Hardest of Hearts

13 We're Holding too Tight


Notas iniciais
Um beijão pra Valerie Lockwood, Fênix Negra e pra Cloto que comentaram o último capítulo!!! Aproveitem ♥♥♥

Culpa é uma mulher e ela

está andando de joelhos.

Luto também é uma mulher mas

tudo que ela faz é dormir.

Amrita Chakraborty



Quando Aethelflaed acordou, o sol já estava alto no céu, e a luz que entrava no quarto batia nos vasos de flores e desenhava sombras interessantes. Ubbe não estava ao seu lado, como ela já esperava, e os lençóis frios diziam que ele partira há bastante tempo. Ela se esparramou na cama, seu corpo deliciosamente dolorido, e soube por que havia acordado quando batidas insistentes soaram novamente na porta.

Alguém praguejou do outro lado, o som abafado demais pela madeira grossa, e então a porta se abriu violentamente, revelando Amice e duas outras servas que Aethelflaed não conhecia. Ela puxou os lençóis para cima, cobrindo sua nudez, e fez o melhor para parecer composta e sofisticada mesmo que seu cabelo se contorcesse em cachos rebeldes ao redor de seu rosto e que estivesse nua na cama em que perdera a virgindade.

— Bom dia, — Aethelflaed comprimentou, a voz rouca de sono. Ela limpou a garganta discretamente e ignorou o calor que sentia subir ao rosto. — Suponho que tenha dormido demais, — entonou, tentando soar suave e divertida, mas suspeitava o que aquelas servas estavam fazendo em seu quarto, e irritação começava a estilhaçar a bolha de prazer e segredos que se formara ao redor dela na noite anterior.

Amice marchou até ela, decidida e ansiosa, o rosto ainda mais pálido e com olheiras mais profundas do que na noite anterior, os lábios machucados por mordidas e secos. Os olhos dela tinham um brilho frenético e traçavam todas as partes expostas de Aethelflaed.

— Vão buscar água para o banho da senhora, — Amice ordenou por cima do ombro. Quando as servas não se moveram, ela se virou violentamente, as mãos em punhos ao lado do corpo rígido. — Pelo amor de Deus, podem pegar a merda dos lençóis que a rainha quer depois!

— Amice, está tudo bem, — Aethelflaed tentou, agarrando o braço da amiga. Culpa pesava em seu estômago. Amice partira daquele quarto indignada e apavorada por ela, temendo o que podia significar a insistência de Ubbe em ficarem sozinhos. Ela não fora testemunha para o respeito e bondade de Ubbe e não sabia quão profundamente Aethelflaed terminara por desejar o toque dele. Amice passara a noite em claro, imaginando todas as coisas que Aethelflaed poderia estar sofrendo enquanto ela rolava alegremente pelos lençóis com seu marido. — Pegue meu robe e deixe que elas levem os lençóis. A rainha ordenou.

Aethelflaed jamais conheceria completamente a realidade da plebe, mas ela conversara o suficiente com seus próprios servos e vassalos para saber quão pouca escolha eles tinham se servissem a alguém cruel. Aquelas garotas não eram nada para Judith e Aethelflaed não arriscaria a vida delas para evitar seu próprio constrangimento. O castelo inteiro sabia o que se transpassara naquele quarto. Lençóis ou não, isso não mudaria.

Amice hesitou por mais um momento antes de buscar o robe azul claro, enviando olhares raivosos para as criadas. Quando Aethelflaed estava vestida, ela se virou novamente para as meninas. — Pronto, a rainha pode ter seu sangue agora. — Era ríspido e insolente e Amice poderia ganhar uma surra se falasse assim na frente de alguém importante. As criadas olharam para Aethelflaed como se esperassem que ela repreendesse sua dama de companhia, mas Aethelflaed apenas sorriu de forma amena e se afastou da cama, ignorando enquanto as criadas tiravam os lençóis eficientemente.

