Hardest of Hearts
19 The Politics & The Life
Notas iniciais
“1. Pessoas que não sabem do que falam te dirão que parece um soco na mandíbula, uma porta trancada dentro de uma casa fria, uma faca na coluna, os dentes da lâmina separando sua pele, sua alma, mas elas não conhecem a verdade, e elas não podem tirar isso de você, não importa o quanto tentem.
2. É assim que se parece; como cobertores e chocolate quente depois de correr para casa na chuva, como o canto de um pássaro no meio da noite, como risada escapando de sua boca, como se esquecer de todo o sofrimento em seus ossos, e elas nunca podem tirar isso de você, não importa o quanto tentem.
3. Ah, quão belo você é. Quão incendiário e cheio de luz. Você sempre será reluzente assim.
— Orgulho, para os famintos e ninguém mais.
Ubbe observou o mapa talentosamente pintado na mesa da sala de guerra de castelo, gentilmente tocando os pequenos barcos de madeira que marcavam quais rios que atravessavam a ilha da Inglaterra já haviam sido usados antes pelo vikings, os pequenos dragões na proa de uma semelhança assustadora. Se ele fechasse os olhos agora, poderia sentir o gosto do sal da maresia e o balançar da água sob seus pés.
Em tinta vermelha, Alfred marcara quais outros rios também poderiam ser usados, pelos cálculos dele, e em terra firme, os locais de batalhas frequentes e os assentamentos de nórdicos também estavam demarcados. Mesmo o caminho que Ragnar fizera uma vez, levando os barcos pela terra firme através de uma floresta, também estava demarcado. Outras florestas inabitadas entre dois rios viáveis também estavam destacadas, cada rota que a próxima invasão poderia usar estava ali, cuidadosamente desenhada.
Ubbe suprimiu um sorriso. Alfred estava se preparando bem.
O cheiro de papel e tinta preenchia o ar, e ao redor deles haviam prateleiras repletas de livros e papiros. Recontagens de batalhas e das estratégias que as venceram e as perderam, tanto na Inglaterra como em outros reinos e impérios, informações sobre a geografia da Grã-Bretanha, sobre rios e estações, pessoas e suas culturas.
Um tesouro que Ecbert deixara como herança e que o neto dele sabia como aproveitar.
Em uma outra mesa próxima, vários livros preenchiam a superfície, alguns abertos, outros com marcadores de seda marcando alguma página, papéis com anotações empilhados em alguma ordem que apenas Alfred sabia.
O rei podia não ser um guerreiro tão natural quanto o irmão, mas ele certamente era muito mais inteligente.
— A próxima invasão não será até o final da primavera, — Ubbe disse, quase distraidamente. Atrás dele, Alfred murmurou um som de concordância, o barulho do menino procurando algum outro livro um som já familiar. — Está tarde demais no outono agora, precisarão de todos para terminar as preparações para o inverno. Além disso, se os barcos partissem da Noruega agora, ficariam presos nas tempestades de inverno. Ninguém irá arriscar. E depois do inverno, os fazendeiros precisarão semear. Não há como levar guerra a outro país e deixar os velhos e as crianças morrerem de fome.
— Eu sei, mas quero estar preparado. Quando a luta chegar, estaremos prontos. — Alfred veio ao lado oposto da mesa e pegou um dos barcos com os dedos esguios, observando-o com curiosidade. — O que você acha dos nossos exércitos, Ubbe? Sua opinião honesta, por favor.
Ubbe bufou uma risada seca. — Eu não mentiria sobre o estado dos exércitos para massagear seu ego, senhor rei. Esse é o trabalho dos seus cortesões. E sou eu quem vai liderá-los, afinal. Não tenho nenhum interesse em marchar um bando de maltrapidos para a batalha. — Ele cruzou os braços, encarando o rosto liso de Alfred. — Sua infantaria é boa, e a cavalaria uma vantagem enorme em relação aos vikings. Muitos dos seus nobres são guerreiros poderosos, pelo menos aqueles que não preferem se esconder atrás de suas tropas. Seu exército regular não é o problema.
— E qual seria o problema? — Alfred pressionou.
