Hardest of Hearts
10 The best of the best and the worst of the worst
Notas iniciais
E ainda assim eu exijo que seu coração sobreviva sozinho, pertencendo somente a si mesmo, inteiro, completamente inteiro, e funcionando na caverna escura sob suas costelas.
Anne Sexton, The Complete Poems
Um múrmurio começou na igreja no momento em que ela entrou. Aethelflaed levantou a cabeça e se recusou a olhar para os nobres reunidos ali. Esperava que dessem a ela mais dignidade quando a hora de selar seu destino chegasse, mas seu pai não permitira isso. Dustan a arrastara de seus aposentos quanto Aethelflaed finalmente conseguira controlar suas lágrimas; ela havia lavado o rosto e cuidado dos ferimentos em seu pulso, no entanto nada podia ser feito por seu rosto manchado de vermelho ou pelas marcas de dedos em sua mandíbula. Elas ficariam roxas mais tarde, porém agora eram de um vermelho furioso. Seu cabelo, preso no lugar pela coroa de flores, era inútil para esconder seu rosto.
E então ela andou até o altar no dia de seu casamento, machucada e humilhada, seu pai raivoso e ressentido ao seu lado, seu povo sussurrando em pena e indignação frente a imagem que ela apresentava. Aethelflaed não queria que essas pessoas a vissem assim, verdadeiramente afetada e vulnerável. Havia um limite para a fraqueza que ela podia mostrar para eles. Demais, e pensariam que era patética.
Mas seu pai a havia aberto, a marchara pelos corredores sangrando e em luto, e agora todo seu medo estava entregue aos olhos destas pessoas, estas cobras. Ela precisava encontrar força dentro de si ou então a comeriam viva. As cortes da Inglaterra nunca foram um lugar para os fracos. Aethelflaed procurou pela rainha entre os reunidos ali, e no vestido vermelho profundo era fácil encontrá-la. Elas se encararam, o olhar de Aethelflaed impossível de ignorar com seu rosto sem véu. Judith estava desgostosa. O rosto dela parecia neutro o suficiente, mas Aethelflaed sabia como ler as sutilezas de outras mulheres: o leve curvar para dos lábios, a rigidez ao redor dos olhos, a pausa na respiração. A rainha olhou para Dustan rapidamente, raiva cintilando nos olhos dela, e Aethelflaed entendeu.
Talvez, apesar do teatro cuidadosamente articulado de Aethelflaed, Dustan seria quem faria mais por sua imagem de inocente. Um sorriso pequeno e vacilante puxou seus lábios; Judith estava certa, ela sobreviveria a esta humilhação.
Os olhos dela não deixaram os da rainha por todo o caminho, que parecia mais longo do que das outras vezes que o percorrera. Judith vivera pelo reinado de três reis e ajudara o último a alcançar o poder. Aethelflaed se certificaria de não ser menos do que ela.
Apenas quando chegou ao altar ela olhou para Ubbe. Era estranho como seu marido parecia ser uma parte pequena de seu casamento no momento. Ubbe era perigoso, ela sentia isso em seus ossos, mas ele não se comparava ao que seu pai e o resto da corte poderiam fazer com ela. Contra seu marido, ela tinha maneiras de lutar, mas não contra seu próprio povo. E Ubbe jurara ser gentil, e parecera sincero. Ninguém mais o fizera.
A raiva dele, no entanto, não tinha nada da gentileza que ele prometera. A raiva de Ubbe era uma fera viva, bufando e rosnando. Os olhos dele estavam arregalados de fúria, tão terrivelmente azuis que eram quase violetas, a boca dele rígida em um esgar silencioso. Alguém o vestira com as roupas de um nobre saxão, e o tecido, mais fino do que os couros nos quais ela se acostumara a vê-lo, não conseguiam esconder os músculos grandes e tensos. Este era um homem temperado pela guerra, e alguém acabara de o ofender grandemente.
Aethelflaed olhou para baixo, tremendo. Ele não gostava de seu vestido? Talvez Ubbe pensava que fosse um insulto que alguém tivesse tentando passá-la por uma noiva danesa, talvez fosse uma ofensa aos costumes deles. Ele se moveu, terrivelmente veloz para um homem grande como ele, e Aethelflaed se encolheu de medo. Ela havia sido machucada uma vez hoje, era o suficiente. Mas a mão de Ubbe, quando se fechou ao redor da dela para desvencilhá-la do braço de seu pai, era gentil. Parecia, no entanto, que seu esposo não ofereceria a mesma cortesia ao seu pai.
Dustan sibilou com dor quando Ubbe apertou o braço dele com força, arrancando-o de Aethelflaed. A corte se mexeu, inquieta, e pelo canto do olho ela viu o rei se aproximando.