— Voltaremos com o seu banho rapidamente, milady, — uma das criadas falou, sem encontrar os olhos dela de fato. Ela estava com pena, Aethelflaed percebeu. Todos naquele castelo estariam com pena dela, a pobre garota que fora violada por um viking assustador. Ela cultiravara aquilo e permitiria que continuasse enquanto a compaixão deles servisse a seus propósitos, porém não podia estar mais longe da verdade.

— Obrigada, — Aethelflaed respondeu, simplesmente.

As criadas fizeram uma mesura rápida antes de saírem. A porta mal havia fechado quando Amice a agarrou pelos braços, ansiosa.

— Ele te machucou muito? — Amice perguntou, a voz tremendo. — E só vi os hematomas no seu pulso, mas se você precisar de remédios… — ela parou de falar, os olhos brilhando com lágrimas.

Aethelflaed franziu o cenho, encarando rapidamente os pulsos, os hematomas e pequenos cortes que Dustan deixara lá.

— Amice, eu estou bem. Ubbe não me machucou, — se apressou a dizer, incomodada com a angústia no rosto da amiga.

As feições de Amice se torceram em uma careta irritada e uma lágrima correu pelo rosto dela. — Não precisa me poupar. — Quando Aethelflaed abriu a boca para contradizê-la, Amice a puxou para um abraço firme. — Eu vou matá-lo, juro por Deus, pelos deuses dele, por qualquer um que exista. Vou matá-lo, Aethelflaed.

Aethelflaed se desvencilhou dela com dificuldade e segurou o resto de Amice firmemente entre as mãos, sacudindo-a levemente. — Amice, me escute. Ubbe não me machucou. Tive que convencê-lo a me tocar. As marcas são do meu pai. — Amice levantou as sobrancelhas em incredulidade. — É verdade. Eu nem sei se tem sangue meu nos lençóis.

— Como assim, não é seu sangue nos lençóis? — Amice perguntou, estupefata.

Aethelflaed a soltou, o rosto queimando novamente. — Eu estava apavorada e ele sabia, mas a rainha iria querer os lençóis de qualquer jeito. Ubbe se cortou por mim. Se não quisesse ter dormido com ele, não teria. Foi minha escolha, Amice, eu juro.

Houve um segundo de silêncio tenso, a expressão no rosto de Amice ilegível, e então ela começou a rir, gargalhadas altas e levemente histéricas que vinham da falta de sono, estresse e alívio. Ela afundou na cama como se as pernas não pudessem mais sustentá-la.

— Então o grande viking assustador teria poupado a esposa? — Amice perguntou para o quarto.

Aethelflaed sorriu para ela e subiu na cama também, segurando uma das mãos dela. — Ele teria. Realmente teria. Nunca pensei que teria que convencer meu marido a me levar para cama, mas Ubbe só me tocou quando teve certeza que eu queria. Foi um pouquinho humilhante e quase afetou meu orgulho, na verdade. — Aethelflaed correu os dedos pelas costas da mão de Amice. As unhas dela estavam mordidas e as cutículas machucadas. — Amice, eu sinto tanto que deixei você preocupada. Me perdoe. Eu deveria ter te avisado…

Amice mandou um olhar exasperado para ela.

— E como exatamente, minha senhora, você teria saído do quarto na sua noite de núpcias e marchado de chemise pelos corredores cheios de guardas do castelo para entrar no quarto que eu dividi com Edwina, de todas as pessoas, para me dizer: então, na verdade ele não é o bruto que imaginamos e eu me diverti?

Aethelflaed revirou os olhos. — Eu deveria ter te ensinado respeito quanto ainda havia esperança, — brincou, mas ainda estava apertando a mão de Amice e estava grata pelo pragmatismo de sua dama de companhia.

— Se quer respeito e compreensão nesse momento difícil, depois de ter rolado nos lençóis com um viking lindo e respeitoso, posso chamar Edwina para você. Talvez Jojen? Ele estava completamente horrorizado com a ideia da nossa jovem senhora entregue nas garras de um herege.

Antes que Aethelflaed pudesse responder, as criadas retornaram com a água quente. Depois de encherem a banheira de bronze batido, Amice derramou óleo perfumado na água e indicou que ela entrasse.

