Hardest of Hearts
8 My heart swells like a water at work
Notas iniciais
— Oh, minha querida! Você está linda! Seu marido irá se apaixonar por você no momento em que a ver. — Edwina exclamava frases parecidas a cada novo ajuste ao vestido de casamento de Aethelflaed. Ela sorriu para sua ama novamente, suas bochechas doendo com o esforço de manter a expressão no lugar.
Sentada em uma das cadeiras confortáveis e adornadas dos aposentos de Aethelflaed, um copo de vinho que ela não tocara ainda na mão, a rainha Judith a observava com os mesmos olhos afiados e sorriso satisfeito de sempre. O vestido era um presente dela, feito pelas mesmas costureiras que faziam as roupas da família real, e Aethelflaed se sentiria honrada pelo gesto se não a estivessem casando com um bárbaro.
A parte principal do vestido era quase simples, de seda verde água tão clara que parecia cinza claro à distância. No entanto, por cima dele, uma outra camada feita inteiramente de organza talentosamente bordada, quase transparente, a fazia parecer uma das ninfas de Dionísio. O presente custava uma fortuna, mais do que um vilarejo de fazendeiros e mercantes simples poderiam ganhar em um ano, e apesar de seu descontentamento com o casamento, Aethelflaed não conseguia parar de correr as mãos delicadamente pelo tecido fino.
Em uma mesa próxima a elas, jóias se amontoavam, e no dia anterior procuradores do rei se sentaram com ela para a informar sobre as terras que eram dela agora, parte de seu dote. Ao menos, ela pensou, Alfred a vendera por um preço alto. As terras eram férteis e vastas e havia um castelo seguro erigido nelas. Mesmo que tudo desse errado e Ubbe fosse um bárbaro cruel que tomasse dela a herança de seu pai, ela ainda teria aquele refúgio.
Cartas e mais cartas eram trazidas a ela pelos serviçais desde o banquete desastroso de seu noivado, cada uma delas cuidadosamente escrita, ofertas de segurança e convites à rebelião contra Alfred escondidas nas felicitações e comiserações bem pensadas que chegavam a ela. Se Aethelflaed aceitasse todas as visitas pedidas pelos lordes de Wessex, jamais teria tempo para o próprio marido.
Judith sabia disso, Aethelflaed podia sentir em cada presente caro e extravagante que a mãe do rei dava a ela. Baús com outros vestidos delicados de tecidos frágeis e custosos, visitas aos estábulos onde a rainha indicava quais cavalos seriam enviados juntos com Aethelflaed de volta às suas terras, jóias grandes e pesadas que ela dificilmente poderia usar.
A rainha oferecia uma gaiola de ouro a ela, deslumbrante e bela, se Aethelflaed apenas pudesse ignorar o homem com quem passaria suas noites. E ela não tinha dúvidas de que haveria consequências se sabotasse os planos cuidadosos de Judith.
Por isso, ela e Amice queimavam as cartas que recebiam após lê-las, com medo de que algum espião da rainha os entregasse à ela, e conduziam suas conversas com outros nobres em locais frequentados, em que ninguém poderia acusá-la de conspirar contra o rei. Aethelflaed conhecia os passos daquela dança, porém depois de tantos anos na cama de Ecbert, Judith saberia dançá-la mesmo sobre areia movediça.
Havia três dias desde que Ubbe, o rei e um destacamento de guardas saxões deixaram o castelo. Aethelflaed fora informada enquanto tomava seu café da manhã em seus aposentos, e ela se permitiu franzir as sobrancelhas ligeiramente quando a serviçal a avisou da ausência súbita de seu noivo. Tão perto do casamento, era esperado que ela e Ubbe usassem os poucos dias que tinham para se conhecerem melhor, tentarem se cortejar com o pouco de tempo que possuíam, porém ela supunha que mesmo tentar manter a aparência de esforço não importava agora. Ubbe estava se casando com uma guerra muito mais do que com ela, e combinava que ele estivesse conhecendo melhor o relevo inglês e observando os vikings que ainda habitavam o território enquanto ela era cutucada e adornada e tomava chá com as poucas outras nobres no palácio.
Não importava muito para ela, além da maneira como a ausência de seu noivo poderia parecer um insulto, e havia diversas maneiras de usar as falhas de Ubbe em seguir o protocolo da corte contra ele. Ubbe desejava por honestidade e desafio, e Aethelflaed não podia dar isso a ele sem arriscar a percepção dos outros nobres sobre ela. Eles não se levantariam para salvar uma mulher insubordinada e desobediente das mãos de um viking.
Ela podia, no entanto, dar à família de seu noivo alguma coisa. Torvi ainda estava no castelo, e Aethelflaed continuava a enviar presentes: túnicas novas e grossas, decoradas com padrões belos e mais marcantes do que as saxãs usavam, roupas e doces para as crianças, óleos perfumados, uma jarra do vinho bom e raro que era servido apenas aos nobres de maior posição. A guerreira sorria para ela, nas raras vezes em que se viam no pátio cinzento e cheio de lama do castelo, e Aethelflaed tinha menos medo de acordar com a garganta cortada assim que desse a luz aos herdeiros de Ubbe.
Ela mandara fazer uma capa nova para Bjorn, pesada e com a gola de pele de lobo, e encomendara ao ferreiro do castelo uma adaga afiada e bela para Lagertha. Se Ubbe tivesse que escolher entre ela e o próprio povo, Aethelflaed sabia o que ele decidiria, e ela podia apenas tentar fazer com que não fosse a própria família dele a forçá-lo a escolher.
— Ela está deslumbrante, — Judith concordou tardiamente. Ela sorriu, lento e calculado como todas as coisas que fazia, e se levantou graciosamente da cadeira. A rainha a circulou, e Aethelflaed tinha a sensação desconfortável de estar encurralada. — É uma pena desperdiçarmos toda essa beleza em um pagão.
