Hardest of Hearts

5 I'm coming to take it


"Os olhos de Lebdeva brilharam. — Masha, me escute. Cosméticos são uma extensão da vontade. Por que você acha que homens se pintam quando vão à guerra? Quando eu pinto meus olhos para que combinem com a minha sopa, não é porque eu não tenho nada melhor para fazer do que me preocupar com trufas. Isso diz, eu pertenço aqui, e você não vai me negar. Quando eu pinto os meus lábios vermelhos como raposas, eu digo, Venha aqui, homem. Eu sou sua amante, e você não vai me negar. Quando eu belisco minhas bochechas e passo madrepérola nelas, eu digo, Morte, fique longe, eu sou sua inimiga, e você não vai me negar. Eu digo essas coisas, e o mundo escuta, Masha. Porque minha magia é tão forte como um braço. Eu nunca sou negada.


― Catherynne M. Valente, Deathless

Aethelflaed estava dolorida e com frio por causa da viagem, suas costas um amontoado de nós tensos de músculos pela postura rígida que se obrigava a manter; se cedesse agora, seja para o cansaço ou para o medo, não conseguiria se reerguer. Sua cabeça doía por vinho demais e pouca água e comida que consumira nos últimos dias; mesmo o cheiro de flores que se desprendia de suas roupas, resultado das flores que ela e Amice amassavam entre folhas de papel que usavam para separar suas roupas, parecia demais, apesar da familiaridade. Edwina estava falando alguma coisa — ela sempre estava falando alguma coisa, durante a jornada, preenchendo os silêncios tensos que as afligiam porque ela e Amice não tinham liberdade para conversar sob os ouvidos atentos de todos e também não tinham a energia de inventar conversas fúteis e mentirosas enquanto estavam caminhando para a condenação certa de Aethelflaed — porém ela não conseguia se concentrar o suficiente para ouvir. Aethelflaed estava convencida de que se curvaria pela janela e esvaziaria o que estivesse em seu estômago a qualquer momento, e não seria essa uma bela imagem para apresentar ao rei e ao seu futuro esposo?

Com todo seu desconforto, preferiria que a viagem levasse duas, três vezes mais tempo, qualquer coisa que adiasse o momento que ela tanto temia. Ao lado dela, o rosto de Amice era uma máscara de seriedade, os olhos azuis faiscando com raiva. Ela poderia esconder aquilo, Aethelflaed sabia disso; Amice possuía tanto talento para a vida na corte — e, portanto, para mentir — quanto ela, mas seu esposo era um viking. Certas indiscrições certamente seriam perdoadas de sua dama de companhia.

Duque Dustan não estava viajando na mesma carruagem que elas, e Aethelflaed não conseguia decidir se isso era ou não um alívio. Por um lado, não precisava enfrentar a culpa evidente de seu pai, nem a disposição dele de entregá-la à um pagão, apesar de dela. Por outro, seus momentos com ele estavam acabando. Duque Dustan morreria logo, por mais que ela não quisesse aceitar esta realidade, e uma vez casada, seu tempo pertenceria a seu marido, apesar de Aethelflaed duvidar que Ubbe Ragnarsson acharia interessante passar seu tempo com uma mulher saxã, quando não estivesse entre as pernas dela. Um tremor passou por ela.

Deus, que ele seja gentil, implorou silenciosamente.

A carruagem parou, pondo um fim abrupto ao discurso de Edwina — um fim abrupto à vida que ela conhecera até o momento — e Amice agarrou sua mão, os olhos alarmados. Por um segundo, Aethelflaed teve certeza de que Amice pularia da carruagem e a arrastaria após ela, que elas tentariam fugir dali, daquela vida, como diziam que fariam em sussurros suspirados tarde da noite.

Mas aquelas eram fantasias de uma criança. Aethelflaed era uma mulher agora. E ela não queria descobrir o que fariam, principalmente com Amice, se elas realmente tentassem fugir.

