Hardest of Hearts

7 The sweetest of words have the bitterest taste


Notas iniciais
E aí, meus consagrados!! Espero que esteja todo mundo bem e se cuidando! Finalmente consegui ser produtiva nessa quarentena e completei o capítulo dspdkpskdps Muito obrigada a todos que leram e comentaram no capítulo anterior, vocês são uns amores!

Oh! que vontade fraca! Dai-me as armas, os mortos

e os que dormem são pinturas, nada mais é somente o olho da criança

que tem medo do diabo desenhado se estiver a sangrar, deixarei

tintos com isso o rosto de seus próprios criados, pois é preciso que

pareça que eles o crime cometeram.

Macbeth, William Shakespeare



...Pobre menina…

...Como Duque Dustan tem coragem de fazer isso…

… Olhe para aquele pagão, ela não vai sobreviver…

… Rei Alfred perdeu completamente o juízo…

… Aethelwulf jamais faria isso…

… Ubbe Ragnarsson vai matá-la, Deus tenha piedade…

Aethelflaed manteve o queixo erguido, encarando a mesa elevada onde a família real e seus convidados de honra estavam reunidos. O murmurinho do salão farfalhava ao redor dela, sussurros piedosos de pessoas que viam exatamente o que ela queria. Cada um dos lordes presentes naquele lugar, questionando as decisões do rei e do pai dela, questionando honra e dever e o que a fé cristã ditava.

… Ele nem ao menos é cristão…

… Fizeram isso na Frankia, com a princesa e o tio dele. Disseram que Princesa Gisla chorou a cerimônia inteira e…

… Já vi o que esses bárbaros fazem com as nossas mulheres, como Alfred pode ter a coragem de entregar uma nobre a esse pagão…

… Olhe para ela, está quase chorando…

… Soube do que ela fez na chegada ao castelo? A garota não quer este casamento…

Aethelflaed fez uma reverência quando chegou em frente à mesa e o rei sorriu para ela. Alfred se levantou, tão jovem quanto ela e infinitamente mais poderoso.

— Seja bem vinda de volta à corte, Lady Aethelflaed. Sua presença entre nós fez uma falta enorme. — Alfred disse ao salão. Eles jamais se viram antes, porém a familiaridade com a qual o rei dizia aquilo fazia seu estômago se revirar. Aethelflaed se impediu de fazer uma careta.

— Seu retorno é como a volta da primavera depois de um inverno difícil, querida, — A rainha mãe elogiou, o mesmo sorriso calculadamente gentil e os olhos sagazes que faziam a pele de Aethelflaed coçar. Judith estava naquele jogo há muito mais tempo do que ela, sobrevivera à rigidez do reino da Nortúmbria e ao ódio de seu marido e à morte de seu amante. Aethelflaed sabia dançar conforme a música doce e venenosa da corte, mas não havia dúvidas de que Judith enxergava cada um de seus movimentos.

Ela inclinou a cabeça em falsa modéstia, os dentes cerrados. O inverno estava apenas começando, e ela já conseguia sentir a promessa de frio e escuridão em seus ossos.

— Essa noite, nós celebramos a aliança entre dois povos: saxões e vikings, unidos pelo casamento. Que Ubbe e Aethelflaed possa ser felizes e abençoados por Deus, e que os filhos deles possam ser numerosos e saudáveis. — Alfred fez o brinde, a taça de vinho dele erguida no ar. As outras pessoas presentes no salão se levantaram e brindaram com ele, mas Aethelflaed podia sentir a insatisfação se espalhando, pegajosa como óleo.

Seu pai estava sentado ao lado esquerdo do rei, o convidado de honra da noite. Ele estava pálido e trêmulo e Aethelflaed sentiu sua raiva valiçar. Não teriam muito tempo juntos, e depois do casamento… O senhor seu pai talvez nem ao menos olhasse em seu rosto depois que ela se deitasse com um pagão, sob as ordens do rei ou não.