Ubbe deu de ombros. — O povo. Os plebeus. Eles compõem grande parte do exército quando as batalhas são grandes. Fazendeiros e artesãos, a maioria sem treinamento e sem armas apropriadas, e sem uma escolha que não seja lutar pelos suseranos ou serem executados por deserção. Jamais confiaria em um homem assim lutando ao meu lado. Pense no que está enfrentando, meu senhor. Cada um dos vikings que chegam a essas terras vieram por vontade própria. Eles vem por glória, por ouro, para morrer em batalha e alcançar Valhalla. Não há fazendeiros débeis em nosso meio, nenhum garoto inexperiente mijando nas calças de medo.
Alfred suspirou pesadamente. — Eu imaginei.
— Se os números que chegarem no próximo verão não forem grandes e seu exército regular for o bastante, não deveremos ter grandes problemas.
— Mas se eu quiser expulsar os invasores que já se instalaram aqui e impedir o próximo ataque, vou precisar de mais do que apenas cavaleiros e soldados de carreira. — Alfred interrompeu. — E duvido que o próximo ataque seja pequeno, não com vocês tendo se aliado aos ingleses. Então, o que devemos fazer? — Alfred perguntou, a expressão impassível fazendo Ubbe sentir que respondia algo apenas para entretê-lo enquanto o menino já havia formado a própria opinião.
— Vai precisar treinar melhor suas tropas, familiarizá-las com a maneira de lutar dos vikings.
Alfred levantou as sobrancelhas para ele. — Acho que somos familiarizados o bastante com a maneira de vocês de lutarem, — disse ironicamente.
Ubbe revirou os olhos e o ignorou. — Seus plebeus precisam de armas melhores. O aço saxão é melhor do que o nosso, é um desperdício que muitos do seu exército não tenham acesso a ele.
— Posso fazer isso pelo meu próprio exército, — Alfred comentou — Posso ordenar que comandantes viagem até as maiores cidades e treinem os plebeus em idade de lutar, quando eles estiverem livres; posso distribuir armas melhores aos meus próprios homens, mas não posso forçar os outros lordes a fazerem o mesmo. Eles são senhores de suas próprias terras e mestres de seus vassalos. Não posso forçá-los a gastar em boas armas que poderão ser desperdiçadas, ou arriscar prejudicar as colheitas porque os homens estão treinando.
— Achei que os comandasse, — Ubbe disparou.
Alfred sorriu amargamente para ele. — Se os comandasse da maneira que pensa que os comando, não estaríamos discutindo com o Wittan quase que diariamente.
Ubbe praguejou. As reuniões com o Conselho de Alfred e com o Wittan o faziam querer se atirar pelas janelas estreitas do castelo. Horas desperdiçadas em bajulações desnecessárias e gentilezas falsas, cada reforma que o rei gostaria de fazer sendo encarada com resistência por metade dos lordes. Era bom que Ubbe não pudesse carregar suas armas para essas reuniões, pois com certeza já teria decapitado algum dos nobres irritantes e gananciosos apenas para que calassem a boca. Esperava que Bjorn não acabasse por perder a paciência algum dia e simplesmente quebrar o pescoço de um deles.
Não que Ubbe fosse moralmente oposto, mas a bagunça que se seguiria seria maior do que a satisfação.
— Não posso fazer muita coisa se não conseguir colocar os outros suseranos sob controle — Ubbe reclamou.
Ao menos com os nórdicos, os conflitos internos eram colocados de lado enquanto atacavam um inimigo em comum. Aqui, Ubbe teria sorte se nenhum de seus aliados o esfaqueasse pelas costas.
Alfred esfregou o rosto, cansado. — Me dê algum tempo. As coisas com o Wittan vão se acalmar.
Ubbe ergueu as sobrancelhas ironicamente. Não era isso que ele via.
Apesar dos rumores indignados sobre seu casamento e o que os saxões achavam que ele havia feito com Aethelflaed haverem diminuído nas duas semanas após a chegada de Princesa Elsewith, os nobres não pareciam muito mais inclinados a acatarem as decisões de Alfred do que antes. Aethelflaed certamente não parecia mais tranquila em relação à situação.
