Hardest of Hearts
20 By the lies handed down by your truth
Notas iniciais
Porém um monstro, ela sempre terá um lugar. Ela poderá ter toda a glória que seus dentes consigam arrancar. Ela não será amada por isso, mas também não será presa.
— Circe, Madeline Miller
Aethelflaed encarou o rosto sorridente da Princesa Elsewith enquanto a costureira terminava os ajustes no vestido de noiva dela. A luz rala da tarde nublada entrava preguiçosamente pelas janelas dos aposentos da princesa e a conversa animada das outras nobres era um ruído no qual ela nunca conseguia deixar de prestar atenção.
O vestido era lindo, de um bege claro com flores e folhas bordadas em dourado que reluzia na luz, o tecido grosso e macio; o final das mangas era largo e bordado com madrepérola. Um véu do mesmo tecido obscurecia o cabelo da princesa e caía pelas costas dela até se esparramar no chão, a bainha também ricamente decorada com madrepérola, e uma tiara simples segurava o véu no cabelo escuro e sedoso de Elsewith. Um colar delicado de ouro e pérolas adornava o pescoço esguio da princesa, um pequeno pingente de cruz descansando entre as clavículas proeminentes.
Elsewith estava linda em sua simplicidade e modéstia. Apropriada. Discreta. Ela era tudo que havia sido negado a Aethelflaed.
Aethelflaed balançou gentilmente o chá dentro da xícara em suas mãos, o vapor fazendo bonitas linhas no ar gelado. Ela sorriu quando os olhos de Elsewith se encontraram com os seus, brilhantes de felicidade.
Aethelflaed estava tão furiosa que seu peito doía com isso, seu pescoço quente.
Ela não soubera que ficaria com tanta raiva até sentar aqui, rodeada pelas nobres de maior posição presentes no castelo, encarando tudo o que deveria ter tido no dia de seu casamento.
Jamais tivera noções excessivamente românticas sobre sua cerimônia de casamento. Aethelflaed desejara um bom banquete para seus convidados, risadas e música. O respeito e elegância que eram exigidos de uma nobre de sua posição. Uma boa lembrança, algo que não seria motivo de vergonha.
Ao invés disso, ela fora humilhada e machucada, e cada passo havia sido marcado pelos olhares piedosos e cheios de ressentimento de seus conterrâneos.
— Você está absolutamente maravilhosa, Vossa Alteza, — Aethelflaed elogiou quando Elsewith olhou para ela novamente, algo comum nas últimas duas semanas.
A princesa estava sorrindo tanto que Aethelflaed não poderia se ressentir dela, mesmo em meio a sua raiva. Não era culpa de Elsewith que ela houvesse sido vestida como uma pagã e exposta aos olhos de todos. A culpada se sentava próximo a elas, os olhos azuis vítreos atentos a cada movimento de Aethelflaed em vez de prestarem atenção à garota que seria esposa do filho dela.
Elsewith corou graciosamente. — Tenho certeza que de você estava muito mais linda em seu casamento, Lady Aethelflaed, — ela disse, honestamente.
Elsewith parecia fazer tudo honestamente. Aethelflaed torcia para que isso não destruísse a garota, que não a colocasse em muita confusão. Ela torcia para que Alfred fosse um bom marido, para que a corte não consumisse Elsewith, para que Judith não a encontrasse em falta.
Quão fácil seria para a rainha substituir Elsewith se a princesa não alcançasse os parâmetros que Judith havia imposto para a esposa do filho favorito?
Seria simples, uma doença súbita e inexplicável, um acidente com uma carruagem.
Essas coisas aconteciam o tempo todo.
Subitamente, Aethelflaed queria berrar para que ela arrancasse aquele vestido e corresse, voltasse para a Ânglia Oriental, encontrasse outro marido que não a colocasse em tanto perigo.
Aethelflaed riu educadamente, abaixando os olhos para o chá em suas mãos. — Eu posso te assegurar de que não estava.
Ela podia sentir os olhos nas nobres mais velhas nela, medindo sua postura, suas expressões, se lembrando de como Aethelflaed estava no dia de seu casamento. O verde tão claro de seu vestido de seda destacando o cabelo vermelho, segurado no lugar por uma coroa de flores. A camada superior de organza branca quase transparente de seu vestido, parecendo feita de nuvens. As costas expostas pela gola baixa do vestido. O rosto vermelho de chorar, hematomas escurecendo na pele.
