Hardest of Hearts

17 Kings and Queens, they've all knocked on his door


Notas iniciais
Voltei! Muito obrigada pelos comentários maravilhosos da Cloto, Minerva Lestrange, Miss Dixon e Rafa Black!

Ela se conhecia, como havia, lentamente, ao longo dos anos, se transformado em um gato, um lobo, uma cobra, qualquer coisa além de uma garota. Como havia arrancado sua feminilidade como a morte.

— Deathless, Catherynne M. Valente



Aethelflaed enfiou a agulha dolorosamente no polegar quando Mina abriu a porta para os aposentos dela súbita e barulhentamente, o som surdo do corpo pequeno dela batendo na porta pesada de madeira a fazendo se encolher em simpatia. Mina não pareceu notar o impacto.

Aethelflaed praguejou silenciosamente, afastando as mãos rapidamente da linha prateada com a qual ela bordava um vestido antes que o sangue surgindo em seu polegar a pudesse manchar. Ela colocou o dedo na boca, sentindo o gosto metálico.

O rosto de Mina estava corado, os olhos escuros brilhando com entusiasmo e um sorriso enorme e frenético nos lábios.

Amice se levantou de onde estava sentada à janela, abandonando o livro que tinha nas mãos, um volume antigo sobre ervas medicinais.

— O que foi? — Amice perguntou urgentemente.

— O rei — a voz de MIna veio alta e ganida.

— Shhhhh! — Aethelflaed ralhou juntamente a Amice. As paredes desse lugar tinham ouvidos. Ela se apressou para a porta, porém antes que pudesse fechá-la, Aethelflaed escutou os passos apressados de Aewynn se aproximando.

Ela esperou até que sua outra dama de companhia entrasse no quarto em silêncio carregado, a mente borbulhando com possibilidades. Apenas a animação no rosto de Mina acalmava seus nervos.

Aewynn entrou no quarto e imediatamente fechou a porta, colocando o corpo contra ela como se fosse impedi-la de ser aberta por uma força invasora.

— O rei vai se casar, — Aewynn sussurrou para o quarto silencioso, os olhos cor de mel arregalados.

Mina se virou para ela como um furacão, o cenho franzido. — Eu queria ter dito isso! — Protestou furiosamente.

— Tem certeza? — Aethelflaed insistiu, afastando sua dama de companhia da porta.

Aewynn e Mina assentiram fervorosamente. — Conversamos com as filhas das damas de companhia da rainha. Ainda é necessário saber se Rei Alfred vai aprovar da garota, mas ela se chama Elsewith e é sobrinha de Judith. Se o rei gostar dela, Elsewith já tem permissão do pai para se casar, — Aewynn explicou rapidamente.

Mina soltou um risinho animado. — É claro que ela já tem permissão. Quem não gostaria de se casar com um rei?

— Você ficaria surpresa, — Amice comentou. Ela se virou para Aethelflaed. — Isso pode ser bom para você. Um casamento real pode ser o suficiente para diminuir os rumores sobre a sua união com Ubbe.

Aethelflaed deu um sorriso amargo para ela. — E tenho certeza que Judith já pensou nisso também.

Amice deu de ombros. — Se Judith está empurrando esse casamento no filho dela, é bem feito pelo que ele fez com você. Mas é uma coisa boa, — insistiu.

Aethelflaed assentiu, encarando cegamente uma pequena gota de sangue que surgira novamente em seu polegar.

O jantar na noite anterior transcorrera bem o suficiente. Ubbe a acompanhara, aceitando o pedido tímido e nervoso de que ele a escoltasse pelo braço até o salão, como seria costumário, com provocações gentis.

Os olhos da corte recaíram sobre eles assim que haviam entrado, tomando nota da mão que Aethelflaed repousava na dobra do cotovelo dele, seguindo cada passo que eles davam. Aethelflaed mantivera seu rosto impassível e seu sorriso fácil, o vestido que escolhera para o jantar de um azul claro e vibrante.

Ela suportara a atenção agressiva com graça e risadas melódicas, mas ao lado dela Ubbe permanecera quase silencioso. O olhar dele retornava frequentemente para a rainha, e Aethelflaed se perguntou quanto daquilo era culpa dela, se ele agora se ressentia de Judith pelas ameaças veladas, por forçá-los a essa situação. Isso apenas a deixava mais grata por ter decidido não contar a Ubbe sobre a visita insolente de Heahmund.