Aethelflaed respirou lenta e profundamente, mantendo seu rosto impassível. Ela queria enfiar um dos alfinetes que a costureira colocava em seu vestido nos olhos da rainha. — Confio no julgamento do nosso rei, Vossa Majestade. Se ele julga que Ubbe Ragnarsson seja digno de uma das súditas dele, então que assim seja.
Judith ergueu as sobrancelhas, a expressão dela tão falsamente impressionada que era insultante. — Tem tanta fé assim no meu filho, Lady Aethelflaed?
Aethelflaed quis que as mangas do vestido fossem longas o suficiente para que ela pudesse cerrar as mãos em punhos. — Ele é o pai da nação e escolhido por Deus para nos guiar. Se não confiar em meu rei, em quem confiaria? — ela disse, e deu a Judith o sorriso mais doce que conseguia.
A rainha acariciou seus cabelos com um excesso de intimidade que a fazia querer gritar. — Sábias palavras, minha senhora. — Judith murmurou. Ela se afastou para a mesa com as jóias e retornou com um colar delicado de prata, o pingente uma série de curvas ovaladas com um diamante em formato de lágrima no meio, e um bracelete de folhas em ouro. Era um trabalho minucioso e difícil e diferente do que Aethelflaed já vira sendo usado na Inglaterra. Parecia quase pagão, e pela primeira vez ela percebeu como não havia uma única cruz em seu aparato e como as costas de seu vestido eram mais baixas do que seria considerado apropriado. Não haveria dúvidas de que ela não estava se casando com um cristão. — Vou providenciar uma coroa de flores para você. Talvez seja difícil encontrar muitas agora que está esfriando, mas tenho certeza que daremos um jeito.
Aethelflaed mordeu a língua e sorriu. Ela deveria se casar de véu, como todas as noivas antes dela, coberta de tecidos grossos e crucifixos. Ao invés disso, ela entraria na igreja parecendo uma fada dos contos que eram sussurrados ao redor de fogueiras, longe dos ouvidos atentos dos clérigos.
O barulho do portão pesado do palácio sendo erguido e os gritos por serviçais no pátio finalmente desviaram a atenção desconfortável da rainha.
— Oh, eles devem ter chegado. — Amice disse, com uma leveza que Aethelflaed sabia que ela não sentia. — Temos que te tirar dessas roupas e descer ao pátio, minha senhora. Devemos cumprimentar o rei e o seu noivo. — Amice se moveu para despi-la, fingindo a animação de meninas debutantes que acabaram de chegar à corte. Aethelflaed sabia muito bem do desprezo de sua amiga pela nobreza.
A rainha tocou o rosto dela. — Descanse, Aethelflaed. O grande dia é amanhã, — ela aconselhou, e então saiu juntamente com a costureira, carregando as roupas que ela usaria em sua condenação, deixando Aethelflaed quase nua. Ela não usava ao menos a camisola de linho costumária por baixo de suas roupas, uma vez que as costas baixas do vestido a exporiam, e ela estremeceu de frio.
Amice se manteve sorrindo até fechar a porta atrás da rainha, e então uma expressão tempestuosa tomou conta do rosto dela. — Aquela mulher detestável, — praguejou enquanto andava pelo quarto pegando as roupas de Aethelflaed.
— Amice! — Edwina ralhou com ela, olhando nervosamente para a porta. Ela puxou a trança grisalha. — Você está falando da rainha.
Amice se virou furiosamente para a ama depois de empurrar a camisola de linho que compunha a primeira camada de suas roupas para as mãos de Aethelflaed. — Viu o jeito que ela vestiu Aethelflaed?
Edwina olhou rapidamente para ela e o rosto marcado por linhas da mulher ficou vermelho. — Do que está falando? Aethelflaed estava linda. — Defendeu.
Amice sorriu ferozmente e apontou para as joias esparramadas na mesa. — Ela estava linda como uma pagã. Não minta para mim, velha. Nós duas sabemos que não deixariam Aethelflaed entrar vestida daquele jeito em uma igreja se o noivo dela não fosse um viking! Olhe para aquele colar; quanto tempo levaria para que camponeses dissessem que é um símbolo mágico? Ou para que olhassem para o bracelete e a acusassem de praticar a religião antiga?
O lábio inferior de Edwina estremeceu, os olhos enrugados dela se enchendo de lágrimas. Aethelflaed suspirou e esfregou o rosto. — Amice, já chega, — ela ordenou gentilmente. — Meu noivo é pagão, não há nada que possamos fazer sobre isso. O casamento vai ser cristão, é justo que eles me vistam para agradar meu marido. — Amice a encarou, os olhos azuis indignados. Aethelflaed se sentou na ponta da cama; ela não se lembrava de estar tão cansada. — Edwina, eu sei que você tem muito o que fazer com o casamento amanhã. Vá, Amice pode cuidar de mim sozinha.
A ama hesitou antes de assentir e sair do quarto, parecendo ainda segurar lágrimas. Aethelflaed se deixou cair de costas, encarando cegamente o dossel da cama. Ela traçou distraidamente as curvas do colar. Amice se jogou ao lado dela e enroscou os tornozelos das duas.
— Se te serve de consolo, você realmente vai estar linda, — Amice murmurou, os cabelos dela fazendo cosquinha no ombro de Aethelflaed.
— Você sempre achou a moda inglesa modesta demais, — ela disse, sorrindo.
Amice se virou de lado, apoiada no cotovelo para olhar no rosto dela. — É claro que acho. Você já viu as estátuas e as pinturas do império romano? Imagina o que não poderia convencer Ubbe a fazer se estivesse vestida daquele jeito.
— Eu vou parecer uma fada, — Aethelflaed disse, pensativa, olhando para o bracelete em seu pulso.
— Vai sim. — Amice concordou e puxou o colar que ela ainda usava.
