Hardest of Hearts

9 Is it just part of the process? Well, Jesus Christ, it hurts


Notas iniciais
Um beijão pra Valerie Lockwood, pra Cloto e pra Miss Dixon que comentaram no último capítulo! Gente, nossa fic tem pasta de inspiração no pinterest! Uma delicinha!

Quando você pensa em mim, quando te atinge subitamente que eu pertencerei a você — tem a sensação de que — de que um grande espaço vazio está se abrindo dentro de você, que há algo dentro de você que está simplesmente — morrendo?

— desconhecido



Ubbe marchou furiosamente pelos corredores do castelo de Alfred. A hipocrisia daquela corte o irritava, as mentiras deles e sua própria inércia forçada. Havia traições e intrigas nos corredores das casas dos vikings também, mas ao menos nestas ele era um jogador central. Ele podia tomar sua espada e demonstrar sua raiva com mais do que olhares fulminantes. Agora Ubbe era um exilado, o destino dele e de sua família nos ombros de um garoto que se chamava de rei. E Ubbe era forçado a ficar em silêncio enquanto o Conselho desafiava Alfred com uma sutileza fingida.

Se Alfred caísse, Ubbe caíria com ele. Ubbe, e toda a família que restava a ele. E havia muitos no Conselho que regozijariam com a destituição do rei.

Alfred era um menino, com a fama de um bastardo, e sem as habilidades de guerreiro que o irmão dele tinha.

Ubbe haveria de ser a espada dele, ou logo o ninho de cobras que matara seu pai o teria também.

Ele apoiou as mãos nas paredes frias de pedra por um momento. Seus músculos doíam, suas coxas maltratadas pelas longas cavalgadas, e ainda assim não havia nada que Ubbe gostaria mais do que pegar um cavalo e sair desse lugar.

Perguntava-se como Ragnar fizera isso por tantos anos, como ele aguentara esses pessoas com suas regras estúpidas e costumes hipócritas. Mas seu pai tivera um exército e uma casa para qual voltar. Ubbe não tinha nada além de uma guerra contra seu próprio povo ou contra os inimigos internos de Alfred, o que com certeza fariam os saxões com quem era forçado a conviver o odiarem ainda mais.

Não, isso não era inteiramente verdade. Ubbe tinha uma noiva, uma noiva saxã com terras, dinheiro, nome e posição. Era apenas por causa da noiva dele que Ubbe estivera naquele Conselho. Mulheres não eram permitidas no Wittan, e logo Ubbe responderia pelas terras e exército de Dustan. E então ele estivera no Conselho, e então ele testemunhara as brigas e o desprezo da corte, e então ele vira como estivera errado sobre seu sogro.

Dustan era um homem velho, e fragilizado pela doença, mas quando ele erguia a voz no Conselho, ninguém ousava desafiá-lo. Ele era um dos últimos aliados vivos de Rei Ecbert, e lutara contra as primeiras invasões vikings, a família dela velha e poderosa e respeitada. E Dustan era um homem inteligente, mais do que Ubbe gostaria que ele fosse. Ubbe assumira que a entrega de Aethelflaed fosse covardia e ambição.

Ambição podia ser, mas Dustan não era covarde, mesmo se a culpa o consumisse. Silenciosa e furiosamente escutando às reclamações dos lordes, Ubbe aprendera algumas coisas. Ele aprendera que agora, com as terras que o duque comprara com a virgindade da filha, apenas Alfred e a Igreja tinham mais territórios do que ele, e Ubbe não poderia dizer quem tinha mais dinheiro. Ele aprendera que Dustan não nasceu herdeiro da família, mas o terceiro filho e fadado a vida religiosa, e agora era o nome mais poderoso da família, os irmãos e primos mais próximos mortos há muito, e o viking temia descobrir como.

Ubbe ficara gelado quando percebeu que com daneses vivendo pacificamente nas terras de Dustan, mesmo o exército de Ivar e dos aliados dele dificilmente atacariam. O duque fizera uma cerca ao redor de suas terras mais importantes com os nórdicos, e com o próprio neto e herdeiro dele meio-viking, o legado de Dustan seria protegido das invasões, mesmo que mudado. Ele era um homem ardiloso, implacável e impassível, e entre os outros membros do Conselho, Dustan não tremia sob o olhar de Ubbe como fizera quando discutiram o casamento de Aethelflaed.