— Devemos nos ajoelhar para a cerimônia, meu senhor, — ela disse, baixo e doce, tentando acalmá-lo. Se Ubbe atacasse Dustan, ele certamente seria morto, mas não antes de causar danos profundos. Dustan já fora um homem forte, mas agora Ubbe seria capaz de destruí-lo com facilidade. E se isso acontecesse, Alfred pagaria o preço. Guerra aconteceria dentro de Wessex, e Aethelflaed sabia que alguns a culpariam por isso. Eles queriam sua relutância, desde que isso não custasse as vidas deles.
Os olhos de Ubbe se voltaram para o rosto dela, descendo de seus olhos vermelhos para as marcas em sua mandíbula. A raiva dele a fazia se sentir gelada. Aethelflaed não estava acostumada à raiva. Todos ao seu redor sempre foram gentis e educados, como deveriam ser com a filha de um Duque. Ela fora poupada da guerra, fome, desespero e injustiça. Aethelflaed não estava acostumada a olhar nos olhos de um homem e encontrar sede por sangue.
— Por favor, — ela murmurou, sua voz quebrando. O dia de seu casamento fora ruim o suficiente. Ela só queria que acabasse.
Ubbe relaxou um pouco e Aethelflaed suspirou com alívio. Eles se ajoelharam, e o bispo começou a falar. Era latim, e ela não sabia se Ubbe conhecia a língua. Não parecia importar para ele, no entanto. Ubbe não estava prestando atenção ao bispo, ou à cruz enorme na mesa, ou às pessoas ao redor deles. Os olhos dele estavam em Aethelflaed, queimando em sua intensidade, procurando e questionando.
O que ela não daria para saber o que se passava na cabeça dele, para saber o que Ubbe queria dela agora. Ele queria desobediência? Ele queria que ela se mostrasse fria e raivosa com os insultos feitos a ela? Ou suas lágrimas o faziam mais suscetível a ela? Talvez Ubbe gostaria de ter uma bela boneca quebrada esta noite. Ela estremeceu. Ubbe prometera que não a forçaria.
Aethelflaed não retornou o olhar dele. Não poderia. Ela não procuraria conforto e proteção em Ubbe. Seria um erro estúpido, e ela estava determinada a não cometê-lo. Aethelflaed não permitiria que ele tivesse tanto poder sobre ela. Não era esta a razão de seu pai ter feito tudo isso, manter poder na família? Dustan a ordenara a cumprir seu dever, e ela o faria.
Aethelflaed pensara muito sobre seu casamento; como a filha de um duque e única herdeira, casamento fora um tópico importante por toda sua vida. Ela fora preparada para ele: Aethelflaed sabia suas cortesias, e como comandar um castelo, e como encantar pessoas. Ela sabia o que seria esperado dela esta noite, não importava o quanto isto a assustasse. Muitas vezes se sentira triste ao pensar que um dia teria que deixar seu lar e seu povo. Nunca em seus devaneios Aethelflaed imaginara que se casaria com um homem como Ubbe. Ela nunca pensara que voltaria para a casa de sua infância com seu marido, e não sabia o que esperar.
Seu povo aceitaria ele? Talvez com tempo, se Ubbe se provasse digno. Mas quando eles voltassem, seus vassalos o olhariam com desconfiança. Ele era um pagão casado com a senhora deles, e não haveria escassez de homens querendo a cabeça de Ubbe por isso. Os soldados de Dustan não escutariam as ordens dele se discordassem, e como senhora de um castelo, Aethelflaed sabia o dano que criados descontentes podiam causar.
Ela ansiava por seu lar. Em seu castelo, a dinâmica de poder mudaria, e talvez então ela não temesse tanto. Em seu castelo, os olhos atentos de Judith não estariam nela, prometendo retaliação se ela dificultasse o plano de Alfred.
Aethelflaed deixou as palavras do bispo passarem por ela, as preces familiares quase uma canção de ninar, trazendo-a de volta ao foco. Quando o sermão terminou, mais rápido do que ela gostaria, o bispo os fez se levantar para os votos. Ubbe tentou ajudá-la a se levantar e pegou o pulso machucado dela. Aethelflaed estremeceu e engoliu um arfar doloroso. Ubbe franziu o cenho, e tentou subir sua manga com dedos calejados. Ela puxou sua mão de volta rapidamente. Não deixariam essas pessoas a verem sangrar.
Aethelflaed encarou seu lindo vestido enquanto Ubbe repetia os votos que o bispo ditava. A voz dele soava quase divertida; ela supunha que era engraçado, de certa maneira, prometer amor a uma mulher que ele não conhecia, prometer fidelidade quando ela era a intrusa. Quando Aethelflaed disse seus próprios votos, prometendo obediência e nomeando Ubbe seu mestre, ele estava sorrindo tristemente, como se sentisse muito.