Aethelflaed suspirou. — Só precisamos convencer a corte de que a ideia não foi minha. — Ela se levantou da cama e retirou as jóias que ainda usava. — Amice, escolha alguma coisa severa e sem adornos, e pegue o maior pingente de crucifixo que eu tiver.
Amice a ajudou a colocar um vestido de um azul profundo — preto seria visto como um protesto claro demais na véspera de seu casamento — as mangas quase no chão, a gola fechada, o tecido grosso. O único adorno era uma corda dourada e fina que elas amarraram sob seus seios, se cruzando logo abaixo e dando um nó na altura de sua cintura. O crucifixo era prata pesada e grosseira, mais sacramento do que jóia, e Aethelflaed cobriu os cabelos com um véu.
Amice ajeitou suas saias uma última vez. — Se vai sair vestida como uma freira, é melhor ir ao santuário do castelo de uma vez.
{...}
Quando o rei mandou chamá-la, Aethelflaed estava ajoelhada em frente ao altar, as mãos unidas em frente ao colo, seus lábios se movendo silenciosamente. Ela não costumava rezar muito, limitando-se às preces protocoladas que dizia quando ia à missa ou os pedidos desesperados que enviava a Deus quando percebia a força de seu pai o falhando. Dustan não abrigava clérigos frequentemente, e a paróquia do vilarejo que rodeava o castelo deles não os recebia frequentemente. Sua mãe era mais devota, e quando a febre a tomou, orações e cânticos se misturaram com os gritos dela até que o fôlego de vida a deixasse e levasse a criança no ventre dela também. Depois disso, seu pai alimentava um ressentimento pela igreja, e era incrivelmente relaxado com sua educação religiosa. Talvez por isso fosse tão fácil para ele entregar a filha a um pagão.
Amice estava atrás dela, e havia outras nobres que se juntaram quando ficou claro para onde o caminhar solene e melancólico da garota a levava. Ela escutou fungadas e os mesmos sussurros de piedade que ouvia desde que chegara ao castelo, e Aethelflaed não sabia se queria sorrir ou fazer uma careta.
— Lady Aethelflaed, — a voz incerta de uma serva a chamou. Aethelflaed se levantou lentamente. — Sinto muito por interromper suas preces, minha senhora, mas o rei solicita sua presença.
Aethelflaed podia sentir o olhar indignado das outras nobres naquela serva, o reflexo da raiva que nutriam por Alfred. Não era suficiente que ele a desse a um pagão, o rei agora interrompia o único consolo que restava a ela. Era um raciocínio fácil e praticado. Havia poucas maneiras aceitáveis para que uma mulher da posição dela demonstrasse insatisfação, porém ninguém a culparia por se voltar para Deus naquele momento. Era o que ela precisava que testemunhassem: sua devoção e modéstia.
Aethelflaed assentiu e se despediu de suas companheiras de oração chorosas, fazendo sua voz tremer. Seus passos ecoavam nos corredores de pedra enquanto caminhava pelo castelo, passando por serviçais atarefados que prepararam seu casamento. A garota a levou até portas grossas de madeira flanqueadas por dois guardas e se curvou desajeitadamente para Aethelflaed antes de sair às pressas.
Os guardas abriram as portas e Aethelflaed esperou que o rei se dirigisse a ela primeiro. — Lady Aethelflaed, por favor, entre, — ele chamou. O cabelo de Alfred estava molhado, ela percebeu. Ele provavelmente se banhara ao chegar ao castelo, tirando a poeira e o cansaço de três dias de cavalgada. Alfred parecia ainda mais novo com o cabelo úmido colado à cabeça e o rosto corado da água quente. Eles eram próximos em idade, e ela pensou, desgostosa, no quanto isso seria mais fácil se Alfred fosse seu noivo.
Ela entrou e fez uma reverência, suas saias pesadas e escuras farfalhando ao redor dela. O rei franziu o cenho para suas roupas. Aethelflaed quase parecia vestida de luto, ela sabia. Ela se impediu de sorrir. — Meu senhor, — ela começou com a voz suave e complacente que Edwina a ensinara a usar com seus superiores. — Me chamou?
— Sim, — Alfred confirmou e fez um gesto para que ela se sentasse em uma das cadeiras confortáveis colocadas a frente da mesa de madeira pesada. A superfície estava repleta de papéis e livros, mensagens e potes de tinta com suas canetas de pena, e saudade apertou profundamente no peito dela.
Aethelflaed tentava não pensar em casa, nas tapeçarias que ela mesmo bordara nas paredes de seu quarto, na cozinha que era sempre quente e aconchegante, mesmo no inverno, no salão de banquetes com a mesa longa e a enorme lareira, no som de músicos e poetas, quando seu pai os contratava para ocasiões especiais. Estaria tudo lá, quando ela finalmente pudesse retornar para casa, porém nada seria igual. Ela não conseguia se imaginar com Ubbe pelos corredores familiares, não conseguia pensar que Amice não poderia mais dividir a cama com ela todas as noites, não sabia como encararia os olhares de pena dos servos que estavam lá desde que ela nascera e das pessoas do vilarejo.
Ela se sentou, as costas retas e tensas, porém suas mãos repousavam pacificamente sobre seu colo, pálidas em contraste com o tecido azul escuro de seu vestido, frágeis em sua delicadeza.
— Me disseram que você estava na capela, — Alfred disse, casualmente. Ele a estava estudando, Aethelflaed percebeu, e quis rir. Alfred era produto de Ecbert e Judith, sem dúvida.
Ela assentiu, impassível. — De fato estava, meu senhor.
— Se me permite a ousadia, pelo que estava orando? — Alfred questionou. A voz dele era macia, o tom estável e inalterado. Aethelflaed não conseguia se lembrar exatamente de como o rei Ecbert falava, porém sabia que Alfred não lembrava o tom autoritário e reverberante de Aethelwulf.