Aethelflaed se escondeu na água quente por um momento, aproveitando a sensação do mundo abafado ao seu redor. Quando ela emergiu, Amice estava ajoelhada ao lado da banheira, olhando-a com expectativa.

— Agora que sei que não preciso matar seu marido, pelo menos por enquanto, me diga como foi, senhora. — Amice balançou as sobrancelhas, sorrindo sugestiva e satisfeita quando Aethelflaed corou violentamente. Ela tentou fugir submergindo novamente, porém Amice a agarrou pelos ombros. — Ah, não. Eu passei a noite preocupada com você, pode ficar desconfortável um pouco e me contar como foi a perda da sua preciosa honra.

Aethelflaed encarou a água e a visão de seu corpo sob ela. Podia ver a vermelhidão em suas coxas, onde a barba de Ubbe esfregara. Ela tocou o pescoço, sentindo a pele sensível onde ele escondera o rosto enquanto se movia sobre ela.

— Você está vermelha aí. Foi a barba dele? — Amice deduziu.

Aethelflaed mordeu os lábios e assentiu, seu corpo aquecendo com mais do que a água enquanto as memórias da noite anterior passavam em sua mente.

— Sabia que homens podem te beijar lá embaixo? — Aethelflaed despejou, envergonhada demais para encarar Amice.

A dama de companhia riu, balançando a cabeça com incredulidade. O olhar dela era quase carinhoso. — Eu deveria ter arrastado você mais vezes para conversar com os camponeses, — Amice murmurou, como se Aethelflaed fosse uma criança inocente. Ela espirrou água no rosto de Amice em resposta e sua amiga a afundou na banheira. Aethelflaed emergiu rindo. — Sim, eu sabia. É bom, às vezes até melhor do que ter um homem dentro de você.

Aethelflaed se sentou na banheira, espantada. — Já teve um homem, Amice?

Amice revirou os olhos e sorriu. — A virgindade de mulheres comuns não é tão valorizada quanto a das nobres, apesar dos padres fazerem algum esforço para nos convencer disso. Eu sou uma serva com nenhuma família ou dote. Ninguém está preocupado com a santidade do meu casamento.

Aethelflaed franziu o cenho, preocupada. — Pode ser perigoso. E se você engravidar?

Ela estava surpresa, porém supunha que não deveria ser tão inesperado assim. Talvez fosse por isso que Amice sumia, de vez em quando. Se encontrando com amantes na floresta, talvez até mesmo nos vilarejos por perto.

— Existem maneiras de prevenir uma gravidez e de terminar com uma. Eu tomo cuidado. Sei das expectativas que te cercam, Aethelflaed, e que cercam as pessoas ao seu redor também. Sou discreta, jamais traria vergonha ou suspeita ao seu nome por ter uma dama de companhia desonrada. — O rosto de Amice estava sério e fechado, a expressão feita ainda pior pelas marcas de cansaço.

Aethelflaed a analisou, sentindo-se estranhamente culpada. — Por que nunca me disse nada sobre isso antes? — Indagou. Amice apenas deu de ombros e desviou o olhar. — Amice, você pensou que eu te julgaria ou pensaria menos de você por causa disso? — Aethelflaed agarrou o pulso dela, chamando a atenção de Amice. — Você é como uma irmã para mim. Eu te amo, nada do que faça vai mudar isso.

Esperança e dor cruzaram o rosto de Amice e ela simplesmente encarou Aethelflaed por um longo tempo, como se estivesse tomando coragem para algo. No final, ela simplesmente sorriu, vacilante. — Obrigada, — veio fracamente e cheio de emoção. — Eu te amo também. Mas não me abrace, vai encharcar minhas roupas.

Aethelflaed riu. — Eu te empresto as minhas. Pode assumir meus compromissos do dia e encarar essa corte com todo mundo sabendo que um viking te teve.

— Eles podem saber que Ubbe te teve, só não podem saber que gostou disso. — Amice disse afiadamente, encarando-a com severidade, como se a menção da corte arrancasse qualquer leveza que houvesse no quarto.

