Hardest of Hearts

22 Dinner and Diatribes


Notas iniciais
O capítulo hoje é dedicado pra Cloto que comentou, pra Miss Dixon que queria uma cena de rapidinha no castelo, e pras quantidades cavalares de vinho que estavam no meu sistema quando eu escrevi isso kspdkspdkpsdkp Aproveitem

“Eu me senti como uma semente de romã. Alguns dizem que a romã foi a verdadeira maçã de Eva, fruto do ventre. Eu comeria a perdição para provar você.”

Jeanette Winterson, Escrito no Corpo



Assistir a Aethelflaed encantar o salão era diferente de tudo que Ubbe já vira antes. Ele entendia um pouco melhor, agora, porque Dustan tinha tanta fé de que a filha poderia suportar um marido Viking e liderar a família deles. Ela era uma visão impressionante no vestido vermelho profundo e pedras negras brilhantes, uma mancha de sangue se movendo pelo salão com graça e confiança.

A própria mãe dele, Rainha Aslaug, jamais havia agido deste modo, e nem Lagertha, pelo tempo em que Ubbe a assistira ser rainha. Não haviam os mesmos gracejos, os mesmos sorrisos deslumbrantes, os mesmos comentários corteses e cautelosos. Porém ambas as rainhas possuíam mais poder sobre as próprias vidas. Ubbe as assistira serem calculistas, como qualquer político precisava ser, no entanto, elas eram mais claras em suas alianças, mais honestas em seus desprazeres e agressões.

Qualquer que fosse a linguagem que Aethelflaed e as mulheres da corte inglesa falavam, Ubbe não era versado nela.

Ele podia ler a expressão no rosto dos lordes, no entanto. A admiração. A surpresa. A indecisão.

Ubbe quase queria rir. Semanas digladiando-se com o Wittan, lutando por cada acordo e lei junto com Alfred, e era a visão de Aethelflaed sendo qualquer coisa além de modesta e assustada que os fazia repensar.

Ubbe não poderia culpá-los, no entanto.

Ele não fora capaz de tirar os olhos de Aethelflaed durante toda a cerimônia de casamento de Alfred, e não fora o único. Vermelho daquela tonalidade era difícil de conseguir, chamativo, e o véu longo que Aethelflaed usava forçava todos a volta dela a prestarem atenção para não pisarem nele, sempre conscientes de onde ela estava. Ubbe duvidava que isso fosse um erro.

A nova esposa de Alfred, comummente bela e modesta, fora completamente ofuscada, apesar da garota parecer satisfeita demais em estar casando-se com o rei para perceber isso.

Agora, depois da cerimônia tediosa na igreja, o banquete corria ferozmente, música e vinho fluindo com generosidade, risadas soando altas ao redor dele enquanto os hóspedes do castelo e convidados aproveitavam a riqueza de um rei.

Ubbe olhou ao redor, tomando nota dos convidados, dos lordes que faziam cada reunião do Conselho insuportáveis, dos aliados de Dustan que ofereciam acenos educados com a cabeça quando o percebiam olhando, e torceu o nariz para os bêbados que tomavam liberdades demais com as servas que mantinham suas taças cheias.

Ele sabia que muitos daqueles lordes não tinham estima alguma por Alfred e se regozijariam em ver o menino destronado, porém esse casamento envolvia mais do que uma dinastia real, e Ubbe duvidava que eles arriscariam ofender Ânglia Oriental arruinando o casamento da princesa.

E então os lordes gargalhavam, e comiam e bebiam, e encaravam a esposa de Ubbe com olhos arregalados e desejosos. Ubbe supunha que não deveria se incomodar com isso, mas não conseguia impedir suas mãos de se apertaram ao redor da taça que segurava.

Os músicos trouxeram a melodia rápida e animada que tocavam para o final, e Aethelflaed girou graciosamente nos braços de Príncipe Aethelred. Ela era habilidosa, rápida e fluida, acertando cada batida das músicas que estavam sendo tocadas com precisão praticada e perfeita. Ubbe se perguntou se Aethelflaed seria tão graciosa com uma espada nas mãos, se movendo ao som da música brutal e sangrenta que Ubbe aprendia desde que era um menino.

Este era o jogo que Aethelflaed estava jogando desde que o banquete começara, danças e sorrisos e adulações, indo de um lorde para o outro a noite toda, especialmente os que se provavam mais arredios no Wittan.

Ela sorriu para Aethelred, fez uma reverência e o deixou, indo para uma das muitas mesas repletas de bebidas. Água, isso seria tudo que sua esposa beberia. Ubbe percebera, em algum momento dos últimos dias, que Aethelflaed nunca bebia álcool em público. Outro movimento cuidadoso e calculado. Ela não se deixaria ser vulnerável aos olhos da corte.

Ubbe levantou- se de onde estava sentado, comendo e ocasionalmente entretendo as tentativas de algum lorde de conversar. Eles estavam mais insistentes hoje, como se a demonstração de Aethelflaed de riqueza fizesse dessas pessoas mais dispostas a ignorar o que o marido dela era, o que ele já fizera com saxões.

Ubbe atravessou o salão, ignorando os olhares sempre presentes nele. Aethelflaed sorriu quando ele se aproximou, as bochechas coradas de dançar e do calor das enormes lareiras do salão.

— Veio me pedir pela próxima dança, meu senhor? — Ela perguntou. Aethelflaed descartara o longo véu quando as danças haviam começado, e Ubbe assistiu a pulsação rápida batendo no pescoço dela.

Ele latiu uma risada. — Não conheço os passos para as suas danças, Aethelflaed. Mas você parece gostar delas o bastante.

Ela murmurou um som em concordância, olhando rapidamente para o salão antes de voltar sua atenção para ele. — Espero que sim. Edwina contratou um professor quando eu ainda era uma criança. Eu tive que treinar por horas até aperfeiçoar todos os passos. Poderia gostar ou ficar miserável, mas ainda teria que aprender todas as danças.

— E se inventarem uma nova?

Aethelflaed torceu o nariz. — Terei que me acostumar a ter bolhas nos pés novamente.

Ubbe sorriu carinhosamente para ela. — Isso certamente seria uma tragédia.