— Sabedoria e paz, Majestade. E pela saúde de meu pai, — era uma resposta apropriada o suficiente. Medo e rebelião não poderiam ser lidas em suas palavras, e seu pai se deteriorava rapidamente, culpa e medo o definhando mais rápido do que a idade e a doença em seus pulmões.
Alfred sorriu. — Se todos os meus súditos desejassem sabedoria e paz, meu reinado seria muito mais fácil.
Aethelflaed assentiu, porém se manteve calada. Qualquer resposta que desse àquele comentário a condenaria. Admitir que sabia da insatisfação e maquinações da corte, mesmo que óbvio, seria ousado demais em frente ao rei; ela era a filha de um duque, sendo dada em casamento por uma aliança, e não sabia se Alfred apreciaria sua interferência em assuntos políticos. Por outro lado, negar os comentários venenosos e os olhares acusadores que qualquer um poderia ver sendo jogados de um lado para o outro naquele castelo poderia ser interpretado como estupidez.
— Sua viagem foi agradável, senhor? — ela optou por dizer.
Alfred se remexeu na cadeira, desconfortável, e Aethelflaed mordeu a língua para não rir. Ele não era um guerreiro experiente, e depois de três dias a cavalo cada músculo no corpo do rei deveria gritar em protesto.
— Foi agradável o suficiente, — ele respondeu. — Me perdoe por tirar Ubbe de você esses dias. Gostaria que houvesse mais tempo para que ele te cortejasse propriamente.
Aethelflaed piscou, fingindo surpresa. — Jamais ousaria questionar as decisões de Vossa Majestade. As lutas tem uma reputação por prescindir casamentos em importância.
— Bem, minha senhora, espero que com o seu casamento, as lutas acabem mais cedo. — Alfred a avaliou silenciosamente e Aethelflaed moveu discretamente as mãos para que as mangas longas de seu vestido as cubrissem. Ela fincou as unhas nas palmas com força.
— É o desejo e a esperança de todos nós, — ela comentou, sua voz livre de expressão, apesar de não ser tão doce quanto antes.
Alfred suspirou. — Eu tento ser um rei justo, Lady Aethelflaed. Mas o fardo que meu avô colocou sobre os meus ombros é pesado, e me vejo tendo que fazer decisões que trarão dor a alguém, independente do quanto tente evitá-las. — Ele esfregou o rosto e Aethelflaed percebeu que havia olheiras nos olhos dele. Ela tentou encontrar dentro de si alguma compaixão para com o sofrimento de seu rei, porém não havia nada. — Entendo como essa união poderia te deixar temerosa e acredito que fui omisso em não conversar diretamente com você antes, para acalmar seus medos.
— Vossa Majestade tem um reino para governar e batalhas para travar. Jamais ousaria exigir do seu tempo. E sua mãe tem sido inacreditavelmente generosa para comigo. — Ela sorriu levemente, e houve um momento de tensão antes de Alfred retribuir com um sorriso sarcástico. Ele sabia quem era Judith, então.
— Mas a minha mãe não conhece Ubbe Ragnarsson como eu, — ele comentou. Alfred espalmou as mãos na madeira escura da mesa e Aethelflaed resistiu ao impulso de arquear uma sobrancelha para ele. Se o rei esperava que a posição fosse deixá-lo mais autoritário, apenas ressaltava o quanto as mãos dele eram pálidas e macias. — Ubbe é um bom homem, apesar de tudo. Ele é ponderado, honesto. Não é dado aos excessos de violência dos irmãos. Ubbe buscou aliança conosco uma vez, e foi isso que me convenceu a acolhê-los aqui. Ele não será cruel com você.
Aethelflaed inspirou lentamente, engolindo sua irritação. — Obrigada, Vossa Majestade, — ela agradeceu, a voz fraca com o que ela esperava que o rei entendesse como alívio.
Alfred não era estúpido, ela tinha certeza disso. Ninguém escolhido por Ecbert poderia o ser, e Judith não arriscaria sua posição para colocar um filho fraco no poder. Mas as palavras dele seriam ingênuas, se vindas de qualquer outro. Era insultante que o rei a chamasse até ali para oferecer nada mais que promessas vazias sobre o caráter de um viking exilado. Alfred não ajudava ninguém além de sua própria consciência pesada.
Aethelflaed esperava ao menos o respeito de não a julgarem estúpida o bastante para confiar em um viking apenas com as palavras de um menino da idade dela. Ela esperava que Alfred tivesse a hombridade de lidar com as consequências de suas próprias ações. Ele era rei, e haveria de sacrificar muito mais do que a virgindade dela se quisesse se manter no poder. Quanto mais cedo ele aprendesse isso, menos noites de sono perderia.
Alfred se reclinou na cadeira. — Pedi a Ubbe que conversasse com você hoje. É o mínimo que pode ser feito, com um casamento tão rápido como este.
Aethelflaed se forçou a sorrir. Ah, que maravilha que seu noivo precisasse ser convencido a estar em sua companhia. — Sua generosidade não conhece limites, meu senhor.
O rei inclinou levemente a cabeça em agradecimento, e ela se perguntou se o garoto conseguia escutar o sarcasmo em suas palavras. Ela esperava que sim, apesar do perigo de ofendê-lo.
Alfred se levantou e rodeou a mesa para oferecer a mão à ela. Aethelflaed aceitou. A mão dele era fria e quase tão macia quanto a sua própria. — Fico feliz por esta conversa, senhora. Sua família e a minha são aliadas antigos, e desejo toda felicidade a vocês.
Ela mordeu a parte interna da bochecha. Seu pai fora aliado de Ecbert por longos e turbulentos anos, mas Ecbert não era um menino inexperiente. — Com a graça de Deus, nós seremos, meu senhor.
