Hardest of Hearts
3 Sticks to your tongue and it shows on your face
Notas iniciais
Ubbe perscrutou o rosto de Alfred, o jogo de sombras causado pelas velas um acompanhamento ideal para a expressão impassível na face do rei. Alfred ainda era um menino; mal havia barba em seu rosto, a pele era pálida e suave demais, poupada do sol e do sal do mar como a de Ubbe não fora, não havia cicatrizes nele e, mesmo com todas as roupas que os bretões usavam, Ubbe sabia que Alfred não era particularmente forte.
Ele não era um guerreiro nato, apesar de possuir coragem, e a coroa na cabeça dele era mérito muito mais de Judith e Ecbert do que do próprio rei. Ele era um menino, sim.
Mas era um menino com uma coroa e um exército, um menino que estava pedindo algo dele, oferecendo uma aliança.
Os dedos de Ubbe flexionaram lentamente; sentia falta do peso de sua espada e seu machado, sentia-se exposto sem eles. Apenas a Guarda Real podia carregar armas na presença do rei. Não que isso pudesse salvar Alfred dele, se decidisse atacá-lo e não houvesse guardas por perto. Por um segundo, Ubbe foi invadido pela vontade de bater a cabeça do rei na mesa forte de madeira na qual ele estava sentado, não para matá-lo, apenas para trazê-lo de volta ao juízo.
— Quer que eu me case? — ele perguntou lentamente, as palavras dos bretões estranhas em sua língua como não era já há muito tempo. — Com uma nobre?
Alfred assentiu, paciente como sempre.
— Filha de um Duque, sim. Quero que se case com ela.
— E por que, exatamente, eu deveria fazer isso, Vossa Majestade? — Ubbe perguntou, cruzando os braços. As últimas palavras foram um insulto, apesar do respeito e formalidade que deveriam significar, e ambos sabiam disso. Um sorriso pequeno e furtivo curvou os lábios de Alfred. Ubbe franziu o cenho. Era um homem paciente, muito mais paciente que todos os seus irmãos; sua ira não se inflamava facilmente e seu orgulho não era levianamente atingido. Mas aquele rei o estava testando.
— Porque ela é a única herdeira de um homem rico e poderoso, porque as terras dela serão suas, porque seus filhos as herdarão, serão nobres na corte de Wessex, porque me dizem que Aethelflaed é uma mulher linda e inteligente. — Alfred citou, simples, como se falasse das coisas que havia de fazer naquele dia. Como se não pedisse que Ubbe entrelaçasse seu destino ao de uma mulher que ele nunca conhecera, de um povo que não o aceitava.
— Já tenho uma mulher bonita e inteligente, — Ubbe resmungou, e a culpa por estar sentado ali com rei Alfred, discutindo um casamento enquanto Torvi estava em algum lugar daquele castelo, pesou em seu peito.
Torvi não merecia aquilo. Homens a machucaram e abandonaram a vida inteira; ela merecia mais que outro filho de Ragnar a trocando pelo primeiro brinquedo mais interessante que aparecesse na frente dele. Ubbe se importava com ela, se importava com sua dor e com sua felicidade. Como poderia dizer a ela que se casaria com outra? Como poderia abandoná-la, quando ela o seguira até aqui?
— Não é casado com esta mulher, — Alfred respondeu, tão inabalável como sempre. — Ela tem filhos de outro homem, seu irmão. Torvi é uma mulher bonita, mas é mais velha que você. Provavelmente não terá outros filhos. Não quer ter suas próprias crianças, Ubbe? Não quer continuar sua linhagem?
Ubbe expos os dentes sem pensar, indignado com as palavras de Alfred, com o insulto não intencional delas. Não se importava com os homens com quem Torvi estivera antes tanto quanto ela não se importava com as mulheres que Ubbe tivera antes dela. A queria por ela, pelo espírito forte e persistente, pela bondade que não se apagara apesar de tudo. Torvi não era um joguete ou um meio de continuar uma linhagem. Alfred nem ao menos piscou com a agressividade súbita da expressão do Viking.