Poderia ser pior, ela pensou. Poderia ser muito pior que isso.
A cerimônia terminou e eles se viraram para a saída. Aethelflaed não teve escolha a não ser olhar para as pessoas reunidas agora. Ela encontrou os sorriso nervoso e encorajador de Edwina, e fixou seus olhos em Amice, sua amiga parecendo furiosa e desolada. Torvi estava lá, Aethelflaed percebeu subitamente. Lá, e parecendo feita de mármore, como as estátuas da Grécia, mas os olhos dela estavam cheios de dor.
Deveria ser terrível assistir o homem que ela amava se ligar a outra mulher, saber que Aethelflaed teria os filhos dele quando Torvi provavelmente não podia. Pelo menos amor não seria o que quebraria Aethelflaed. Seu dever era seu fardo pesado a carregar.
— Sinto muito, — ela formou as palavras com a boca silenciosamente para Torvi quando passou por ela no corredor formado entre os bancos. A mulher assentiu, cada movimento rígido.
Ninguém a parabenizou por seu casamento enquanto ela andava com seu esposo para o salão de banquetes. Eles poderiam muito bem estar saindo de um funeral. Ubbe não tomou o braço dela, como seria esperado dele, enquanto andavam. Não importava, porém. Havia certo conforto na honestidade dele. Pelo menos Aethelflaed não precisava desvendar os motivos por trás de cada ato dele como fazia com o resto da corte.
Eles subiram até a mesa elevada no centro da sala, assentando-se com a família real, como convidados de honra. Ubbe teria que se acostumar àquilo; ele seria um lorde em breve. Ao lado dela, seu marido ainda estava tenso com raiva. Aethelflaed não sabia como se aproximar dele.
— O que aconteceu? — Ubbe questionou subitamente, arrancando-a de seu devaneio. Ele encarou as marcas em seu rosto e apertou os punhos.
Aethelflaed tentou sorrir. — Nada aconteceu, meu senhor. Estou perfeitamente bem, — ela respondeu, seu coração disparado no peito. Não admitiria o que acontecera na frente de todas as pessoas que estavam no salão. Eles sabiam que havia sido seu pai. Ninguém além dele poderia levantar a mão para ela naquele castelo e continuar vivo.
— Pare com isso, — Ubbe sibilou, irritado e impaciente. Ele pegou a mão dela e subiu a manga do vestido, expondo o bracelete, os pequenos cortes e as marcas dos dedos de Dustan em seu pulso. Ele xingou na língua dele. A voz de Ubbe soava mais grave quando ele falava daquele jeito, e isso enviou um arrepio desconfortável pelas costas de Aethelflaed. Era assim que Ubbe soava em batalha, quando ele estava enfurecido e matando seu povo. — Me diga a verdade.
Aethelflaed arrancou sua mão do aperto dele, com raiva também. Por que ele estava fazendo aquilo? Seu marido poderia ser tão cego? Ubbe não era estúpido, ele deveria entender. Eles estavam sentados à plenas vistas de todos, a família real e Dustan ao redor deles. Cada lorde que queria a cabeça de Ubbe e de Alfred tinha os olhos neles. Ele realmente esperava que ela expusesse sua vergonha para todos eles?
— A verdade não tem lugar aqui, Ubbe. Essa é uma conclusão à qual já chegou, — ela disse em voz baixa, e se virou para longe dele. Aethelflaed não aceitaria a raiva dele, não aqui. Ubbe teria que aprender a carregar sua fúria em silêncio, como ela fazia.
Aethelflaed se serviu de vinho e o tomou em grandes goles. Este era o banquete mais tedioso que ela já participara. Pelo menos em sua casa, um banquete era cheio de risada e cantoria e dança. Aqui, ela se sentava tensa e propriamente, sorrindo falsamente quando lordes e ladies se aproximavam dela, e interferindo de vez em quando para salvar as conversas constrangedoras que eles tentavam começar com seu marido.
— Se não quer fazer cada lorde de Wessex seu inimigo, meu senhor, eu sugiro que tente ser mais agradável, — Aethelflaed avisou, docemente, e Ubbe levantou as sobrancelhas. Ela mal comera o dia inteiro, e o vinho afrouxava sua língua perigosamente. Seu rosto estava quente.
— Eles já me veem como um inimigo. Não vou começar a lamber as botas deles agora, — Ubbe disparou de volta, irritado.