Das mesas comuns, ela podia sentir o olhar dos outros nórdicos queimando em suas costas. Torvi e Bjorn, o ódio deles quente como ferro incandescente. Sentada ao lado direito do rei, a rainha-mãe a observava com atenção, julgando suas ações. Havia uma cadeira vazia ao lado dela entre ela e Ubbe, e Aethelflaed deixou que o salão escutasse seu suspirar antes de se dirigir até ela.

Ela se virou para Amice, a demonstração de insegurança tão real quanto mais um joguete, e não escondeu quando apertou com força a mão de sua dama de companhia antes de se separarem. Aethelflaed lançou um olhar implorador à seu pai antes de se sentar; ele a ignorou como pensava que faria.

— Meu senhor, — ela disse para Ubbe em cumprimento, e inclinou a cabeça. Ele não sorriu, não se levantou para saudá-la. A agitação do salão cresceu. Aethelflaed se sentou, rígida, consciente de cada um de seus atos. Precisava da simpatia de todos ali, precisava que a amassem. — Teve uma tarde agradável?

Ubbe bufou uma risada dentro do copo de vinho, o gesto rude e inapropriado. Aethelflaed não seria pega morta fazendo algo daquele tipo. Os nobres próximos a eles cerraram os olhos em desaprovação. — Sim, — ele disse, a voz pingando de sarcasmo. — Assinaram nossa prisão hoje a tarde. Foi completamente agradável, minha senhora.

Aethelflaed inspirou afiadamente. Sabia o que seu pai fizera, mas ouvir daquela maneira da boca de seu noivo, o insulto escondido na forma como ele dizia seu título… Ela encarou a comida à sua frente, seu estômago se contorcendo. Era uma linha fina a qual deveria trilhar: deveria ser vista tentando ganhar as afeições de Ubbe, e certamente não a prejudicaria tê-las, porém sua incerteza e hesitação deveriam ser claras aos nobres. Precisava manter a conversa cautelosa e vaga, repleta das amenidades sobre as quais falara a vida inteira com outros nobres, mas Ubbe não apreciaria nenhum dos assuntos sobre os quais ela poderia falar, e o desafio e espírito que ele parecia gostar em suas mulheres não seria bem visto pela corte.

— O que acha da Inglaterra? — Ela decidiu perguntar. Ubbe sorriu cruelmente para ela e Aethelflaed suprimiu a vontade de revirar os olhos. Ah, ela sabia o que o viking achava sobre a Inglaterra. Escutara histórias o bastante sobre a carnificina do povo dele para se lembrar. Uma terra a ser tomada e saqueada, era o que ele pensava. Apenas esperava que ele não pensasse o mesmo sobre ela.

— É mais fértil que a Dinamarca, — ele respondeu, propositalmente evasivo. — Tem um povo persistente, apesar de lutarem como velhos e aleijados.

— Os velhos e aleijados têm obtidos grandes vitórias, me dizem, pela graça de Deus — ela comentou. Era uma resposta ousada, porém suavizada por ser uma defesa de seu povo e de sua fé. Beirava docemente à insubordinação, mas seria aceito e admirado. Corajosa e devota, apesar do medo e das possíveis consequências, e os cristãos sempre gostaram de seus sacrifícios.

— Eles têm, — Ubbe concordou. — Não estaríamos aqui se não fosse assim. Gosta de guerras, Aethelflaed? — Seu noivo questionou subitamente, lembrando-se da conversa deles ao chegar ao palácio.

Aethelflaed piscou, fingindo surpresa. — Eu não saberia, meu senhor. Fui poupada delas, e me parece um assunto excessivamente sangrento para mulheres.

Ubbe arqueou as sobrancelhas, não impressionado com sua resposta. — A guerra não vai te poupar se chegar até você.

— Não, suponho que não. — Ela concordou. Aethelflaed engoliu em seco e abaixou a voz, seus olhos fixos nos de Ubbe, intensos e desorientadores. — Você me pouparia?

A expressão dele se fechou, raivosa e impenetrável. Aethelflaed sentiu seu corpo esfriar. Parecia ter sido a coisa errada a se dizer.