— Não estou insultando Torvi, Ubbe. — Alfred assegurou, serenamente. — A admiro. Ela é uma guerreira formidável, uma mulher corajosa. Tem sorte de tê-la ao seu lado e não duvido que a ame. Mas não estamos discutindo amor aqui. Não é necessário amor em um casamento. Estamos falando de alianças e política. Sei que entende isso.
Havia uma calma calculada nas palavras de Alfred, uma determinação nos olhos dele que dizia a Ubbe que o rei tivera aquela conversa sozinho vez após vez. Ele sabia quais seriam suas objeções e sabia quais argumentos usar para desmantelá-las. Ubbe travou a mandíbula, suas mãos coçando pelo toque reconfortante do metal.
Ali estava o verdadeiro poder de Alfred; ele não era um guerreiro como seu pai – o pai que Wessex achava que era dele, de qualquer forma – ou seu irmão. Alfred tinha demais de Ecbert, demais de Judith e demais de Athelstan, a quem Ragnar tanto amara. A quem Ragnar jamais fora capaz de negar coisa alguma.
Subitamente, Ubbe se sentiu instável. Ele concordaria com aquele casamento antes de sair da presença do rei, percebeu. Não havia uma escolha real ali, apenas um jogo e formalidades. Alfred estava demonstrando poder tanto quanto estaria se algum de seus guardas segurasse uma faca na garganta de Ubbe.
Era um refugiado na corte de Alfred, com sua espada e seu nome a oferecer e nada mais. Seu povo em Kattegat o mataria se voltasse e o medo de Ivar se espalhara o suficiente na Dinamarca para que outros reis o entregassem também. Estava cercado de inimigos e a única coisa que mantinha sua cabeça sobre seus ombros era a vontade de Alfred.
Um menino, mas um menino que controlava sua vida.
E ele sabia, mais do que Alfred imaginava, que não era necessário amor em um casamento. Não se lembrava de uma época em que havia amor entre Ragnar e Aslaug, apesar de os últimos anos dos dois serem piores. Havia necessidade e política e a força que o título de sua mãe trazia ao reinado de seu pai, e até mesmo desejo, por um tempo, mas amor sempre estivera distante deles. Ainda assim, Aslaug governara Kattergat indisputavelmente durante anos. Criaram os filhos de Ragnar para grandeza.
Não houvera amor, e as vezes também não houvera respeito, mas havia um entendimento entre os dois, algo que segurou a família no poder até que eles próprios se dividissem.
— Não estou pedindo que deixe Torvi, de qualquer maneira, — Alfred continuou, um gesto displicente com a mão, como se o assunto fosse sem importância. As sobrancelhas de Ubbe se ergueram.
— Me pede para casar com uma nobre da sua corte e me dá permissão de traí-la? Achei que vocês cristãos tinham mais pudor que isso. — Ubbe disse, irritado.
Um sorriso sombrio e condescendente esticou estranhamente o rosto de Alfred. Não era uma expressão comum no rosto do rei, porém Ubbe estaria mentindo se dissesse que não lhe convinha. Ele já vira aquele mesmo olhar no rosto de homens poderosos antes.
— Você sabe tão bem quanto eu, Ubbe, que nós cristãos podemos ser tão bárbaros e luxuriosos quanto vocês, apenas somos menos sinceros sobre isso.
Ubbe supunha que a ideia de traição não pareceria tão inimaginável para alguém como Alfred, cristão ou não. Ele existia por fruto de uma traição, e a posição e favor que ele mesmo ganhara do avô vinha em muito do relacionamento de Judith com Ecbert. Ele sabia que os homens bretões não tinham problemas em procurar outras mulheres. Também sabia o que acontecia se as mulheres deles procurassem outros homens. Não era justo, ele pensou. Deixaria a garota livre para amar quem quisesse se realmente se casasse com ela.
Ele certamente não poderia abandonar Torvi por um joguete de Alfred.
— O pai dela jamais concordaria. Eu já matei seu povo, se lembra? Sou um pagão. — Ubbe disse, e assistiu, satisfeito, a expressão de Alfred se fechar. O rei flexionou a mandíbula, um brilho raivoso refletindo nos olhos dele.