Aethelflaed queria rir. Como nobres, felicidade era a única coisa que eles não podiam desejar.
{...}
Um servo a levou até o pátio do castelo, onde Ubbe conversava com os outros vikings. Os ingleses mantinham distância da mesa deles e os olhares de desconfiança e desprezo eram tão pronunciados que a faziam querer rir.
Um silêncio tenso caiu sobre o pátio quando a presença de Aethelflaed ficou clara, a severidade de suas roupas e o crucifixo pesado em seu peito impossíveis de não notar. Ela sabia que os rumores sobre sua visita à capela já teriam se espalhado a essa altura, e a raiva dos saxões pareceu triplicar ao vê-la ali.
Ubbe suspirou pesadamente antes de se levantar da mesa, e Aethelflaed teve o impulso de se virar e partir. Temia que a ordem de Alfred fizesse seu noivo se ressentir dela. Era suficiente que se casassem, e ela não tinha nenhuma inclinação para fingir ser agradável com um homem que precisava ser obrigado a estar perto dela.
Aethelflaed fez um reverência curta quando Ubbe se aproximou o suficiente. — Meu senhor, — ela cumprimentou. — Espero que sua jornada tenha sido proveitosa.
Ubbe bufou uma risada seca. — Três dias a cavalo e eu prefiro voltar à estrada do que estar neste castelo. — Ele cuspiu no chão, um gesto de desprezo que ela já vira Bjorn fazer antes, e Aethelflaed torceu o nariz antes de perceber o que estava fazendo. Uma expressão divertida cruzou o rosto de Ubbe. — Ah, você não é feita de gelo, no final das contas.
Aethelflaed ergueu o queixo. — O castelo pode ser monótono nesta época do ano, — Ela comentou, ignorando completamente o que Ubbe dissera. Ele emitiu um grunhido de irritação.
Se fosse honesta, Aethelflaed duvidava que o castelo diferisse da paisagem cinzenta e lamacenta em qualquer estação. Subitamente, ela sentiu falta de sua casa. Sua mãe amava a beleza, e os jardins que ela plantara ainda estavam lá. cuidadosamente tratados. Na primavera, o cheiro das flores podia ser sentido em qualquer lugar do castelo, e sempre havia vasos com flores enfeitando seu quarto.
Ela queria estar lá novamente, envolta no calor das cozinhas e no cheiro dos pães assando, perto dos servos que estavam com ela há tanto tempo. Aethelflaed queria retornar aos canis de sua casa, onde os cães pulavam em suas saias e lambiam suas mãos, ela queria as amoreiras que pintavam seus dedos e sua boca de rosa, queria as cerejeiras no pomar que faziam parecer que estava nevando quando floresciam. Ela queria entrar na floresta familiar nos arredores do castelo para colher ervas com Amice e queria andar pelo vilarejo na época da colheita.
Ela tinha saudade de casa.
— Gosta de cavalgar, Aethelflaed? — Ubbe perguntou.
Ela ergueu as sobrancelhas. — O suficiente, meu senhor.
— Então troque essas roupas e pegue um cavalo, — Ele disse, olhando ao redor deles. A atenção de todos no pátio estava voltada para os dois, e Aethelflaed podia sentir o desconforto de Ubbe.
— Temo que não será possível, — ela respondeu brandamente, mas alto o bastante para que os espectadores ouvissem.
— Se prefere se casar com as coxas assadas da sela, a decisão é sua, — Ubbe ironizou, os lábios se curvando em um sorriso sardônico.
Atrás dela, arfares indignados foram ouvidos, e Aethelflaed conseguia sentir seu rosto queimando. Era indecente que Ubbe se referisse ao corpo dela de qualquer maneira antes de se casarem, ainda mais na frente de todos. Ela agarrou o crucifixo em seu peito, e o sinal de sua devoção era apenas uma desculpa para poder apertar os punhos.
Ubbe tinha uma expressão divertida ao observar o rubor se espalhando pelo pescoço dela e desaparecendo sob a gola fechada de suas roupas, e Aethelflaed sentia sua irritação crescer. Ele a estava humilhando publicamente e rindo de seu constrangimento.
Ela endireitou os ombros. — Temo que não seria apropriado que ficássemos sozinhos fora do castelo. — Aethelflaed explicou, sua voz firme, mais próxima do que Ubbe escutara no banquete do que do tom suave e lisonjeiro que ela geralmente tomava com ele.
Ubbe franziu o cenho. — Amanhã nós seremos casados, — ele argumentou, como se fosse simples assim, como se isso pudesse proteger sua reputação ou apagasse o fato de que Ubbe era um pagão.
— Ainda não é amanhã, meu senhor, — Aethelflaed rebateu, a obviedade do argumentou um insulto pouco escondido.
Ubbe se aproximou mais e Aethelflaed enrijeceu. Ele estava terrivelmente perto, perto o bastante para ser indecoroso. Aqueles olhos azuis intensos procuraram os dela e ela inspirou afiadamente, indecisa entre levantar o queixo em desafio ou abaixar a cabeça em submissão. No final, ela decidiu sustentar o olhar, seu estômago se contorcendo, mas sua expressão era firme.
Alguma satisfação quebrou a máscara irritadiça de Ubbe.
— Não vou conseguir verdade alguma de você aqui dentro, — Ubbe murmurou, baixo o bastante para que apenas os dois ouvissem. — Você mesma disse isso.
Aethelflaed sorriu, lento e afiado e orgulhoso. — Então suponho que seja melhor pedir a permissão do meu pai, e ter em mente que não estaremos sozinhos no nosso passeio, filho de Ragnar.