Aethelflaed estalou a língua em desaprovação. — Então deveria tentar mudar a opinião deles. Não é mais apenas a espada de Alfred. Você será um duque, depois da morte do meu pai, e seu filho depois de você. Impulsividade não ganhará nenhuma vantagem política. Bem-vindo ao jogo, Ubbe. Espero que goste.
Ubbe a encarou silenciosamente, pensando. — Gosta do jogo?
Aethelflaed olhou para o vinho enquanto o girava na taça, sua cabeça começando a ficar enevoada. Ela deveria parar de beber logo, a não ser que quisesse ficar bêbada em seu banquete de casamento. — Eu sei como jogá-lo, — respondeu, evasiva.
Ubbe sorriu secamente para ela. — Essa não foi a pergunta.
Ela gostava? Havia satisfação em vencê-lo, porém isso sempre vinha com um custo. Ninguém jamais perguntara a Aethelflaed se ela gostava das responsabilidades de seu título, nem mesmo ela.
— É o que é, — ela respondeu cuidadosamente. — É melhor do que ser uma plebeia, com certeza. A única coisa que poderia melhorar na minha vida seria ter nascido um homem.
— Se você fosse um homem, talvez já houvesse sido morta em batalha. Talvez eu tivesse te matado, — Ubbe meditou, a provocando.
Aethelflaed bebeu o resto de seu vinho e sorriu sarcasticamente para ele. — Vai me fazer sangrar hoje a noite de qualquer jeito, meu senhor.
Ubbe franziu o cenho, e ela se virou para o salão. As pessoas finalmente não os estavam encarando, entretidas pelo vinho, comida e fofoca, mas a atmosfera ainda era sombria. Apesar das lareiras no salão, Aethelflaed estremeceu. Ela encarou as velas com pregos que marcavam as horas: o banquete estava prestes a acabar. Ela não tinha mais tempo; seguiria Ubbe até seus aposentos, juntamente com as testemunhas, e ali ela cumpriria seu dever para com seu país e seu marido.
Aethelflaed rezou para que não doesse muito, e que sua língua afiada e o ressentimento óbvio de Ubbe sobre este casamento não o fizessem cruel. Ele prometera bondade, prometera que não a forçaria, mas isso não impedia seu estômago de se revirar ansiosamente.
Aethelflaed estendeu a taça para que a criada servisse mais vinho. Quando ela tentou beber, Ubbe segurou levemente sua mão. Ele deveria conseguir sentir que ela estava tremendo.
— Acho que você já bebeu o suficiente, — ele murmurou suavemente. Não era uma repreensão.
Por um segundo, Aethelflaed teve o impulso de jogar o vinho no rosto dele. Ela queria o doce anestesiar do álcool, apesar do perigo de ficar embriagada na frente da corte. Seria preferível, quando a hora de consumar seu casamento chegasse. Lentamente, ela abaixou sua taça. Uma parte dela, rebelde e petulante, queria desafiá-lo. Depois de tudo, deveria ser permitido a ela ao menos o alívio do vinho. Ao invés disso, Aethelflaed desviou o olhar dele e escutou seu marido suspirar pesadamente.
Ela encarou a vela que marcava as horas até que seus olhos arderam e lacrimejaram. Não faria mal que a corte a visse com os olhos cheios de lágrimas enquanto ia para a cama de um viking. O prego se soltou da cera derretida e bateu com um pequeno estalido no suporte metálico. Alfred se levantou e o coração dela disparou em seu peito novamente.
A hora chegara.
O rei limpou a garganta e ergueu sua taça de vinho. — Um brinde aos noivos, e à aliança que vem com o casamento dele, — Alfred disse simplesmente. Um murmúrio fraco de concordância se espalhou pelos convidados
Aethelflaed se forçou a sorrir e levantou a taça juntamente com os outros. Seus ombros estavam tensos e doloridos.
Alfred deveria anunciar que era hora dos noivos se retirarem, porém o menino os encarou com claro desconforto. Seu sorriso se tornou afiado. Que Alfred ao menos não fosse um covarde que fugiria de condená-la pessoalmente. Judith se levantou fluidamente de seu assento. Aethelflaed bufou. É claro que a mãe dele o resgataria.
— A hora já é avançada, meus senhores. Acredito que seja melhor que os noivos se retirem, — a rainha anunciou ao salão. O sorriso agradável dela era insultante.
Nos outros casamentos dos quais Aethelflaed participara, os homens começavam a rir, bater palmas e gritar encorajamentos nesta hora. No entanto, o silêncio que recaiu sobre eles era sepulcral. Ela respirou profundamente e levantou o queixo. O bispo e alguns outros convidados se levantaram e saíram, se encaminhando para os aposentos dela.
Ubbe trocou um olhar significativo com Alfred.