— Sei muito bem o que os Vikings já fizeram a esse país e a esse povo, Ubbe. Lutei e matei vocês também. — Alfred respondeu, e Ubbe impediu o grunhido furioso que queria escapar dele de sair de sua boca. Ainda conseguia sentir a humilhação de ser surrado pelo Bispo de Lagertha sem chance de revidar, de admitir seu erro para Ivar, de todas as pessoas, e voltar para Kattergard abandonado por todos. Ah, Ubbe sabia muito bem o que os cristãos fizeram com ele também. — E é por isso que quero vocês aqui, por isso que permito vocês aqui.
Alfred disse aquilo tão casualmente, tão displicentemente, que levou um momento até que a ameaça de suas palavras registrasse em Ubbe. Ele permitia. Ubbe sorriu amargamente. O reizinho finalmente estava mostrando suas cores.
— O dinheiro e o exército de Duque Dustan são essenciais para Wessex. Ele tem influência no Wittan. Não posso permitir que essas coisas caiam nas mãos de um inimigo meu.
— Que a garota caia nas mãos de um inimigo seu. — Ubbe resmungou.
— Sim, — Alfred permaneceu impassível. — A filha dele é o caminho para essas coisas assim que Dustan morrer, o que não vai levar muito tempo. Eu quero aquele exército, Ubbe. Quero garantir que o homem que ocupar a posição de Dustan no meu conselho estará do meu lado.
— Os homens dele não vão seguir um Viking.
— Os homens de Dustan também não vão abandonar a senhora deles com um.
Ubbe riu, finalmente. Aquele menino ardiloso e astuto tecera uma teia inescapável. Ele encarou Alfred com uma admiração relutante.
— Acha mesmo que homens que acreditam que estou machucando a senhora a quem eles servem me seguiriam no campo de batalha? Eles me matariam para deixar minha viúva livre. — Ubbe argumentou, apenas para ver o que Alfred responderia.
— Não se estiverem lutando contra algo mais perigoso do que você. Um Viking, sim, mas um Viking com a aprovação do rei, um Viking a quem o senhor deles entregou a única filha. Todos nós preferimos os demônios que conhecemos.
Nem todos, Ubbe pensou, mas se manteve calado. Alfred podia descobrir isso mais tarde, e certamente o faria. Os piores demônios eram os que estavam perto o bastante para saber onde enfiar a espada, para saber o que o machucaria. Os piores demônios tinham o sangue dele.
― Dustan vai aceitar o casamento, ―Alfred continuou, ignorando o silêncio significativo de Ubbe, porém não alheio a ele. Alfred nunca estava alheio a nada. — O rei dele está pedindo que o faça, um rei novo e cheio de gratidão a dar. Ele é um homem poderoso, mas é um homem velho. Ele ama a filha, não tenho dúvidas. Mas não teria chegado onde está se não amasse poder também.
Ubbe recostou na cadeira e olhou para os últimos raios de sol que entravam débeis pelas janelas altas e estreitas. Seu pai nunca faria aquilo com a filha dele, com a irmã doce e gentil que ele não chegara a conhecer, sobre quem só escutara nos sussurros cheios de saudade de Björn. Ragnar jamais entregaria Gyda a um homem em quem não tivesse plena confiança. Duque Dustan entregava a única filha a um homem que tinha o sangue do povo dela nas mãos.
Mas os bretões jamais se importaram com suas mulheres, ele sabia disso.
— Quantos anos ela tem? — Ubbe perguntou subitamente e teve vontade, pela segunda vez, de bater a cabeça de Alfred na mesa quando um sorriso presunçoso e satisfeito invadiu o rosto do rei sem que ele nem ao menos tentasse controlá-lo.
— Me disseram que não está muito longe do aniversário de dezessete.
Ubbe fechou os olhos, o cenho franzido. Com aquela idade, ele nem ao menos havia deixado Kattegat Era um príncipe treinando para ser um guerreiro e sonhando com um pai que desaparecera há anos, se esgueirando por cantos escuros com uma escrava. Era uma criança, quase.
— A garota vai ter medo de mim. — Ubbe disse, sua voz abaixando para quase um sussurro.
