Hardest of Hearts

18 Heaven help me, I need to make it right


Notas iniciais
Olá meus amores!!!!!! Retornei com mais um capítulo! Dedico ele a Miss Dixon e a Cloto que comentaram no último capítulo, muito obrigada!

Uma adaga e um coração de seda

— Rodrigo de Barro, Sandra Cisneros

O quarto de Dustan estava quente, a lareira rugindo alto, o som da madeira estalando como o de ossos quebrando. Ele estava de pé, as mãos apoiadas na parte de cima da lareira, lindamente escavada, encarando o fogo.

Um criado a anunciou, e Aethelflaed analisou a maneira como Dustan se virou dolorosamente devagar, a fraqueza que ele tanto tentava esconder quando estava fora das paredes desse quarto. Havia um bule com chá fumegante na área de estar do aposento, e mesmo a distância ela podia sentir o cheiro das ervas que seu pai usava para diminuir a tosse.

Aethelflaed fez uma reverência quando os olhos de Dustan pararam nela. Não era algo que ela costumava fazer, não quando estavam sozinhos, mas havia uma distância tão grande entre eles desde que seu pai anunciara que ela se casaria. Ele não a convocara desde a manhã seguinte ao seu casamento, e Aethelflaed tentava não se ressentir de mais isso. Dustan estava ocupado, as tensões crescentes entre o Wittan e Alfred o roubando do tempo que ele tinha durante o dia. E qualquer tempo que ele tivesse a noite, não seria apropriado envolvê-la nele.

As noites de Aethelflaed deveriam pertencer ao seu marido agora.

Os olhos pálidos de Dustan perceberam suas roupas de montaria, os fios de cabelo que escaparam de sua trança, as bochechas vermelhas do vento frio.

— Entre, Aethelflaed. Sente perto do fogo. Você parece estar congelando, — a voz de Dustan era rouca e áspera.

Aethelflaed se sentou em um dos sofás, tirando as luvas de couro e estendendo as mãos em direção à lareira. Ela não podia se impedir de olhar para o chá, o coração apertado.

Ela franziu o cenho. — Você está bem, pai?

Dustan sorriu amargamente para ela e balançou uma mão, displicente, o anel do selo da família no dedo dele brilhando com os reflexos do fogo.

— Tão bem quanto qualquer velho pode estar. — Dustan ficou em silêncio por um momento, os olhos analisando o rosto dela. Os hematomas que ele deixara estavam quase sumindo, e dor cruzou o rosto dele enquanto Dustan observava as marcas amareladas.

Aethelflaed não tinha palavras gentis para ele, nenhum sorriso que poderia diminuir a dor de seu pai. Não estava mais furiosa, não da maneira que estivera na manhã de seu casamento. Não poderia estar, não com a morte a encarando do rosto pálido de Dustan. Mas não havia como desfazer o que ele fizera. Ele a machucara, a humilhara, e todas as consequências disso eram dela para suportar. Os rumores, as expectativas de Judith, a fachada cuidadosa que tinha de manter. Tudo isso, era dela para suportar sozinha.

Aethelflaed não podia afastar seu ressentimento, mesmo enquanto seu coração doía dentro de seu peito pela fraqueza de Dustan.

— Você parecia feliz, ontem à noite. Contente com o seu marido, — Dustan disse, a voz cuidadosamente livre de emoção.

Aethelflaed piscou lentamente. Não achava que ele estivesse prestando atenção. Dustan mal olhava para ela quando estavam em público agora.

Aethelflaed correu os dedos pela costura esmerada de suas roupas de montaria.

Ubbe a tinha feito feliz, esses últimos dias? Ele certamente não a deixara triste. Aethelflaed sempre estivera segura com ele, mesmo enquanto o temia, e seu marido mostrara a ela prazer além do que ela podia imaginar. E Ubbe se importara o suficiente para distraí-la da dor em seu peito ao ver Dustan na noite passada.

Isso significava algo; todas essas gentilezas significavam algo para ela.

— Estamos nos esforçando, — Aethelflaed replicou de maneira vaga. — Como é o meu dever.