— Deve ir na frente, meu senhor, — Aethelflaed disse a Ubbe, sua voz tremendo. Ela forçou um sorriso no rosto. Suas mãos estavam suando. — Eu irei em seguida.
O rosto de Ubbe estava duro. Ele se levantou sem uma palavra para ela e partiu. Aethelflaed agarrou a taça de vinho abandonada e a bebeu em grandes goles, sua garganta queimando. Ela se recusava a olhar para Dustan. Sua mortificação seria demasiada grande para suportar se precisasse encarar seu pai.
Amice atravessou o salão, atraindo os olhares tensos dos convidados, e ignorou todo o protocolo ao se assentar no lugar vazio de Ubbe. Ela segurou a mão de Aethelflaed e apertou com força.
— Você vai ficar bem, — Amice afirmou ferozmente. — Ele vai ser gentil ou eu vou matá-lo.
Aethelflaed olhou rapidamente para a rainha ao lado delas. Judith a encarava com um misto de pena e diversão. Ela fincou as unhas na taça vazia.
— Não deixe que Edwina venha falar comigo. Se ela tentar me dar conselhos sobre minha noite de núpcias, eu vou atear fogo ao meu vestido. — Aethelflaed tentou brincar. Amice soltou uma risada nervosa e embargada.
— Acredite em mim, ela tem tão pouca vontade de participar dessa conversa quanto você, — Amice respondeu.
Judith se levantou graciosamente e tocou o alto das costas nuas de Aethelflaed. — Está na hora, Aethelflaed. — A rainha ao menos teve a decência de não sorrir.
As pernas da cadeira arrastaram ruidosamente no chão quando Aethelflaed se levantou, silenciando o murmurinho no salão. Enquanto ela caminhava, as mulheres do salão a olhavam com pena, os homens com indignação. Ela manteve seu queixo erguido. Quando entraram nos corredores, Amice agarrou a mão dela novamente.
— Não tenha medo, será mais fácil se não estiver apavorada. — Amice sussurrou para ela. — Talvez você até goste.
Aethelflaed sufocou uma risada histérica. Ela estaria com medo de sua noite de núpcias mesmo se fosse com um homem saxão. Ubbe era um guerreiro viking, todo poder, ferocidade e força. Ela respirou fundo, tentando se acalmar. Seu marido prometera bondade. Era à isso que ela se agarrava.
A porta de seu quarto se abriu com um ruído. Aethelflaed entrou, suas pernas moles, sem querer cooperar. O bispo estava benzendo a cama. Ela desviou o olhar rapidamente, um peso em seu peito dificultando a respiração.
Ubbe estava encostado à parede, os braços cruzados frente ao peito, parecendo irritado com tudo aquilo. Uma criada se aproximou dela com uma camisola, e Amice a tomou das mãos da menina. Sua amiga se postou protetoramente na frente dela. A porta se fechou após Judith entrar.
Aethelflaed respirou lentamente, tentando se acalmar, os olhos fixos no tecido branco imaculado da camisola. Ela nunca usara nada tão revelador próximo a um homem. Mas Ubbe era seu marido agora, ele tinha direitos sobre seu corpo, ao menos era isso que fora dito a ela por toda sua vida. Não parecia justo.
O rei olhou ao redor e deu um suspiro cansado antes de endireitar os ombros. — Meus senhores, acredito que seja melhor que os deixemos sozinhos. Ubbe pediu, e eu concedi.
O coração de Aethelflaed falhou uma batida. Ela se virou na direção de Alfred rapidamente, sem acreditar no que ouvia. Não podia deixá-la sozinha aqui. Não permitiriam isso a um marido saxão, tampouco deveriam fazê-lo com um viking.
— Meu filho, é tradição… — Judith começou docemente, mas Aethelflaed escutava a tensão na voz dela. Ela quase riu; era satisfatório ver a rainha não conseguir o que queria.
— A decisão já foi tomada. — Alfred entonou, autoritário. Ele não aceitaria questionamentos. Aquilo fora combinado antes, ela percebeu. Era a razão do olhar estranho que Ubbe enviara ao rei mais cedo.
Aethelflaed estava enjoada. Por que Ubbe a queria sozinha? Não poderia ser timidez. O povo dele não se acanhava quanto a sexo. Ele era um guerreiro, fizera coisas muito piores do que se deitar com alguém com outras pessoas no quarto. Ela agarrou as saias, amassando a renda delicada da camada de cima de seu vestido.
— Não pode fazer isso! — Amice protestou, insolente, olhando para Alfred como se pretendesse enforcá-lo com o tecido macio da camisola que ela ainda segurava. Aethelflaed agarrou o pulso dela e a puxou para trás. Não permitiria que Amice sofresse as consequências de seu medo. Os lordes se mexeram desconfortavelmente. Amice não era parte da nobreza, era uma mulher; ela jamais deveria levantar a voz daquele jeito para um rei.