Linda, triste e assustada.
Um escândalo.
— Eu duvido seriamente, mas não me atreverei a contradizer a sua palavra, senhora, — Elsewith disse facilmente, a elogiando, e uma risada tensa soou pelo quarto.
Os ombros de Aethelflaed enrijeceram. Ela girou um de seus anéis, o sorriso congelado no rosto. — Temo que seríamos obrigadas a passar o resto do dia insistindo que a outra estava mais adorável no dia de seu casamento se o fizesse, Alteza, — respondeu.
O ar estava se tornando mais carregado a cada minuto, o ressentimento silencioso de algumas das outras nobres pressionando seu peito. Algumas delas, Aethelflaed sabia, haviam conhecido sua mãe. Talvez até mesmo houvessem sido próximas a ela.
Como elas se sentiam agora, assistindo a filha de uma duquesa dignificada sendo tão humilhada?
Se o rei e a mãe dele decidiram sacrificar mesmo Aethelflaed, não levaria muito tempo até que decidissem sacrificar outros nobres também, se houvesse necessidade.
— Quer que mudemos alguma coisa no seu vestido, Elsewith? — Judith perguntou, a voz constante e sem emoções. — Mais alguma jóia? Alguma coisa chamativa, talvez?
Elsewith puxou o lóbulo das orelhas sem brincos ainda. — Ah, nada chamativo. Temo que jamais ficaria bem em mim.
Judith assentiu, satisfeita. — Deixarei que escolha algo da minha coleção pessoal de jóias, então. Um presente da sua sogra. — As nobres mais jovens arfaram em surpresa animada. Judith estalou os dedos para uma das servas silenciosas que estavam no quarto. — Leve Princesa Elsewith e as outras senhoras até os meus aposentos, por favor. — A rainha sorriu educadamente. — É quase uma caça ao tesouro.
O murmúrio excitado no quarto aumentou de volume, nobres se levantando em meio a risadinhas com o prospecto de visitarem os aposentos privados da rainha.
Aethelflaed suspirou em alívio quando o foco das nobres mais velhas a deixaram para passar afiadamente para a rainha. Elas sabiam o que Judith estava fazendo, como estava desviando a atenção delas, porém seria um insulto recusar o convite da rainha. Lentamente, elas também se levantaram.
Aethelflaed rolou os ombros discretamente, sentindo a dor em seus músculos que se recusava a ir embora agora. Era bizarro como ela se movera de quarto em quarto do castelo pelas últimas duas semanas, rodeada de senhoras nobres e jóias, falando sobre flores e no arranjo dos assentos no banquete de casamento, sobre músicas e danças e tecidos, e todo esse tempo ela pensava em guerra. Ela catalogava qual das outras nobres mais se ressentiam das decisões de Alfred, quais famílias seriam aliadas em um eventual golpe de estado.
Cada som alto nos jantares a fazia pular, o bater de um prato de metal tão assustador como o impacto de espadas que ela tanto esperava. Aethelflaed havia começado a marcar quantos soldados haviam em cada lugar, quantas armas estavam expostas em cada um deles, quais as saídas mais rápidas.
Ela se sentia ansiosa sempre que não sabia onde suas damas de companhia estavam, quando pensava em como tirar todos os homens de seu pai do castelo se alguém tomasse a decisão errada na hora errada. A apreensão a estava sufocando, se enfiando dentro de sua garganta, preenchendo seus pulmões, a arrancando de seu sono durante a noite.
Esse medo era desconhecido na língua dela assim como as palavras da língua de Ubbe, duro e difícil.
A linha na qual ela tinha que andar estava se tornando mais fina, mais difícil de acompanhar.
As línguas dos lordes eram soltas o bastante, e Aethelflaed sabia que era porque eles a subestimavam, a pensavam apenas uma garota apavorada jogando o jogo de Alfred, mantida sob controle por seu marido pagão. Ela podia enxergar isso no rosto deles quando conversavam, sempre em lugares abertos, sempre onde todos podiam ver.
A pena. A condescendência.
Aethelflaed era algo bonitinho e rico para ser salvo por eles. Algo que seria eternamente grato pela proteção que eles ofereciam.
Isso a irritava, a fazia rancorosamente grata pela vigilância de Judith. A rainha, ao menos, sabia do que ela era capaz, sabia que deveria tomar cuidado com ela.