Dever exigia muitas coisas dela, e muitos aspectos de seu casamento pesavam com isso. Os olhos da corte inglesa, as alianças que ela deveria construir, os olhos atentos da rainha, as mãos de Dustan no rosto dela. As verdades cuidadosas e hesitantes que revelava a Ubbe.

Era impressionante que, apesar de tudo, Ubbe às vezes fosse intocado por todo o peso que as circunstâncias deles traziam. O respeito que ele tinha por ela, a liberdade que permitia a ela, o prazer que dava generosamente. Essas coisas não eram pesadas.

Isso, Aethelflaed carregaria alegremente.

— Bom, — Dustan disse, a voz falhando como se fosse difícil dizer as palavras. Aethelflaed observou o rosto cansado e sofrido dele. — É bom que esteja tentando. Casamentos levam tempo e paciência.

Ela assentiu, se perguntando se Dustan pensava no próprio casamento, nos primeiros meses de sua mãe como Duquesa. Eles encontraram amor, ao longo dos anos, um amor tão profundo e duradouro que nem mesmo o dever de seu pai de produzir um herdeiro homem pudera quebrar.

A boca de Aethelflaed torceu em desgosto. Seu pai tivera a possibilidade de se desvencilhar do dever dele. A ela, não seria permitido tal coisa.

Subitamente, as mãos de Dustan estavam indo em direção ao rosto dela. Aethelflaed se encolheu violentamente, afundando no sofá, os olhos fechados com força.

Dustan inspirou afiadamente, e quando ela abriu os olhos, ele parecia angustiado. As mãos dele pairavam perto de seu rosto, perto dos hematomas que ele, Aethelflaed percebeu, teria tocado. Não com violência, mas com carinho. Um pedido de desculpas.

— Aethelflaed, eu... — Dustan gaguejou, olhando para o rosto assustado dela como se as próximas palavras que diria estivessem escritas ali, talvez escondidas nas marcas que deixara nela.

Aethelflaed podia ver a culpa na linha caída dos ombros dele, na respiração pesada.

Peça desculpas, ela pensou ardentemente, o lábio inferior tremendo. Peça desculpas, e acabemos logo com isso.

Não se importava que já estivesse feito, que não houvesse uma maneira fácil de escapar de seu casamento. Ela era esposa de Ubbe agora, e a rainha tinha os lençóis que provavam a consumação. Aethelflaed podia ser uma mulher casada ou uma mulher arruinada. Não se importava com isso. Dustan tinha apenas que dizer, dar voz ao que ela via no rosto dele, na piora súbita da saúde. Ele tinha apenas que reconhecer a dor que causara a ela, e Aethelflaed o perdoaria. Eles poderiam seguir em frente, continuar com seus papéis e responsabilidades, e ela deixaria sua mágoa ir embora, deixaria que as últimas semanas de seu pai fossem fáceis, sem raiva em seu coração.

Ele tinha apenas que dizer.

Dustan fechou a boca e balançou a cabeça. O rosto dele endureceu.

O ar de Aethelflaed a deixou em um suspiro dolorido.

Ela não valia a pena o risco de ser protegida, e não valia a ferida ao ego de Dustan que um pedido de desculpas traria.

Aethelflaed se endireitou no assento, apertando as luvas em suas mãos.

— Você deveria ir, — Dustan disse, a voz sem trair qualquer emoção. — Teremos que atender o banquete em honra da Princesa Elsewith mais tarde.

— Não vim até aqui para discutir meu casamento, — Aethelflaed respondeu, tão fria quanto ele. Se essa seria a maneira como as coisas aconteceriam entre eles, então que fosse. — Qual é sua opinião sobre Príncipe Aethelred?

Dustan virou rapidamente a cabeça para ela, toda atenção calculista dele em Aethelflaed de uma maneira que ela jamais sentira antes.

— Ele teria sido um rei guerreiro, — Dustan disse, intrigado.

— Um bom rei? — Aethelflaed pressionou.

Dustan sorriu sarcasticamente. — Eu não disse isso. Aethelred teria sido um rei guerreiro, mas que uso Wessex tem de outro rei guerreiro? Rei Aethelwulf era um grande soldado, e um homem justo. Isso não tirou os vikings das nossas terras, não comprou uma trégua com eles, não estendeu as fronteiras de Wessex. E Príncipe Aethelred é igual ao pai, completamente. — Ele entrelaçou os dedos, parecendo pensativo. — Acho que talvez seja uma benção que o reinado de Aethelwulf não tenha sido longo.