Contra a rainha, Ubbe era impotente. Contra o bispo… nem tanto, e Aethelflaed poderia precisar de Heahmund ainda.

Ela não culpava Ubbe pela frieza com a qual tratava os saxões que se aproximavam deles. Ele não possuía paciência para a corte, e tinha dignidade demais para bajulá-los como ela fazia. Aethelflaed gostaria de poder se dar ao luxo de ter essa mesma firmeza de caráter.

E então havia a família dele no meio das pessoas, banhados pela luz dourada das velas.

Eles se destacavam no meio dos saxões de cabelos escuros, fortes e orgulhosos, a multidão partindo para eles mesmo que os olhares que mandassem na direção deles fosse ressentido. Torvi estava lá, linda e triste e encorajadora. Ela sorriu para Aethelflaed, e o sorriso que ela deu em resposta foi o único verdadeiro que deixou seus lábios a noite toda.

Como Torvi se sentia, escutando os sussurros que arrastavam a honra do homem que ela amava pela lama? Seria o conceito de honra dos vikings o mesmo que Aethelflaed conhecia? Ubbe dissera, vez após vez, que não se importava com as mentiras dos saxões sobre ele, mas ainda assim ela se perguntava.

Aethelflaed ficaria furiosa se alguém que ela amasse fosse caluniado.

Ela tentou imaginar como seria ter um homem que amava empurrado para a cama de outra pessoa, e não conseguia trazer o cenário à sua mente. Amor sempre fora um conceito distante para ela. Fidelidade também.

Homens tinham amantes, e às vezes tinham bastardos. Era a maneira do mundo. Como uma nobre, ela esperava o respeito de ter amantes e filhos ilegítimos mantidos bem longe de sua vista. Porém agora, olhando para Torvi, não podia deixar de se sentir como se o erro fosse seu.

Respeito, companheirismo e amizade. Aethelflaed queria essas coisas em um casamento. Mas amor, ela não conseguia imaginar.

A distância de Ubbe findara, no entanto, quando o pai dela entrara no salão.

Ubbe ficara tenso e subitamente parado demais, e Aethelflaed teve a sensação distinta de estar sentada ao lado de uma fera prestes a atacar.

E então a luz das velas iluminaram Dustan completamente, e a comida virara cinzas na sua boca.

O duque continuava tão mal quanto quando o havia visto dois dias atrás. A pele pálida e cinzenta, a estatura alta tensa e trêmula. O coração dela disparara tanto que conseguira sentir a pulsação nas pontas dos dedos, a respiração rápida.

Levara um momento longo e doloroso para conseguir se recompor, para forçar suas feições a ficarem belamente plácidas novamente, para sufocar qualquer sinal de fraqueza que essa corte poderia explorar.

Dustan havia sorrido rigidamente para ela apenas uma vez antes de tomar seu lugar ao lado do rei, satisfeito em ignorá-la mais uma vez. Talvez não fosse apenas crueldade que o mantivesse distante, Aethelflaed percebeu. Se sua dor fosse tão difícil de suportar para seu pai como a dele era para ela, então seria melhor que fingissem nem ao menos estar no mesmo lugar, melhor que se mantivessem afastados de todo tipo de emoção que poderia torná-los vulneráveis.

Ubbe percebera. Ela havia se dado conta assim que conseguira respirar sem sentir que alguém pisava em seu peito. Se ele pensava que a mudança súbita em Aethefllaed era devido a tristeza ou mágoa, não poderia dizer, mas ele percebera, e então Ubbe começou a falar de verdade, a voz dele a carregando por aquele maldito jantar que não tinha escolha se não suportar.

Ele havia se curvado na direção dela e sussurrado comentários sobre os soldados que se espalhavam pelo salão, apontando quais deles estavam bêbados demais para fazer o trabalho direito, quais o odiavam mais, quais deles odiavam Alfred mais. Ubbe finalmente contou a ela sobre a excursão que fizera, a boca dele repuxando em um sorriso provocante quando Aethelflaed arfou com a recontagem de como ele atirara um machado na cabeça do rei.

E então Ubbe havia perguntado, tão baixo que ela quase não escutara, se Aethelflaed gostaria que ele atirasse um machado na cabeça da rainha também.

A gargalhada que se desprendera dela a surpreendera tanto quanto os outros convidados.