Eles passavam a maior parte do dia ocupados demais para se verem. Ubbe tinha suas responsabilidades preparando os exércitos para as próximas batalhas, tomando nota de seus estados e das mudanças que deveriam ser feitas, estudando o terreno para escolher um campo de batalha favorável. E ele precisava acompanhar Alfred e o resto dos nobres nas reuniões intermináveis e entediantes, porque ele era casado com uma nobre agora, e seria senhor de um território enorme assim que seu sogro finalmente morresse, e Ubbe queria gritar de frustração sempre que pensava que logo teria que obrigar seus próprios lordes vassalos a obedecê-lo.
Não imaginava que as coisas fossem muito melhores para Aethelflaed, apesar de sua esposa ser difícil de ler.
Ele a via, às vezes, enquanto andava de um compromisso para outro no castelo, conversando com alguns dos nobres mais recalcitrantes contra Alfred, sempre em lugares públicos e bem frequentados, as damas de companhia por perto, e Ubbe não tinha certeza se isso se dava para repelir qualquer rumor de conspiração ou se Aethelflaed simplesmente não podia ficar sozinha com um homem que não fosse família.
Na maior parte do tempo, no entanto, ela estava ocupada com Princesa Elsewith. Alfred iria se casar em dois dias, e as nobres que estavam no castelo pareciam empolgadas com o casamento do rei, o castelo um burburinho de atividade enquanto os servos preparavam os cômodos e matavam animais para o banquete.
Quando eles estavam sozinhos à noite, Aethelflaed nunca falava das festividades que se seguiriam, nunca parecia animada para elas como as outras jovens nobres que Ubbe podia ver andando apressadamente pelos corredores do castelo com Elsewith. Não, Aethelflaed falava apenas sobre os olhos atentos de Judith e das outras nobres, sobre as alianças que a princesa poderia trazer a Wessex, e como a família de Elsewith poderia ajudar a solidificar o direito de Alfred ao trono.
Uma mente prática.
Sua esposa, Ubbe percebera rapidamente, ansiava por conhecimento mais do que qualquer coisa.
Aethelflaed aprendia rápido e era perseverante, e ouvi-la pedir para aprender noroeguês para falar com os filhos deles fez a mente de Ubbe girar. Ele queria filhos, os queria há anos, e tê-la falando abertamente sobre isso, ter a certeza de que Aethelflaed não tentaria transformá-los apenas em saxões, o enchia de alívio.
Ela se confundira com o alfabeto diferente nos primeiros dias, porém o brilho determinado no olhar dela era adorável. Aethelflaed já havia memorizado as letras diferentes agora, e apesar do vocabulário dela ser curto, dificultado ainda mais pelo pouco de tempo que tinham juntos para que Ubbe a ensinasse, as sílabas rolavam da língua dela com facilidade surpreendente depois das primeiras tentativas, mesmo que Aethelflaed tivesse que pronunciá-las mais devagar.
Ubbe não estava esperando quando Torvi disse a ele que Aethelflaed pedira ajuda a ela, o sorriso entretido no rosto da guerreira enquanto contava como sua esposa se juntara aos filhos de Bjorn e rira enquanto eles se divertiam com o sotaque dela até que finalmente conseguia dizer as palavras com clareza.
“As crianças gostam dela”, Torvi dissera, um sorriso suave nos lábios, e porque eles não gostariam?
Aethelflaed era fácil de se gostar.
Ubbe havia decido acompanhá-la nos jantares formais depois da primeira vez que Aethelflaed pedira, hesitante e preparada para que ele recusasse. Ajudava com a visão dos saxões sobre o casamento deles, e apesar de não se importar com a opinião deles, o peso das expectativas de Judith era óbvio em Aethelflaed, e Ubbe gostaria de poupá-la da tensão que a rainha trazia. Ele sabia que Aethelflaed não pediria por sua companhia novamente tão cedo, caso decidisse abandonar as noites com a corte. Ela era sempre cuidadosa demais no que pedia dele, desnecessariamente respeitosa.
Era estranho ter uma esposa que o chamava de “senhor” quando estavam em público, que parecia tão hesitante em desagradá-lo. Fazia com que Ubbe quisesse confortá-la, ser gentil. Uma garota brilhante que se importava com o povo dele, que tentava entender seus costumes e respeitá-los, que se esforçava para cuidar de sua família.
Não havia sido esse o sonho de Ragnar no início, que os vikings pudessem conviver pacificamente com os saxões na Inglaterra, sem ter que lutar entre si próprios por cada pedaço de terra gelada na qual viviam?