Apesar de tudo, o tabuleiro estava sendo montado. O ressentimento da Igreja pela interferência de Alfred, pela insistência dele de que o povo fosse ensinado em sua própria língua para que pudessem entender por si mesmo, em vez de apenas acreditar nas palavras dos padres. Alguns nobres temiam que seus filhos mais velhos fossem colocados de lado, assim como Aethelred fora. O ressentimento que tinham pelo poder que Judith ainda possuía, mesmo depois da morte do marido.
Eles sussurravam de ambição excessiva, de unificação, de uma Inglaterra não mais dividida em Wessex, Ânglia Oriental, Mércia e Nortúmbria, mas de um território único, Alfred rei sobre tudo.
Alfred, um bastardo que se importava demais com o povo, e de menos com as tradições.
Aethelflaed acreditava neles. Se alguém possuísse a capacidade de fazer toda a Inglaterra se curvar, esse alguém seria Alfred.
Aethelflaed colocou a xícara de chá sobre a mesa, se levantando para sair com as outras nobres. Ela alisou as saias, feliz por sair dali.
— Aethelflaed, — Judith chamou, suavemente, e a coluna dela ficou rígida.
Ela respirou profundamente antes de se virar para a rainha, que ainda estava confortavelmente sentada.
— Vossa Majestade?
Judith pendeu a cabeça para o lado. — Tenho certeza de que podemos deixar que as outras senhoras se divirtam sozinhas. A riqueza que elas encontrarão na minha coleção pessoal de jóias não seria nada novo para você. Venha, sente-se ao meu lado.
Aethelflaed sorriu educadamente com o convite e rilhou os dentes. Ela pegou o chá novamente, apenas para ter algo no qual fincar as unhas.
Judith a observou analiticamente todo o caminho até o sofá ao lado da poltrona da rainha, os olhos descendo por Aethelflaed como se ela fosse um cavalo premiado. Uma das servas fechou a porta assim que as outras nobres saíram.
A rainha soltou um som apreciativo da garganta. — Você estava muito mais bonita do que Elsewith vai ficar no casamento dela.
Aethelflaed se impediu de grunhir em frustração. — Eu agradeço pelo elogio, Vossa Majestade, porém —
Judith revirou os olhos e a calou abanando uma mão displicentemente. — Podemos dispensar algumas formalidades quando estamos apenas nós duas, minha senhora. Sabemos o bastante uma sobre a outra para isso.
Aethelflaed encarou o belo rosto da rainha, sua boca cheia de veneno que ela era forçada a engolir sempre que estava com Judith. Aquela era a verdade. A rainha não era honesta com ela, e cada uma das ações dela possuía algum motivo secreto por trás, porém isso não era um segredo entre elas.
Judith não se importava que Aethelflaed soubesse que ela era uma cobra, apenas não deixava claro quando iria morder.
— Sim, acredito que nos conhecemos o bastante, Majestade, — Aethelflaed respondeu suavemente.
Judith sorriu largamente. O gesto era mais ameaçador do que amigável, como se ela estivesse mostrando os dentes que rasgariam a garganta de Aethelflaed. — Maravilhoso!
Aethelflaed bebericou lentamente o chá, sentindo o sabor de ervas e algo floral. Os olhos de Judith ainda não a haviam deixado.
A rainha suspirou, quase pesarosa. — Você realmente estava linda no seu casamento. A noiva mais bonita que eu já vi. Uma pena que seu pai tenha arruinado os meus planos.
Aethelflaed virou a cabeça na direção da rainha rapidamente, incapaz de se impedir. Ela teve que engolir em seco duas vezes antes de conseguir descolar sua língua do céu da boca. — Foi minha própria culpa.
Quer aquilo fosse verdade ou não, a memória das mãos de seu pai nela ainda a assombrava, pesadas e deixando marcas, a mantendo no chão frio de pedra, os olhos dele sem nenhum amor. Dustan cavara o abismo entre eles com aquelas mesmas mãos, e agora ele era um ponto frio no quarto sempre que estavam juntos, uma fera adormecida que ela tinha medo de acordar.