Estava consciente dos olhos deles nela, a atenção de Judith um peso físico em suas costas, porém os havia ignorado. Estava ali para convencer a corte de que estava ao menos resignada com este casamento. Deveria conversar com o próprio esposo para o fazer.

Ubbe a acompanhara até o quarto dela após o jantar, e ficara na porta de seus aposentos apenas por tempo o bastante para desejar uma boa noite antes de partir, pelo que Aethelflaed não o culpava. Não sabia se Ubbe havia visto Torvi depois de retornar ao castelo, mas seu marido já havia compartilhado a cama com ela naquele dia, e concedera um jantar.

Era apenas justo que ele aproveitasse o tempo com a mulher que amava.

Amice entrara no quarto pouco tempo depois, ajudando com seu vestido e rindo enquanto provocava Aethelflaed e exigia detalhes sobre o que acontecera entre ela e Ubbe naquela tarde.

A corte já sussurrava sobre a interação de Aethelflaed com seu marido, sobre quão diferente da garota assustada que entrara na capela do castelo ela parecia, diferente da garota que fora abandonada na noite de núpcias.

E agora que Alfred provavelmente iria se casar…

Aethelflaed suspirou.

— Acha que vão pedir que eu acompanhe as damas de companhia da Princesa Elsewith quando ela chegar aqui? — Aethelflaed perguntou para ninguém em específico.

— Eu diria que sim. Seria uma grande honra, — Aewynn respondeu, franzindo o cenho. — Você é a nobre de mais alta patente aqui, exceto os membros da família real. Seria um insulto não pedir que acompanhe a princesa.

Aethelflaed pressionou os lábios em uma linha rígida e insatisfeita. — Ótimo, é exatamente o que eu queria. Mais tempo com a família da rainha.

Amice fez uma careta de desgosto.

— Vocês duas ratinhas descobriram quando Elsewith vai chegar aqui? — Amice perguntou às meninas.

Aewynn empurrou o ombro dela levemente, fingindo estar ofendida.

— Ela deve chegar amanhã de tarde, — Mina respondeu.

Aethelflaed correu os dedos pelo bordado que abandonara. Ela tomou uma respiração profunda, centrando-se.

— Temos muito trabalho a fazer, então.

{...}

A respiração de Torvi era profunda e ritmada, mas Ubbe sabia que ela não estava dormindo.

O colar que Aethelflaed dera a ela permanecia à vista, pesado e caro. Havia outras coisas novas espalhadas pelo quarto também, vestidos e roupas de montaria e roupas para as crianças, cobertores cobertos com pelos para o frio que se aproximava, almofadas belamente bordadas.

Torvi não dissera nada a ele, mas Ubbe sabia que esses, também, deviam ser presentes de Aethelflaed.

— Lagertha visitou sua esposa quando você saiu, — Torvi disse, subitamente.

Ubbe quase se encolheu.

Sua esposa.

Ele frequentemente pensava em Aethelflaed dessa maneira, a responsabilidade do título pesada em sua língua de uma maneira que nunca fora com Margrethe. Ubbe sabia o bastante sobre os saxões para saber que Aethelflaed era considerada dele de uma maneira que Margrethe só fora quando era uma escrava, e mesmo assim era diferente. Um escravo podia ser liberto. Para cristãos, apenas a morte encerrava um casamento.

Mas ouvir Torvi dizer dessa maneira…

Seria mais fácil, menos sério para o que existia entre ele e Torvi, se Aethelflaed fosse apenas uma mulher que ele tomara por prazer. O amor de Ubbe já persistira a presença de outro em sua cama antes.

Porém não persistira a lealdades diferentes.

— O que Lagertha queria com ela? — Ubbe perguntou, a voz rouca.

Torvi deu de ombros, os músculos esguios e fortes pressionados contra ele.

— Conhecer a garota. Vamos trabalhar próximos a ela, e aquele pai dela não vai ficar muito mais tempo nesse mundo.

— Se tivermos sorte, — Ubbe comentou sombriamente, sendo respondido com silêncio contemplativo.

— Você não gosta dele, — Torvi disse finalmente, quase curiosa.

— Não tenho razão alguma para gostar, — ele grunhiu de volta.

— Foi Dustan que bateu nela? — Torvi perguntou. Ubbe apenas assentiu, um som de irritação deixando seu peito. — Ela parecia que ia chorar quando o viu ontem.

Ubbe encarou as vigas de madeira do teto. — Eu percebi. — Foi tudo que disse em resposta.