Aethelflaed encarou as partículas de poeira que dançavam lentamente em um raio de sol. Parecia errado que deixasse que todos acreditassem que Ubbe era um bruto quando ele não fora nada além de respeitoso e gentil, mas ela tinha demais a perder se sua reputação fosse arruinada como uma mulher luxuriosa e que simpatizava por pagãos. A corte jamais o aceitaria enquanto ele não renegasse seus deuses, de qualquer maneira. A segurança dela e de seus vassalos era a prioridade. Coisas demais haviam sido sacrificadas para que o nome de sua família fosse envergonhado.

— Eu deveria ir a capela novamente. — Aethelflaed pensou alto. — Talvez recusar todos os convites para companhia.

— Já fiz isso, — Amice respondeu. — Pensei que não estaria bem o suficiente para ver alguém hoje. Infelizmente, a vaca da rainha insiste. Seu pai também, porém acho que ele pode ser dissuadido se disser que está indisposta.

Aethelflaed endireitou a coluna e rilhou os dentes. É claro que aquela mulher maldita não a deixaria em paz. O que mais Judith queria? Aethelflaed estava casada, ela tinha a prova da consumação de seu casamento. O filho dela tinha a aliança que tanto queria. Judith queria esfregar o triunfo dela em seu rosto? Simplesmente provar que estava certa, que Aethelflaed escolhera dever e segurança, apesar de seus próprios medos, e que fora recompensada por isso de alguma forma?

Ela enfiou os dedos nas coxas, irritada. Mesmo agora, a coisa menos complicada de seu casamento era Ubbe.

— Posso negar o pedido dela, — Amice ofereceu, mas ambas sabiam que era mentira.

— Qualquer pedido da rainha é uma ordem. Ela vai me punir se eu sabotar a aliança de Alfred de qualquer maneira. Judith acreditava que Ubbe seria gentil e agora ela me quer desfilando pelos corredores para mostrar que estou bem e intacta.

— Não exatamente “intacta”, — Amice brincou, sorrindo maliciosamente. Aethelflaed enviou um olhar incrédulo e irritado para ela. Amice levantou as mãos em rendição. — Pelo menos agora você parece de mau humor. Se tivesse saído daqui brilhando de felicidade como estava quando eu cheguei, ninguém teria acreditado que foi uma participante relutante de sua noite de núpcias.

Aethelflaed engasgou, indignada. — Eu não estava brilhando de felicidade!

Amice levantou uma sobrancelha. — Ah, estava sim. O rosto satisfeito e relaxado de uma mulher que teve uma língua habilidosa na buc —

— Amice! — Aethelflaed exclamou e a empurrou para longe da banheira.

Amice caiu sentada, gargalhando, completamente satisfeita com a vergonha dela.

— É verdade! Não precisa ficar constrangida. É uma coisa maravilhosa e o mundo seria melhor se mais homens fizessem isso para suas mulheres. — Amice provocou, ainda rindo.

Aethelflaed jogou mais água nela antes de submergir na banheira, ignorando Amice até que seus pulmões queimaram. Quando ela retornou a superfície, encarou a dama de companhia com desconfiança até que Amice revirou os olhos e se afastou.

— Termine seu banho, senhora. Quanto mais rápido falar com a rainha, mais cedo pode voltar para o quarto. Talvez para o seu viking também.

— Eu te odeio, — Aethelflaed suspirou, exasperada, encarando as costas de Amice enquanto ela guardava o vestido de casamento ainda jogado no chão e arrumava outras coisas no quarto.

— Não, você me ama, acabou de falar isso.

— Eu retiro o que eu disse.

Amice se virou para mostrar a língua para ela, brandindo uma escova de cabelo ameaçadoramente.

Depois de se limpar e secar, Aethelflaed sentou em frente a lareira, esperando que seu cabelo secasse. Amice se postou atrás dela, desembaraçando as mechas cuidadosamente. A dama de companhia suspirou pesadamente.

— Eu o odeio, — Amice murmurou.