Não apreciava aquilo. Não era como Ivar, que se deliciava no medo que tinham dele. Não era agressivo em suas conquistas como tantos de seus companheiros. Ubbe não queria ninguém em sua cama que não quisesse estar lá, jamais quisera. E estavam empurrando uma garota inocente para um guerreiro endurecido. Não queria o mesmo olhar assustado que já vira em tantas mulheres bretãs ao fitá-los no rosto de sua esposa.
— Quase todas as mulheres têm medo de seus maridos por algum tempo, — Alfred comentou, e Ubbe abriu os olhos com o ressentimento na voz dele. Havia uma raiva antiga e velada ali, algo sombrio e rançoso que nublava os olhos do rei. — Algumas por toda a vida.
Ubbe comprimiu os lábios. Escutara os murmúrios do que acontecera à rainha Judith, o preço que ela pagara por se deitar com Athelstan, mas não se prendera àquilo. Possuía preocupações maiores na corte de Wessex do que os costumes violentos dos bretões com suas mulheres. Alfred, aparentemente, não conseguira perdoar a vingança de Aethelwulf.
— Conheço o suficiente de você, Ubbe Ragnarsson, para saber que ao menos não vai machucá-la como muitos de nossos homens fariam. Ela estará melhor com você do que com um marido bretão. A liberdade que princesa Gisla da Frankia tem casada com seu tio é maior do que teria casada com um nobre da corte do pai dela.
Ubbe levantou as sobrancelhas. — O que Rollo tem a ver com isso?
Alfred bufou uma risada e se reclinou na cadeira. — Seu tio é realeza. Realeza cristã. Wessex poderia negar sua posição como um membro de uma família real baseado em quem seu pai é. Ragnar era rei, mas era pagão. Há um limite para o respeito que meu povo oferece a pagãos. Mas Rollo é Duque da Normandia, cristão há anos. E vamos casar a filha de um dos nossos duques mais proeminentes com o sobrinho dele. É aliança o suficiente para acordos de comércio e auxílio bélico, quando chegar a hora.
Ubbe fez uma careta. Ele queria cuspir no chão para mostrar seu desdém, mas era provável que algum dos guardas o esbofeteasse por esta falta de respeito. Ele não queria passar a noite nas celas do castelo. Ter que explicar a situação para Torvi seria complicado suficiente sem isso.
— Não gosto de ser usado como peão nos jogos de outros, — Ubbe disse, sua voz adotando um tom ameaçador. Um dos guardas deu um passo a frente, as armas ressonando.
Ubbe não desviou o olhar do rei, mas estava perfeitamente ciente de cada movimento dos guardas. Alfred levantou uma mão, apaziguando-os.
— Ninguém gosta, Ubbe. A garota vai gostar menos ainda. Mas todos nós precisamos fazer sacrifícios. Você se ofereceu para lutar por mim, para dar sua vida por mim no campo de batalha. Estou pedindo que vá para a cama com uma mulher jovem e bonita que vai te dar herdeiros, que vai te dar riqueza e influência política. Não pode ser mais difícil do que enfrentar seu próprio povo por mim.
Ubbe preferiria batalhas àquele casamento. Era mais simples. Em uma guerra, ele sabia quem eram seus inimigos, sabia o que tinha de fazer. Era tudo de uma clareza inimaginável, quando tudo o que havia de fazer era matar o homem à sua frente antes de ser morto. Alfred estava pedindo que ele entrasse no jogo político da corte, nas mentiras e meias-verdades que acompanhavam a nobreza onde quer que fosse. Ubbe jamais apreciara isso em Kattegat, e certamente não começaria agora.
Porém ele ainda era tão prisioneiro de Alfred agora quanto era no calabouço do castelo, e podia sentir o aperto invisível de seus grilhões.
Ele suspirou e endireito os ombros.
— Qual é o nome dela? — perguntou.
Alfred sorriu, satisfeito.
— Aethelflaed.
Ubbe assentiu lentamente, rolando as sílabas estranhas em sua língua, franzindo o cenho para os nomes estranhos dos bretões. Silenciosamente, ele pediu desculpas para a garota inocente cuja liberdade e corpo lhe seriam entregues.
— Diga a Aethelflaed, — ele começou, e a enormidade do momento se assomou sobre ele. — Que Ubbe Ragnarsson a está esperando.

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