Torvi não pressionou o assunto, não questionou sobre o que ele tanto falara com Aethelflaed no jantar, e Ubbe não se sentia inclinado a explicar. Estava perfeitamente contente em deixar que ela lidasse com os nobres que se aproximavam tentativamente deles, feliz em aproveitar o vinho e carne que sempre fluíam abundantes no castelo.

Até que Dustan entrou, doente e pior do que no dia de seu casamento, e sem olhar duas vezes para a filha.

Ubbe sabia como o medo aparecia nas pessoas. Como guerreiro, pavor era a última coisa que muitos homens sentiam ao vê-lo. E Aethelflaed hesitara ao lado dele, por um segundo a menina assustada que o encarara com grandes olhos marejados ao estar sozinha com ele.

E Ubbe havia feito uma promessa a ela. Bondade e proteção, fora isso que jurara.

Então ele a distraíram, porque a mulher que Aethelflaed era quando ria era mais fácil de lidar do que a lady enigmática escondida por trás de sorrisos educados.

A corte parecera tão chocada, tão absurdamente incrédula, de assistir Ubbe sendo qualquer coisa além de um selvagem.

Hipócritas, todos eles.

Perigosos, também, eles e Judith, que encarava Aethelflaed com uma satisfação sádica no rosto.

— Aethelflaed vai ser a Duquesa em breve. Lagertha queria saber com quem ela estará lidando, — a voz de Torvi o arrancou de seus pensamentos.

Sim, Lagertha gostaria de ter essa vantagem. Ela sempre fora cautelosa e paciente demais para entrar cegamente em qualquer coisa.

— E o que Lagertha pensa dela? — Ubbe perguntou, curioso. Lagertha dissera pouco a ele sobre seu casamento além de um aviso sobre a natureza tímida de mulheres cristãs e a necessidade daquela aliança.

Torvi voltou os grandes olhos azuis para ele, então.

— Ela acha que Aethelflaed é esperta, mais do que deixa que os outros percebam. E que podemos atingir grandes coisas juntos, — a boca dela repuxou brevemente em uma careta. — Ela também pensa que os saxões sufocam as mulheres deles.

Ubbe travou a mandíbula. — Eles o fazem, — disse, simplesmente.

O rosto machucado de Aethelflaed veio à sua mente.

Torvi se ergueu em um cotovelo, olhando para o rosto dele.

— Ela se ofereceu para conseguir tutores para as crianças, — ela comentou.

Ubbe franziu o cenho. — O que?

— Aethelflaed. Ela mandou uma carta. Perguntou se meus filhos sabem ler e escrever, se eles entendem a língua dos saxões. Disse que poderia cuidar da educação deles, matemática e astrologia e história. Outras línguas também, — Torvi soltou uma risada afetada. — Ela até mesmo me assegurou que nenhuma das aulas tratariam da história da Inglaterra ou do que eles pensam sobre os nórdicos. Um dos estaladiços dela me abordou, se ofereceu para ensinar as crianças a montar. Disse que podemos usar os cavalos do duque, se quisermos.

Ubbe encarou o teto, sem saber como responder àquilo.

Uma educação era algo caro e difícil de se obter. Ubbe tivera acesso a um pouco, como príncipe, porém suas preocupações nunca estiveram centradas em conhecimento teórico.

Aethelflaed não dissera nada sobre isso a ele. Talvez ela esperasse que chegasse aos ouvidos de Ubbe eventualmente, mas teria sido mais fácil simplesmente contar a ele, perguntar a opinião dele no assunto, se o que ela quisesse fosse gratidão.

E ela o tinha.

— Ela está tentando ser respeitosa, — Ubbe suspirou pesadamente, se lembrando da conversa que tiveram no bosque. — Aethelflaed se desculpou pelo casamento. Disse-me que era cruel de Alfred me obrigar a isso quando já tenho você.

— Eu não sou sua esposa, Ubbe. Poderia facilmente ter outra mulher. Foi exatamente assim que nós dois começamos. — Não havia julgamento na voz de Torvi, nenhuma raiva que Ubbe jamais falara de casamento com ela.

— Não acho que os cristãos compartilhem dessa ideia, — ele respondeu.

