corvos nos ombros de Aethelflaed, descendo pelas saias volumosas até a metade do tecido, que realmente capturavam a atenção. Dezenas, centenas de pedras de ônix costuradas nas roupas dela. Uma riqueza absurda, uma demonstração de poder impossível de ignorar.
Atingiu Ubbe, subitamente, que as pedras negras no vermelho escuro do vestido faziam Aethelflaed parecer coberta de sangue, o tipo de ferida que atingia uma artéria, o tipo de ferida impossível de se sobreviver, tanto sangue que reluzia como um espelho sombrio. Sangue escorrendo pelas mangas dela, pingando das asas dos corvos nos ombros, escorrendo pelas saias.
Como sangue à luz da lua.
Como se Aethelflaed houvesse matado alguém, ou tivesse sido brutalmente assassinada.
Ubbe engoliu com dificuldade, seu corpo inteiro enrijecendo.
O cabelo de Aethelflaed fora trançado e preso para formar uma coroa e fios de ouro e pérolas estavam entrelaçados nas tranças, cintilando na luz, a linha longa e elegante do pescoço dela exposta, onde pendia um colar de ouro, o pingente um rubi em formato de lágrima, o encaixe da jóia no formato de uma cobra. Um véu vermelho, fino o bastante para ser transparente, pendia da cabeça de Aethelflaed, descendo pelas costas dela até se ajuntar ao redor dela em uma grande mancha vermelha.
Parece que ela está caminhando sobre sangue, Ubbe pensou.
Aethelflaed sorriu, calma e confiante e um pouco maldosa, tão diferente da ansiedade que Ubbe pudera ver nela na noite anterior. Quando ela começou a andar, lentamente, até ele, pessoas rapidamente saíram do caminho dela, encarando-a com olhos arregalados.
Ubbe dissera a ela, uma vez, que Aethelflaed tinha mais fogo do que deixava que percebessem. Parecia que, agora, ela gostaria de arder.

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