Hardest of Hearts

4 We all want something to hold in the night


Na noite antes de sua partida, Aethelflaed encarava o dossel da cama, incapaz de dormir. Suor frio porejava em seu corpo trêmulo, seu coração disparava em intervalos irregulares, seu estômago se contorcia em nós nervosos e sua cabeça parecia leve demais, pronta para flutuar de seu corpo. Estava cansada, infinitamente, mas incapaz de se convencer a pegar no sono. E seus sonhos, na última semana, não foram particularmente agradáveis.

Ela acordara gritando duas vezes e chorando no resto das noites, imagens malformadas de homens altos e loiros e cobertos de tatuagens a assombrando quando fechava os olhos.

Duque Dustan era de pouca ajuda. Aethelflaed via a culpa pesando nos ombros de seu pai, via a palidez e a magreza se espalhando no rosto dele, a dor em seus olhos cada vez que a olhava. Ela tentava ser forte, por ele e por Edwina e pelas pessoas que a viram crescer naquele castelo. Tentava sorrir e comer e parecer ao menos satisfeita enquanto preparava sua mudança para o castelo de rei Alfred.

Mas havia um limite para o que ela podia esconder dentro de sua própria casa, e uma parte dela se recusava resolutamente a colocar uma máscara impenetrável antes de chegar à corte. Aquele era o castelo do qual ela era senhora, aquelas eram pessoas leais a ela e, por mais que Aethelflaed tentasse, não podia impedir suas mãos de tremerem quando se despedia lentamente de cada um deles.

Alguns iriam com ela. Edwina, como sua ama e cuidadora, algumas damas de companhia, criados e alguns guardas. Aethelflaed os escolhera pessoalmente, pedira a cada um deles para a acompanhar pessoalmente, e ela vira a mesma expressão resoluta, determinada e cheia de pena se espalhar no rosto deles quando aceitavam.

Aquelas eram pessoas que pensavam estar a acompanhando para seu túmulo, e talvez eles estivessem certos.

A porta de seu quarto se abriu e Aethelflaed fechou os olhos, tentando controlar a respiração e ao menos parecer dormindo. Ela escutou uma risada irônica familiar e a cama afundou perto dela, dedos se entrelaçando nos seus e a puxando para perto de um corpo pequeno.

— Você não está dormindo, — Amice disse, e um sorriso involuntário surgiu no rosto de Aethelflaed. Parecia ser o primeiro sorriso genuíno em dias. — Eu te vejo dormindo regularmente, minha senhora, e não é nem de perto tão bonitinho assim.

Aethelflaed bufou uma risada e abriu os olhos, encarando os olhos afiados da amiga. Amice era filha bastarda de um lorde menor, vassalo de seu pai, e fora enviada como dama de companhia para Aethelflaed pouco depois da morte de sua mãe. Ela ficara satisfeita o suficiente por ter alguém por perto na época, e a inteligência e pragmatismo de Amice fizeram dela sua aliada mais forte.

Como bastarda de um lorde menor, não havia muito do que Amice fosse protegida, muito do que não falassem perto dela, e a garota sabia como fazer segredos escaparem dos lábios de qualquer um. Ela era desconfiada e, por vezes, quase cruel, e Aethelflaed jamais a amava mais do que quando Amice dizia a ela coisas que os outros tinham medo demais de sua posição como Marquesa para dizer.

— Ora, Amice, — Aethelflaed disse, rolando para estar frente a frente com a garota. — Ladies são belas o tempo todo.

Amice revirou os olhos e a cutucou nas costelas. — Nobre ou não, você caga tão fedido quanto qualquer plebeu, Aethelflaed. Já esvaziei seu penico vezes o bastante para saber disso. — Ela riu do som indignado que Aethelflaed produziu. — E vai cheirar a cavalo quando conhecer esse noivo seu.

Aethelflaed fez uma careta amarga e se jogou de costas, encarando o dossel da cama novamente. Amice recebera a notícia de seu noivado silenciosamente, os olhos azuis calculistas perscrutando seu rosto, vendo suas reações por melhor que Aethelflaed as mascarasse. Ela se levantara, servira vinho para as duas e enchera o copo de Aethelflaed mais uma vez quando ela terminou rápido demais. Depois, ela perguntara, apenas uma vez, se Aethelflaed queria fugir daquilo, o tom sério e decidido, e Aethelflaed sabia que Amice falava sério, que ela faria de tudo para encontrar uma maneira. Que fugiria com ela para qualquer lugar, se fosse preciso.

Quando negou, Amice simplesmente assentiu, bebeu mais vinho e anunciou que iria com ela. Aethelflaed poderia ter chorado, queria ter chorado de gratidão, mas sabia que não podia deixar seu controle escapar agora.