Torvi franziu a testa. — Aethelflaed não tem nada a temer de mim. Não a culpo pelo casamento. Eu estava presente na cerimônia, Ubbe. O desgosto dela era óbvio, — a boca dela se retorceu em uma linha enojada, alguma lembrança dos casamentos desastrosos que ela tivera quando Ubbe ainda era jovem demais para conhecê-la além de uma presença periférica em sua vida. — Pode dizer a Aethelflaed que ela não me ofendeu.

— Não acho que os presentes vão parar com isso, se for o que quer, — Ubbe comentou, olhando significativamente para os itens espalhados pelo quarto.

Torvi suspirou. — Eu sei. E não quero que parem. As crianças estão felizes, — os olhos dela ficaram distantes. — Uma educação, uma vida sem dificuldades… gostaria de que eles pudessem ter isso.

Ubbe entrelaçou os dedos deles. — E eles vão ter, Torvi. Nunca mais vai precisar temer pelos seus filhos.

Ela apertou a mão dele com força, a atenção retornando para o presente, para ele.

— Ela mandou presentes para Bjorn e Lagertha também.

Ubbe ergueu ambas as sobrancelhas. — Mesmo?

Torvi assentiu. — Sim. Coisas caras. Você não ganhou nenhum presente, Ubbe? Está com inveja? — Ela mandou um sorriso provocante para ele. Ubbe revirou os olhos, sorrindo também. Torvi empurrou o ombro dele, as mãos fortes e confiantes. — Você já vai ganhar o título do pai dela e uma garota linda para aquecer sua cama. Não seja ganancioso.

Ubbe rolou para cima dela, sorrindo matreiro quando Torvi arfou sob o peso dele.

O título não significava nada para ele, mas certamente era grato pela terra que vinha com ele, pela segurança que seu povo e família teriam nela.

E quanto a garota linda, bem. Ubbe não estava reclamando.

{...}

O relinchar dos cavalos era um som reconfortante, e se o cheiro dos estábulos não era exatamente agradável, era ao menos familiar. Aethelflaed acariciou a cabeça do enorme cavalo marrom, deixando que ele comesse de suas mãos enluvadas.

Ela queria cavalgar. Depois que Princesa Elsewith chegasse, não haveria tempo. E isso a mantinha fora do castelo, longe dos nobres que infestavam seus aposentos com cartas e convites, longe dos criados que serviam a apenas uma senhora. A capela não era mais uma opção para privacidade. Não tinha desejo algum de descobrir se Judith ainda seria leniente se a encontrasse ajoelhada aos pés do altar mais uma vez.

Então restava a ela cavalgar.

Nenhuma de suas damas de companhia estavam com ela, Aewynn e Mina conversando com outras nobres e suas filhas, e Amice manobrando entre os servos, juntando informações e plantando os rumores certos, porém Aethelflaed não se sentia solitária. A perspectiva do vento em seu rosto era o bastante para animá-la.

Ela suspirou, as roupas de montaria farfalhando quando ela se movia.

— O que me diz, huh? — Ela murmurou para o cavalo, encarando os enormes olhos negros dele. — Quer dar uma volta comigo, escapar desse lugar por um tempo?

O cavalo mordeu a maçã que ela ofereceu a ele, e Aethelflaed riu suavemente, acariciando os flancos do enorme animal. Ela inspirou o cheiro do couro limpo da sela.

Um murmúrio tenso se espalhou pelo estábulo.

Aethelflaed se endireitou, imediatamente alerta.

Princípe Aethelred entrou, os passos firmes e fortes, olhando ao redor como se procurasse por algo. Ele sorriu quando a encontrou.

Aethelflaed fez uma reverência graciosa quando ele se aproximou, olhando para as roupas dele. O príncipe não estava vestido para cavalgar.

— Não há necessidade para tamanha formalidade, Lady Aethelflaed, — Aethelred disse a ela, parando a uma distância respeitosa.

— Vossa Alteza, — Aethelflaed comprimentou, sorrindo agradavelmente para ele.

Ela vasculhou sua mente, procurando por tudo o que sabia sobre esse príncipe rejeitado. O mais velho dos filhos do finado rei Aethelwulf. O único filho dele, mas isso era dito apenas em sussurros ultimamente. Um guerreiro, como o pai antes dele, e se movia como um. Aethelred fora a primeira escolha do Wittan para assumir o trono, quando uma doença súbita levou Rei Aethelwulf, antes de Judith voltar a mente dos nobres contra ele.

O próprio pai de Aethelflaed, ela sabia, fora favorável a Alfred.