Assim como Aethelflaed podia mudar de uma garota devota e assustada para uma mulher ardilosa e desafiadora, também o pai dela podia ser ambos um político perigoso e um pai em luto.

Ubbe deixara a sala do trono furioso com tudo: com os deuses que permitiram que tudo isso ocorresse, com seu irmão ambicioso e vingativo, com Alfred e a mãe dele e os lordes. Ele não conseguia entender seu ódio súbito. Ubbe soubera que seria uma espada e um peão, soubera que suas opções eram poucas e difíceis, e ao menos ele possuía o consolo de se saber tão perto de consolidar o sonho de seu pai. Ubbe ganhara uma linda mulher e mais dinheiro do que tinha como um príncipe, pelos deuses!

Mas ele estava cansado de ser usado nos planos de pessoas melhores em política do que ele. Mesmo Aethelflaed, jovem e protegida como era, teria se saído melhor naquele Conselho do que Ubbe. Ela saberia como usar suas forças e fraquezas, da mesma forma que fazia a cada momento naquele maldito castelo cinza e silencioso.

Doera em Ubbe vê-la quase se desfazer naquele riacho, o cabelo ruivo brilhante arrancado da trança pelo vento, o rosto pálido corado, os olhos azuis brilhando com lágrimas. Aethelflaed parecera tão jovem quanto realmente era naquele momento, uma criança que passara seus curtos dezesseis anos dentro de um castelo, longe da guerra e da fome e do sofrimento. Quebrara algo dentro dele, pensar que alguém que falava sobre voar e sobre festivais de inverno estava prestes a ser jogada em uma guerra na qual jamais poderia ganhar glória alguma.

Não havia Valhalla esperando por mulheres como Aethelflaed, apenas a humilhação e dor que sofreriam nas mãos dos maridos a comando de seus pais.

Era uma vida triste, uma compartilhada por centenas de milhares.

Mas Ubbe não suportava sofrimento desnecessário se pudesse fazer algo sobre isso.

Eles haviam conversado pacificamente naquela tarde. Aethelflaed falara sobre o castelo dela, sobre os servos e as pessoas do vilarejo. Ela falara sobre os cantores com as harpas e os bardos com as histórias que traziam lágrimas aos olhos dela. Ela falara sobre os bretões que dominavam aquelas terras antes dos saxões e sobre como a antiga religião prosperara aqui, antes dos romanos destruírem as ilhas dos druidas e os cristãos acabarem com o resto.

Os soldados riram com ela e Aethelflaed perguntara sobre as famílias deles e chamara a cada um pelo nome.

Ela era diferente na floresta, longe dos olhos atentos da corte que ele sabia que jamais aceitariam uma mulher que mentia tão facilmente como ela e cujos olhos brilhavam quando falava sobre heresias.

Aethelflaed quase parecia pertencer às árvores que morriam, o cabelo dela como as folhas caídas, os lábios vermelhos como as bagas dos arbustos.

Se as coisas fossem diferentes, talvez Ubbe sentisse alguma felicidade em ganhar uma mulher bela como ela.

Mas a realidade era tão fria e irredutível como sempre, então amanhã ele se casaria com uma garota enquanto seu coração pertencia a outra mulher.

Ubbe saiu no pátio do castelo, o ar gelado da noite o banhando. Haviam oferecido aposentos dentro do castelo para ele depois que sua noiva chegou, porém ele recusara. Havia olhos suficientes nele sem todos os servos espiando cada movimento seu, e Ubbe queria passar os últimos momentos com Torvi em paz. Ela merecia mais do que tantos amores que quebraram o coração dela e tantos homens que a fizeram sofrer.

Ubbe podia apenas se consolar com o fato de que poderia dar uma vida melhor para ela como lorde, e com a certeza de Aethelflaed podia ser gentil.

Ubbe balançou a cabeça. Ele se livraria de suas preocupações e passaria o resto da noite nos braços de Torvi, e talvez amanhã, quando Alfred finalmente o acorrentasse a este reino e à promessa que Ubbe fizera, pareceria um sacrifício menor.

Subitamente, houve um movimento no pátio deserto, uma sombra se movendo nas sombras. Ubbe tensionou, pronto para uma luta. Ela não tinha nenhuma arma com ele, mas ainda era um guerreiro melhor do que a maioria dos homens de Alfred. Ele separou os pés, encontrando seu equilíbrio, os olhos focados no inimigo.