Dustan estava ocupado demais para conversar com ela sobre coisas triviais agora. Ele estava tentando obrigar o Wittan a se submeter, fazer com que os nobres pendessem para o lado de Alfred, estava abrindo o caminho para que Alfred continuasse com a visão de Ecbert. Ele não agia mais como um pai para ela, apenas como lorde. Aethelflaed não era mais a filha amada que fora um dia. Ela era um meio para um fim, uma vulnerabilidade a ser controlada.
Aethelflaed sentia falta dele, saudade de se sentar ao lado de Dustan em frente a lareira e falar sobre um livro que ambos leram, saudade de cavalgarem juntos, saudade de rirem juntos enquanto falavam sobre a vida. Ela queria o homem caloroso que conhecera durante sua vida toda, antes que fosse uma parte ativa dos planos de Dustan para a família deles.
Ela queria carinho.
E Dustan não tinha nenhum para oferecer a ela.
Aethelflaed se ressentia disso, apesar de suas melhores tentativas. Sabia que o tempo deles juntos estava acabando, e queria passar o pouco que restava com seu pai, não com o Duque. Queria o homem que falara sobre sua mãe com tanto amor e saudade. Era desse homem que sentiria falta, não do chefe de sua família.
A rainha ergueu uma sobrancelha, as feições dela se tornando duras. — Sim, é sempre culpa nossa, não é? Suponho que seja isso que acontece quando as regras são escritas por homens; eles jamais serão culpados por coisa alguma. — Judith estalou a língua como se aquela fosse apenas uma irritação corriqueira, o rosto dela ficando neutro novamente. — Mas realmente foi uma pena que você estivesse tão desolada na sua cerimônia de casamento. Seu vestido era magnífico. Sempre achei a moda daqui maçante, e é ainda pior na Ânglia Oriental.
— Há segurança a ser encontrada em ser modesta e passar despercebida, Vossa Majestade, — Aethelflaed apontou, não sem ressentimento.
Judith assentiu lentamente. — Sim, de fato há. Porém é cansativo, não acha? Sempre ter que fingir ser menos do que se é de verdade. — A rainha se virou completamente para ela, aqueles olhos frios como gelo em sua pele. — E quando se chega no alto, Lady Aethelflaed, não há nada que impeça as pessoas de olharem. Nada que possa ser feito para impedir que tenham inveja, que queiram te arrastar para baixo. E se você não pode passar despercebida, então ao menos pode ser algo a ser temido. Há proteção há ser encontrada no medo também.
O ar de Aethelflaed a deixou em um ofego. Ela encarou o rosto belo e frio da rainha, e pensou na menina que ela deveria ter sido uma vez, doce e modesta, e na mulher que ela era agora, uma fazedora de reis, amante de poder. E se perguntou se poderia fazer o mesmo, se poderia se transformar em algo a ser temido. Não como filha de seu pai, ou como representante do nome de sua família, mas como Aethelflaed. Se perguntou se poderia fazer com que os lordes a escutassem não porque ela era algo a ser protegido, um símbolo de orgulho e ego deles, mas porque ela era assustadora, porque haveriam consequências se a desobedecessem.
Subitamente, ela percebeu que queria aquilo, que queria deixar de estar assustada, queria saber que poderia proteger a quem amava.
Aethelflaed queria se tornar no pesadelo de alguém, mesmo que apenas para que ninguém pudesse se tornar um para ela.
Os dedos dela se enfiaram com tanta força na xícara de chá que suas unhas doeram. — Talvez esse seja um conselho que sua nora deva receber também, — Aethelflaed disse, tentando desviar a atenção de si mesma, porém sua voz fraquejou, e ela sabia que Judith vira no rosto dela a fome por poder, a sede de sangue que nascia da insegurança. — A esposa de um rei é algo difícil de ignorar.
Judith deu a ela um sorriso que era igualmente carinhoso e condescendente. — Não é tão difícil assim. Às vezes, ser a esposa do rei e ser uma rainha não são a mesma coisa.
Aethelflaed acreditava nela. Judith se tornara rainha no momento em que fora até a cama de Ecbert, e continuaria a sê-la até o último suspiro, apesar da esposa do filho. Ela era a rainha de Wessex, e ninguém poderia desafiar aquele título.
— Princesa Elsewith jamais precisará ser como nós, minha senhora. Ela não foi criada para ser um herdeiro além de filha, como você foi, e não precisará sobreviver a um marido como nós temos que fazer. Conheço o meu filho. Alfred a protegerá. Ela será uma boa esposa, e uma boa mãe, e isso será suficiente.