— Você é uma criança, — foi o que Ubbe respondeu, firme e quase indignado.

— Eu sou sua noiva. — Ela retrucou, suavemente, mas havia aço por trás de sua voz. Se Ubbe queria insubordinação, Aethelflaed daria isso a ele, mesmo que tivesse que esconder isso dos olhos da corte.

O canto da boca de Ubbe se ergueu em um sorriso desdenhoso. — Não por sua escolha.

— Não vou falhar com o meu dever, meu senhor. Eu obedeço ao meu pai e ao meu rei. Eles escolheram por mim e eu aceito essa decisão. — Aethelflaed entrelaçou os dedos em seu colo, as mãos escondidas pelas mangas do vestido. Elas estavam tremendo.

Ubbe chegou mais perto dela, a respiração dele fazendo cócegas em seu rosto, a mão dele quente em seu quadril. Era inapropriado e desrespeitoso e o viking era enorme e assustador. A respiração dela falhou, cada músculo em seu corpo tenso. — E acredita que eles escolheram bem? Acha que seu pai e o garoto pensaram em você quando fizeram essa escolha?

— Eu confio neles, — sua voz saiu sufocada e quebrada e ela torcia para que ninguém houvesse escutado quando Ubbe chamou o rei de garoto. A atenção do salão estava neles, na severidade de Ubbe, no medo dela. Amice estava de pé, uma faca segura em suas mãos, Edwina puxando-a pelo pulso para que se sentasse novamente. Ele precisava se afastar antes que a corte decidisse que não aceitariam aquelas atitudes vindas de um pagão sancionado por um rei que eles não queriam.

Ubbe riu sombriamente. — Você é mais inteligente do que isso. Me diga a verdade, menina.

Aethelflaed umedeceu os lábios. Ela olhou ao redor, observando as reações dos nobres. Seu pai a observava, pálido, os olhos arregalados. Alfred possuía o mesmo olhar impassível de sempre. A raiva dos outros nobres vibrava no salão. Ubbe estava desrespeitando uma deles.

Finalmente, seu olhar encontrou com o de Judith. A rainha sorriu discretamente para ela, curiosa e relaxa. Ela pendeu minimamente a cabeça. O que vai fazer? ela parecia dizer. Aquela era a dança delas, a guerra reservada principalmente às mulheres. Ela precisava fazer Ubbe se dobrar sem que ele percebesse que o fazia.

Aethelflaed inspirou profundamente e encarou seu noivo. Discretamente, ela segurou a mão que estava em seu quadril; era grossa e cheia de calor e cicatrizes, tão diferente de sua própria pele macia e imaculada. Ela desviou os olhos de Ubbe e inclinou a cabeça em submissão, porém sua voz era baixa e firme quando falou. — Se quer honestidade, filho de Ragnar, não me peça por isso no meio da corte. Olhe a sua volta. Somos todos mentirosos aqui, e cada um de nós é melhor do que você*.

Ubbe a encarou, emudecido e surpreso. Lentamente, ele se afastou, levando com ele todo o calor em volta dela. Ele sorriu, satisfeito. — Eu sabia, — murmurou para ela apenas. — Tem mais fogo em você do que deixa que percebam.

Aethelflaed sorriu educadamente. — Obrigada, meu senhor. É muito gentil.

Ubbe gargalhou, se levantando. Ele pegou uma jarra de vinho e saiu, os olhares de todos os seguindo até as portas. Aethelflaed suspirou, exasperada. Ele acabara de abandonar o banquete de noivado deles após intimidá-la na frente de todos os nobres mais importantes de Wessex. Era um desrespeito à ela, à seu pai e ao rei. A corte não esqueceria aquilo facilmente.

Rainha Judith se sentou ao lado dela antes que pudesse aproveitar o alívio de não ter Ubbe por perto. — O que achou do seu noivo? — Ela perguntou.

Aethelflaed mordiscou a comida, avaliando sua resposta. Certa liberdade era permitida com um pagão, mas não com a rainha.