Aethelflaed observou o rosto agradável do príncipe, perguntando-se quais seriam as falhas dele. Ele realmente teria sido um rei tão ruim que Judith decidiu arriscar uma rebelião entre os nobres? Ou ela simplesmente amava Alfred o suficiente para fazê-lo?

Aethelred herdara os olhos estranhamente vidrados da mãe, a luz fraca da tarde nublada deixando-os quase cinza. As pálpebras dele eram baixas, emprestando-lhe uma expressão quase entediada. E ele realmente poderia estar entediado. Aethelflaed conhecera muitos homens que acabavam seguros demais e entediados em sua própria arrogância.

O sorriso dele tinha uma nota preguiçosamente perigosa, porém ele não possuía o brilho analítico e curioso dos olhos de Alfred.

A montaria de Aethelflaed relinchou, atraindo a atenção dos dois.

Aethelred não parecia um homem paciente, ou um homem particularmente cuidadoso. E por que ele seria? O príncipe fora criado como o herdeiro de Aethelwulf, futuro rei de Wessex, Bretwalda da Inglaterra, um príncipe guerreiro, longe das manipulações de Ecbert ou da atenção de Judith.

Ela se perguntava se doía, ter a mãe e o avô tão claramente preferindo o irmão, e se ele alguma vez usara a ilegitimidade de Alfred contra ele. Aethelflaed se perguntava se ele estaria aqui agora se o houvesse feito.

— Vai cavalgar, senhora? — Aethelred perguntou a ela, apesar da obviedade da situação;

— Sim, eu pensei em me familiarizar com a sela mais algumas vezes, antes que o inverno chegue. Certamente que os meus professores ficarão decepcionados se me acharem uma amazona ruim quando chegar a primavera, — Aethelflaed respondeu mansamente, rindo com ele da piada.

— Tenho certeza que ninguém jamais se decepcionaria com você, — Aethelred estava olhando intensamente para ela, Aethelflaed podia sentir mesmo que mantivesse seus olhos no cavalo. — É conhecida como uma das rosas da Inglaterra, imagino que saiba.

Aethelflaed pensou em algo constrangedor e deixou que ele visse suas bochechas ficarem vermelhas, perfeitamente recatada e humilde com o elogio. — Eu mal fico o suficiente na corte para merecer o título, Vossa Alteza.

— Uma decisão sábia do seu pai, te manter longe. Os outros nobres o afligiriam com pedidos de casamento a todo tempo se Duque Dustan houvesse permitido que agraciasse os corredores desse castelo, — apesar das palavras do príncipe, Aethelflaed queria rir dos elogios vazios. Ele continuou: — Seu pai é um homem de muitas decisões sábias.

Aethelflaed não permitiu que seus olhos se movessem para ele, não permitiu que qualquer emoção aparecesse em seu rosto.

Sua montaria começou a ficar nervosa. Aethelflaed o acariciou, soltando barulhos baixos e reconfortantes.

— Tenho certeza de que ele ficaria grato pelo elogio, — Aethelflaed respondeu simplesmente, o coração disparado. Parecia que ele estava procurando por algum comentário errado, qualquer coisa que revelasse a posição dela nas tensões que cresciam na corte. Ela duvidava que Judith houvesse mandado o filho mais velho. A rainha não parecia ter qualquer apreço pelas habilidades de Aethelred. — Como está sua esposa, meu senhor? Fiquei muito entristecida em não poder comparecer pessoalmente ao casamento.

O casamento de Aethelred fora algo quieto e rápido, e se os rumores fossem reais, não tivera qualquer interferência das ambições de Judith. A esposa de Aethelred era filha de um nobre proeminente, um que não apoiava as visões impetuosas de Alfred.

— Ela está bem. Ficamos profundamente comovidos com a carta que mandou, e apreciamos imensamente os presentes, — Aethelred respondeu educadamente. Ele ficou em silêncio por um momento, e Aethelflaed sentiu a tensão crescer entre eles. Mencionar um casamento fora um erro, mesmo que fosse o caminho mais óbvio para voltar a uma conversa segura. — Eu nunca te dei os parabéns pelo seu casamento, minha senhora.

Ninguém o fizera.

Aethelflaed sorriu para ele mesmo assim. — Não há problema algum. Eu entendo que a nobreza esteja muito ocupada com conversas sobre guerras ultimamente. Um casamento é uma preocupação menor em face de suas enormes responsabilidades, Vossa Alteza. E do fardo que vocês bravos homens do Wittan carregam.