Porém a figura que se aproximou dele era baixa e esguia, e quando o capuz da capa escura que ela usava foi removida, cabelo longo e preto como o de um corvo brilhou sob o luar. Ubbe encarou a dama de companhia de Aethelflaed, o rosto bonito da jovem uma máscara fria de fúria. Ele procurou em sua mente pelo nome dela, esperando que ela falasse. Amice, ele se lembrou. A garota nunca estava distante de sua noiva, e havia uma selvageria e violência nela que Aethelflaed não tinha.

Ela segurara uma faca, ele percebeu, no dia do banquete, quando ele chegou tão perto de Aethelflaed que pudera cheirar o vinho nos lábios dela. Aquela garota, tão menor que ele, uma serva, estivera pronta para atacá-lo na frente de todos. Amice jamais dissera uma palavra para ele, escolhendo encará-lo ferozmente sempre que estava em sua presença.

— Se tem algo para me dizer, menina, diga logo. Está tarde e frio demais para que esteja aqui fora. Se algo acontecer com você, me culparão por isso. Volte para dentro do castelo, Aethelflaed vai estar se perguntando onde você está, — Ubbe disse rudemente para ela.

Amice sorriu, e a expressão era cruel no rosto adorável. — Eu estou aqui pela senhora, danês.

Ele franziu o cenho. — Aethelflaed pediu por mim? Aconteceu alguma coisa?

— Aethelflaed não precisa de você, nem agora nem nunca. Estou aqui para te avisar: não me importo com as intrigas de Alfred ou os planos e sacrifícios de Dustan. Se a ferir, o castelo estará cheio de pessoas que querem sua cabeça, e nós a teremos. A sua, e da sua amante, e dos filhos dela.

Ubbe se aproximou, assomando sobre a garota, raiva subindo dentro dele como a maré. Ele não se importava com as ameaças dela, mas não teria Torvi ou as crianças colocadas em perigo.

De repente, uma adaga estava pressionada em seu peito, a lâmina afiada e larga, forte o bastante para cortar o couro que ele usava se a garota aplicasse força o suficiente e soubesse o ângulo certo, e alguma coisa no esgar cruel da boca dela dizia que sabia.

— Como você ousa —

— Eu te aviso disto, Ubbe Ragnarsson: se algum dia erguer a mão para ela, ou humilhá-la, eu te amaldiçoarei sete vezes, e então sete mais. Você não terá descanso, nessa terra ou qualquer outra. Eu juro. — A adaga o deixou, e então Amice cortou a palma da própria mão. Ela não se encolheu com a dor, e o sangue parecia negro sob a lua. O sangue caiu no chão, a terra o bebendo gulosamente.

Ela sorriu para Ubbe novamente, e Amice parecia um espírito vingativo, pálida e violenta. Amice passou por ele, andando graciosamente. Ubbe piscou, chocado.

— Juramentos de sangue e maldições, — ele disse para as costas dela, sua voz perdida na noite — não são coisas de cristãos.

Amice se virou para ele, a forma dele meio escondida pela escuridão novamente, o capuz obscurecendo o rosto dela da vista.

— Não, de fato não são.



{...}



Aethelflaed encarou o próprio reflexo na vasilha com água, seu rosto mais definido do que estaria em um espelho de bronze. Sua coroa era feita de folhas verdes e flores brancas, destacadas em seu cabelo ruivo, seu vestido e jóias caras já devidamente colocados. Ela parecia algo saído dos sonhos de uma garotinha, uma princesa de mitos.

Aethelflaed parecia um fantasma.

Ela mal dormira na noite anterior, sua mente girando entre as palavras de Ubbe, seu desejo pela paz e segurança das palavras dele, e tudo que poderia dar errado nesse casamento. Se fosse fria e saxã demais, seu marido e o povo dele se ressentiriam. Se estivesse confortável demais com os vikings, os cristãos a rechaçariam, e então Aethelflaed estaria totalmente dependente dos nórdicos.

Amice, seu conforto estável, desaparecera sem explicações, deixando-a sozinha com seus medos, e Aethelflaed só conseguira fechar seus olhos cansados quando cedeu ao vinho para entorpecer sua mente.

E agora sua cabeça doía intensamente, sua boca seca, seu corpo cansado, sua pele pálida demais, os olhos afundados no rosto e cheio de olheiras. Os lábios dela estavam sem cor e rachados onde seus dentes os mordiam nervosamente.