— Ele é diferente, minha senhora. — Foi o que respondeu, evasivo e seguro.

Judith assentiu sua concordância. — Certamente ele é. Mas Ubbe tinha boas perguntas. O que acha sobre esse casamento? — Pressionou.

— É meu dever e honra servir ao senhor meu pai e ao rei, Vossa Majestade. Eu faço o que eles ordenam, assim como todas nós.

Judith a estudou curiosamente. — Sim, todas nós servimos aos nossos pais. Até certo ponto. — Ela sorriu, conspiratória, e serviu vinho para as duas. Aethelflaed agradeceu, porém apenas deixou que o vinho molhasse seus lábios e fingiu engolir. Confiava em Judith menos do que confiava em Ubbe; ao menos o viking era brutalmente honesto. — Não tem medo?

— Me disseram que todas as noivas temem seu próprio casamento, Majestade. — Aethelflaed afastou o cabelo do rosto; a luz das tochas, as mechas pareciam incandescentes.

— Algumas de nós mais do que as outras, — Judith disse. Ela suspirou pesadamente e tocou o rosto de Aethelflaed. — Ah, mas você está linda, minha querida. Não sei como Ubbe tem coragem de te abandonar aqui.

Aethelflaed sorriu educadamente. — Acredito que meu noivo não esteja acostumado à corte inglesa.

— Mas nós estamos, não é, doce garota? — A rainha perguntou, sua expressão sagaz e desafiadora. Aethelflaed deixou seu sorriso se tornar afiado.

— Certamente estamos, Vossa Majestade. — Aethelflaed sentia seu coração bater rápido como o de um pássaro. Não sabia quais eram os motivos da rainha, mas ela não deixaria que nada desse errado com o plano de seu filho. Judith virara um Conselho repleto de apoiadores do filho primogênito e legítimo dela a favor de um menino jovem e guerreiro inexperiente, cujos sussurros sobre a paternidade percorriam os corredores de cada castelo. Ela não permitiria que uma menina ameaçasse o poder de Alfred.

Judith se inclinou para cochicharem como velhas amigas e tomou uma de suas mãos. A rainha tinha dedos surpreendentemente fortes. — Não há pecado algum em querer poder, Aethelflaed. É a única maneira que pode sobreviver a esse casamento. Pouca liberdade é dada a nós, mulheres inglesas, então temos de encontrar força onde podemos. Faça-o amá-la, menina, e faça-o sempre. Os nórdicos amam intensamente, porém são mutáveis como a maré. Faça-o amá-la, porém saiba que o amor de um homem pode condená-la tão facilmente como pode salvá-la. — A rainha se afastou, brilhante e descontraída. — Lembre-se disso, minha senhora.

Aethelflaed assentiu, sentindo-se tonta. As unhas de sua mão livre estavam fincadas com força na madeira sólida da cadeira em que sentava. — Eu vou me lembrar, Vossa Majestade.



{...}



Amice abriu a porta do quarto delas para revelar Torvi na entrada, insatisfeita e desconfiada. Ela ainda usava suas roupas do dia, calças resistentes e couro fervido por cima da blusa, botas práticas e o cabelo trançado firmemente junto a cabeça. As roupas de uma guerreira. Aethelflaed, em sua camisola branca e bordada delicadamente, a gola ampla e pendendo em um ombro, expondo o osso delicado e pronunciado de sua clavícula, não poderia ser mais diferente. Ela era macia onde Torvi era firme, delicada onde ela era marcante, astuta onde ela era forte e honesta.

Aethelflaed se levantou de sua cadeira perto do fogo, abandonando o vestido que estava bordando; era de um veludo verde profundo e ela estava o enfeitando com linhas douradas. Ela fez uma reverência curta para Torvi, apesar de não precisar. A guerreira estava vários degraus abaixo dela na hierarquia social, mas um pouco de bajulação nunca fizera mal. Cortesia era a armadura de uma lady.**

— Torvi, é uma honra finalmente poder falar com a senhora, — Aethelflaed sorriu, e ela não precisava fingir o nervosismo que queria demonstrar.