Aethelred endireitou os ombros, um olhar satisfeito e arrogante cruzando o rosto dele. Aethelflaed queria revirar os olhos para ele. É claro que bajulação o afetaria, abaixaria a guarda dele. Quanta decepção, quanta raiva o príncipe carregava por ter a coroa negada a ele? Como ele se sentia sobre os sussurros que percorriam os corredores desse castelo, os rumores sobre o parentesco de Alfred, o descontentamento com a aliança dele com os vikings, o desejo dele de fazer a Igreja mais acessível?

Algumas palavras venenosas no ouvido de um homem com o orgulho ferido podia começar guerras e derrubar reinos.

Aethelflaed respirou muito, muito lentamente, percebendo cada músculo tenso em seu corpo, cada movimento de seu rosto.

Aethelred se aproximou mais, acariciando o outro lado do cavalo.

— Mas o seu casamento não foi comum, foi, minha senhora? — Aethelred disse em um tom suave, como se estivesse falando com uma criança assustada.

Era isso que ele queria ver? Isso o faria mais sincero com ela?

Aethelflaed abaixou os olhos e mordeu o lábio inferior, permitindo que o ar a deixasse em um arfar trêmulo.

Era perigoso flertar com a imagem de menina machucada agora, porém as insinuações de Aethelred faziam sinais de alarme soarem dentro de sua cabeça.

— Eu sou a filha de um duque. Eu sempre iria me casar pelo bem do meu povo, — a voz dela era macia e firme, mas ela hesitou o bastante em dizê-las para que piedade cruzasse os olhos dele.

Aethelflaed quase sorriu.

— Foi uma coisa cruel de se fazer com uma boa mulher como você, — Aethelred disse, pesarosamente. — Eu jamais teria feito algo assim.

Como rei. Aethelred jamais teria feito algo assim se ele fosse rei.

Aethelflaed ficou tonta. Ela se agarrou à sela do cavalo.

— Já está feito, Vossa Alteza. E nós devemos fazer o melhor com as escolhas que nos são dadas e confiar que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus.

Por favor, não seja tão estúpido, ela queria berrar para ele, estapeá-lo até que o ressentimento e a ganância o deixassem.

Aethelred assentiu lentamente, aparentemente satisfeito com a resposta dela, como os nobres sempre ficavam ao vê-la demonstrar fé.

—Sim, já está feito, — ele meditou, como se não estivesse perigosamente perto de falar traição. Aethelred suspirou e se afastou do cavalo. — Você é uma boa mulher, Lady Aethelflaed, — ele repetiu, como se ela conseguisse se importar com isso no momento. — Tem a minha proteção, mesmo que meu irmão não estenda a dele à você.

Aethelflaed deu a ele um sorriso grato. Escondida pelo cavalo, as mãos dela estavam fechadas em punhos.

— Obrigada, Vossa Alteza.

Aethelred assentiu novamente.

— Deveria ir cavalgar logo, minha senhora. Antes que fique muito escuro.

E com isso, ele deixou os estábulos.

O coração de Aethelflaed estava trovejando dentro do peito, a cabeça girando.

Alguém tocou o ombro dela, e Aethelflaed se virou rapidamente, quase tropeçando nos próprios pés, os olhos arregalados.

Jojen estendeu as mãos para equilibrá-la.

— Calma, — ele disse, a voz grave e familiar a relaxando. Ele apontou com o queixo para a entrada frontal dos estábulos. — O que o príncipe queria com você?

Aethelflaed balançou a cabeça. — Não tenho certeza, — ela disse, encarando os olhos escuros de Jojen, tão parecidos com os de Mina. Ela respirou profunda e tremulamente. — Mas diga aos nossos homens para serem cuidadosos e manterem os ouvidos abertos. E mande uma mensagem ao meu pai; devo falar com ele quando retornar.

Jojen levantou uma sobrancelha escura para ela. — Ainda vai cavalgar? Você parece abalada, minha senhora.

Aethelflaed mandou um sorriso afiado para ele. Ela montou o cavalo facilmente e sem ajuda.

— As pessoas me viram entrar nos estábulos, Jojen. Elas devem me ver saindo montada em um cavalo, — ela agarrou as rédeas, encarando determinada a luz entrando pelas portas enormes. — E eu estou bem. Eu estou sempre bem.