Aethelflaed não deu a Judith a satisfação de contradizê-la, de admitir que não pensava que teria que sobreviver ao próprio marido da mesma maneira que Judith fora forçada a fazer. Talvez precisasse sobreviver às circunstâncias do casamento deles, porém não a Ubbe. Por mais que se ressentisse do casamento deles, não se ressentia dele.
— E a esposa do Príncipe Aethelred? — Aethelflaed perguntou casualmente à rainha.
Surpresa atravessou o rosto da rainha antes que ela pudesse controlar as feições. Nenhuma vez, em todo tempo que passavam juntas, Aethelflaed mencionara o filho mais velho de Judith.
— O que gostaria de saber sobre ela, senhora? — Judith disparou de volta, desconfiada.
Aethelflaed levantou uma sobrancelha.
— Ela é algo a ser temido, como nós, ou você a escolheu pelas mesmas razões que escolheu a Princesa Elsewith? — Esclareceu, e prendeu uma gargalhada triunfante quando a boca de Judith se tornou uma linha fina em irritação.
— Ela é uma mulher dócil, — a rainha respondeu, as linhas finas ao redor dos olhos dela mais proeminentes enquanto ela cerrava os olhos.
Aethelflaed brincou com o crucifixo que pendia de seu pescoço. — Meu pai e eu ficamos muito surpresos com esse casal. Tenho certeza de que foi um lindo casamento.
Judith não se moveu, não foi isso que denunciou a tensão dela. Foi como ela ficou absolutamente parada, como uma pintura, como uma estátua. O sorriso dela, sempre tão praticado, era como assistir a alguém abrir um corte na pele.
Esse era um tópico sensível, um que ela ainda não controlava.
Se fosse apenas a curiosidade de Aethelflaed, a rainha poderia tê-la ignorado, mas Judith não recusaria uma explicação frente à insinuação de que Dustan se ofendera por não estar no casamento de Aethelred. Precisavam demais do duque para isso.
— Temo que o noivado tenha sido rápido demais para que todos os convidados de honra pudessem estar presentes. Meu filho e a esposa estavam muito apaixonados, e queriam desesperadamente se casar, — a rainha disse. — Porém asseguro a você, e ao seu pai, de que a sua falta foi muito sentida. Mas não poderia negar um desejo tão ardente do coração do meu filho.
Aethelflaed arregalou os olhos levemente, se inclinando para frente em seu assento em animação falsa. — Foi um casamento por amor, então? Que raro. Pensava que certamente você a havia escolhido para ele. Mas eles formam um bom casal, de qualquer forma. Ela é de uma boa família. Príncipe Aethelred deve ter se sentido aliviado por conseguir desposá-la.
Judith ficou em silêncio por um momento longo demais, a atenção dela quase assustadora em sua intensidade, e Aethelflaed podia sentir quão perto a rainha estava de onde queria que estivesse, a antecipação como a tensão da corda de um arco retesado.
— Temo que não entenda o significado de suas palavras, minha senhora, — Judith disse, a voz dela perigosamente macia.
Aethelflaed abanou uma mão casualmente, como se fosse um tópico sem importância, e seus anéis reluziram na luz baixa do quarto.
— Reis raramente se casam com mulheres de seus próprios países. É costume que se casem com estrangeiras, para fortalecer alianças. Mas um príncipe pode seguir o próprio coração, ao que parece. Príncipe Aethelred deve ter regozijado quando ficou claro que não herdaria a coroa do Rei Aethelwulf, e portanto poderia se casar com a mulher que ama.
O arquejo de Judith não foi audível, porém Aethelflaed pôde vê-lo no movimento súbito do peito da rainha, podia ver a raiva no cerrar da mandíbula dela, incredulidade reluzindo no brilho febril dos olhos dela.
Aethelflaed conseguia sentir sua pulsação na garganta, suas mãos começando a suar.
— Meu filho conversa com você sobre o… casamento dele? — Judith perguntou, e a tensão que a voz dela deixou escapar ao mencionar o casamento deixou claro que não era nisso que estava pensando.
Aethelflaed sorriu educadamente. — Não em profundidade. Príncipe Aethelred apenas o mencionou quando perguntei sobre o bem estar da esposa dele, na ocasião em que veio me dar parabéns pelo meu próprio matrimônio. Temo que tenha ficado curiosa sobre o assunto. Casamentos reais costumam ser tópicos de muita conversa.