Edwina pairava sobre ela, preocupada e desolada com sua aparência, beliscando as bochechas dela para trazer-lhe cor e oferecendo queijo e mel para tentar restituir seu ânimo. Aethelflaed podia ver que sua ama estava triste, o rosto da mulher um livro aberto depois de ser criada por ela.

Poderia ser pior, Aethelflaed disse a si mesma. Ubbe poderia ser cruel. Ao menos Deus parecia tê-la poupado daquilo.

Amice abriu a porta do quarto subitamente. Ela estava séria e compenetrada, o rosto dela sombrio e cheio de linhas rígidas. Havia uma bandagem na mão direita dela. Aethelflaed franziu o cenho.

— O que aconteceu com você? — Ela perguntou, sua voz quebrando. Aethelflaed limpou a garganta e pegou o mel. Não poderia vacilar assim quando estivesse dizendo seus votos.

Amice balançou a mão para ela, displicentemente, a bandagem se misturando às mangas longas do vestido dela. — Eu caí e cortei minha mão em umas pedras soltas na noite passada. Não precisa de preocupar. — Havia algo na voz dela, uma raiva que Amice nunca conseguia esconder completamente. Os olhos dela tinham um brilho quase febril. Ela também não dormira, Aethelflaed percebeu.

— Onde estava na noite passada? — Aethelflaed perguntou. Ela não acreditava que Amice a abandonaria em um momento como aquele sem uma boa razão.

Amice a encarou, impassível e analítica. — Estava ocupada, senhora. Acredite que não foi em vão.

Aethelflaed aprendera a não questionar sua amiga quando ela não oferecia mais informações. Amice era misteriosa às vezes, quando ela desaparecia na floresta ao redor do castelo e não voltava por horas, e nada a faria dizer a verdade sobre o que estava fazendo. Aethelflaed desistiu de sua curiosidade. Ela tinha o suficiente com o que se preocupar, e não queria que Edwina ficasse desconfiada dos sumiços de Amice.

Amice veio até ela, arrumando novamente suas roupas e jóias sem necessidade. Era um conforto ter as mãos familiares nela novamente depois que as servas da rainha a arrumaram naquela manhã. — Ele será gentil com você, — Amice sussurrou. — Ele será gentil com você, ou eu apagarei o nome dele desta terra. Não está sozinha, Aethelflaed.

— Ubbe prometeu ser bom para mim, — Aethelflaed murmurou de volta. Ela se sentia fraca e enjoada, seu estômago revirando.

— E ele será, — Amice assegurou ferozmente.

Um servo bateu na porta. — A rainha está aqui para vê-la, milady.

Aethelflaed endireitou os ombros. Ela assentiu, e Edwina abriu a porta.

Judith entrou graciosamente no quarto, vestida em veludo de um vermelho profundo e enfeitada em jóias grossas de ouro. Aethelflaed fez uma reverência.

— Você está linda, Lady Aethelflaed. Tenho certeza de que seu marido gostará, — Judith disse, o sorriso satisfeito e irritante sempre presente.

Aethelflaed engoliu sua raiva e inclinou a cabeça em agradecimento. É claro que Ubbe gostaria. Eles a estavam vestindo como uma pagã. — Obrigada, Majestade. A senhora está radiante também.

Judith riu. — Ah, mas eu não sou mais uma jovem noiva. Me diga, minha senhora, como se sente?

Aethelflaed sorriu sarcasticamente. Ela se sentia terrível, apesar dos melhores esforços de todos. E não havia como esconder seu estado de espírito. — Absolutamente encantada. — respondeu.

Rainha Judith a estudou. Havia uma arrogância que nunca deixava os olhos dela, uma calma que enfurecia Aethelflaed. Ela fora exatamente o que esta corte maldita pedia dela a cada respirar que dava neste lugar. Não concederiam a ela alguns minutos para lamentar sua vida antiga agora?

— Temo que minha visita seja breve. Seu pai irá querer falar com você antes de te levar até o altar, certamente, — a rainha disse formalmente.

Aethelflaed sentiu o sangue deixar seu rosto. — Meu pai? — Dustan não olhara direito para ela desde o dia que anunciara o noivado.

Judith assentiu. — Eu gostaria de conversar um pouco com você, minha senhora, a sós, se permitir. Um conselho, de uma nobre para outra, sobre o matrimônio.