— Ele é um Viking. — Ela respondeu, simplesmente, um eco do que se repetia em sua mente e em seus sonhos a cada momento.

— E eles são mais limpos do que nós. — Amice retrucou e se levantou da cama. Aethelflaed a seguiu com os olhos enquanto ela colocava vinho em duas taças e as trazias para ela. Ela franziu o cenho.

— Não posso ficar bêbada. Partimos amanhã cedo. — Protestou.

— E vai estar destruída amanhã, com ou sem vinho, porque não dormiu. Pode a menos estar destruída com vinho. — Amice empurrou a taça em suas mãos. — Vamos, Aethelflaed. Ninguém espera que esteja reluzindo de felicidade. Vai se casar com um pagão, pelo amor de Deus. Poderia sair arrastada e chorando e seria perfeitamente aceitável.

— Meu pai sofreria se eu fizesse isso. — Aethelflaed murmurou. Evitar o sofrimento de seu pai era grande parte de ela se manter firme, os fios aos quais ela se agarrava para, se não conseguia sorrir, ao menos manter as lágrimas afastadas.

Os lábios de Amice se contorceram em um esgar enojado.

— Deixe que o velho sofra. Ele merece, com o que está fazendo com você. — Ela cuspiu com veneno.

Aethelflaed enrijeceu. — É uma aliança necessária, Amice. O próprio rei Alfred pediu e —

— E Duque Dustan poderia ter dito não. Alfred é um bastardo filho de um apóstata e metade do Wittan gostaria de tirá-lo do trono. Alfred não é Ecbert, não haveria consequências se seu pai negasse sua mão. Mas ele está velho e morrendo e foi um idiota sentimental por não ter filhos homens e agora está apavorado com o que vai acontecer com as terras da família quando ele se for. Então está te entregando a um Viking, porque nenhuma autoridade em sã consciência vai permitir que um pagão, um filho de Ragnar Lothbrok, tenha mais direito sobre a herança de seu pai do que você.

Amice sorriu, amarga e cruel e vendo o mundo tão claramente como sempre o fizera. Não estaria viva ainda se não pudesse o fazê-lo, não da maneira como nascera, não com o ódio que a esposa de seu pai tinha dela. Amice jogou o cabelo escuro por cima do ombro e ergueu a sobrancelha para ela, impassível diante de seu descontentamento. Ninguém jamais ousava falar da nobreza daquela maneira, porém ela tinha tanto respeito pela nobreza quanto tinha pelos sapos que habitavam os campos ao redor do castelo, apesar de fingir perfeitamente bem deferência quanto era necessário.

Aethelflaed mordeu o lábio, incapaz de retrucar, encarando os olhos mordazes da amiga. Amice riu e esvaziou o copo de vinho. Ela fez o mesmo e se deitou na cama, esperando que a névoa do álcool nublasse seus sentidos e diminuísse o barulho em sua cabeça.

Amice apagou quase todas as velas do quarto e voltou para cama, enfiando-se embaixo dos cobertores para abraçá-la. Aethelflaed se agarrou a ela, procurando conforto.

— Onde esteve nos últimos dias? — Ela sussurrou e escutou Amice suspirar.

— Arrumando suas coisas. Me preparando. Conversando com as pessoas que vão conosco, me assegurando da lealdade deles. Estou protegendo você, Aethelflaed. Sempre estou. — Amice respondeu, e a irreverência mordaz na voz dela deu lugar a uma ternura sem tamanho. Aethelflaed sentiu seus olhos se umedecerem.

— Poderia ter vindo mais cedo esta noite. — Ela murmurou, odiando como sua voz soava trêmula e pequena. Amice a segurou com mais força. — Eu estou apavorada.

— Eu sei, — Amice disse, amargurada. — Eu sei disso. Estava escondendo adagas nas nossas coisas. — Ela confessou, e Aethelflaed prendeu a respiração. — Vou matá-lo se ele for cruel com você. Vou matá-lo, e não me importo com as consequências. Podem me enforcar por assassinato depois, mas você vai estar segura.

Havia uma força assustadora na promessa de Amice, uma intensidade que fez Aethelflaed estremecer e se arrepiar. Ela o faria, sabia disso. Amice estava tão preparada para abrir a garganta de Ubbe Ragnarsson quanto Aethelflaed estava. Mais, talvez. Amice sempre tivera mais violência dentro dela.

— Não diga isso, — implorou. — Preciso de você comigo, não posso te perder. Não vou suportar ver você morrer, Amice. Não vou sobreviver naquela corte sem você.