Não confirmaria nenhuma das suspeitas que via nascer em Judith, não enquanto não tivesse total certeza. Se qualquer um dos outros lordes estivesse flertando com traição, Aethelflaed poderia ser tentada a denunciá-los, mesmo que apenas para ter a confiança da rainha, algo que suspeitava que só poderia ser comprado com sangue. Mas era cedo demais, e todas as palavras ditas a ela eram cuidadosamente vagas, comiserações e bons desejos, lordes dizendo que jamais teriam permitido que seu casamento acontecesse se a decisão fosse deles, porém esse era um sentimento geral da corte, e não o bastante para acusar alguém de traição, ou chegar a uma condenação.
Seu pai estava certo, Aethelflaed não deveria acusar um príncipe sem antes ter provas concretas. Não importava no momento, porém. Judith estava furiosa, e Judith estava desconfiada, e a rainha amava um dos filhos muito mais do que amava o outro.
A rainha traçou a mandíbula próximo à orelha que fora arrancada. — E os outros lordes com quem você tem conversado, Lady Aethelflaed? Eles também têm muito a dizer sobre o seu casamento? — A voz de Judith era afiada.
Aethelflaed engoliu sua raiva, seu cansaço, seu medo. Ela mandou um olhar exasperado à rainha.
— Pode perguntar isso a qualquer um de seus servos, Vossa Majestade, visto que eles testemunharam todos os encontros que tive com esses lordes.
— Realmente, eles testemunharam, — Judith confirmou, um desafio, o tom dela duro. — E eles continuarão a fazê-lo. Para a segurança de todos.
Essa mulher odiosa e vil. Essa cobra ardilosa e inteligente.
Aethelflaed se forçou a se apoiar no encosto do sofá e relaxar cada músculo em seu corpo. Ela encontrou o olhar intenso da rainha, e o segurou.
— Eu obedeço ao meu pai, Vossa Majestade, mesmo quando não gosto das decisões dele. E eu prefiro a minha cabeça, e a cabeça daqueles que amo, exatamente onde está. Sei quem você é, assim como sei quem Rei Alfred é, da mesma forma como fui avisada sobre quem Rei Ecbert foi. Não tenho interesse algum em desafiá-la.
O sorriso de Judith era belo e terrível como uma planície cheia de neve, como o estalar assustador de gelo se partindo em um lago, como o rugido de fogo em uma floresta.
— Sim, você sabe quem eu sou, — Judith murmurou, a voz dela suave como a carícia de um amante, macia como uma faca deslizando entre as costelas. — Garota esperta.
E era algo tão odioso que essa mulher terrível fosse quem a enxergasse, quem olhasse para Aethelflaed e percebesse a ameaça que ela poderia se tornar. Era odioso olhar nos olhos de Judith e encontrar um espelho.
Judith se levantou, as costas perfeitamente retas, a linha dos ombros relaxada, o rosto perfeitamente satisfeito. Ela se serviu de chá, e não se sentou novamente. Aethelflaed percebeu como isso fazia com que a rainha se assomasse sobre ela, e se perguntou o quão afetada exatamente Judith se sentia ao contemplar que o filho mais velho poderia cometer traição.
Parecia que mesmo uma raposa ardilosa como a rainha tinha um ponto cego quando se tratava da família.
Judith a observou calmamente, parecendo debater algo, e Aethelflaed teve tempo de sentir um calafrio escalando sua espinha antes dos lábios da rainha se curvarem maliciosamente.
— Agora que estamos falando do meu filho mais velho, pensei em contar a você que já quis que se casasse com ele, minha senhora, — a rainha disse casualmente, como se fossem apenas amigas fofocando.
As sobrancelhas de Aethelflaed dispararam para cima.
— Perdão?
Judith emitiu um murmúrio de confirmação. — Realmente, considerei que se casassem. Até mandei uma carta sobre o assunto para o seu pai. Depois da coroação de Alfred, como você tão eloquentemente explicou, Príncipe Aethelred poderia se casar com uma mulher de Wessex. E quem melhor do que a filha única do nosso duque mais poderoso? — Ela contemplou. Judith estava quase reluzindo com a surpresa no rosto de Aethelflaed. — Foi um choque quando Duque Dustan recusou, é claro. Mas seu pai sempre teve uma cabeça muito boa para política, e apenas posso ser grata a ele por não ter cedido ao meu desejo pela união das nossas famílias. Deixa as coisas muito mais fáceis agora, não acha?