Não era um sacrifício estar na companhia de Aethelflaed. As conversas deles não eram tediosas, não depois que Aethelflaed perdera o medo de ofendê-lo e sofrer as consequências a cada palavra. Ela era tão curiosa quanto o próprio Ubbe, interessada no que ele tinha a dizer. E era bom falar de seus deuses e monstros, de seu país, para alguém que não fosse família, que não estivesse cheio de saudade e mágoa também.
E Aethelflaed tinha tanto a ensiná-lo, e Ubbe escutava com atenção enquanto ela contava a história da Bretanha. Não a história recente que ele conhecia, dos cristãos, mas a que veio antes dela. De como os saxões que agora eram senhores da Inglaterra invadiram a ilha da mesma forma que os vikings faziam agora, como eles batalharam e chacinaram os bretões que viviam aqui até que se tornassem reis, como eles trouxeram novos deuses cujos nomes só era ditos agora em segredo.
E outras histórias ainda mais antigas, também. Dos grandes romanos que marcharam e destruíram as florestas sagradas dos druidas bretões, das cidades modernas que construíram na Inglaterra antes que o império caísse, de aquedutos e pontes de pedra e um domínio que se estendia por uma extensão tão grande que a mente de Ubbe mal conseguia compreender.
Ubbe não podia deixar de ser fascinado pelas histórias que sua esposa contava. Curiosidade estava no sangue dele, como estivera no sangue de Ragnar.
— Eu tenho a sensação de que, apesar de não existir escravidão na Inglaterra, os nossos cidadãos não são tão livres como as pessoas livres da sua terra, Ubbe, — Alfred disse, retirando-o de seus devaneios.
Ubbe pendeu a cabeça, instigado. — É mesmo?
Alfred assentiu. — Seu pai era fazendeiro, não era? Antes de se tornar rei? Me lembro do meu avô dizer algo do tipo.
Ubbe endireitou os ombros, encarando o menino com desconfiança. — Sim.
— Como isso funciona, para vocês? Como um homem comum se torna realeza? — Alfred continuou a questionar.
Ubbe deu de ombros. — Ragnar desafiou o conde de Kattegat para um combate. Os deuses decidiram que ele venceria, e ele se tornou conde. — Ubbe sorriu cruelmente. — E depois matou todos os que se opuseram e ele até se tornar rei.
Alfred assentiu lentamente, nem um pouco afetado pela violência que acompanhara a subida de Ragnar ao trono.
— Não acho que alguma lei como essa já tenha existido na Inglaterra, nem quando ainda era chamada de Bretanha e dividida em diversos reinos. Se algum plebeu ameaçasse a vida de um nobre, principalmente de um rei, seria enforcado.
— É um jeito mais covarde de governar, — Ubbe provocou.
Os olhos de Alfred buscaram os seus, frios e impassíveis. — Talvez. Mas o tempo em que um homem comum poderia juntar um exército, conquistar um território e se declarar rei passou há muito para nós saxões. Jamais teríamos conseguido nos organizar em apenas quatro territórios se disputas por poder pudessem nascer tão facilmente. — Alfred suspirou pesadamente. — Porém suponho que a sua maneira seja mais justa com o povo. Há muito pouco que um plebeu possa fazer contra um senhor tirano aqui. Me diga, Ubbe, a terra do seu pai, ela pertencia a ele ou ao conde de Kattegat?
Ubbe franziu o cenho, começando a se irritar com a reticência de Alfred. — Era dele, obviamente.
Alfred pressionou os lábios em uma linha fina. — Não aqui. As terras na Inglaterra pertencem à nobreza ou à Igreja. O povo pode usá-la, pode plantar e ganhar seu sustento, porém cada fazendeiro sabe que a terra na qual está pertence ao suserano dele, sabe que pode ser retirado de lá, sabe que tem de lutar caso isso seja exigido. Existem algumas leis gerais que são impostas a todos os meus lordes, mas o funcionamento de um feudo e o que acontece dentro dele está, em sua maioria, além dos meus poderes. Se eu interferir demais, os lordes se sentirão ofendidos, se oporão ainda mais ao meu reinado. Eu gostaria, Ubbe, realmente, de forçar cada um deles a obedecer, a tratar seus vassalos com respeito, a dar treinamento e armas adequados a eles, gostaria que a Igreja não fosse tão rígida, gostaria que as mulheres inglesas não fossem tratadas tão cruelmente. — Alfred sorriu amargamente, uma expressão rara no rosto do menino. — Mas há muitas coisas que eu quero que não posso ter.