— Se essa é a decisão que tomou, Majestade, — Aethelflaed falou, sua voz tremendo. Ela abaixou os olhos com resignação. Não podia desafiar Alfred abertamente na frente de outros lordes. Mas ela queria estapeá-lo, ah, como queria. Seria o paraíso, ver a pele pálida e imaculada do rei ficar vermelha e inchada depois de um tapa. Ela o odiava ardentemente naquele momento.
— Eu confio em sua sabedoria então, meu rei, — Judith cantarolou. Aethelflaed sentiu os olhos da rainha nela. — Enviarei criados para buscar os lençóis amanhã, então.
O estômago de Aethelflaed era uma pedra. Ela queria chorar novamente.
Um a um, as pessoas esvaziaram seu quarto. Ela não soltou Amice até o último segundo. — Vá, — ela murmurou baixinho. As mãos de Amice estavam tremendo, porém, ao contrário das suas, ela sabia que era de raiva. Precisava tirá-la dali antes que ela fizesse algo irreparável. Amice balançou a cabeça, a boca uma linha rígida, os olhos fixos ao dela com uma intensidade que a assustava. Aethelflaed a empurrou levemente em direção à porta. — Vá. — Ela encarou Amice até que a porta foi fechada. Aethelflaed passou os braços em volta do torso, se abraçando.
Ela virou as costas para Ubbe, sem querer encará-lo. O quarto estava bem iluminado, várias velas queimando. Seria impossível se esconder dos olhos de seu marido. Alguém deixara vinho, água, pão e queijo em uma mesinha. Aethelflaed obrigou suas pernas trêmulas a andarem até a mesa. Ela se serviu de vinho novamente. O medo apagara a névoa agradável que conseguira durante o banquete. Precisaria do vinho. Se Ubbe a queria sozinha, então não poderia pretender ser gentil.
— Se precisa ficar bêbada para estar na minha cama, então não precisa estar na minha cama, — Ubbe disse atrás dela. Aethelflaed não conseguiu detectar irritação na voz dele. Lentamente, ela se virou. Poderia reagir melhor se soubesse o que ele queria. Agora, mais do que nunca, tinha medo de ofendê-lo.
— A rainha vai querer os lençóis, — ela explicou, a voz apertada. Maldita seja a rainha e o filho dela. Ubbe levantou as sobrancelhas em questionamento. Aethelflaed piscou para ele, incrédula. — Ela quer ver o sangue nos lençóis como prova de que você me tomou, Ubbe. Não consumar um casamento é um dos jeitos mais rápidos de conseguir uma anulação.
Isso, e se casar com alguém de outra fé, mas Aethelflaed deixou isso de fora.
Ubbe franziu o cenho. — É sexo, não um banho de sangue. Talvez não haja sangue nos lençóis.
Aethelflaed endireitou os ombros, seu rosto queimando, indignada. — Nunca estive com um homem. Como ousa sugerir…
Ubbe balançou uma mão, calando-a. — Não estou questionando sua “honra”, minha senhora, — ele cuspiu a palavra com desprezo. — Estou dizendo que nem todas as mulheres sangram quando perdem a virgindade.
Aethelflaed ficou em silêncio, queimando com raiva ainda. Sangue e dor, era isto que a disseram para esperar toda sua vida. Não podia discutir com Ubbe, não saberia se ele dizia a verdade ou não.
Ubbe se aproximou dela, analisando seu rosto. Aethelflaed ficou tensa e engoliu em seco. Quando parou na frente dela, Ubbe simplesmente levantou uma sobrancelha e pegou a faca em cima da mesa. Aethelflaed se encolheu e quase derrubou a mesa. Se Ubbe a cortasse, ela gritaria, traria aquele castelo abaixo com seus gritos.
Quando ela abriu a boca para implorar por clemência, Ubbe bufou e balançou a cabeça, resignado. Aethelflaed não conseguiu relaxar seus músculos, mesmo quando seu marido se afastou e foi para a cama. Ele parecia estranho nas roupas de um nobre. Era como se tentassem passar um lobo por um cordeiro.
Ubbe empurrou as mangas de suas roupas até o cotovelo e passou a faca no antebraço sem hesitar ou estremecer com a dor. Sangue surgiu no ferimento superficial.
— O que está fazendo? — Aethelflaed perguntou em um sussurro, confusa, seus dedos pressionados com força na madeira da mesinha.
Ubbe espalhou o sangue no centro da cama, manchando os lençóis. Ele limpou a faca e pressionou a ferida com o pano úmido ao lado da bacia com água que ela e Amice usavam para lavar o rosto.