Aethelflaed finalmente conseguiu controlar suas feições. Ela assentiu, ainda estupefata, encarando a rainha com incredulidade.
Sabia que já havia recebido propostas de casamento antes, ambas formais e casuais. Seu pai não as mencionava muito, no entanto, tais coisas eram difíceis de esconder, e as mães e irmãs dos homens que a queriam para esposa frequentemente contavam a ela sobre tais propostas.
Mas era uma coisa receber um pedido de casamento do filho de outro duque, e outra completamente diferente recusar um príncipe.
Por que seu pai nunca mencionara isso?
Aethelflaed mordeu a parte interna da bochecha e respirou devagar. Essa não era a pergunta mais urgente aqui.
Por que Judith contaria isso a ela agora? A rainha jamais divulgava informações sem ter um motivo.
Aethelflaed levantou os olhos para a rainha, muito mais alta que ela de pé, o sorriso cruel ainda nos lábios cheios.
Poder.
Ela pegara a rainha despreparada, e da mesma forma que Aethelflaed, Judith odiava isso. Era vingança, uma forma baixa e infantil e provavelmente sem consequências, mas o era. Elas tinham tão pouco com o que lutar, sem armas, sempre presas aos homens da vida delas; conhecimento era tudo que possuíam, o que tinham para barganhar.
Aethelflaed se forçou a sorrir educadamente. — Fico feliz que essa tenha sido a decisão do meu pai. Tudo aconteceu da forma como Deus havia planejado, tenho certeza.
Aethelflaed teria jogado Judith na frente de um cavalo se fosse forçada a conviver com ela para o resto de seus dias.
Judith soltou uma risada amarga. — Sim, os planos de Deus. Tudo sempre acontece desse modo. Não acho que iríamos aproveitar a companhia uma da outra tanto quanto o fazemos se fossemos família, — ela disse, sem tentar esconder a ironia na voz. — No entanto, não teria reclamações se tivesse uma filha como você, caso houvesse sido abençoada com uma.
— Eu… Eu — Aethelflaed gaguejou, pega de surpresa novamente. Nunca sabia o que esperar de Judith, se as próximas palavras da rainha seriam uma ameaça ou conselho precioso, mesmo que cruel. — Obrigada, Vossa Majestade.
A rainha ignorou o agradecimento. — Não é um elogio vazio, minha senhora. Te disse que já chegou até nós com garras e presas, e que se eu tivesse feito o mesmo, teria sido poupada de muito sofrimento. Gostaria de poupar uma filha desse mesmo sofrimento. — Ela estalou a língua. — Sabia o que você era no momento em que desceu daquela carruagem, orgulhosa e controlada, e provocou seu marido na frente de todos. Esperta. Corajosa. Ardilosa. Não apreciaria essas características em uma nora, especialmente em tempos como esse. Mas elas lhe servirão bem. Seria muito mais difícil convencer a corte de que nossa aliança com os vikings será bem sucedida se uma imbecil descontrolada tivesse se casado com Ubbe.
Aethelflaed engoliu com dificuldade. Ela contava tanto com ser subestimada; era sempre eletrizante ter alguém que a visse.
Uma batida suave soou na porta, e elas ficaram em silêncio enquanto uma das criadas anunciava que Princesa Elsewith requeria a assistência delas.
Judith suspirou em irritação, porém confirmou que iriam até as outras nobres.
Aethelflaed se levantou, confusa e sentindo-se estranha. Ela alisou as saias, procurando por calma dentro de si.
— Uma última coisa, minha senhora. Um conselho — Judith disse quando estavam prestes a sair do quarto. — Inteligente como a farsa de flor inocente que está usando agora seja, chegará um momento em que será responsável pelas manobras políticas da sua casa, e então suas alianças ficaram evidentes. E mais do que isso, você será uma mulher com mais poder do que a maioria do Wittan jamais terá, e eles a odiarão por isso, como sempre odeiam o que não podem ter. Então escolha como agirá daqui para frente com sabedoria, porque independente do que escolha, haverá consequências. Posso apenas torcer para que esteja preparada para encará-las.
Isso era tudo que restava a Aethelflaed, também.

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