Aethelflaed se virou para ela, o cenho franzido, porém assim que viu os olhos de Amice grudados à parte inferior de seu rosto, soube que ela não falava de Ubbe. Aethelflaed correu os dedos pela mandíbula, sentindo as marcas doloridas do impacto.

— Está muito ruim? — Perguntou.

Amice deu de ombros, a boca rígida de raiva. — Vai sumir em uma semana, mas está pior hoje do que ontem. Não tenho nada aqui para ajudar as marcas a sumirem mais rapidamente, porém acho que podemos escondê-las um pouco se usar o cabelo solto e um capuz. — Ela tentou sorrir, mas a expressão era estranha. — Vai ajudar sua imagem de esposa triste.

Aethelflaed assentiu silenciosamente e se sentou corretamente na cadeira. Ela observou as marcas em seu pulso; eram obscenas na pele pálida.

— Por que seu pai fez isso? — Amice perguntou, baixinho, a voz tensa com raiva.

Aethelflaed engoliu em seco. — Eu falei da minha mãe.

A respiração de Amice falhou atrás dela. Era simples assim, com sua dama de companhia; Amice, também, crescera sob a sombra do luto e amor de Dustan pela esposa falecida, testemunhara o que acontecia com aqueles que desrespeitavam a memória da eterna senhora daquele castelo.

— Ele não deveria ter feito isso no seu rosto. É humilhante. — Havia uma raiva intensa e desesperada que nascia da impotência em Amice. Contra Ubbe, elas poderiam lutar. Contra Dustan, restava a Aethelflaed abaixar a cabeça.

Aethelflaed riu amargamente. — Mais humilhante do que me casar com um pagão? Duvido muito.

Amice puxou levemente o cabelo dela. — Pelo que me falou, não diria que foi tão humilhante assim dormir com Ubbe.

Aethelflaed revirou os olhos. — Posso gostar de dormir com Ubbe sem gostar do que esse casamento pode significar para mim e para minha reputação.

Era simples assim, se é que alguma coisa naquela união poderia ser chamada de simples. Ubbe não era um grande problema. Ele era respeitoso com Aethelflaed, bondoso, contra todas suas expectativas, e ela jamais esperara encontrar prazer como o de ontem a noite nos braços de um marido. Como indivíduo, Ubbe era agradável. Mas ambos eram mais do que apenas pessoas, e o peso do dever, honra e religião sempre superaria qualquer satisfação pessoal que Aethelflaed pudesse ter. Era para isso que ela havia sido criada. Aethelflaed era uma lady nobre antes, e filha, esposa e amiga depois.

As mãos de Amice hesitaram por um momento. — É bom que pense assim. Mulheres demais escolhem aventuras e mentiras doces à segurança. — O ressentimento na voz dela era familiar, presente sempre que Amice se lembrava dos pais. — Ubbe teve muitas mulheres antes de você, e continuará a tê-las mesmo agora. Ele pode não ter prazer na violência contra mulheres indefesas, mas não significa que ele colocaria os seus interesses na frente dos dele, Aethelflaed. — Ela apertou os ombros de Aethelflaed com força. — Pode beijá-lo até se satisfazer, mas o faça com os olhos abertos, senhora. Ele pode te acariciar com uma mão e te esfaquear com a outra, se as circunstâncias forem certas.

Aethelflaed mordeu o lábio, o estômago se revirando ansiosamente. Era mais difícil encarar essa verdade agora, com o fantasma do toque de Ubbe ainda nela, do que fora na noite anterior. Ela aprenderia, no entanto, a aproveitar o que Ubbe podia oferecer a ela sem permitir que ele tomasse demais em retorno. Deveria fazê-lo.

O vestido que Amice colocou nela era azul claro e o manto de veludo preto que colocou por cima possuía atilhos que o apertavam desde sob seus seios até sua cintura, os atilhos pendendo até o final do vestido, onde um pingente de cruz se amarrava a eles. Amice a ajudou a esconder os hematomas no rosto com o cabelo e o capuz, o cenho franzido o tempo todo.

— Quer que eu mande trazer café da manhã? Não vai ter apetite depois do seu pai e da rainha, — Amice disse.