— Pronto, a rainha terá o sangue que ela quer, — Ubbe disse, sentando-se na beirada da cama. Ele suspirou, e o rosto dele suavizou. Ubbe parecia cansado. — Prometi a você que não seria cruel e não te forçaria, Aethelflaed, e eu vou cumprir essa promessa. Pode parar de tremer agora, está segura.
O alívio que a preencheu roubou o resto de suas forças. Aethelflaed soltou um arfar doloroso. Tremendo, ela se sentou em frente a lareira e fechou os olhos, simplesmente respirando. Era quase bom demais para acreditar; Ubbe estava lhe dando uma escolha. Ela poderia recusar, poderia simplesmente dormir hoje à noite, e seu marido mentiria por ela, a respeitaria. Ela poderia ter chorado de alívio.
As palavras de Judith voltaram à sua mente. Talvez Ubbe não a quisesse, talvez uma garota saxã como ela não tivesse apelo algum aos desejos dele. Aethelflaed era tão diferente de Torvi, macia onde a guerreira era rígida com músculo, submetendo-se onde ela enfrentava. Se recusasse Ubbe agora, poderia se colocar em risco. Aethelflaed precisava dormir com ele, porém saber que Ubbe manteria a promessa que fizera a ela retirava muito do peso em seu peito.
Ela engoliu em seco, procurando por coragem. — Somos casados, me tomar é seu direito e meu dever, — argumentou fracamente, encarando as chamas. Suas bochechas queimavam de vergonha.
Ubbe riu sem humor. — Eu acho que é um direito ser se recusar a foder alguém quando claramente não quer, — ele disparou. Aethelflaed se virou para ele, os olhos arregalados. Ninguém jamais usara aquela palavra perto dela, apesar de a escutar dos criados quando não sabiam que estava por perto. Ubbe sorriu, desconcertante. — Deuses, você cora só de ouvir um palavrão. Parece que vai se jogar no fogo para escapar de mim.
Aethelflaed bufou uma risada. — Certamente arruinaria os planos da rainha.
— Você não gosta dela, — Ubbe afirmou. Ele não se moveu de seu lugar na cama, não tentou fechar a distância entre ele e Aethelflaed, e isso a fez se sentir melhor. Poderia chegar até ele quando tivesse um pouco mais de coragem.
Aethelflaed pressionou os lábios. — Ela é a rainha, — disse.
— Não a impede de ser uma vaca, — Ubbe falou, displicente. Aethelflaed sorriu. — Se não quiser que saibam quais são as pessoas que você quer matar, é melhor dizer a sua amiga para não encará-los como se ela fosse a escolhida para fazer a matança. A raiva de Amice é óbvia.
— Ela pode escondê-la quando quer. Ela não é nobre, menos é esperado dela. — Aethelflaed justificou.
Ubbe encarou brevemente a mancha de sangue nos lençóis. Aethelflaed enrijeceu a espera de algum comentário.
— Quem escolheu esse vestido para você? — Ubbe perguntou, no entanto.
Aethelflaed passou as mãos pelo tecido caro, sentindo sua maciez. Seu tremor diminuira. — A rainha o escolheu. Estavam tentando me deixar mais atraente para você, — ela respondeu, tentando descobrir a opinião dele.
Ubbe desceu os olhos demoradamente por ela. Aethelflaed se impediu de se mexer desconfortavelmente com o escrutínio. Deixe-o olhar, pensou. Ao menos ele me deu opção quanto ao toque.
— Você está linda, — Ubbe disse. Não parecia um elogio, apenas a constatação de um fato. — Mas não parece uma saxã.
Aethelflaed brincou com o colar em seu peito e depois cutucou o bracelete de folhas. Ela estremeceu quando o ouro pressionou as feridas novamente. — Presumo que essa fosse a ideia, meu senhor. Sinto muito se foi uma ofensa.
Ubbe a estudou por um momento. — Se eu for até aí olhar seus machucados, vai ficar assustada de novo? — Ele disse, neutro. Aethelflaed o encarou. Ubbe permaneceu impassível, esperando por sua resposta. Ela negou com a cabeça, e seu marido se levantou da cama e se aproximou dela.
Ubbe se agachou na frente dela e puxou seu braço. Ele retirou o bracelete e analisou os machucados em seu pulso. O toque dele era quente e gentil. Aethelflaed tentou se acostumar a ideia de tê-lo a tocando. Ubbe abandonou seu pulso para tomar seu rosto entre as mãos. Por um segundo, ela achou que ele a beijaria. Sua respiração falhou. Ubbe era um homem bonito, ela percebeu. Ele mantivera a promessa. Poderia ser pior.