Ninguém além de Amice esperou pelo consentimento de Aethelflaed para deixar o quarto. A rainha estava acima deles, e se ela queria privacidade, eles eram obrigados a conceder. Amice apertou a mão dela antes de sair, e o olhar que ela mandou para as costas da rainha antes de fechar a porta era tão fulminante que Aethelflaed se perguntou como Judith não sentiu.

Judith se sentou em frente a lareira acesa e gesticulou para que Aethelflaed fizesse o mesmo. Ela seguiu, as pernas adormecidas, o coração batendo rapidamente na garganta. Aethelflaed se forçou a ficar quieta e escutar com atenção. Ela podia desprezar esta mulher, mas Judith era a rainha, e inteligente e ardilosa. O conselho dela teria valor.

— É algo assustador, o casamento. A guerra das mulheres, poderia dizer, é travada dentro da casa. Wessex e meu filho agradecem seu sacrifício, minha senhora, — Judith disse, encarando-a sem expressão.

Aethelflaed engoliu apesar de sua língua seca. Sacrifício implicava uma escolha que ela não tivera. Ela estava sendo imolada pelos pecados de outros. — Então a nossa é uma guerra mais gentil, Vossa Majestade.

Judith riu sombriamente, dor e raiva cruzando a expressão dela. — Você é inteligente demais para acreditar nisso, menina. Nossa guerra é mais difícil de vencer, e não haverão cações sobre nossa coragem e resiliência. O dever é sempre mais pesado nos ombros de uma mulher. — Ela observou o fogo, e pela primeira vez que Aethelflaed se lembrava a rainha parecia triste e cansada. — É verdade que Ubbe Ragnarsson não é um homem cruel, pode encontrar conforto nisto. Saiba que eu não minto para você, senhora, pois ainda te casaria com ele se Ubbe fosse cruel, se isso ajudasse a guerra do meu filho.

Aethelflaed travou a mandíbula, os dentes dela rangendo. Suas saias não eram volumosas o bastante para esconder suas mãos, e as mangas de seu vestido acabavam em seus pulsos, então ela não podia apertar os punhos como gostaria. Ela sabia que a rainha pensava aquilo, mas ouvi-la dizendo era diferente.

— Não sei se encontrará amor no seu casamento algum dia, — a rainha continuou, ignorante à raiva de Aethelflaed. — Eu nunca encontrei. Mas encontre poder, Aethelflaed. Amor é doce, mas não irá te proteger. Fará de você vulnerável e estúpida. Ame-o se puder, mas nunca se esqueça que o amor de um homem é algo frágil; Esses vikings amam a glória e a guerra para sempre, mas as mulheres deles apenas temporariamente. Porém talvez você encontre prazer, — Judith sorriu para ela maliciosamente. — Vikings têm a fama de serem grandes amantes.

Aethelflaed piscou lentamente. A honestidade de Judith a chocava. Havia grandes perigos em admitir que o casamento dela com Aethelwulf fora uma farsa. Todos sabiam, mas a corte inglesa se sustentava em suas hipocrisias. A rainha estava oferecendo algo que custava a ela.

— Eu não saberia, Majestade, — Aethelflaed disse, constrangida. Ela estava tremendo.

— Seu marido tem uma amante, não tem? — Judith perguntou, pensativa.

Aethelflaed encarou a renda de seu vestido, esperando que a raiva em seus olhos ficasse escondida. Não havia uma alma naquele castelo que não soubesse que Ubbe e Torvi eram amantes, mas fazê-la admitir isto era um insulto. — Sim, ele tem.

— Não ache que é uma benção se Ubbe não estiver na sua cama. Pode temer o toque dele, mas terá muito mais a temer se Torvi der um filho a ele. Na idade dela, não é provável, mas eu não confiaria apenas nisso. Homens amam seus primogênitos, independentemente de quem os tenha dado. Certifique-se de que o primeiro filho de Ubbe seja seu e ele será grato. Se Torvi tiver um filho dele, seu marido poderá querer que a criança herde as terras. — A rainha se levantou. — Um filho será segurança para você, Aethelflaed. Depois que as guerras acabarem, se tiver um herdeiro, Ubbe poderia morrer e você viveria sua vida sem preocupações. Talvez descubra, como eu, que a viuvez não é algo ruim, afinal.

Aethelflaed se levantou vacilante. Judith acariciou o rosto dela, e ela se encolheu. Um sorriso divertido apareceu nos lábios da rainha. — Eu diria a você para parecer menos destruída no casamento, mas a corte certamente adora a fragilidade que você mostra a eles. É mais forte do que sabe, Aethelflaed. Espero que sobreviva a esta humilhação, assim como eu sobrevivi a minha.

