Hardest of Hearts
1 So it begins
Aethelflaed agarrou as saias com mais firmeza, fechando os punhos no tecido para esconder o tremor nas mãos. Seu coração palpitava como o de um beija-flor, espancando suas costelas cada vez mais rápido à medida que subia as escadas de pedra do castelo, o frio começando a se esgueirar conforme o verão os abandonava. Estava com medo, não tentaria mentir para si mesma, porém o negaria a qualquer um que perguntasse. Que Deus a perdoasse pelo pecado da mentira, mas era necessário.
Nascera filha de um duque, seu único herdeiro, e precisava ser forte, forte como um filho seria. A corte era um lugar traiçoeiro e os dias eram sombrios. Aethelflaed sabia como jogar aquele jogo, porém; crescera fazendo-o, e poderia fazê-lo com os olhos e ouvidos tampados, com tanta facilidade quanto tocava a harpa.
Era Marquesa Aethelflaed de Wessex, filha do Duque Dustan, e podia ser corajosa, mesmo assustada. Era o único momento em que coragem realmente era necessária. Deixaria o bravado desnecessário e estúpido para os homens; Aethelflaed sabia onde as verdadeiras guerras eram travadas.
Ela parou frente às portas pesadas de madeira do escritório de seu pai e Edwina se postou a frente dela, a respiração de sua ama pesada depois de subir as escadas a acompanhando. Ela afastou o cabelo ruivo do rosto de Aethelflaed e ajeitou seu vestido desnecessariamente, tentando lhe dar um sorriso encorajador.
Não funcionou. Aethelflaed a conhecia bem demais, depois de todos os anos em que Edwina fora uma mãe para ela depois que sua própria se fora, para que o nervosismo passasse despercebido. Ainda assim, ela retribuiu o sorriso e segurou as mãos de Edwina nas delas. Não tremiam, mas podia sentir o suor frio se agarrando à pele.
— Tenho certeza que não é nada, meu bem. — Edwina murmurou; estavam sozinhas, e as formalidades podiam ser esquecidas. — Não temos nada com o que nos preocuparmos.
Aethelflaed continuou sorrindo, no entanto, sentiu a pele de seu rosto se repuxar na ânsia de fazer uma careta. Ela se impediu. A educação que recebera não permitiria esse tipo de indecoro no meio do corredor do castelo, onde qualquer um dos criados poderia ver. Se não fosse nada, seu pai não se incomodaria em chamá-la até ali. Se não fosse nada, eles conversariam sobre o que ele desejava falar durante o jantar, ou enquanto liam juntos sentados a lareira, ou quando Aethelflaed tocava harpa para eles. Talvez, se fosse apenas algo corriqueiro, eles até conversassem enquanto cavalgavam, se a saúde do Duque Dustan permitisse.
Era alguma coisa, e Aethelflaed podia sentir o peso inimaginável do destino se avolumando às suas costas, ameaçando esmagar seus ombros. Ela os endireitou mais ainda, deixando a postura perfeita mais rígida. Era filha de um Duque e cumpriria seu dever.
Aethelflaed sabia que dever era esse. Estava nessa terra a quase dezessete verões, e mulheres mais novas do que ela já eram mães mais de uma vez. No entanto, seu pai a amava demasiado para vê-la partir, a última lembrança da esposa que ele amara ardentemente, e se recusava a deixá-la se casar, não importava o quão tentadora fosse a proposta.
E Aethelflaed era sua herdeira. Cautela era recomendável, e ela agradecia a Deus pelo tempo que tivera com as pessoas com quem crescera e com seu pai. Mas não fugiria de seu destino.
— Tenho certeza que não é, — afirmou, reconfortante, e afastou a trança grisalha de Edwina do ombro.
Edwina pressionou os lábios finos e assentiu, mais para si mesma do que para ela. — Agora vá, não deve deixar Sua Graça esperando. — Aethelflaed bateu levemente a porta. — Aethelflaed! — Edwina sussurrou agressivamente. A garota ergueu uma sobrancelha. — Não franza a sobrancelha, não importa o que seu pai diga. Não é adequado para uma Marquesa.
Aethelflaed suspirou baixinho. Queria revirar os olhos, mas sua educação impedia isso também.
Estava prestes a responder quando a porta se abriu frente a elas e o rosto preocupado de seu pai apareceu. Edwina fez uma reverência rápida e saiu, e Aethelflaed sabia que ela estaria esperando no final do corredor.
Ela esperou que seu pai a convidasse a entrar, as saudações que deveria dar a ele sumindo de sua língua com a apreensão que via nos olhos azuis dele. O rosto de Duque Dustan parecia mais velho, as linhas e rugas mais profundas. Ele era um homem envelhecido pela dor e pela perda, e sua saúde estava se debilitando nos últimos anos. Aethelflaed temia pelo que aconteceria com ele, se seria tomado dela tão subitamente quanto sua mãe fora, e orava incessantemente por ele a noite.
