Hardest of Hearts

2 Hold on to your heart


Notas iniciais
Um beijo especial pra Cloto que comentou no último capítulo, espero que gostem!!

— Ele não pode fazer isso com você! — Edwina esbravejou, o som ricocheteando pelas paredes de pedra dos aposentos de Aethelflaed. A garota se encolheu, a estranheza de escutar sua ama se referindo à Duque Dustan sem o devido honorífico muito mais chocante que o tom de voz dela. O rosto de sua ama estava lívido, manchas vermelhas se estendendo até desaparecer sob o tecido de suas roupas. Ela rompera em lágrimas mais de uma vez desde que Aethelflaed lhe dera a notícia.

Mesmo com os gritos de Edwina e o som do crepitar de sua lareira, cheia de lenha depois que Aethelflaed saíra pálida e tremendo do escritório de Duque Dustan, o silêncio em sua cabeça continuava ensurdecedor.

Ubbe Ragnarsson.

Um Viking.

Um pagão.

Aethelflaed se concentrou em respirar, todo seu corpo estranhamente dormente. Suas mãos e seu rosto formigavam e havia um gosto ruim no fundo de sua língua. Ela não sabia se havia se mordido ou se vomitaria nos próximos instantes. Ela tremia, violentamente, e sabia que não conseguiria ficar em pé agora se tentasse.

— Ele é meu pai. Pode fazer o que quiser comigo. — Aethelflaed respondeu, e o peso daquela afirmação a fez arquejar por ar. Um som dolorido foi arrancado de sua garganta e ela se curvou, engasgando nas lágrimas que vieram quentes e súbitas.

Ubbe Ragnarsson.

Um Viking.

Um pagão.

Aquele era o homem a quem ela seria entregue, a quem o rei escolhido por Deus e também seu pai a entregariam. Ela conseguia imaginá-lo, alto e forte como sabia que os Dinamarqueses eram, o cabelo loiro raspado e trançado da maneira estranha que os Vikings faziam, tatuagens escuras e violentas se espalhando na pele cheia de cicatrizes de batalha.

Ubbe Ragnarsson era um guerreiro, Ubbe Ragnarsson matara cristãos, matara ingleses, e ela deveria jurar fidelidade e obediência a aquele homem. Ele seria seu dono e muito provavelmente controlaria suas terras e seu dinheiro. Ele a tomaria, faria dela uma mulher e ela haveria de carregar seus filhos, talvez morrer para trazê-los ao mundo.

Aethelflaed arfou, procurando por ar que não parecia estar ali. Edwina a estava segurando, a voz dela um murmúrio confuso, e Aethelflaed percebeu pela primeira vez que estava ajoelhada no chão.

Ubbe Ragnarsson.

Um Viking.

Um pagão.

Que Deus tivesse piedade dela. Qual era seu pecado, para que fosse castigada daquela maneira? Por favor, Deus, ela pensou, e talvez estivesse falando aquilo, talvez estivesse gritando, me perdoe pela mentira e pela soberba, pela malícia e pela ira. Não deixe que isso aconteça comigo.

Não podia se casar com um pagão. Não podia se deitar com ele, carregar filhos os quais ela não poderia batizar.

— Vou falar com Sua Graça, — Edwina prometeu, e Aethelflaed estava aconchegada a ela agora, sua cabeça debaixo do queixo dela como quando era uma criança assustada com o escuro e os trovões. — Seu pai vai perceber que isso é um erro, Aethelflaed. Ele vai voltar atrás, vai desfazer isso. Você não pode se casar com um pagão, um Viking. Duque Dustan ama você, jamais faria isso.

— É a vontade do rei, — Aethelflaed murmurou, a voz embargada, e a última vez que sentira Edwina tão tensa foi quando a segurava nas noites em que os gritos infindáveis de sua mãe ecoavam no castelo. — Ele se aliou aos Vikings, prometeu terras a eles, e precisa garantir a lealdade deles.

— E dar terras à hereges assassinos não é o suficiente? — Edwina sibilou.

— Rei Ecbert fez isso antes e não foi o bastante. Casamento é a maneira mais eficiente de assegurar lealdade. Filhos são a maneira mais eficiente de assegurar lealdade. Foi o que fizeram na Frankia, com o tio dele. Björn Ironside não se comprometerá; Ubbe é a melhor escolha.

— E você o melhor sacrifício.

Aethelflaed soltou uma risada embargada. Sim, ela era. Seu pai não tinha herdeiros homens e era velho demais para produzi-los, não haveria irmão que se opusesse ao casamento ou que impedisse Ubbe de ter controle das terras quando seu pai falecesse. Doente e com uma mulher como herdeira, seu pai estava perdendo influência política. E havia tanta instabilidade na corte, com uma transição entre três reis tão rápida, a nobreza insatisfeita com as mudanças que o jovem rei Alfred trazia, com os rumores e simpatias que o cercavam.

Aethelflaed era uma presa fácil para Ubbe Ragnarsson e um joguete político bom demais para que seu pai desperdiçasse, não importava o amor que tivesse por ela. Rei Alfred consolidaria aliados políticos e bélicos fortes com um casamento como este, e Duque Dustan se beneficiaria. Ele teria a gratidão do rei e um genro que poderia lutar por ele, que poderia derrotar Vikings como os bretões falhavam tão frequentemente em fazer.

E tudo que isso custaria seria ela. Aethelflaed era uma filha amada, sim, mas ainda era apenas uma filha. E ninguém jamais poderia acusar a Inglaterra de se importar em demasiado com suas mulheres, ela refletiu, sombriamente.