{...}
Aethelflaed aceitou a ajuda de Jojen, um dos soldados se sua guarda, para montar o cavalo, grata pela proteção das calças grossas de montaria. Ela arrumou a longa túnica verde escura sobre a sela e aceitou o manto cinza que Amice lhe entregou, prendendo-o na frente com o broche de prata e puxando o capuz sobre seu cabelo trançado. Ela deixou que Jojen guiasse seu cavalo até os portões abertos do castelo e apertou as mãos enluvadas nas rédeas quando parou ao lado de Ubbe.
— Parece que conseguiu o que queria no final, meu senhor, — ela comentou, seu tom neutro. Ainda não conseguira se livrar da irritação pela vergonha que Ubbe lhe causara.
Aethelflaed sentiu os olhos do viking sobre ela, porém manteve sua atenção na estrada à frente deles, o rosto escondido pelo capuz.
— Existem muitas coisas que eu quero e não posso tê-las, Aethelflaed. — Ubbe disse, pensativo, soando cansado além de seus anos.
— Para onde vamos? — Ela perguntou, impassível.
— Há um riacho não muito longe daqui, — ele respondeu, começando a guiar a procissão. Além deles, cinco guardas de sua casa os acompanhavam, com Amice cavalgando junto. Testemunhas o suficiente, e pessoas que poderiam protegê-la, caso Ubbe tentasse sequestrá-la.
Aethelflaed queria rir; Ubbe não seria estúpido a esse ponto, e ela duvidava que houvesse algo nela que o atraísse o bastante para correr o risco. Ele precisava esperar apenas mais um dia, e então seu corpo e seu dinheiro pertenceriam a ele.
Ela esperou que o portão se fechasse atrás deles, escondendo-os dos olhos atentos da corte. — Sei onde é, — ela falou, acariciando o pelo brilhante de seu cavalo. Aethelflaed sorriu para Ubbe, matreira. — E aposto que chego lá antes de você.
Ela esporeou o cavalo, disparando na frente dele e dos outros. Era bom sentir o vento em seu rosto outra vez, a liberdade de correr sobre a grama que ficava marrom lentamente. Aethelflaed sentia falta dos estábulos de seu castelo e dos estaladiços que a chamavam sempre que um novo potro nascia. Seria tão bom retornar e cavalgar pelas suas terras novamente, acariciar o pelo branco brilhante de sua égua Aurora.
Aethelflaed observou a mata passando rapidamente por ela; as bagas começavam a amadurecer, e ela torcia para que pudesse estar em casa no inverno. Naquela estação, eles penduravam ramos de visco e azevinho no castelo, e o vinho era sempre farto e a deixava quente. No último dia do ano, ela e Amice apagavam a lareira e todas as velas de seu quarto e esperavam no escuro até que o ano novo chegasse. Era um costume antigo e pagão, mas Amice o guardava ferrenhamente, e Aethelflaed gostava de como o mundo parecia tão intenso e brilhante aos seus olhos quando acendia novamente as velas.
Em qualquer outro castelo, aquele tipo de costume seria reprovado, e ela não tinha dúvidas de que o padre da paróquia do vilarejo as obrigariam a se penitenciar se soubesse dos costumes que ela guardava depois que a amizade com Amice se tornou mais forte, porém Dustan não tinha muito apreço pela igreja, e ele gostava de como as cores do visco e do azevinho enfeitavam o castelo. A beleza em sua casa era um tributo a sua mãe, e Aethelflaed se perguntava se doía em seu pai, ver alguém tão parecida com a falecida esposa decorando a casa como ela costumava fazer.
Será que ela ainda teria seu pai no natal daquele ano? A culpa parecia o consumir mais rápido do que a doença, e Aethelflaed sentiu sua garganta ficar apertada ao pensar em enterrar seu pai na terra congelada naquele inverno. Estava chegando, e o frio fazia o barulho nos pulmões dele aumentar tanto.
Aethelflaed inclinou a cabeça para trás, encarando o céu acinzentado. Seu capuz caiu e o vento arrancou mechas de cabeço de sua trança. Ela não queria pensar sobre isso agora. Por um breve momento, podia ser livre, e não arruinaria sua temporária liberdade com a tristeza que a esperava naquele castelo.
Ela soltou uma das mãos das rédeas, deixando-a pender mole ao lado do corpo, e fechou os olhos. Se tentasse o bastante, podia imaginar que estava flutuando. Eu poderia ser um pássaro, ela pensou, perdida no frescor do vento e no movimento do cavalo embaixo dela, e fugiria de tudo isso. Poderia me esconder na floresta, como Amice faz, e não haveria casamento, ou noite de núpcias, ou gravidez e dor. Eu poderia me jogar, e então veria minha mãe novamente.
Alguém segurou com força as rédeas de seu cavalo, obrigando-o a desacelerar violentamente. Aethelflaed arregalou os olhos e se agarrou a sua montaria. Ela não tinha percebido que estavam tão rápido.
— O que você estava fazendo? — Ubbe sibilou para ela, ofegante. Ele tinha os olhos arregalados e o rosto alarmado.
— Voando, — Aethelflaed respondeu sem pensar, delirante, e Ubbe segurou seu cavalo com mais firmeza. As pernas deles se tocavam. Ela se recompôs, o rosto quente, seus membros moles com o perigo. Aquele cavalo não era Aurora, que era dócil e paciente. Ela poderia ter o pescoço quebrado naquele momento. — Estava pensando em como seria voar, meu senhor. Me perdoe, é apenas a imaginação de uma menina tola.
Ela tentou sorrir docemente, sua mão pairando sobre a de Ubbe em um pedido silencioso para que ele soltasse as rédeas. Ele não o fez.
— Você ia se jogar, — ele acusou em um sussurro.
Aethelflaed engoliu em seco. Havia alguma verdade nas palavras dele. Era apenas um pensamento passageiro, uma imagem quase pacífica em seu momento de felicidade. Mas estivera lá.
— De forma alguma, — ela negou educadamente.