Amice bufou. — Sobreviveria sim. Você é uma lady perfeita, garota. já vi você encantar salões cheios de velhos ranzinzas vezes demais para pensar de outro jeito. Seu pai te afastou da corte depois que você debutou porque não aguentaria todos os lordezinhos apaixonados choramingando pela sua mão.

— Hmm, — Aethelflaed murmurou, começando a sentir-se pesada. — E eu aqui acreditando que havíamos deixado a corte porque meu pai estava cansado das intrigas e mentiras. Era apenas para proteger minha virtude. — Disse, irônica.

— Como se você tivesse alguma virtude, — Amice provocou e desviou facilmente do tapa que Aethelflaed tentou acertar no ombro dela. Ela enfiou um travesseiro no rosto de Aethelflaed, o espalhando o cabelo ruivo por todos os lados, rindo o tempo todo.

— Amice! — Aethelflaed chamou, lutando contra o travesseiro em seu rosto. Ela tentou deixar seu rosto sério, sua voz firme, mas não conseguiu afastar o sorriso. — Esse é o tipo de conversa que poderia nos colocar em problemas.

Amice revirou os olhos e abanou a mão, displicente. — Eu chamo o rei de um bastardo filho de um apóstata e é brincar sobre a sua virtude que te deixa corada. Já falei traição o bastante para morrer três vezes, Aethelflaed. Não tenho medo. Não aqui, pelo menos.

Somos mais fortes dentro das paredes de nossa casa, Aethelflaed pensou, e sentiu seu rosto desmoronar no instante seguinte. Elas estariam deixando a casa delas em algumas horas, entrando no ninho de cobras de uma corte instável e insatisfeita. Subitamente, teve o impulso de ordenar a Amice que ficasse. Ao menos ali, ela estaria segura, longe de nobres traiçoeiros e pagãos cruéis.

As sobrancelhas de Amice se franziram e ela se aproximou, entrelaçando os dedos das duas. — Hey, — ela murmurou, suave, reconfortante, e Aethelflaed fechou os olhos. — Eu vou estar com você, o tempo todo. Não vai estar sozinha. — Ela assentiu, respirando fundo. Amice não disse que ficaria tudo bem, que poderia encontrar amor com seu noivo, porque Amice não mentia para ela, e Aethelflaed era infinitamente grata por aquilo. Era mais reconfortante saber que não estaria só em seu sofrimento do que tentar acreditar que não haveria dor alguma.

— Eu nunca quis me casar por amor, — Aethelflaed sussurrou. — Mas também nunca imaginei que seria assim.

Aethelflaed nunca imaginou que se sentiria tão destruída, tão apavorada com a ideia de seu próprio casamento. Não imaginou que teria que reunir todas as suas forças para dar apenas um passo, que não conseguiria olhar nos olhos de seu pai sem se ressentir.

— A vida, — Amice disse, no tom seco e seguro que ela usava para falar de verdades inquestionáveis. — É uma prostituta perebenta, e as vezes temos que nos deitar com ela.

O canto da boca de Aethelflaed se ergueu em um sorriso triste. — Ou um Viking perebento.

Amice bufou uma risada. — Não, os Vikings são bonitos. Pelo menos não está se casando com um velho feio e barrigudo.

— Você nunca viu um Viking, Amice. — Aethelflaed murmurou, rindo. Amice levantou as sobrancelhas.

— Ah, mas eu já ouvi falar muito sobre eles. Ninguém fala na sua frente, minha senhora, mas as pessoas falam. Homens enormes e fortes, loiros com olhos azuis como o céu. — Ela fingiu um suspiro sonhador. — Eu dormiria com eles, com certeza.

Aethelflaed riu. — Isso é pecado. — Provocou.

— Muitas coisas são pecado, mas a Igreja só lembra disso quando mulheres as estão fazendo. Para o inferno com isso, eu digo. Dormiria com Vikings apenas para ver o pavor no rosto dos padres quando eu fosse me confessar.

— Você já os choca o suficiente, Amice.

— Só quando eu quero, — A garota disse, sorrindo maliciosamente. Ela se aconchegou de novo na cama e puxou Aethelflaed com ela. — Tente dormir. A viagem é longa e você vai reclamar nos meus ouvidos que está cansada o tempo todo.

— Eu não vou reclamar! — Aethelflaed protestou, indignada. — Eu não reclamo.

— É claro que não, minha senhora. Como você disser, — Amice retrucou e soltou um bocejo.

Aethelflaed encarou as chamas de uma das poucas velas acesas e tentou respirar junto com Amice, encontrando algum conforto na companhia dela. E quando acordou chorando novamente junto com os primeiros raios de sol, Amice a abraçou e chorou silenciosamente junto com ela.