— Obrigada pelo seu conselho, Vossa Majestade, — Aethelflaed respondeu, seu peito apertado. Ela queria estapear esta mulher, com seus ardis e pragmatismo. Mas ela não podia negar que Judith estava certa. Aqueles pensamentos já passavam por sua cabeça em suas noites insones, e se os rumores fossem verdadeiros, Judith sobrevivera a mais do que era esperado de Aethelflaed.

A rainha estava certa, e isto a deixava ainda mais desesperada.

Judith a deixou ali, sozinha na frente do fogo, e Aethelflaed desabou na cadeira. O medo dela era uma coisa fria e pegajosa, enchendo-a até que sua cabeça parecesse prestes a flutuar. Ela queria as palavras bondosas de Edwina e a proteção feroz de Amice, mas ninguém veio por ela. O silêncio era uma coisa terrível, solitário e poderoso, enchendo-a até que Aethelflaed sentiu que jamais escutaria algo além de sua respiração novamente.

Era o mais solitária que ela já se sentira, presa no limiar de sua vida como era antes e como seria agora. Aethelflaed queria que tudo acabasse, de um jeito ou de outro, esta cerimônia ridícula e o banquete que viria depois, ela queria que o amanhã chegasse e o pior acontecesse de uma vez, sem mais espera e antecipação.

— Ave Maria, Gratia Plena, por favor, que ele seja bondoso, — Aethelflaed rezou, as palavras mal saindo de seus lábios. — Que ele seja mais gentil do que as histórias dizem, e que eu dê um filho a ele logo. Faça-o me respeitar, e me poupe da indignidade de ser uma estrangeira na minha própria casa.

Isso, ela não poderia suportar. O povo que a servia dependia dela, e Aethelflaed não permitiria que ninguém, nem mesmo seu marido, os colocasse em risco.

Uma batida suave soou à porta, uma sucessão de quatro pancadinhas em um ritmo familiar. O som a lembrava de histórias contadas a ela quando era criança, de conforto quando estava doente e de presentes em seus aniversários. O som fez sua garganta embargar e mágoa doer em seu peito.

O pai dela entrou, e pela primeira vez em sua vida Aethelflaed não se levantou para cumprimentá-lo. Seu coração partido pesava dentro dela, prendendo-a à cadeira. Deixo-o experimentar um pouco de desrespeito, ela pensou, estou fazendo muito mais por esta família do que ele.

— Querida, — Dustan a chamou, parado desconfortavelmente perto da porta. Ele observou suas roupas rapidamente, quão diferentes eram das saxãs, e uma sombra passou no rosto dele.

— Meu senhor, — Aethelflaed respondeu friamente. Ela esperou que ele falasse. Não gastaria suas amenidades e paciência nele.

— Pensei que pudéssemos conversar um pouco, antes de eu te entregar, — o pai dela disse, e a escolha de palavras fez um calafrio descer por sua espinha.

— Se é o que deseja, senhor. — Ela olhou pela janela enquanto Dustan se servia de vinho e se sentava na cadeira à frente dela. Que par lindo eles eram, ambos pálidos e assombrados. Miséria adorava companhia, afinal.

O pai dela a olhou, estudou a expressão certamente miserável dela, e suspirou profundamente.

— Aethelflaed, eu sinto muito.

— Sente? — Ela sibilou de volta, mais insolência do que jamais mostrara a ele. Não importava agora. Em poucas horas, Aethelflaed pertenceria a seu marido, e o pai dela morreria logo também. Todo o amor dela, e este era o fim.

Dustan franziu o cenho, o rosto dele endurecendo. — Sinto sim. Te pouparia disto, se pudesse, acredite.

— Você poderia. Poderia ter negado o pedido de Alfred, — Aethelflaed acusou, sua voz embargada, suas mãos tremendo. A respiração dela vinha dificilmente.

— Outro lorde teria concordado. É melhor que tenhamos sido nós. — Dustan rebateu, parecendo irritado por ela não compreender.

— Eu não concordei com nada! — Aethelflaed vociferou, o rosto quente com raiva. Dustan se afastou, surpreendido.

O rosto dele ficou sombrio, e ele parecia mais novo, mais forte, em sua raiva. — Você é minha filha, Aethelflaed. — Ele lembrou, um aviso claro na voz dele.