Outra música começou, mais lenta e melancólica dessa vez. Ubbe notou alguns dos lordes cercando-os, falhando em parecerem casuais em sua tentativa de ficarem perto. Ubbe ergueu as sobrancelhas para um jovem e ele se apressou em partir.

Aethelflaed suspirou, olhando para os casais tomando seus lugares no centro do salão.

— Vai dançar com algum deles? — Ubbe perguntou.

Aethelflaed brincou com o pingente de rubi do colar, franzindo o cenho. — Eu deveria. Ainda há muito trabalho a ser feito.

— É isso que está fazendo, então? Trabalhando? E eu aqui pensando que estava se divertindo esta noite, — Ubbe provocou, sorrindo quando ela revirou os olhos.

— Certamente não entretenho as conversas entediantes dos lordes por prazer, meu senhor.

Ubbe tomou uma das taças de vinho da mesa, bebendo-a rapidamente. Era o vinho misturado com mel que alguns saxões preferiam, doce e sedoso na língua.

— E pelo que está trabalhando hoje, Aethelflaed?

A mulher que estava na frente dele não era a garota que ela usualmente mostrava à corte, abatida e modesta, se acovardando diante do marido pagão. Também não era a mulher que Ubbe estava conhecendo, com cada conversa tarde da noite, ainda nus e sem fôlego, com cada piada e provocação trocada entre eles. Essa era outra pessoa, alguma outra máscara que Aethelflaed escolhera usar, outro truque de espelhos e fumaça. Ela estava tão preocupada na noite anterior; o que quer que tenha sido a causa de sua angústia também deveria ser a causa desta mudança súbita de comportamento.

Aethelflaed não o respondeu, no entanto. Ela olhou mais uma vez ao redor do salão, e os ombros dela ficaram mais retos. Ubbe seguiu a linha de visão dela e encontrou a rainha os encarando de seu assento na mesa elevada. Ele assistiu enquanto Judith pendia a cabeça em questionamento silencioso, enquanto Aethelflaed levantava o queixo em resposta, e então Ubbe estava se colocando entre as duas, escondendo sua esposa das vistas da rainha.

— Ela fez alguma coisa a você? — Ubbe exigiu em voz baixa.

Aethelflaed piscou, surpresa. — O que?

— A rainha. Ela te ameaçou?

Aethelflaed balançou a cabeça, prendendo o lábio inferior entre os dentes. — Não, nada do tipo. Ela meramente me contou algumas verdades. — Ela segurou o pulso dele subitamente. — Dance comigo.

Ubbe franziu o cenho. — Eu não conheço os passos.

Aethelflaed levantou uma sobrancelha para ele. — Estava me encarando a noite toda. Imagino que tenha aprendido alguma coisa.

Ele aprendera. Ubbe havia sido treinado para lutar desde que conseguia segurar uma espada de madeira nas mãos. Ele aprendera as sequências de movimentos com a espada, como não escorregar quando a luta se tornava rápida e acalorada, como reganhar seu equilíbrio quando um oponente o acertava. E mais importante, como ler um oponente, os corpos deles, os movimentos, as manias que indicavam onde atacariam no momento seguinte.

Lutar podia ser uma dança também, de muitos jeitos.

— Você é meu marido. Seria bom se nos vissem dançando juntos. Mostraria que estamos aprendendo a apreciar a companhia um do outro, apesar das nossas… circunstâncias peculiares. — Aethelflaed continuou. Ela sorriu, mas Ubbe podia ver que não era completamente verdadeiro. — Prometo não reclamar se você pisar nos meus dedos dos pés.

Ubbe bufou uma risada e balançou a cabeça, mas ofereceu a mão a ela mesmo assim.

Aethelflaed estivera dançando com homens que não gostava a noite toda, talvez pudesse dar a ela uma dança na qual conseguisse se divertir.

Ela o levou até o centro do salão, as saias pesadas farfalhando com cada movimento, as pedras pretas bordadas no vestido reluzindo na luz do fogo. Ubbe pousou uma mão no meio das costas dela, sentindo o expandir de seu tórax quando Aethelflaed respirou profundamente, sua outra mão segurando a dela.

Aethelflaed não era uma mulher baixa, especialmente não entre as saxãs, mas ela ainda tinha que inclinar a cabeça para trás para olhá-lo nos olhos. Eles brilhavam, desafiadores. Ela apertou a mão dele em aviso, e Ubbe sentiu os músculos das costas dela enrijecerem e flexionarem, indicando o movimento que ela faria, e ele a seguiu facilmente, entrando em um ritmo da mesma forma que fizera tantas vezes em uma luta.

Eles não estavam exatamente seguindo o ritmo da música, mas ela não parecia se importar.

— Não sabia que haveria uma festa como esta depois do casamento, — Ubbe comentou, concentrando-se em antecipar o próximo movimento de Aethelflaed e segui-la.

Um sorriso triste repuxou os lábios dela. — A maioria dos casamentos têm. Não tão grandes como essa, não com tanta fartura e músicos tão bons. Mas nos vilarejos, se não for inverno, há fogueiras enormes e as pessoas cantam e dançam. É difícil escutar um músico desafinado acima do clamor de dezenas de pessoas.

Ubbe apertou a mão que estava na sua. O banquete de casamento deles havia sido fúnebre e sombrio, o desconforto de todos, mesmo de Ubbe, denso no ar. Aethelflaed estava machucada e apavorada, Ubbe estava furioso, e eles poderiam muito bem estar indo para suas mortes com a maneira como a corte havia agido.

Aethelflaed não era dada a emoções, mas ele se perguntou se ela sentira falta, se a ausência de dança e música e risadas fora mais um peso colocado nos ombros dela quando se tornou sua esposa.

— Eles estão nos encarando, — Aethelflaed sussurrou, arrancando-o de seus pensamentos. Ela estava olhando por cima do ombro dele enquanto faziam uma volta lenta pelo salão. Era fácil conversar com privacidade assim. Outras pessoas precisavam dar a eles espaço para dançarem, e ninguém acharia suspeito se eles se aproximassem ainda mais um do outro.

— Estão encarando você, — Ubbe replicou.

— Bem, eu espero que estejam. Esse vestido é pesado; detestaria ter colocado ele por nada.

Era uma decisão deliberada, então. Ubbe não estava surpreso. A maioria das decisões de Aethelflaed eram assim, e ele não podia culpá-la por isso.