— O que me ofendeu, — Ubbe começou lentamente, suas palavras tensas com raiva — foi Dustan bater na minha noiva e depois a arrastar para a igreja chorando e vestida de um jeito que eu sei que você não escolheria.
— Eu não estava chorando mais quando entrei na igreja, — Aethelflaed comentou, sem negar as afirmações de Ubbe. O rosto de seu marido endureceu e ficou sombrio. Aethelflaed segurou a mão dele contra seu rosto, tentando acalmá-lo. Ela podia sentir as cicatrizes nas costas das mãos de Ubbe. — Ele é meu pai, pode fazer o que quiser comigo.
Era a verdade. Ninguém julgaria Dustan por puni-la quando achasse necessário.
Os lábios de Ubbe se repuxaram com um esgar. — Ele não pode machucar você. Não mais.
Aethelflaed sorriu condescendentemente. Hoje ela passara do domínio de seu pai para o domínio de seu marido, porém dadas as circunstâncias, ela duvidava que alguém questionaria Dustan se continuasse a discipliná-la.
— Não, — Ubbe rosnou a palavra quando percebeu sua expressão, as mãos dele em seu rosto se apertando levemente. — Se Dustan colocar as mãos em você novamente, haverão consequências.
Aethelflaed arfou. Havia algo na promessa de proteção feroz de Ubbe que a fazia esquentar por dentro, seu desejo de acreditar nele e parar de temer e se exaurir tentando proteger-se sozinha.
— A culpa foi minha, eu falei fora de hora. — Aethelflaed justificou, abaixando os olhos. Não precisava de uma animosidade entre seu marido e seu pai, não precisava de mais uma coisa que precisaria dissecar e se desdobrar para remediar.
Ubbe arrastou delicadamente os dedos pelas marcas em seu rosto. Deveriam estar roxas agora. O toque enviou um arrepio por seu corpo. Era bom conversar com Ubbe, mesmo que estivesse medindo suas palavras.
— Isso não dá a ele o direito de te machucar. E daí se o desrespeitou enquanto chorava no dia do seu casamento com alguém como eu? Dustan deveria ao menos entender a situação na qual te colocou.
Aethelflaed suprimiu um sorriso cansado e agressivo. Não acreditava que Ubbe entendesse a situação na qual ela estava. E seu desrespeito não fora apenas para com seu pai; talvez isso Dustan fosse capaz de relevar. Mas não um desrespeito à memória de sua mãe. Aethelflaed não podia realmente se ressentir dele por isso, apesar de indignação ainda a encher quando pensava em sua sofrida caminhada até o altar. No entanto, ela não tinha vontade alguma de explicar isso a Ubbe.
— Não dá? Me diga, meu senhor, não vai me punir se eu desrespeitar você? —Aethelflaed provocou, avaliando a reação dele.
Ubbe suspirou. Ela pôde sentir em seu rosto. — Não, — ele murmurou, suavemente. — Está casada comigo. É punição o bastante.
Ubbe se levantou e foi até a mesa com o vinho. Aethelflaed encarou as costas dele, surpresa. Mesmo perto do fogo, sentia falta do calor de seu marido. Ela nunca estivera tão intimamente perto de um homem antes.
Ubbe não parecia irritado; não parecia irritado com seu medo, ou sua relutância em acreditar nele, ou sua hesitação em compartilhar a cama com ele. Seu marido parecia apreciar suas provocações, e querer sua honestidade ao invés do conforto que ela poderia proporcionar se moldasse suas ações aos gostos de Ubbe.
Aethelflaed se levantou, engolindo seu nervosismo. Seu marido não fora nada além de paciente e gentil desde que se conheceram, e ela precisava gerar um filho. Se Ubbe morresse sem descendentes, ela precisaria se casar de novo, e dificilmente alguém seria tão bondoso quanto Ubbe com ela se fosse a viúva de um viking.
Não seria tão ruim assim, disse a si mesma, poderia fazer aquilo. Aethelflaed respirou profundamente, aproximando-se de seu marido. Precisaria iniciar as coisas entre eles; seu medo e hesitação o desencorajavam, e Ubbe sempre poderia procurar satisfação com Torvi. A amante dele era destemida e ousada e experiente. Aethelflaed poderia se forçar a ser os dois primeiros, mesmo que não houvesse nada a ser feito sobre o último.
Ubbe não se moveu quando ela parou atrás dele, nem ao menos ficou tenso. Aethelflaed tocou o ombro firme, deslizando timidamente a mão pelas costas musculosas.
— Não é uma punição, — ela murmurou, imprimindo toda a certeza que conseguia a sua voz, — ser casada com você, Ubbe.
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