Ubbe encarou o garoto por um longo tempo. Alfred fora arrancado subitamente da meninice para ser rei. Era fácil esquecer disso, com o quanto ele era hábil em assuntos de estado, esquecer que o reinado dele ainda era instável e incerto.
— Nós faremos dar certo, esse exército. O Wittan vai ser obrigado a se curvar. Seu casamento deve ajudar com a animosidade entre as facções no Conselho, — Ubbe assegurou.
Tinha que funcionar, ou então a cabeça de Ubbe, e pior, dos filhos de Torvi, rolaria.
Alfred inclinou a cabeça para o lado curiosamente. — Acha mesmo que meu casamento fará isso?
Ubbe nunca comentara sobre o casamento iminente de Alfred, nem ao menos se incomodara em oferecer congratulações.
Ele deu de ombros. — Aethelflaed diz que sim. Ela conhece essa corte muito bem.
A sombra de um sorriso cruzou o rosto de Alfred. — Realmente, ela conhece. Tenho certeza que ela também te disse que as coisas com o Wittan seriam mais fáceis se você e Bjorn cooperassem com os outros lordes.
Ubbe fez uma carranca e fechou as mãos em punhos. — Eles falam em círculos e desperdiçam tempo precioso. Se quer alguém que os bajule e tente convencê-los gentilmente da estupidez de suas ideias, posso pedir a minha esposa que participe do Wittan no meu lugar.
Alfred arremessou o barco ainda em mãos para cima distraidamente, claramente entretido com a irritação de Ubbe. — Tenho a sensação de que eles se sentiriam mais ofendidos com uma mulher no nosso meio do que com as grosserias ocasionais dos filhos de Ragnar.
Ubbe praguejou em sua própria língua, estranhamente ofendido pela piada. — Você percebe que desperdiça a metade dos seus números ao não permitir que mulheres participem do esforço de guerra, não? Isso nunca ocorreu a nenhum dos seus lordes de ego frágil? Ou eles preferem discutir em qual língua as missas de vocês são ditas?
— Certamente jamais ocorreu a eles mandarem voluntariamente suas filhas para serem violentadas e mortas em um campo de batalha como os vikings já vem fazendo há anos, — Alfred disparou de volta afiadamente.
Ubbe expôs os dentes em um esgar raivoso.
— Eles também acham que nenhuma das filhas deles tem uma opinião relevante sobre o governo de Wessex? É por isso que um estrangeiro olhado com desconfiança tem um assento no Wittan enquanto herdeiras são ignoradas? Já ocorreu a algum dos seus lordes que as mulheres deles poderiam gostar de ter uma voz sem temer que alguém arranque a língua da boca deles por isso?
A voz de Ubbe caíra para um rosnado baixo e perigoso. Ele não percebera o quão rapidamente havia se enfurecido até que seus punhos tremessem com a vontade de socar alguma coisa.
Ubbe conhecera muitas mulheres diferentes em sua vida. Guerreiras que lutaram ao lado dele destemidamente, fazendeiras que trabalhavam a terra e comandavam suas casas, artesãs que possuíam suas próprias lojas, várias mulheres que haviam escolhido o divórcio, que seguiram seus corações onde estes as levassem. Sua própria mãe governara Kattegat sem disputa por anos até que Lagertha se vingara, mesmo com filhos adultos que poderiam tentar exigir o trono.
As únicas mulheres que ele conhecera que tinham tão pouca escolha quanto as cristãs eram escravas.
Alfred ficou em silêncio estupefato por um longo tempo. Ele encarava Ubbe com incredulidade.
— Você realmente odeia Dustan, não é? Ubbe, ele não é um lorde cruel, é muito mais justo com os servos do que qualquer outro dos meus aliados. Ele não é um pai ruim também. O que aconteceu entre ele e Lady Aethelflaed não foi tão sério e —
— Posso decidir por mim mesmo quão sério é quando alguém machuca e humilha a minha mulher, senhor rei, — Ubbe interrompeu friamente.