— Você está bonita nesse vestido, — elogiou.

As bochechas de Aethelflaed ficaram vermelhas. — Obrigada.

— Também parece que está banhada de sangue.

Aethelflaed deixou os braços dele para girar, e Ubbe suprimiu um arrepio ao pensar em sua esposa coberta de sangue desse modo. Era uma possibilidade aterradora e distante, porém não menos real por isso. Enquanto a guerra com os vikings durasse, Aethelflaed continuaria em perigo.

— Amice me disse a mesma coisa, mas eu não saberia. Não vi muito sangue em minha vida, — Aethelflaed respondeu quando retornou.

Ubbe não se surpreendia que Amice, com as mãos firmes e olhos frios, saberia como se parecia um massacre. Não quando ela havia apontado uma adaga para seu coração e o ameaçado, sozinha, no meio da noite. Ubbe ficava curioso, no entanto, sobre como a dama de uma senhora nobre saberia como era quando o pescoço de alguém era cortado e o sangue os cobria e escurecia a terra ao redor.

— Eu espero que você nunca veja, Aethelflaed, — Ubbe murmurou para ela, puxando-a mais próximo a seu corpo.

— Vai se certificar de que minha vida continue livre de sangue, Ubbe? — Aethelflaed provocou.

— Sim, — quando ele respondeu, era sério.

Aethelflaed não era ingênua, e Ubbe sabia que ela também não era inocente. Não poderia ser, não se quisesse sobreviver e prosperar nesta corte. Mas esperava que pudesse ao menos mantê-la a salvo de carnificina.

Aethelflaed ficou séria, então, os sorrisos e adulações fugindo do rosto dela, um traço da preocupação que Ubbe vira nela na noite anterior retornando. Ela mordeu o lábio inferior, estudando atentamente o rosto dele como se debatesse alguma coisa. Ubbe esperou, quase prendendo a respiração, e passou a mão lentamente pela extensão das costas dela em uma carícia reconfortante.

Aethelflaed olhou ao redor deles, checando que os outros convidados estavam afastados o bastante, e então retornou a atenção para ele, a mandíbula dela enrijecendo.

— Alguns dos integrantes do Wittan estão tentando encontrar um novo marido para mim, — ela sussurrou rapidamente.

Ubbe tropeçou.

Ele quase derrubou os dois, ganhando seu equilíbrio novamente no último segundo. Um arfar de surpresa ressoou no salão.

Aethelflaed soltou uma gargalhada, melódica e performática e totalmente falsa. Ela apoiou o rosto no peito dele, os ombros dela tremendo como se estivesse rindo, a mão dela agarrando o braço dele com força.

— Ria e esconda a raiva e a surpresa no seu rosto, Ubbe, — Aethelflaed sussurrou ferozmente, a voz dela afiada e cortante mesmo enquanto convencia a todos ao redor que estava se divertindo.

Ubbe forçou seu rosto a se esticar em um sorriso desconfortável, porém não conseguiu se forçar a rir.

Ubbe sabia que o progresso com o Wittan era lento e insatisfatório, sabia o que sussurravam pelas costas dele, sabia o que diziam que havia feito a Aethelflaed na noite de núpcias deles. Sabia que o odiavam, e que o viam como nada mais que um assassino, e que pior do que a matança era o fato de que Ubbe não era cristão.

Porém ele havia confiado em Alfred, confiado na palavra dele, na terra que prometera, na aliança que fora formada. Confiara na segurança que o casamento com Aethelflaed poderia comprar.

Se Alfred fosse incapaz de manter a promessa, esperava ao menos a hombridade de que o menino dissesse isso a ele, não que o apunhalasse pelas costas.

— Ubbe, — Aethelflaed o chamou, a voz preocupada, as unhas fincando no braço dele. Ele mal podia senti-las. A música havia terminado, e os primeiros acordes que começavam agora eram rápidos e animados. Aethelflaed suspirou. — Não deveria ter te contado isso.

Há quanto tempo ela sabia? Essa era a causa da preocupação de Aethelflaed?

Ubbe rangeu os dentes, fúria e preocupação lutando dentro dele.

Não poderia abandonar o castelo sem ser visto, os portões eram fechados e controlados demais para isso.

Deuses, o que faria sobre os filhos de Torvi?

Ele e o resto de sua família eram guerreiros, lutariam e morreriam e iriam para Valhalla, mas e as crianças? Não sabia se os saxões teriam misericórdia delas ou se as consideravam tão culpadas pelo derramamento de sangue que se estendia há décadas entre os povos deles quanto o resto dos nórdicos.

E mesmo que os poupassem, Ubbe não conseguia imaginar que a vida de órfãos daneses fosse de maneira alguma fácil. Talvez a morte fosse a melhor opção.

Aethelflaed sacudiu o braço dele.

Ubbe, — ela sibilou. Era estranho escutar a voz dela tão cortante apesar do sorriso que Aethelflaed mantinha no rosto. — Me siga.

Aethelflaed entrelaçou os braços deles, puxando-o com o máximo de naturalidade que conseguia. Amice se aproximou deles, sem dúvida atraída pela expressão rígida e furiosa que Ubbe não conseguia tirar de seu rosto.

Ele escutou mais uma vez a risada melódica e ressonante de Aethelflaed, e em algum momento das últimas semanas Ubbe havia aprendido a reconhecê-la como falsa. Era praticada e perfeita demais, distante de como sabia que Aethelflaed soava quando estava jogando cartas com as damas de companhia ou provocando-o quando estavam sozinhos.

Aethelflaed fez algum comentário sobre ele ter bebido demais e estar se sentindo mal, alto o bastante para que as pessoas mais próximas a eles escutassem.

Fazia sentido, ele supunha. Alguns dos convidados já estavam cambaleando, outros dormindo com a cabeça descansando nas longas mesas de madeira do salão. Ubbe deveria cooperar, forçar seus passos a serem vacilantes, relaxar seus músculos e deixar que Aethelflaed o apoiasse. No entanto, nunca tivera que representar um papel na frente de outros antes, e sua mente disparava rápido demais entre cenários sangrentos para que tentasse agora.