A porta da carruagem se abriu e um degrau foi colocado. Edwina sorriu para ela, tentando parecer encorajadora e falhando miseravelmente, e saiu primeiro. E então eram apenas ela e Amice dentro da carruagem, e elas poderiam ser crianças novamente, se encarando assustadas, sozinhas em suas próprias dores apesar de estarem rodeadas de pessoas e encontrando conforto uma na outra. Aethelflaed sentiu seus olhos arderem.

― Não está sozinha. Aconteça o que acontecer. — Amice disse, sua mão tão apertada em volta da dela que seus ossos estralaram. E então ela saiu também. Aethelflaed sentiu como se estivesse se afogando, cansada demais para nadar e sendo arrastada para longe da praia por um mar revolto, impotente e incapaz e sabendo que não receberia misericórdia. Duas lágrimas quentes desceram por seu rosto e ela as limpou rapidamente.

Aethelflaed engoliu o bolo em sua garganta e fechou os olhos com força. Não sairia daquela carruagem vermelha e manchada de lágrimas. Se não podia evitar se destino, poderia ao menos enfrentá-lo com alguma dignidade. Ela jogou a trança vermelha para frente do ombro, torcendo para que a luz do lado de fora fosse forte o suficiente para fazer seu cabelo adquirir a aparência de fogo, e alisou as dobras do vestido azul.

Azul é para barganhas cruéis, se lembrava de escutar Amice dizendo uma vez, enquanto se arrumavam para um banquete no castelo de seu pai. Verde é para desafiar quando não deveria fazê-lo e roxo é para força bruta. Coral persuade, rosa insiste, vermelho obriga.*

Aethelflaed ergueu o queixo. Sim, aquela era uma barganha cruel, porém ela não seria um sacrifício passivo. Ela era Marquesa Aethelflaed de Wessex, e não seria derrotada por um pagão. Ela conhecia a guerra que acontecia dentro das paredes dos castelos dos nobres, conhecia as batalhas travadas com vestidos bonitos e danças perfeitamente ensaiadas. Aethelflaed era uma lady, aquele era seu destino, e ela o curvaria à sua própria vontade.

Aethelflaed endireitou os ombros, segurou as saias, e saiu da carruagem.

Toda a corte estava reunida no pátio da vila real para recebê-los. Aethelflaed prescrutou a pequena multidão, marcando os rostos conhecidos, marcando os aliados e inimigos de seu pai, lembrando-se de seus nomes, dos nomes de suas filhas e esposas, dos escândalos que aconteciam em privado. Ela olhou para a família real enquanto seu pai os cumprimentava primeiro, como mandava o protocolo, e entendeu imediatamente a insatisfação da corte. Rei Alfred parecia um menino ao lado do irmão mais velho, porém a comparação era quase engraçada ao lado dos nórdicos.

O coração de Aethelflaed falhou uma batida, porém seu rosto permaneceu impassível e perfeitamente amigável. Eles eram exatamente como os descreviam, para sua fascinação e medo: o cabelo mais loiro do que ela se lembrava de já ter visto em um saxão, altos, fortes, e com uma violência inerente a eles que era evidente mesmo que estivessem parados. Havia quatro deles ali, dois homens e duas mulheres, e apenas a mais velha não aparentava estar contrariada.

Ela avaliou os dois homens, os cortes de cabelo estranho, a raiva e o desconforto dos dois. Quem quer que fosse seu noivo, ele estava tão descontente com o casamento quanto ela. Aethelflaed endireitou ainda mais a postura. Maridos descontentes raramente resultavam em algo bom.

― Se ficar mais rígida, vai quebrar no meio quando fizer uma reverência ao rei, minha senhora, ― Amice sussurrou para ela, e Aethelflaed teve que apertar a boca para impedir a gargalhada que queria escapar dela. Ela respirou fundo, tentando controlar sua reação inapropriada, e observou o sorriso de Amice. Não era pela piada, apesar de Aethelflaed apreciar a tentativa de fazê-la se sentir melhor. Havia algo afiado e selvagem naquele sorriso, algo que ela conhecia bem; no entanto, havia uma violência nos olhos de Amice que ela jamais vira antes.