Torvi era a mulher que Ubbe escolhera, era uma guerreira experiente e forte, querida pela família e pelo povo de Ubbe. O que Aethelflaed tinha para oferecer a ele? Título e terras, mas isso jamais compraria o favor de um homem como ele. De si mesma, havia pouco além de beleza que atrairia o viking. Seria difícil o suficiente sem ter que competir com Torvi.

— Por favor, entre. Esse castelo é terrivelmente frio, eu temo. Nós temos vinho e a lareira está quente, — Aethelflaed ofereceu, solícita e educada.

Torvi ergueu o queixo. — Eu preciso voltar para os meus filhos, Lady Aethelflaed.

— Oh, — Aethelflaed deixou seu sorriso vacilar. Ela puxou a manga da camisola para cima e empurrou uma mecha de cabelo ruivo para trás da orelha. Vulnerável e temerosa. — Me perdoe, senhora, eu não quis atrapalhar. Foi impensavelmente rude e inapropriado pedir sua presença aqui a esta hora.

Ela se virou de costas para a porta, onde Torvi permanecia rígida, e encarou o fogo enquanto acariciava o colar que escolhera. Se ficasse sem piscar por tempo o suficiente, logo teria lágrimas nos olhos. O colar era uma jóia pesada, diamantes fazendo o cordão e incrustados no pingente grande e redondo, ao redor de um rubi vermelho como sangue. Era um adereço chamativo e agressivo, um presente de um lorde que os visitara em seu castelo anos atrás, e Aethelflaed jamais poderia usá-lo sem parecer uma criança usando as roupas da mãe.

Ela andou hesitante até a porta, piscando os olhos marejados pelo calor e pela luminosidade intensa. Torvi franziu o cenho para ela e Aethelflaed deu-lhe um sorriso vacilante.

— É para você, senhora. É uma jóia própria de uma guerreira, eu jamais poderia usá-la. — Aethelflaed estendeu o colar e Torvi o tomou hesitantemente, incrédula com o presente. Ela pegou o colar, testando o peso dele.

— Qual é o significado disso, Lady? — Torvi perguntou, cortante. — Por que está dando uma jóia dessas para a pagã que é amante do seu marido?

Aethelflaed desviou o olhar e se abraçou. Ela não estava com frio, porém o movimento pronunciava como Torvi era mais forte do que ela, uma guerreira quando Aethelflaed era apenas uma menina protegida.

— Não quero que me odeia, Torvi, — Aethelflaed murmurou, e ao menos aquilo era verdade. — Se que você e Ubbe se amam e não quero entrar no meio disso, não quero atrapalhar. Eu não quero… não quero… — ela fez sua voz tremer e embargar e no instante seguinte Torvi estava fechando a porta e entrando no quarto, sua expressão suave, suas mãos firmes e calosas nos ombros dela.

— Shhh, está tudo bem, — ela murmurou, sua voz possuindo a mesma cadência lenta do sotaque de Ubbe. Aethelflaed suspirou fortemente e fingiu suprimir um soluço. Estava sendo mais fácil do que ela imaginava. — Quantos anos você tem, Lady Aethelflaed?

— Quase dezessete. — Ela respondeu, ainda chorosa.

A expressão de Torvi era de pesar e compaixão. — Eu era um pouco mais velha do que você quando me casei pela primeira vez, — Ela suspirou. — Também não foi um casamento por amor. Eu tive que sacrificar muito pelos homens na minha vida, mesmo quando a escolha de tê-los não foi minha.

Aethelflaed levantou os olhos para ela. Torvi era poucos centímetros mais alta, porém os anos de treino e batalha deram a ela os músculos e confiança que a garota jamais teria. No campo de batalha, ela não teria tempo de piscar antes de ser transpassada pela lâmina certeira da guerreira. Porém aquilo não era um campo de batalha, e Aethelflaed sabia como navegar as expectativas e desejos das pessoas à sua volta.

Ela esperara apenas uma trégua naquela noite, uma demonstração de boa vontade que esfriaria os ânimos de Torvi. No entanto, a compaixão e pena dela eram surpresas agradáveis.