Aethelflaed pegou do pão e do queijo deixado em seu quarto na noite anterior. — Não se preocupe. Já não tenho muito apetite agora.

Com a rainha, ela tinha menos receio, apesar de sua raiva. Aethelflaed comprira seu papel. Mas seu pai… Ele estaria culpado? Horrorizado pela exigência de Ubbe de tê-la sozinha? Ainda furioso por sua atitude e resoluto?

Ela não sabia, e a incerteza apertava seu estômago em nós nervosos. Seu relacionamento com Dustan sempre fora traçado por regras claras, mas agora tudo estava confuso. Sua certeza no amor de seu pai não era a mesma, e não sabia se ainda tinha a mesma necessidade de obedecê-lo agora que estava casada.

— Quer visitar a rainha ou seu pai primeiro? — Amice perguntou, um conforto silencioso ao seu lado.

— A rainha. É o adequado, de qualquer maneira, e prefiro começar meu dia com raiva do que com mágoa, — Aethelflaed racionalizou. Era melhor dizer isso do que admitir seu nervosismo em ver Dustan agora. Amice assentiu e então bocejou. Aethelflaed sorriu suavemente para ela. — Deveria ficar aqui e descansar.

Amice levantou as sobrancelhas. — Tenho obrigações.

— Sim, para comigo, e estou te dispensando delas hoje, — Aethelflaed disse, observando as olheiras no rosto da amiga e os ombros caídos dela. Amice franziu o cenho, pronta para discutir. — Pense nisso como um pedido de desculpas por toda preocupação que te causei. É sério, Amice. Durma. Você está quase morta. Eu estarei de volta antes que acorde.

Amice a encarou teimosamente por mais um momento, porém Aethelflaed viu a decisão dela vacilar quando observou a cama. Um sorriso repuxou seus lábios.

— Mande me chamar se precisar de algo, — Amice concedeu. Aethelflaed assentiu. — E se aquelas garotas me acordarem para colocarem novos lençóis, vou matar as duas e entregar mais lençóis sangrentos à rainha.

Aethelflaed balançou a cabeça, exasperada, mas ainda estava sorrindo quando fechou a porta.



{...}



No final, Judith tinha apenas palavras vagas de conforto e ameaças veladas sobre o dever de Aethelflaed, e a garota não teve certeza do que estava fazendo ali até que a rainha a abraçou com força antes de permitir que saísse. Judith estava se certificando de que ela estava bem o suficiente, de que não havia ferimentos sob suas roupas, de que não julgara erroneamente o caráter de Ubbe a ponto de pôr em risco a paz com os ingleses. Se as piores suspeitas deles se concretizassem e Ubbe houvesse sido cruel demais em sua noite de núpcias, a nobreza poderia se rebelar.

Porém Aethelflaed estava andando e as únicas marcas evidentes deixadas nela foram feitas pelas mãos de seu pai. Judith e o filho precioso dela ainda estavam a salvo.

A caminhada até os aposentos de seu pai, no entanto, fez as mãos de Aethelflaed suarem. Ela não podia levantar o queixo sem que as marcas em seu rosto ficassem mais expostas, e os olhares de pena que recebia estavam começando a ser invasivos, apesar de ainda servirem um propósito.

O quarto de Dustan era impessoal, apesar de belo, e era estranho vê-lo aqui, parecia afastá-la ainda mais da lembrança do pai bondoso que tivera antes de Alfred decidir usá-la como moeda de troca. A lareira, no entanto, queimava intensamente, fazendo com que Aethelflaed se sentisse quente demais sob suas roupas.

Uma criada estava colocando chá sob uma mesa de centro e ela desviou os olhos de Aethelflaed com culpa quando a viu. Aethelflaed gostaria de dizer a ela que estava tudo bem. A plebe não tinha responsabilidade pelos jogos de poder que ocorriam na corte.

— Pai, — ela chamou para as costas de Dustan, e assim que ele começou a se levantar, Aethelflaed soube que era um dia ruim. Dustan se movia lentamente, uma rigidez nos membros dele que falava de fraqueza e dor, as linhas no rosto dele marcadas profundamente, o cabelo parecendo mais branco e ralo do que antes.