Aethelflaed estava prestes a dizer algo, uma provocação ou algo reconfortante, quando Rei Alfred chegou até elas. Elas fizeram uma reverência profunda, e Aethelflaed esperou que ele se dirigisse a ela primeiro.

― Lady Aethelflaed, seja bem-vinda. Fez uma viagem agradável? ― Alfred perguntou, e era fácil voltar àquela dança ensaiada de protocolo e conversas fúteis que sempre tinham um significado maior.

― Perfeitamente agradável, Vossa Majestade. É sempre bom poder observar a beleza de Wessex.

― Qualquer beleza que tenha visto, tenho certeza que não se compara à sua própria. ― Rainha Judith interjeitou, e Aethelflaed se curvou novamente. ― É uma penas que Duque Dustan tenha mantido você afastada da corte todos esses anos, minha senhora. Porém suponho que sua mão não estaria disponível para essa aliança se ele não o fizesse. Temos muito que agradecer a ele.

― Certamente, ― Alfred disse, uma expressão ilegível no rosto dele. ― Temos muito que agradecer a Duque Dustan. Ele tem se provado um aliado sem igual. Mas eu não deveria monopolizar seu tempo, Lady Aethelflaed. Viagens como essa são cansativas, não importa a beleza do país, e temos um banquete em honra à sua chegada e à nossa aliança com os filhos de Ragnar. Venha, deixe-me apresentá-la ao seu noivo antes de conduzi-la aos seus aposentos.

Aethelflaed não conseguiu articular uma palavra sequer para responder ao rei. Ela assentiu, entorpecida, e deixou que Rainha Judith entrelaçasse o braço ao seu para guiá-la. Seu coração batia desesperadamente em seu peito, pulsando em seus ouvidos, e era tudo que podia fazer manter seu rosto impassível.

Um dos homens deu um passo à frente, os olhos queimando nela com uma intensidade inapropriada e desrespeitosa, e Aethelflaed sentiu seu rosto esquentar, apesar de seus esforços para se manter calma.

Ubbe Ragnarsson era ainda maior de perto, ameaçador, e o topo da cabeça dela chegava ao queixo dele. Ele estava desconfortável e não estava tentando esconder isso, os olhos tão azuis que quase eram violetas, e Aethelflaed sentiu vontade de chorar novamente. Aquele homem poderia matá-la sem a menor dificuldade se quisesse. Poderia colocar as mãos em volta de seu pescoço uma vez que tivesse dado herdeiros a ele e simplesmente apagar a luz dos olhos dela. Aethelflaed travou a mandíbula e fez uma reverência curta.

― Ubbe, essa é sua noiva, Marquesa Aethelflaed de Wessex. Tão linda como disseram que seria, não? ― Alfred comentou, e Aethelflaed queria cuspir nele pela facilidade com a qual ele fazia aquela piada. Ao invés disso, ela sorriu.

O silêncio se estendeu constrangedoramente entre eles, e Aethelflaed quis revirar os olhos. Seria protocolo que ele a endereçasse primeiro, ele era um homem, e um príncipe, mesmo que de um país pagão.

― É uma honra conhecê-lo, meu senhor. Escutei sobre as suas proezas em batalha e sobre o grande homem que seu pai foi, que Deus o tenha. ― Aethelflaed continuou a sorrir, calma exteriormente, e ela escutou Amice sufocar uma risada atrás dela.

Ragnar Lothbrok morrera como um pagão, morto pelo rei de um país aliado de Wessex. Era uma ofensa mais do que velada, e ela poderia pagar cruelmente por aquilo quando estivessem casados, porém havia uma satisfação inegável em desrespeitá-lo daquela forma.

Um dos cantos da boca de Ubbe Ragnarsson se ergueu em um sorriso discreto. ― É uma honra conhecer você, senhora. Apesar das circunstâncias que nos trouxeram até aqui. ― A voz dele era profunda e rouca, o sotaque dando uma qualidade mais lenta às palavras. Aethelflaed suprimiu um tremor.