A boca de Alfred fechou com um clique de dentes rangendo.
Ubbe abriu os dedos e pressionou as palmas das mãos contra a madeira fria da mesa.
— Já fazem quase três semanas desde o seu casamento. O que ainda te incomoda tanto? — Alfred perguntou suavemente.
O que o incomodava tanto?
Talvez fosse a indiferença com a qual Dustan tratava Aethelflaed quando eles se encontravam nos jantares, talvez fosse como ela não conseguia se impedir de enrijecer todas as vezes que ele adentrava o recinto, talvez fosse o ressentimento que podia escutar na voz da pequena Mina quando ela falava do duque.
Talvez fossem todos os dias que Ubbe passava a lado do homem no Conselho de Alfred, assistindo a mente brilhante e a língua ferina dele trabalharem, a ganância e ardis de seu sogro infinitos, e Ubbe podia apenas se perguntar o que Dustan seria capaz de fazer a Aethelflaed se significasse alcançar os objetivos dele.
Talvez fosse a impotência de saber que Dustan não era alguém que ele poderia derrotar, que ele segurava mais poder do que Alfred sobre ele naquele momento.
Ubbe não sabia qual dessas coisas o incomodava mais. Ubbe sabia apenas que Aethelflaed não falaria sobre o pai, e que ela estava magoada, e que, apesar de tudo, Ubbe começava a admirar ao menos a capacidade de Dustan, e isso o fazia ferver de raiva ainda mais.
Ele sabia que Alfred era a melhor chance que a Inglaterra tinha contra os vikings, que as objeções da nobreza eram baseadas em hipocrisia e orgulho, e que sua paciência estava acabando.
Porém Alfred não precisava de saber de nenhuma dessas coisas.
— Perdão, meu senhor, é uma coisa dos cristãos. Eu acredito em retribuição, e isso foi negado a mim. Por que não deveria guardar rancor? — Ubbe respondeu grosseiramente.
— O rancor não deveria ser de Aethelflaed, então? Ela parece ter perdoado o pai.
— Uma ofensa contra a sua esposa não será uma ofensa contra você, senhor rei? Eu estava sob a impressão que o casamento dos cristãos significa que dois se tornam um. — Ubbe se inclinou sobre a mesa, os músculos de seus ombros e costas tensos. — Eu não gosto de Dustan, ou de qualquer um dos seus nobres, ou das decisões que eles tomam.
Alfred depositou a miniatura do barco de volta no mapa com cuidado exagerado. Ele entrelaçou os dedos atrás das costas.
— Por favor, não traga a Princesa Elsewith para o meio dessa discussão desnecessária, — Alfred disse, a voz perigosamente macia. Ubbe não recuou. Alfred suspirou e esfregou uma sobrancelha escura com o polegar. — Vai ter que aprender a trabalhar pacificamente com os nobres em algum momento, Ubbe. Terá um pequeno exército deles para comandar quando se tornar duque.
Ubbe sorriu afiadamente. — Como foi que você disse antes? “Senhor das próprias terras e mestre de seus vassalos”? Tenho certeza que vou descobrir uma maneira. Além disso, se os seus lordes vassalos não concordarem sobre algo logo, vou passar muitos anos ainda lutando as suas guerras incessantemente. Pode ser que minha esposa tenha que comandar os lordes dela, no final das contas.
— Ubbe, — Alfred reprimiu firmemente, como se Ubbe fosse uma criança, como se ele não fosse muito mais forte do que o menino. — Eu estou sendo honesto com você. Suas idéias são boas, idéias que o povo gostaria. Eles apenas precisam superar o passado antes. Ajudaria se não fosse tão confrontante.
— Não vou me humilhar para os seus lordes, Alfred. Se eles têm um problema com isso, podem engasgar no próprio orgulho.
Ubbe era filho de Ragnar Lothbrok. Ele não se curvaria.
Alfred se jogou em uma cadeira, resignado.
— Então reze para que Lady Aethelflaed esteja certa e meu casamento ajude a acalmar os ânimos, Ubbe. Porque, quando o verão chegar, não posso lidar com um golpe de estado e uma invasão ao mesmo tempo.

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