Dustan a encarou, e apesar das feições endurecidas, Aethelflaed conseguiu ler a apreensão na maneira desesperada como os olhos dele a procuraram, na rigidez no cantos dos lábios dele, no movimento abortado para se aproximar dela.

— Querida, — Dustan comprimentou, a voz soando úmida. Ele tossiu discretamente, o rosto ficando vermelho por um momento.

O ar deixou Aethelflaed. Deus, não a tosse. Nem era inverno ainda, seu pai não deveria parecer tão fraco. Ela mordeu o lábio, engolindo em seco. Estava magoada e com raiva, porém não queria perdê-lo. Não podia perdê-lo, não agora que havia acabado de se casar com um viking, quando ressentimento sussurrava nos corredores daquele castelo, quando ela seria presa fácil se Dustan morresse e uma rebelião começasse.

Era culpa que o adoecia? Ela sabia a resposta e não havia satisfação para ser encontrada nela. Subitamente, Aethelflaed se sentia como uma criança perdida. Não queria ficar sem seu pai, por mais que ele a machucara nos últimos dias. Ela o amara por tantos anos, isso havia de contar para alguma coisa.

Puxando as saias pesadas, Aethelflaed se aproximou rapidamente dele, segurando nas mãos ossudas de Dustan, sentindo como estavam frias.

— Você está bem? — Ela perguntou, ansiosa.

Dustan sorriu levemente. — Esse maldito frio e esses pulmões velhos, é tudo. Não se preocupe. — Ele se desvencilhou e voltou para a cadeira, caindo nela pesadamente. — Sente-se, eu mandei trazer chá.

Aethelflaed observou o chá preto e a torta de abóbora. Ela costumava comer isso durante o outono, um costume antigo, e uma oferenda parca por seu perdão.

Boa garota, Aethelflaed. Se entregou para o viking, agora pode comer sobremesa.

Aethelflaed gostaria de poder continuar com raiva, porém quando Dustan pegou o chá, as mãos dele tremiam, e ela soube, em seu âmago, que seu tempo com ele estava se esgotando, e culpa seria o que o levaria. Seu pai seria teimoso e resoluto até o amargo fim, e ela não tinha dúvidas de que ele repetiria as mesmas decisões, porém a consciência dele ainda o atormentaria.

Era uma punição divina, e Aethelflaed queria gritar aos céus que parassem, que permitissem que essa injustiça fosse feita a ela, desde que pudesse manter seu pai.

— E você, querida? Como está? — Dustan perguntou, tenso e hesitante, encarando as chamas ao invés dela.

E Aethelflaed poderia fazer aquilo pior, poderia abaixar o capuz e enfiar os dedos naquela ferida, porém o que ganharia com isso? A punição de seu pai a afetaria.

Ela se forçou a sorrir. — Eu estou bem, pai. Não se preocupe.

Dustan ficou em silêncio, o rosto compenetrado como se tentasse decidir o que dizer a seguir ou determinar se ela falava a verdade.

— Você trará grandeza ao nosso nome, Aethelflaed, apesar dos sacrifícios que devem ser feitos. Tenho certeza disso.

Aethelflaed apertou com força o talher de prata. Não tinha desejo algum de falar sobre grandeza ou sacrifícios, principalmente os que ela não escolhera fazer. Não queria trazer sua raiva de volta, apenas para se sentir culpada por ela quando saísse daqui deixando um pai doente para trás.

— Me conte sobre a mamãe, — ela pediu, então, porque suas lembranças dela se esvaiam com o tempo, e porque Dustan a amara tanto, e havia alguma força nisso, em ambos amarem tanto a mesma pessoa. Se Dustan fosse partir logo, gostaria de ter as memórias dele, e gostaria de poder oferecer alguma felicidade, por mais imerecedor que ele fosse.

Ela era filha de seu pai, e Dustan, também, aprendera a tomar o que lhe fosse oferecido.