Por favor, Senhor Deus, Aethelflaed pensou, não pela primeira vez. Me conceda mais tempo com ele.
Seu pai indicou que ela entrasse e Aethelflaed o seguiu, as saias farfalhando, e as portas se fecharam atrás deles com um som ameaçador. Duque Dustan se sentou frente uma lareira e ela seguiu seu exemplo, a coluna perfeitamente reta na cadeira. Poderia relaxar quando tudo estivesse terminado.
Era estranho ter uma lareira acesa tão cedo no outono, e ela se sentiria desconfortável sob todo tecido que a cobria, porém queimaria florestas inteiras se isso trouxesse a vida de volta ao rosto de seu pai. Não era apenas idade e doença que o deixavam pálido.
— O senhor queria me ver? — Aethelflaed perguntou quando seu pai passou tempo demais absorto encarando o fogo e Duque Dustan se sobressaltou ao olhá-la, como se houvesse esquecido que ela estava ali.
Um lampejo de dor cruzou o rosto de seu pai, e ela reconhecia aquela expressão. Fechou as mãos em punhos e as escondeu sob as saias.
— Se parece tanto com ela. — Seu pai murmurou, e Aethelflaed se forçou a sorrir. Tinha os mesmos cabelos ruivos da mãe, a mesma pele muito pálida, mas não conseguia se lembrar mais se seus olhos eram como os dela ou como os de seu pai, e não achava que ele conseguisse. Costumava gostar de ser comparada com a mãe. Ela era uma mulher bonita e bondosa, e mesmo quando a febre a levou e os gritos alucinados dela ecoaram pelo castelo por uma semana, ela continuou bela.
No entanto, detestava a semelhança agora, ficando cada vez mais parecida conforme crescia. Era um fantasma assombrando os corredores do castelo, um lembrete ambulante a seu pai de tudo que ele perdera, o que ele se recusava a ter novamente permanecendo viúvo.
— Sua mãe teria orgulho de você, Aethelflaed. Da mulher forte e corajosa que se tornou. Eu tenho.
Ela se inclinou e apertou a mão gelada do pai, apoiada no braço da cadeira. Podia sentir os ossos mais proeminentes do que se lembrava.
— Obrigada, pai. Estou apenas fazendo o que você me ensinou.
Duque Dustan sorriu para ela, porém sumiu rápido demais para que Aethelflaed pudesse aproveitar. Ele esfregou o rosto com as mãos e afundou na cadeira.
— Rei Alfred mandou uma carta. — Seu pai disse, sombrio.
Aethelflaed sentiu gosto de sangue quando mordeu a língua para evitar uma exclamação de surpresa. A morte de Rei Aethelwulf fora uma surpresa, e a coroação de seu filho mais novo uma surpresa maior ainda. Não sabia muito sobre Rei Alfred além de que ele possuía a sabedoria de seu avô e de que já estava causando descontentamento entre a Igreja e os nobres, sugerindo que as missas fossem conduzidas em inglês e aceitando Vikings como aliados.
Aethelflaed sabia da extensão da crueldade dos terríveis Daneses, apesar do esforço de manterem a ela e as outras mulheres afastadas das conversas sobre as matanças e saques. Ela se impediu de bufar. Ignorância não a ajudaria se fossem atacados por Vikings. Ela sabia o que aconteceria,como levantariam suas saias e rasgariam sua garganta depois.
Mas seu pai certamente não a chamara aqui para falar sobre Vikings.
Rei Alfred era jovem, solteiro e sem herdeiros. Precisava de uma esposa cuja família fosse forte, rica e de bom nome. Aethelflaed engoliu a mistura de excitação e medo. Nunca se imaginara rainha; tudo que queria era poder cuidar de seu pai e seu povo. Mas se esse era seu destino, não fugiria dele.
Aethelflaed nunca recusara poder.
— Sim? — Incentivou que seu pai continuasse, seu tom completamente calmo, sem trair sua ansiedade e curiosidade. Não serviria perder a compostura agora.
— E ele fez uma proposta.
Aethelflaed respirou profundamente; subitamente, ela parecia queimar mais quente que o fogo a sua frente.
Queria que seu pai terminasse de falar, porém se refreou. Já o apressaram uma vez.
De repente, a mão dele estava agarrada em seu pulso, uma força que ela não via nele há meses deixando marcas em sua pele. A alegria que crescia tentativamente dentro dela morreu; seu pai não pareceria tão apavorado se ela fosse ser rainha.
A garganta de Aethelflaed secou.
— Ele pediu que se case com Ubbe Ragnarsson, filho de Ragnar Lothbrok.
Aethelflaed agarrou o próprio braço, sua mão ao lado da de seu pai. Mais tarde, ela não saberia quais hematomas foram deixados por ele e quais foram deixados por ela.
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