Ubbe contou quantos guardas estavam postados no salão, tentou se lembrar de quantos faziam rondas no castelo, quantos guardavam os portões. Se esperasse até as últimas horas da noite, quando estivessem cansados e separando as brigas inevitáveis que sempre surgiam entre os bêbados em festas, talvez pudesse se esgueirar pelo castelo.

E fazer o que, exatamente?

O resto de sua família estava espalhada, e mesmo que conseguisse reuni-los, não havia outros aliados na Inglaterra. Eles seriam reconhecidos facilmente em qualquer vilarejo, e os assentamentos de daneses na Inglaterra eram leais a Ivar. Mesmo a floresta não ofereceria proteção, não com duas crianças pequenas. E Ubbe duvidava que Bjorn fosse fugir, mesmo com a vida dos filhos em jogo. Ele era orgulhoso demais para isso.

Aethelflaed o estava empurrando por uma porta antes que Ubbe pudesse reaver seu autocontrole. Ubbe se desvencilhou dela e olhou ao redor, alerta, sua respiração vindo rápido. Não conhecia o cômodo em que estavam, mas eles não haviam se afastado demais da festa; ainda podia escutar a música e as risadas perfeitamente.

A lareira do cômodo estava apagada, apesar de várias velas acesas. O lugar era uma sala de estar de alguma maneira, sofás e poltronas espalhadas, pinturas e tapeçarias pendendo das paredes, uma prateleira cheia de livros em um canto. Havia uma mesa grande ali, e Ubbe notou papel de cartas e uma caneta de pena em seu tinteiro antes de Aethelflaed se postar na frente da mesa, observando-o com uma expressão apreensiva no rosto.

— Não deveria ter te contado isso, — Aethelflaed murmurou, franzindo o cenho.

Ubbe riu amargamente e cruzou os braços, percebendo quando isso fez Aethelflaed enrijecer.

— Desde quando sabe disso? Quando planejava me contar que seu pai vai voltar atrás na palavra dele e colocar minha família em perigo? — Ubbe questionou. Ressentia-se dela, percebeu, de que sua esposa estivesse disposta a trair a confiança que crescia entre eles mantendo um segredo desse.

Aethelflaed levantou as sobrancelhas, surpresa por um momento. Ela balançou a cabeça com veemência.

— Eu disse que o Wittan está procurando um novo marido para mim. Não o meu pai. Meu pai não sabe nada sobre isso, — Aethelflaed disparou de volta.

Ubbe piscou lentamente, confuso e raivoso. Ele se moveu na direção dela, sua sombra assomando-se sobre Aethelflaed. Ela engoliu em seco. — Não? Seu pai é ardiloso e ambicioso, Aethelflaed. O que te faz pensar que ele não voltaria atrás no acordo que fez com Alfred, comigo, se isso o beneficiasse?

— Eu sei exatamente quem o meu pai é, Ubbe, — Aethelflaed disse. A voz dela estava firme e fria, porém os olhos dela estavam arregalados. O medo no rosto dela o fez pausar. — Não preciso que me diga. Acha mesmo que eu estaria te contando isso se fossem os planos do meu pai para a nossa família?

Ubbe analisou o rosto dela. Na luz vacilante das velas, sombras dançavam na pele dela, ressaltando a expressão insegura. Os cílios longos faziam sombras, e apesar das maçãs do rosto altas, as bochechas de Aethelflaed ainda retinham um pouco da gordura da infância. Ela perderia aquela suavidade em mais alguns anos, as feições afiadas que a mandíbula marcada prometia completamente reveladas no rosto pálido.

Ela ainda tem dezesseis anos, Ubbe pensou, o peso daquele fato o atingindo novamente.

Era fácil esquecer, porque Aethelflaed era sagaz e ardilosa e carregava tanto peso nos ombros, mas ela era tão jovem ainda.

O que Ubbe sabia sobre a vida aos dezesseis? Nessa idade, ele ainda não havia lutado em grandes batalhas, ainda se esgueirava por Kattegat com servas e se agarrava à esperança de que seu pai retornaria.

Aos dezesseis, ele ainda não precisava escolher onde colocaria suas alianças.

Ubbe fechou as mãos em punhos.

Havia muitas coisas não ditas entre ele e Aethelflaed, segredos que ambos guardavam. A primeira responsabilidade de ambos era para com suas respectivas famílias. Aethelflaed podia ser sua esposa, porém não devia lealdade a ele. Ela se casara com um dever e uma aliança, não com um homem.

Isso era verdade sobre Ubbe também. Casara-se com Aethelflaed porque não havia outra escolha, porque isso manteria sua família a salvo, permitiria que ele realizasse o sonho de Ragnar. Havia outra mulher em sua vida, alguém a quem Ubbe escolhia.

Ambos haviam sido forçados nessa situação.

Ainda assim, escutar Aethelflaed admitir que esconderia algo assim dele o fazia se sentir traído. Ubbe se importava com ela, com sua segurança, tentava fazê-la feliz, da maneira que podia. Gostava de pensar que ela retribuiria o favor, que os momentos que compartilhavam não eram apenas mais um teatro cuidadoso que Aethelflaed encenava.

Ubbe respirou fundo, reavendo sua calma, seu autocontrole.

Assustar Aethelflaed não mudaria coisa alguma, e ele detestava ver o medo no rosto delicado dela, detestava ainda mais quando era ele a colocá-lo ali.

Ubbe deu um passo atrás e Aethelflaed suspirou como se soltasse a respiração. Ele pôde sentir a respiração dela em seu rosto.

Não percebera o quanto havia se aproximado.

— Me desculpe, não quis assustar você, — Ubbe murmurou, e o silêncio se estendeu pesado entre eles.

— Amice descobriu ontem, — Aethelflaed sussurrou, a voz dela incerta.

Então essa fora a razão da angústia dela na noite anterior, a ansiedade evidente que Aethelflaed insistia em negar. Era essa a razão de sua esposa apresentar alguém diferente à corte hoje.

Subitamente, Ubbe se sentiu culpado por sua explosão.

— A reunião com o Conselho ontem, — ela continuou — eles estão ameaçando envolver o Papa, não estão? — Aethelflaed indagou.

Ubbe assentiu, lentamente.

Ela pressionou os lábios em uma linha fina, desgostosa.