— Estava tão apavorada como eu estou? — Aethelflaed perguntou em um sussurro. Não era mentira, porém a vulnerabilidade que mostrava a Torvi agora servia seus próprios propósitos.

Torvi sorriu tristemente. — Mais do que você. Meu primeiro homem não foi gentil.

— Ubbe vai ser gentil? — Aethelflaed conseguia escutar o sangue pulsando em seus ouvidos, o medo do que Torvi diria se arrastando frio sob sua pele.

Os olhos de Torvi adquiriram um brilho doce e aberto dos apaixonados. Aethelflaed mordeu os lábios para não sorrir. Sua vida seria muito mais fácil se todas as pessoas fossem fáceis assim de ler.

— Ubbe não vai te machucar, eu prometo. — Torvi assegurou.

— Eu sou saxã. Meu povo e o seu lutam há décadas.

— E nós sabemos que inocentes não têm parte nessa luta. Ubbe não é os irmãos dele. Ele tem um bom coração e sabe que você não quer esse casamento tanto quanto ele e eu não queremos. — Torvi tocou a mancha que uma das lágrimas deixara em sua bochecha. — Me perdoe, minha senhora, se fizemos você pensar que te machucaríamos. Alfred tem sido bondoso comigo e com os meus filhos e eu eu e Lagertha não permitiríamos que alguém no nosso meio fosse machucado dessa maneira. Nós não permitimos o estupro, mesmo que outros vikings o façam.

Aethelflaed assentiu, sentindo-se leve com alívio e satisfeita com todas as informações que conseguira tão facilmente. Torvi parecia gostar de sua fragilidade tanto quanto Ubbe parecia apreciar sua insubordinação.

— Muito obrigada, Torvi. — Aethelflaed agradeceu, honestamente.

A mulher sorriu. — Obrigada pelo presente, senhora.

Torvi saiu e Amice, silenciosa até agora, fechou a porta atrás dela. Quando ela abriu a boca, um sorriso malicioso no rosto, Aethelflaed colocou um dedo em frente aos lábios. Elas apagaram quase todas as velas e colocaram mais lenha na lareira silenciosamente, cumplíces familiares. Quando entraram debaixo das cobertas, alinhadas como parênteses, Amice começou a rir baixinho.

— Você faz isso tão bem, — ela falou, o cabelo escuro espalhado brilhante como seda no travesseiro. — Torvi estava prestes a te ajudar a escapar ela mesma.

— Eu não estava mentindo, de qualquer forma, — Aethelflaed disse, sussurrando. — Você me viu desse jeito por causa do casamento antes.

Amice bufou e deu um peteleco na testa dela. — Eu te vi chorando e assustada, mas você não é vulnerável desse jeito nem quando está dormindo. No entanto, as melhores mentiras são baseadas em verdades. Torvi tem compaixão por você.

— Ela foi machucada por homens antes, — Aethelflaed refletiu. — Talvez todas as mulheres do mundo compartilhem esse sofrimento, pagãs ou cristãs.

— Pelo menos ela poderia matar sem que a punissem por isso depois. Aqui, nós estamos presas aos nossos pais e depois aos nossos maridos, — Amice reclamou, uma queixa antiga e compartilhada por Aethelflaed.

— Talvez eu não esteja, — ela disse. — Você viu como a corte estava. Achei que atacariam Ubbe ali mesmo.

Eu quase ataquei Ubbe ali mesmo. Quem aquele bastardo acha que é para te desrespeitar daquele jeito? — Amice sibilou, furiosa.

— Um viking, filho do próprio Ragnar Lothbrok e uma vez um príncipe, — ela respondeu. — Ubbe não está acostumado a seguir os protocolos e sensibilidades da corte. As regras dele são aço e força. Cortesia e política são as minhas armas.

— E você sabe como usá-las perfeitamente, minha senhora.

Aethelflaed sorriu, ao mesmo tempo serpente e flor. — Sim, eu sei.