— Aethelflaed, — Ubbe latiu seu nome com força, o sotaque dele fazendo as sílabas rasparem umas nas outras como pedra. — Se quer tanto assim se livrar deste casamento, me diga. Não vou ter seu sangue nas minhas mãos.
Aethelflaed se aquietou, estudando-o. Ele estava preocupado, percebeu. É claro que estava, a morte dela em um passeio por insistência dele significaria a morte de todos os outros vikings no castelo. Era apenas aquilo. Ubbe nem ao menos estaria ali se não fosse por decreto do rei.
— Esse casamento vai acontecer independente de nossas vontades, Ubbe — ela disse, e era a primeira vez que o chamava pelo nome. Era estranhamente íntimo.
Ubbe ergueu uma sobrancelha. — Está sendo honesta agora? — Ele perguntou, sarcástico.
— É para isso que estamos aqui, não é? — Aethelflaed desviou os olhos dele, preferindo focar em seu cavalo. Ela o acariciou novamente, tentando acalmá-lo. — Para conversarmos honestamente sobre este casamento, ao menos uma vez.
— Sinto muito, — ele disse, baixo e pesaroso.
Aethelflaed virou rapidamente a cabeça para ele. Ela não esperava que um homem como Ubbe pedisse desculpas por coisa alguma. Ele era um guerreiro habilidoso, o filho do homem mais temido no mundo. Homens menores que ele estavam acostumados a simplesmente tomarem o que queriam.
— Não fez nada para me ofender, meu senhor, — ela mentiu, porque era mais fácil do que explicar para Ubbe como o comportamento dele poderia refletir nela, como a reputação de uma mulher era uma coisa frágil, como ela poderia ser excluída da sociedade se fosse considerada indigna. Sem seu pai e casada com um pagão, Aethelflaed não tinha ninguém além de si mesma, e o corpo de Rainha Kwenthrith apodrecia para mostrar o que acontecia com mulheres que ousavam tomar poder para si próprias.
Ubbe bufou uma risada seca. — Achei que iríamos ser sinceros um com o outro aqui. Eu posso não conhecer os seus costumes e me importar pouco com eles, mas não sou ignorante, Aethelflaed. Você está sendo forçada a casar com um homem que matou seu povo. Não há como escapar do fato de que deve estar apavorada.
Aethelflaed rilhou os dentes. Ubbe falava a verdade, e ela o odiava por aquilo naquele momento. A verdade raramente era requerida dela. Suas próprias opiniões e desejos deveriam ser ignorados pelo bem do dever e da honra, e ela aprendera a valorizar suas verdades, acumulá-las como tesouro precioso que era compartilhado apenas com aqueles em quem ela mais confiava ou usadas como armas cuidadosamente pensadas.
Ela ficara apavorada quando seu pai anunciou seu noivado, e o medo não a havia deixado por nenhum dia desde então. Mas Aethelflaed tinha um dever, e podia encarar seu destino com alguma dignidade. Ela não permitiria nenhuma fraqueza na frente da corte que não a beneficiasse diretamente, e certamente não desejava que seu marido pensasse que era fraca.
— Meus sentimentos não importam para esta aliança, — ela disse simplesmente, sem negar o que era óbvio. Ubbe finalmente largou as rédeas dela. Ele a segurou frouxamente pelo pulso, o calor das mãos dele atravessando as luvas que ela usava.
— Mas importam para mim, — ele disse, aqueles olhos azuis terríveis nos dela. Aethelflaed sentiu seu coração falhar uma batida. Ubbe suspirou e desmontou do cavalo. — Podemos andar daqui.
Ele veio até ela e a ajudou a desmontar, as mãos dele enormes e firmes em sua cintura. Fazia Aethelflaed se sentir pequena, quão facilmente Ubbe conseguia levantá-la apesar de suas roupas pesadas, como ele era uma cabeça maior que ela, como os ombros dele eram largos, impedindo sua visão.
Eles caminharam lentamente, guiando seus cavalos, lado a lado, mais perto do que Aethelflaed teria permitido na corte. A companhia deles manteve distância, dando-os privacidade. Aethelflaed suspeitava que tinha Amice para agradecer por isso. Ao redor deles, o mundo estava pintado de laranja e marrom, morrendo lentamente. Seria um inverno rigoroso, ela podia sentir.
— No inverno, — ela começou, esperando que falar sobre sua vida amoleceria o coração de Ubbe. — O vilarejo ao redor do castelo fica cheio de vida. Fazendeiros de todos os lugares nas nossas terras terminam a colheita e chegam em busca de proteção. Meu pai odeia o tédio, então ele abriga cantores e poetas e atores. O mundo do lado de fora fica branco e silencioso, mas dentro do castelo nós somos mais felizes do que nunca. Você vai ver.
Ubbe a estava fitando estranhamente, com ternura e tristeza. — Você é jovem demais para fazer isso, — ele murmurou.
Aethelflaed endireitou os ombros. — Mulheres mais novas que eu já são mães. Na minha idade, homens são enviados à batalha, como você certamente foi.
— Eu cresci cercado de guerra, fui treinado para isso, — ele argumentou.
Ela sorriu, condescendente. — Presume que eu não tenha sido treinada para o matrimônio, então?
Ubbe balançou a cabeça. — Há uma diferença entre casar com alguém que queria e alguém que não quer.
— Já conheceu alguém que queria completamente um casamento? — Aethelflaed brincou.
— Eu quis o meu, — Ubbe respondeu, melancólico.
— Oh, — Aethelflaed sentiu o estômago ficar gelado. Ela olhou para frente, procurando entre as árvores pelo riacho. — Eu não sabia que Torvi é sua esposa, meu senhor. É cruel que te façam deixá-la.
Ubbe sorriu para ela. — Torvi não é minha esposa. Eu tinha uma esposa na Dinamarca, mas acabou antes de vir para cá.