— O Papa é a maior autoridade do mundo cristão, Ubbe. O representante de Deus na terra. É o único que pode anular um casamento. Se Sua Santidade considerar um casamento que o rei ordenou contrário às leis cristãs, Alfred vai ter muitos, muitos problemas nas mãos.

Ubbe fechou os olhos, frustrado. Isso não havia passado na cabeça dele, porque não havia considerado qual era o alcance de poder do maior sacerdote dos cristãos. Porque não sabia exatamente quais leis regiam o domínio deles, e qual era a extensão política do cristianismo.

Era o tipo de luxo ao qual ele não podia mais se dar, não agora.

— Ubbe, — Aethelflaed o chamou, a mão agarrando seu pulso. No tempo em que haviam ficado nesse cômodo sem a lareira acessa, os dedos dela haviam se tornado frios. — Meu pai e os aliados dele não têm envolvimento com isso. É o que estou tentando te dizer. Eles não sabem. Alfred não sabe.

— Então como soube disso?

Ubbe não duvidava que Aethelflaed tivesse a capacidade de extrair segredos das pedras desse castelo. Não duvidava da capacidade dela. Mas estava curioso sobre o como, se algum dos lordes com quem sua esposa havia dançado essa noite tivera a audácia de propor casamento a ela enquanto Ubbe estava há poucos metros de distância.

Um sorriso incerto dançou no rosto dela.

— Mulheres pobres forçadas a estarem na cama de lordes não devem lealdade alguma a eles, — Aethelflaed respondeu. Ela deu de ombros. — Você conhece os integrantes do Wittan, Ubbe. Sabe que são orgulhosos. A nobreza sempre comete a imbecilidade de assumir que os servos não estão escutando.

— Se o seu pai e Alfred não estão envolvidos nisso, então metade do Wittan está planejando uma revolta, — Ubbe disse. Isso não o surpreendia.

Aethelflaed puxou o pingente de rubi no pescoço, pensativa.

— É uma possibilidade, mas não uma necessidade. Eles podem simplesmente forçar Alfred a se dobrar a eles.

— Ninguém vai conseguir fazer Dustan se dobrar, — Ubbe retrucou. À menção do pai dela, Aethelflaed paralisou. — Me disse que o Wittan não o enfrentaria, que sei pai pende a balança. Como eles anulariam nosso casamento sem provocar a fúria de Dustan?

Foi a maneira como Aethelflaed não estava mais olhando no rosto dele, como o lábio inferior dela tremeu antes de prendê-lo entre os dentes nervosamente, como o ar de Aethelflaed escapou dela audível e vacilante, que denunciou a resposta a ele.

Eles esperariam, Ubbe se deu conta.

Não haveria guerra até que o inverno passasse, e Dustan não sobreviveria ao inverno.

Tempo era tudo que Dustan não tinha, e o Wittan se aproveitaria disso. Poderiam simplesmente esperar, resistir todas as mudanças de Alfred até que o maior aliado do menino inevitavelmente morresse, e então devorariam Alfred e tudo que ele almejava para Wessex.

Ubbe desvencilhou o pulso do aperto fraco que Aethelflaed ainda mantinha e segurou a mão gelada dela nas suas.

Ela não diria a palavra, percebeu. Não admitiria para ele que Dustan estava próximo a morte, talvez não admitisse nem a si mesma.

Aethelflaed sofreria quando o pai morresse. Apesar de tudo, de toda a dor que Dustan trazia a ela, o luto a rasgaria por dentro.

Ubbe não podia julgá-la por isso, por amar alguém que a machucava.

Quão devastado, quão cheio de ódio, ele próprio não estava quando soube que Ragnar havia morrido? Seu pai abandonara a ele, a seus irmãos e ao povo deles durante anos, e ainda assim Ubbe queimava com desejo de vingança ao saber de como Ragnar sofrera antes de morrer.

— Ninguém me perguntou coisa alguma, — Aethelflaed murmurou, ainda olhando para o chão.

— O que?

Ela levantou o rosto para Ubbe, então, e havia aço nos olhos de Aethelflaed.

— Eu mesma poderia exigir a anulação, sem a interferência de ninguém. No entanto, ninguém me perguntou se eu gostaria de fazer isso. Não houve nenhum pedido de casamento feito a mim, Ubbe. Simplesmente assumiram que vou concordar com qualquer plano, com qualquer homem que queiram colocar na minha cama.

As narinas de Ubbe se dilataram com raiva ao lembrar dos olhares desejosos dos lordes sobre Aethelflaed durante o banquete.

— É uma coisa que meu pai escolha um marido para mim. É outra que homens que nem ao menos são meus amigos assumam que vou segui-los cegamente e entregar minha riqueza e meu corpo a quem eles colocarem na minha frente. — Aethelflaed soltou uma risada seca. — Em parte é culpa minha. Deixei que pensassem que não passo de uma menina assustada, porque era isso que me manteria segura quando cheguei aqui.

— Segura de mim, — Ubbe murmurou antes que percebesse o que estava fazendo.

Os dedos finos de Aethelflaed flexionaram entre as mãos dele.

— Foi antes de saber que você não me machucaria, Ubbe, — Ela assegurou com a voz suave.

Ubbe sorriu para ela. — Eu sei. — Ele pressionou os lábios ao dorso da mão de Aethelflaed. — Não me ressinto das maneiras que você tem para se proteger.

Aethelflaed suspirou. Ela balançou a cabeça, a luz das velas refletindo nas pérolas trançadas no cabelo dela, a sombra de um sorriso curvando os lábios cheios. — Você torna pensar objetivamente muito mais difícil, Ubbe.

— Prefere que eu seja um marido terrível para você para que possa continuar suas artimanhas políticas sem culpa? — Ele provocou.

— Prefiro que se junte a mim nelas, — Aethelflaed rebateu. — A imagem de menina indefesa me manteve segura até agora, porém não o fará para sempre. Ser vista como incapaz pode me dar proteção, mas não me ajuda a forçar a mão dos outros lordes, não me ajuda a formar alianças proveitosas e garantir que sejam cumpridas. Para isso, preciso que eles me respeitem.

Aethelflaed endireitou os ombros e entrelaçou os dedos em frente às saias, pálidos naquele mar vermelho. Ubbe poderia rir do ar formal que ela tomou.