― Guerras entre irmãos são sempre as piores. ― Aethelflaed se inclinou para dizer à rainha, fingindo um sussurro conspiratório, imprimindo pena à frase. Judith riu, parecendo entretida pela conversa veladamente agressiva. O rosto de Ubbe se fechou em irritação.

Ah, ela pensou, satisfeita. Três frases trocadas e ela já achara um ponto fraco nele. Ubbe Ragnarsson podia ser um ótimo guerreiro, porém era um péssimo mentiroso.

― O que sabe sobre guerras, senhora? ― Ubbe questionou, mais inquieto do que segundos atrás.

Aethelflaed abanou a mão em um gesto graciosamente displicente que expunha os anéis que usava nos dedos longos e finos. ― Absolutamente nada, meu senhor. ― Mais do que você sabe sobre a corte e sua política, era o que ela queria dizer.

― No futuro, Aethelflaed, ― seu pai disse, sua voz firme como há anos não ouvia, e ela se virou para ele imediatamente, os olhos arregalados. ― Talvez seja melhor manter suas opiniões sobre assuntos que não conhece para você mesma. Estamos todos cansados, meu senhor, e algum descanso fará bem às senhoras, enquanto discutimos o contrato do casamento com mais detalhes. Mas posso te assegurar de que minha filha não lhe ofenderá assim novamente.

Aethelflaed queria que algum dos cavalos no pátio se assustasse e a pisoteasse naquele momento. Não era suficiente que ela fosse o sacrifício para uma aliança entre Wessex e vikings que poderia se provar tão falha quanto outras feitas antes, não era suficiente que ela fosse o sacrifício de seu pai para manter poder político e o prestígio da família. Ela deveria ser silenciosa e submissa durante todo o processo, sem voz ou vontade, mesmo que seu noivo nem ao menos tivesse alma, mesmo que ele fosse um assassino que matara seu povo sem hesitar.

Ela descobrira, finalmente, o limite do amor de Duque Dustan, e ele era extremamente raso fora das paredes do palácio dele. Seu pai amontoava humilhação sobre humilhação sobre ela, e esperava que ela aceitasse.

A raiva de Amice e de Edwina eram presenças físicas às suas costas, e ela não possuía coragem de levantar os olhos para às pessoas reunidas ali. Seu pai estava tomando um lado. Se ele não a defenderia, pior, se ele mesmo a ofenderia agora, o que mais aceitaria que fosse feito à ela?

― Com todo respeito, Duque Dustan, não estou me casando com um animal sem mente. E acho casamento muito mais interessante quando a outra parte não é um eco das minhas próprias ideias. ― Ubbe disse, e Aethelflaed o encarou, boquiaberta.

Aquilo não era sobre defendê-la, ela percebeu, pelo menos não achava que fosse. Ela o irritara com seu comentário, sabia disso, vira a raiva nos olhos dele e se deliciara em saber que o incomodara. Mas ele estava desafiando um duque de Wessex na presença do rei, estava desrespeitando a autoridade que ele tinha sobre a própria filha, e a satisfação de fazer aquilo deveria ser maior que a dela própria.

Se ela pudesse direcionar a raiva de Ubbe, talvez pudesse se manter a salvo dela.

― Posso te contar sobre guerras mais tarde, Aethelflaed. Vocês saxões são terríveis nelas.

E então Ubbe Ragnarsson deu as costas e partiu, sem se despedir dela ou do rei, ignorando protocolo e hierarquia e todo o resto, como se não suportasse estar no meio das mentiras e meias verdades por um segundo a mais sequer.

Aethelflaed o assistiu ir, e quando se virou para Amice, o sorriso que não conseguia formar no próprio rosto estava refletido no dela.

Notas finais
* Frase adaptada do livro Deathless, de Catherynne M. Valente. É ótimo e eu super recomendo.