— Você a amava muito? — Ela perguntou, genuinamente curiosa. Era estranho para Aethelflaed, quão frágeis eram os casamentos dos pagãos. Ela sempre pensara que o casamento seria para sempre, mas aqui estavam Ubbe e Torvi e Bjorn e tantos outros. Seria seu noivo menos inclinado a buscar a paz no matrimônio deles por causa disso? Ela esperava que não. Aethelflaed não tinha esperanças de encontrar amor no casamento deles, mas amizade certamente faria tudo mais fácil.
— Eu a amava quando me casei com ela, — Ubbe respondeu. — Mas eu era jovem, e tremendamente estúpido. Nosso amor acabou, e nosso casamento pouco tempo depois disso. Mas eu pude escolher seguir meu coração, e você não poderá. Sinto muito por isso.
Eles passaram por uma raiz grossa no chão, e Ubbe segurou o braço dela para ajudá-la.
— Eu nunca pensei que casaria por amor, então esta é uma coisa a menos pela qual precisa se sentir culpado, meu senhor, — ela respondeu.
— Por que fica me chamando desse jeito? — Ubbe perguntou, subitamente, os olhos curiosos estudando o rosto dela. Aethelflaed olhou para baixo, resistindo ao impulso de puxar o capuz de seu manto. Ela sabia que homens a observavam com frequência, mas raramente era tão descarado.
— Seu pai era um rei e você é um guerreiro famoso. É apropriado. — Ela concedeu, torcendo para que o desconforto que a atenção de Ubbe causava nela não fosse evidente em seu rosto. Aethelflaed podia controlar suas feições, mas havia pouco que podia fazer sobre o rubor intenso que coloria sua face quando se sentia constrangida.
O riacho estava diante deles, claro e gelado, e Ubbe levou ambos os cavalos para beber água. Aethelflaed escutou ao som da mata ao redor deles, os pássaros e os insetos. Em algumas semanas, tudo estaria silencioso.
— Eu estou exilado agora, — ele comentou, e havia saudade e amargura em sua voz. — Não sou um lorde, especialmente para uma família como a sua.
— Você será meu esposo, — Aethelflaed disse, sentindo o ressentimento familiar de sua posição como mulher incomodando-a. — Será meu senhor, de um jeito ou de outro.
Era a verdade. Gentil e bondoso com ela Ubbe poderia ser, mas ainda seria seu marido, e tudo o que o impedia de machucá-la era a própria vontade dele. Aethelflaed tinha mais chances de escapar de seu casamento do que outras mulheres saxãs, mas era verdade mesmo assim.
Ubbe voltou para perto dela, o rosto pensativo. Com a maneira como a terra se inclinava até o riacho, eles quase tinham a mesma altura naquela posição. Ubbe tinha uma cicatriz na testa, ela percebeu. Quantas outras estariam se escondendo debaixo das roupas resistentes dele? Aethelflaed descobriria logo o suficiente, pensou, e sentiu o estômago se contorcer ansiosamente.
Ela não pensaria naquilo agora, para que o medo não a deixasse fria e distante. Aethelflaed faria bem em ganhar as afeições dele, e pensar no que Ubbe poderia ter feito a outras saxãs nos saques ou no que ele poderia fazer com ela não ajudaria. Ficaria tudo bem, ela tentou se convencer, pelo menos na primeira noite. Pessoas estariam no quarto, e Ubbe seria forçado a ser gentil.
— Eu sei que pode não acreditar em mim, e tem razão em não fazê-lo, — ele começou, e as palavras fizeram os ombros de Aethelflaed ficarem tensos. Havia determinação no rosto de Ubbe e a boca dele era uma linha rígida debaixo da barba. — Mas eu te prometo isto, minha senhora, — a mão dele foi a um bracelete intrincado de metal no antebraço, escondido antes debaixo das roupas. — Eu não vou te machucar, ou ser cruel com você. Eu nunca forcei ninguém, e não o farei com minha esposa. Não serei seu carcereiro e não vou tomar o que é seu. Você é minha esposa, e é inocente em tudo isto, e eu vou te respeitar e ser bom para você.
Aethelflaed sentia como se todo ar do mundo houvesse sumido. O coração dela batia um ritmo rápido em suas costelas e suas mãos tremiam. Era mais do que ela poderia pedir de um marido cristão, muito menos de um pagão que tinha o sangue do povo dela nas mãos. Ela queria desesperadamente acreditar nele; seria tão fácil e doce. Ela poderia parar com as mentiras e com a manipulação cuidadosa para ganhar o favor da corte que a exauria ao mesmo tempo em que a fazia se sentir viva.
Aethelflaed escutou a companhia deles se aproximando, a voz de Amice conversando animadamente com os guardas os alertando da presença deles, e ela sabia que simplesmente não poderia ser enganada assim. A mãe de Amice também acreditara nas palavras doces de um homem, e aqui estava a filha dela, separadas há anos, uma bastarda, salva apenas pela posição do pai dela e pela generosidade do Duque Dustan.
Aethelflaed não entregaria o pouco poder que tinha a Ubbe.
— Eu te agradeço profundamente, meu senhor, — ela disse, o título escapando, formal demais para aquela conversa. — Você é bondoso demais.
Ubbe sorriu pesarosamente para ela, e Aethelflaed se sentiu relaxar quando ele não pareceu ofendido com sua falta de entusiasmo.
— Você não acredita em mim, — ele disse simplesmente, e não era uma acusação.
— Jamais ousaria duvidar de sua palavra, Ubbe, — Aethelflaed falou, tocando no braço dele, tentando amenizar sua falha. A mão dele cobriu a sua.
— Está tudo bem. Eu não mereço sua confiança ainda. Mas espero ganhá-la, — Ubbe disse, a voz grave e reconfortante, e aqui na floresta que morria a volta deles, com esse homem estranho que seria seu marido, Aethelflaed quase se sentia sortuda.

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