— Eu tenho recursos e conexões, você tem reputação e liberdade, conhece a guerra e pode comandar um exército, Ubbe. Se formos uma fronte unida, poderíamos ser algo a temer. Sei que nós dois fomos forçados a estar nessa situação, mas gostaria que fossemos amigos, — a voz dela era calma, porém Ubbe podia ver que Aethelflaed estava esfregando a palma da mão com o polegar em um gesto nervoso. — Gostaria que governasse ao meu lado, e não que apenas lutasse as guerras de Alfred.

— Aethelflaed — Ubbe chamou suavemente. Ele sorriu e deslizou o polegar pela bochecha dela. — Nós já somos amigos. Acha mesmo que continuaria a suportar as derrotas humilhantes nos jogos de cartas se não fossemos?

Aethelflaed sorriu, tão brilhante que poderia ter iluminado o quarto inteiro. Ubbe percebeu a tensão deixando o corpo dela.

— Então é melhor torcermos para que você seja melhor em ser duque do que é com as cartas.

Ubbe beliscou o queixo dela levemente em aviso, e Aethelflaed bateu os dentes como se fosse morder os dedos dele.

Ainda podia escutar a festa continuando no salão de banquetes, e agora o som de palmas ritmadas acompanhava a cantoria. Ele deveria deixar que ela retornasse para a festa, que continuasse a encantar a nobreza. Deveria procurar sua família e avisá-los que em breve poderiam ter enfrentar uma rebelião. Mas não conseguia se forçar a deixá-la aqui, não após Aethelflaed pedir sua ajuda.

— Realmente sinto muito por ter te assustado, Aethelflaed, — Ubbe disse, aproximando-se mais dela.

— Está tudo bem, você apenas ficou preocupado. Eu conheço o peso da responsabilidade da vida de outras pessoas, Ubbe. Não te culpo por ficar irritado quando pensou que sua família estava em perigo.

— Não, — Ubbe balançou a cabeça, o cenho franzido. — Mesmo se o que pensei fosse a verdade, eu não teria te machucado por isso. Nunca vou erguer a mão para você, Aethelflaed. Não precisa ter medo de mim, mesmo quando fico com raiva.

Ubbe não achava que tinha a capacidade para esse tipo de violência dentro dele. Não tivera esse impulso mesmo quando pensava que Margrethe poderia ter matado os filhos de Bjorn, mesmo quando ela perdeu a sanidade e berrou ofensas para Torvi, nem mesmo quando decidiram abandoná-la na Noruega e ela sabia demais sobre eles. Talvez matá-la fosse a coisa certa a ser feita, poupá-la da própria loucura e do que Ivar poderia fazer com ela, impedir que ela desse alguma informação sobre os planos deles. Porém Ubbe não tivera estômago para matá-la, não depois de tê-la amado, e não tivera a coragem de deixar que outra pessoa o fizesse.

Não poderia ferir Aethelflaed, mesmo em meio a sua raiva, quando as opções dela eram tão limitadas quanto às suas próprias.

Aethelflaed o estava observando com a expressão compenetrada e analítica que Ubbe estava aprendendo a associar aos momentos antes dela oferecer sua vulnerabilidade a ele.

— Eu teria encontrado uma maneira de te avisar se planejassem matar você, — ela admitiu, quase um sussurro. Aethelflaed engoliu em seco. — Teria tentando encontrar uma maneira de tirar vocês daqui, talvez mandá-los para a Frankia, onde poderiam pedir abrigo ao seu tio. E se mesmo isso eu não pudesse fazer… — Ela levantou o queixo, determinada. — Eu teria protegido Hali e Asa. Mesmo que tudo dê errado, eu vou tomar conta das crianças.

Ela estava sendo honesta. Ubbe podia ver isso, no queixo erguido, no brilho desafiador nos olhos dela, na linha ereta das costas dela. Aethelflaed gostava das crianças. Filhos da amante do marido dela, e ainda assim, apesar de tudo que os cristãos pregavam sobre a monogamia, apesar do desprezo que sabia existir para com os bastardos aqui, ela era gentil com eles. Desafiaria a ira de seus conterrâneos para protegê-los.

Ele e Aethelflaed tinham poucas opções, ambos tinham grandes partes de seus destinos traçados pelo peso do nome de suas famílias, porém ainda se agarravam aquela necessidade de não causar dor desnecessária.

Ubbe estava sorrindo antes de perceber o que fazia. Ele tocou o rosto dela, as bochechas que ainda eram um pouco arredondadas, a mandíbula afiada, deixou que as pontas de seus dedos roçassem o pescoço esguio.

— Obrigada, — ele murmurou e pressionou seus lábios à testa de Aethelflaed.

Ela segurou seu pulso e inclinou o rosto na direção do toque. — Quem mais vai me ensinar noruegues e rir do meu sotaque? Eles são ótimos professores.

— Vou contar a eles que disse isso, — Ubbe brincou.

Aethelflaed suspirou, a respiração dela condensando no espaço entre seus corpos. Ubbe podia ver que a pele exposta do colo dela estava arrepiada. Ele se aproximou mais.

Ela apoiou as mãos na grande mesa de madeira e impulsionou o corpo para cima, sentando-se em cima da mesa. Aethelflaed puxou as saias, amontoando o tecido volumoso em volta dos joelhos e expôs as meias brancas que usava. A tira de seda vermelha que as segurava acima dos joelhos dela reluziu ao fogo, chamando sua atenção.

Era quase estranho vê-la ser tão casual assim.

Ela girou os ombros. — Não estava brincando sobre o vestido ser pesado antes, — disse em explicação quando Ubbe apenas a observou curiosamente. — Sabe, você não tirou os olhos do vestido a noite toda.

— Todo mundo estava olhando para você, Aethelflaed.

— Sim, mas você estava olhando para o vestido a maior parte do tempo. Não para mim.

Ubbe deu de ombros. — Parece que você está sangrando. Me deixa… desconfortável.

Aethelflaed levantou as sobrancelhas para ele.

— Certo, vou me certificar de não usá-lo quando precisar da sua atenção em alguma outra coisa, então, — ela provocou.

— Coisas como? — Ubbe rebateu.

— Como conversar com os outros lordes. As tentativas que eu vi esta noite não foram muito proveitosas.