— Eu sou nada e ninguém para você, — ela disse, a verdade que arranhava sua consciência constantemente, o pesar que a afligia mais do que seu casamento com Ubbe. — Eu sou uma folha em branco na qual você e suas ambições escreveram um peão para os seus jogos. Jamais me opus a você, sempre fui uma filha boa e obediente, e é assim que me recompensa? Me dando a um viking pelo pedido de um rei fraco?

— Você fez o seu dever para comigo e sua família, — a voz de Dustan ficou perigosamente baixa. — Assim como fará novamente. Alfred pode ser jovem, mas ele tem demais de Ecbert para ser fraco. Ele é mais inteligente que o irmão tolo dele e do que o pai ignorante. Conheci poucos homens como ele na minha vida, mas Alfred está destinado a grandeza, e o ressentimento de um grande homem não é algo a ser desconsiderado.

— E o meu ressentimento, pai? — Aethelflaed perguntou a ele, seus olhos queimando com lágrimas. — Eu deveria ser desconsiderada?

— Não consegue ver o que eu fiz por você? Por nossa família? — Dustan disparou, furioso.

— O que você fez por mim foi me dar a um herege! O que fez é pecado! — Ela gritou, e as lágrimas que ela suprimira por dias escorreram por seu rosto.

Dustan não se comoveu com elas.

— Pecado? Não me fale sobre pecado, menina! Sua mãe era pura e devota, e onde ela está agora? Morta e apodrecendo, meu filho dentro dela. Nós temos um bastardo por rei e uma prostituta por rainha. Eu estava lá quando arrancaram a orelha dela por adultério, sabia? E Ecbert a perdoou, e forçou o filho a adotar o bastardo e criá-lo como dele. Pecado nunca foi um impedimento para grandeza. Quer viver sem pecado? Eu deveria ter te mandado para um convento, então. Mas Deus quis que eu não tivesse outros herdeiros, e o destino da nossa família está com você.

Aethelflaed se levantou. — Deveria ter tomado outra esposa, então, e me poupado esta humilhação!

Dustan agarrou o pulso dela, puxando-a com força para frente, pressionando o bracelete de folhas em sua pele. Aethelflaed tropeçou e caiu de joelho na frente de seu pai, atordoada. Ele a agarrou pelo queixo, o impacto da mão dele em seu rosto firme e doloroso, deixando marcas. Aethelflaed mordeu a língua na queda e sua boca se encheu do gosto de sangue.

Ela não estava respirando. Suas lágrimas vieram com mais força, vergonha e humilhação esquentando seu rosto mais do que o os dedos de seu pai. Dustan jamais levantara a mão para ela antes.

— Desconte sua raiva em mim, se quiser, Aethelflaed, mas nunca mais desrespeite sua mãe desse jeito. — Dustan latiu para ela, os dentes rilhados, e ela soluçou, chocada.

Aethelflaed se lembrava das discussões e dos gritos que podia ouvir do escritório de seu pai quando os conselheiros dele o incentivaram a se casar novamente. Dustan não teria outra esposa, e a mera ideia o deixava possesso.

— Pai, não foi isso que eu quis dizer, — Aethelflaed tentou explicar, sua voz fraca e baixa. Ela se sentia vazia e entorpecida, mesmo sua raiva a deixando.

— Eu amava a minha esposa, jamais teria outra senhora no castelo que era dela. O amor que eu tenho por sua mãe te manteve segura, resguardou a sua infância por tempo demais, porque eu não suportava a ideia de perder a última coisa que ela me deixou. Porém não mais. É chegado a hora de você cumprir seu dever para com a nossa família. Eu não sobreviverei a este inverno, eu sei. E não aceitarei que outro lorde se case com você, tome as terras e apague nosso nome. Case-se com o pagão, Aethelflaed, e ninguém o deixará tomar o que é nosso. Ninguém se esquecerá quem foi corajoso o bastante para sacrificar a própria família quando Wessex precisou.

Dustan a soltou e se levantou bruscamente da cadeira.

Aethelflaed ainda estava chorando. Onde a pulseira fincara em sua pele, filetes fino de sangue escorriam. Ela puxou cuidadosamente a manga do vestido, tentando mantê-la intacta.

Seu pai a observava da porta, uma frieza que ela não conhecia nos olhos dele.

— Levante-se e seque suas lágrimas, menina. Seu marido está te esperando.