Seria entregue como um cordeiro sacrificial por seu pai, por seu rei e por toda a nobreza, e não haveria ninguém a contestar os direitos de seu marido sobre ela após isso, ninguém que arriscaria a espada de Ubbe Ragnarsson para resgatá-la.

Aethelflaed fechou os olhos e obrigou sua respiração a retomar algum controle. Ela escutou o crepitar do fogo, os soluços abortados de Edwina, o som dos criados passando apressadamente por sua porta. Eles escutaram, sem dúvida, e mesmo se não tivessem, fofoca se espalhava como fogo entre eles. Ninguém jamais achava que serviçais prestavam atenção. Mas eles prestavam, Aethelflaed sabia. Sempre haveria ouvidos atentos e línguas dispostas se alguém procurasse nos lugares certos.

Lentamente, ela se desvencilhou de Edwina e se levantou. Aethelflaed encarou o fogo e secou o rosto, o gosto salgado das lágrimas em sua boca quando lambeu os lábios secos. Ela endireitou a coluna e alisou as saias; suas pernas estavam instáveis, mas a sustentaram. Estava tudo bem. Ela podia tremer, contanto que não caísse.

Princesa Gisla da Frankia fizera aquilo, ela se lembrou. Ela se casara e fizera do marido um governante digno, um cristão. Aethelflaed, que Deus a perdoasse por sua soberba, não admitiria ser menos do que ela.

Suas mãos tremiam, então ela as fechou em punhos e as escondeu na saia. Seus lábios tremiam, então ela rilhou os dentes. Seu coração chorava e se acovardava dentro dela, então Aethelflaed o endureceu e o escondeu.

Ubbe Ragnarsson podia ser uma pedra, imponente, imutável e forte. Mas Aethelflaed era água, flexível, traiçoeira e enganosa, e ela perseveraria muito mais que ele.

— Quero você comigo quando eu for para a corte. Quero meus criados comigo. Preciso de pessoas em quem em confio. — Ela disse, suas costas ainda viradas para Edwina. Não podia ver o rosto de sua ama, se o fizesse, se visse o medo que também sentia refletido ali, sua determinação se desfaria. Não podia se dar este luxo agora.

Não podia se deixar cair agora. Não sabia se teria forças para se reerguer novamente.

— Aethelflaed, não pode fazer isso, não pode simplesmente aceitar —

— Esse casamento vai acontecer, — Aethelflaed disse, e se sua voz era ríspida e dura, ela não falava com Edwina, e sim consigo mesma. — Rei Alfred precisa de aliados e eu posso fazer de meu pai um deles, posso fazer de mim um deles.

— Minha criança, por favor —

Não, — Ela sibilou e escutou Edwina soluçar atrás dela. — Não implore.

Não me deixe pensar em fazê-lo, Aethelflaed pensou. Não me deixe correr até meu pai, me jogar aos pés dele e implorar para que me livre disso. Não me deixe fazê-lo me entregar com medo e não me deixe descobrir que ele o faria mesmo assim.

— Ele é um herege, Aethelflaed. — Edwina argumentou mesmo assim.

— Você conhece os homens melhor do que eu, Edwina. Sabe que, no final, são todos hereges. Sabe que são todos sanguinários e estúpidos e maliciosos. Este ou outro marido, pelo menos Deus vai me perdoar se eu odiar um pagão.

Esse marido, ao menos, Aethelflaed poderia matar, se não o pudesse suportar. O pensamento enviou uma onda de medo e determinação por ela. O faria, se fosse necessário. Se Ubbe Ragnarsson fosse demasiado cruel, ela abriria a garganta dele enquanto ele dormia. Deus a perdoaria por matar alguém com tanto sangue cristão nas mãos, seu povo a perdoaria por fazê-lo também.

— Não precisa ser desta forma. Podemos encontrar outra pessoa, um marido que possa te amar, um marido que você possa amar. Você pode ter o que seus pais tinham, Aethelflead.

Ela quis ceder, então. Quis imaginar como seria ter alguém que a amasse tanto que permanecesse viúvo após sua morte, que a amasse apesar dos anos e do túmulo. Mas mesmo seu pai tivera suas amantes após a morte de sua mãe, e eles foram uma exceção, não a regra. Ela escutara qual era a regra das criadas que reclamavam de seus maridos e que tinham hematomas deixadas por eles, que mancavam após serem tomadas a força porque não podiam recusar seus maridos, que temiam dar à luz a filhos que não queriam. Ela escutara a regra nos sussurros assustados de outras jovens nobres, na frieza entre casais que jamais se amaram e que mal suportavam estar sob o mesmo teto. A regra era Rainha Judith, que traíra o marido mais de uma vez e que negara a coroa ao filho dele.

Aethelflaed não tinha ilusões quanto ao tipo de casamento que teria. Esperava respeito, ao menos, e gentileza, se possível. Mas aceitaria poder e influência, se não pudesse tê-los. Aceitaria um marido que a assustasse se ele assustasse seus inimigos também.

— Deveria começar os preparativos para a viagem agora mesmo. Partimos em menos de uma semana. — Aethelflaed declarou e saiu do quarto, a cabeça erguida, os ombros eretos, e sem olhar para o rosto de nenhum dos criados que passavam por ela. Ainda assim, sentia os olhares deles, a pena, o medo por ela.

E se encheram seu copo de vinho mais vezes durante o jantar e se seu pai não estava presente, ninguém teve coragem de comentar.