Ubbe grunhiu, exasperado. Aethelflaed riu de seu desgosto.

— Não, prefiro que use o vestido e me distraia. É a única coisa que vai me impedir de matá-los.

— Vai ter que aprender a suportá-los, Ubbe. Posso os adular para você, mas vai ter que conversar com eles com um mínimo de civilidade e educação. Os egos de homens poderosos costumam ser coisas frágeis. Não se preocupe, vou ensinar você, — Aethelflaed assegurou, dando leves tapinhas no ombro dele.

— Vai ter que me ensinar muitas coisas se quiser que eu seja capaz de jogar os jogos da corte, Aethelflaed. Espero que seja paciente.

Ubbe deslizou os dedos pela tira de seda vermelha que prendia as meias dela no lugar. Eles deveriam sair dali logo.

— É claro que vou ser. Você sempre é paciente comigo quando me ensina alguma coisa, — Aethelflaed rebateu. Ubbe escutou o vacilar da respiração dela quando sua mão continuou a traçar círculos no tecido das meias grossas de lã que ela usava para afastar o frio.

Ubbe levantou uma sobrancelha para ela. Não era sua intenção provocá-la daquela forma, mas podia ver a cor se espalhando nas bochechas de Aethelflaed. Ele sorriu lentamente.

— Minha senhora, isso foi uma piada suja sobre as coisas que eu mostro a você no escuro? — Ubbe provocou, quase zombeteiro.

Aethelflaed corou violentamente, mas não desviou o olhar dele. Ela estava ficando mais corajosa. Ubbe gostava daquilo, gostava de quando ela respondia às suas provocações, quando era exigente e necessitada e se permitia se libertar com ele. Gostava de ter as mãos de Aethelflaed o puxando insistentemente, de ter as pernas dela o prendendo contra o corpo quente, de ter as unhas dela fincando em sua pele sem cuidado.

— É claro que não. Precisa tirar sua mente da sarjeta, meu senhor, — Aethelflaed respondeu. Ubbe percebeu quando ela olhou para boca dele.

Ubbe espalmou a mão na coxa dela, arrastando o polegar vagarosamente pela parte interna. Ele viu as pupilas de Aethelflaed dilatarem. Ela mordeu o lábio inferior.

— Tem certeza? Não prefere que eu te diga todas as coisas sujas que se passam na minha mente? — Ubbe murmurou, sua voz ficando mais baixa, mais grave.

Pelo canto dos olhos, ele viu Aethelflaed agarrar o canto da mesa, como se precisasse daquilo para manter as mãos longe dele. Ela engoliu em seco, a garganta pálida trabalhando no jogo de luz e sombras das velas. Ubbe queria colocar os dentes ali.

— Tenho certeza que sei o que se passa na sua mente, — Aethelflaed disse, tentando não soar afetada, porém a voz dela tinha um toque rouco.

Ubbe riu, baixo e áspero, e viu como Aethelflaed estremeceu com o som.

— Você passa algumas semanas na minha cama e acha que já viu tudo o que eu quero fazer com você, — Ubbe murmurou, estalando a língua em desaprovação. Ele agarrou os joelhos de Aethelflaed, forçando-a a separá-los, e se moveu para o espaço entre as pernas dela.

Ubbe podia sentir seu corpo responder, seu pau endurecendo, o coração dele batendo mais rápido.

Aethelflaed olhou rapidamente para a porta, cada respiração rápida e ofegante condensando no espaço entre os corpos deles. Ela lambeu os lábios, aquela boca rosada se partindo lindamente.

Ela encontrou os olhos dele, decisão e desafio e desejo.

— Me mostre, então, — Aethelflaed sussurrou. — Me mostre o que quer fazer comigo no escuro, Ubbe.

Ubbe a beijou.

Não houve aviso, ou aproximação gentil, ou mãos carinhosas a trazendo lentamente para perto. Ele segurou o rosto de Aethelflaed, e foi intenso desde o primeiro momento, línguas e calor e a emoção da discussão deles, a raiva que Ubbe não admitiria para si mesmo que sentia ao ver os lordes olhando-a com desejo, as mãos deles nela enquanto dançavam.

Raiva ao pensar que ela poderia ser tirada dele, dada a outro, a alguém que não veria que Aethelflaed era inteligente, e destemida, e bela além da visão estreita do que uma mulher deveria ser que os cristãos tinham.

Aethelflaed abraçou o quadril dele com as pernas, puxando-o impossivelmente mais perto, as mãos dela agarrando suas costas, correndo sobre os músculos, segurando e fincando as unhas sobre o tecido de suas roupas. Ubbe dobrou o corpo sobre o dela, forçando-a a se deitar na mesa, o ofensivo vestido volumoso entre eles.

Ubbe mordiscou o lábio inferior dela, depois a mandíbula, e arrastou os lábios lentamente pelo pescoço dela.

Um gemido baixo foi arrancado de Aethelflaed, o som fazendo o pau dele pulsar.

— Alguém pode entrar, — ela murmurou, ofegante.

Ubbe considerou isso, do mesmo jeito que pensava se alguém podia ouvir os gemidos de Aethelflaed se passasse frente ao quarto deles enquanto a tomava. Alguém entrando, vendo Aethelflaed corada e excitada debaixo dele, ardendo com desejo, se movendo com ele. Ubbe sabia o que diziam dele; quão chocados os saxões não ficariam ao ver como Aethelflaed ansiava por ele, como ela recebia seu toque de bom grado, procurava por ele.

Ele poderia arrancar a ideia de uma anulação da mente deles, reclamá-la tão completamente que essa corte maldita saberia que ninguém mais a teria.

— Ninguém sabe que estamos aqui, — Ubbe assegurou, no entanto, porque não tinha as palavras certas para explicar esses pensamentos a ela.

— Ubbe —

— Escute a festa, Aethelflaed, — ele interrompeu. E com certeza, o banquete prosseguia animadamente, barulhento e alegre, repleto de cantoria e palmas e gargalhadas. — Eles estão ocupados demais fingindo gostar de Alfred e da esposa dele e bebendo o vinho do rei. Não vão saber que estamos aqui, não vão saber quão bem eu vou foder você.

E ele o faria, a tomaria bem aqui, nessa mesa, nessa sala que não era iluminada o suficiente, arrancaria essa nova máscara que Aethelflaed havia decidido usar até que tivesse certeza de quem era a mulher que falava com ele. Aethelflaed podia agir como uma perfeita lady nobre o quanto quisesse, inocente ou ardilosa, ele não se importava, desde que deixasse seus disfarces quando ele a despisse.

— Deus, — Aethelflaed gemeu quando ele mordeu o pescoço dela, as costas arqueando da mesa.

Ubbe riu, o som áspero. — Não é a Ele que tem que pedir o que quer.

Ele se levantou, sorrindo quando um choramingo frustrado deixou a boca de Aethelflaed. Ubbe a agarrou pelo quadril e a virou de bruços na mesa. Aethelflaed tentou encontrar algum apoio na superfície lisa, derrubando o tinteiro no processo, espalhando a tinta nos papéis. Ela nem ao menos pareceu notar.

Ubbe não poderia despi-la, não aqui, não com um vestido pesado como esse, e eles teriam que caminhar até os aposentos dela depois. Grunhindo com irritação, ele segurou o tecido das saias dela, o material pesado em suas mãos, e o empurrou para cima, expondo as pernas de Aethelflaed, o traseiro dela. Ubbe colou o corpo ao dela, deixando que Aethelflaed sentisse o quanto a queria, empurrando seu quadril contra ela em provocação e aviso.

O tecido pesado e rígido continuava a tentar cair de volta ao lugar, e Ubbe não teve escolha a não ser o embolar na mão e o empurrar entre os omoplatas de Aethelflaed para tirá-lo do caminho, acabando por pressioná-la na mesa no processo.

Aethelflaed choramingou e empurrou a bunda contra ele, e Ubbe não sabia se era impaciência ou provocação que a movia.

Ele agarrou o traseiro dela e apertou, porque queria, porque gostava da visão da pele pálida e macia em suas mãos cheias de cicatrizes, porque ela era linda e dele.

— Eu te disse que iria levantar as suas saias e te foder em cima da mesa, Aethelflaed. Achou que isso tinha sido uma ameaça vã? — Ubbe praticamente rosnou para ele.

Ele deslizou o polegar pelo sexo exposto dela; Aethelflaed já estava molhada. Ele gemeu baixo com aquilo.

Não haveria preparações cuidadosas hoje, nenhuma provocação, não haveria joguinhos e exploração. Seria rápido, forte e sujo.

— Eu certamente espero que não, — ela conseguiu retrucar. — Eu ficaria desapontada se fosse.

— Eu detestaria isso, — Ubbe disse, circulando lentamente o feixe de nervos no topo do sexo dela. As pernas de Aethelflaed tremeram, a respiração dela travando. — Detestaria te deixar desapontada.

Ubbe conseguiu desamarrar desajeitadamente as calças o bastante para expor seu membro, necessidade e impaciência deixando seus movimentos descoordenados. Ele empurrou as pernas de Aethelflaed para que ela as abrisse mais e colou o corpo ao dela. Ubbe se esfregou sobre o sexo dela, espalhando a lubrificação de Aethelflaed em seu pau, estremecendo com o prazer de senti-la assim.

Aethelflaed gemeu quando a ponta de seu membro roçou o clitóris dela. Ubbe o fez novamente, apenas para vê-la estremecer.

— Ande logo com isso, — Aethelflaed disparou para ele, a voz vacilando. Ela agarrava a mesa com força.

— Alguém está ficando impaciente, — Ubbe a provocou.

— Eu sou uma lady mimada, Ubbe. Agora me dê o que eu que — ah! — ela gemeu alto, surpresa quando Ubbe deslizou para dentro dela em uma estocada longa e forte.

Os olhos de Ubbe quase reviraram com o súbito calor apertado em volta dele, os músculos de Aethelflaed pulsando em torno de seu pau enquanto ela se acostumava a tê-lo dentro dela mais uma vez.

Ubbe dobrou o corpo sobre ela, seu peito pressionado às costas dela, prendendo os metros de tecido no lugar, e colocou uma de suas mãos sobre a boca dela, a outra trabalhando entre as pernas dela enquanto se movia com força, o som do impacto do corpo deles e da mesa arranhando o chão de pedra com a força de seus movimentos ecoando na sala.

— Fique quieta, Aethelflaed, — Ubbe sussurrou, ofegante. — Ou eles vão te escutar gritando para mim mesmo com a música.

Ela gemeu, o som abafado pela mão dele, e arrastou as unhas na superfície de madeira da mesa, abrindo mais as pernas, derretendo contra ele. Aethelflaed arrastou os dentes nos dedos dele, mas assentiu, engolindo seus sons enquanto Ubbe se movia dentro dela, rápido e forte.

Ubbe gostaria de tê-la assim quando tivessem privacidade, quando seu sangue não estivesse fervendo com preocupação e raiva, quando pudesse enrolar o cabelo ruivo longo em suas mãos e puxar, tomar seu tempo, escutar Aethelflaed gritar para ele sem se importar com mais ninguém ouvindo. Mas não dessa vez. Dessa vez, Ubbe já podia sentir o clímax escalando seu corpo, enrijecendo seus músculos, já podia sentir Aethelflaed responder também, o sexo dela pulsando e se apertando ao redor dele, os gemidos abortados dela se tornando mais desesperados.

Da próxima vez, Ubbe prometeu para si mesmo, perdido em calor e prazer. Da próxima vez ele colocaria a mão no pescoço dela e sentiria os gemidos vibrarem na garganta de Aethelflaed, se ajoelharia atrás dela na cama e assistiria a luz da lua transformar a pele dela em prata enquanto sua esposa se contorcia de prazer para ele, da próxima vez —

A porta pesada de madeira da sala se abriu com um som trovejante e assombroso. Ubbe não teve tempo de reagir.

— Aethelflaed!

Ele conhecia aquela voz, o tom rouco, cansado e autoritário que podia calar discussões no Wittan, que podia forçar o Conselho a ceder e ignorar o orgulho por tempo o bastante para que o trabalho fosse feito.

E a voz de Dustan era a pior coisa possível de se ouvir naquele momento.





Notas finais
E parece que deu ruim, não é meus consagrados?? Espero que tenham gostado!