Aethelflaed mandou um olhar alarmado ao pai. Dustan riu com o choque dela, o som pesado e úmido, parecendo sem ar ao final.

— Aethelwulf teria atacado os vikings quer o exército dele tivesse chance de ganhar ou não, e teria recusado qualquer trégua ou acordo de paz que não fosse a completa aniquilação deles, porque os nórdicos são pagãos, e nós somos cristãos, e para ele não poderia haver comunhão entre essas duas coisas. O filho dele teria feito o mesmo.

— Rei Aethelwulf não foi ensinado pelo Rei Ecbert? Ele ensinou Alfred, por que não ensinaria o próprio filho? — Aethelflaed perguntou, curiosa.

Dustan alcançou o chá bebeu longamente antes de continuar. — Aethelwulf jamais teve talento para assuntos de Estado. Ela era um peão útil para o pai dele, e Ecbert via mais utilidade em usá-lo dessa maneira do em insistir que Aethelwulf se tornasse um jogador quando não tinha aptidão para isso. Nem todos têm a mesma capacidade que nós temos.

Nós.

Aethelflaed se perguntou se Dustan se referia a si mesmo e a Ecbert, ou se ela também estava incluída.

Ela desenhou círculos lentos no tecido grosso da calça que usava. — Ainda assim, não teria sido melhor coroar Aethelred? O Wittan tem muitas dúvidas sobre Alfred, e o status dele como filho mais novo e sem ser provado em batalha apenas pioram as coisas.

Dustan se virou para encará-la completamente, os olhos pálidos brilhando com inteligência, uma expressão paciente no rosto cheio de linhas que ela conhecia bem. — Onde acha que batalhas são ganhas, Aethelflaed?

Aethelflaed mordeu a parte interna da bochecha, pensando sobre as palavras dele, sentindo-se uma criança na biblioteca de seu castelo, aprendendo junto ao pai como liderar seu povo. — Eu presumiria que no campo de batalha, mas se essa fosse a resposta, não teria me perguntado, — brincou.

Dustan balançou a cabeça lentamente, e então tocou dois dedos na têmpora. — Todas as batalhas são vencidas aqui, na sua cabeça. Habilidade com uma espada pode ser ensinada, apesar de ser verdade que alguns homens possuem muito mais talento para isso do que outros. Mas um rei jamais estará realmente no meio da luta a não ser que decida fazê-lo, e mesmo assim, os melhores cavaleiros da guarda seriam postos para proteger o senhor deles. Então me diga, querida, onde são vencidas as batalhas?

Ela inspirou lentamente. — Na política. Nas alianças certas, e no amor das pessoas que lutariam e sacrificariam suas vidas por você. Na estratégia e no estudo.

Dustan assentiu, satisfeito. — Sim, é assim que se vence. Lute cada batalha, sempre, na sua mente*. Rei Alfred sabe fazer isso. Ele consegue ignorar os preconceitos dos cristãos e nossas desavenças passadas, e seguir em frente. Ele consegue engolir o orgulho dele e fazer o que é melhor para o reino. Ele pode ser paciente. Um homem que é chamado de bastardo a vida inteira aprende essas coisas, ou então morre logo. Príncipe Aethelred não tem a mesma capacidade.

— Ele veio me ver essa tarde. Foi até os estábulos para fazê-lo, sem estar vestido para montar. Não foi uma coincidência ter me encontrado, — Aethelflaed disse finalmente, uma parte de suas preocupações sumindo ao confiar o que acontecera a outra pessoa.

Os olhos de Dustan reluziram perigosamente, a mandíbula rígida. — E? — ele exigiu.

Aethelflaed limpou as palmas das mãos suadas na calça. — E o que ele falou flertava perigosamente com traição, — ela disparou, nervosa. Dustan soltou um suspiro longo e cansado, mas não havia surpresa no rosto dele. — O senhor sabia disso? — ela demandou, elevando a voz.

Dustan enviou um olhar de aviso a ela.

— Temia que algo como isso pudesse acontecer. Aethelred passou a vida inteira pensando que seria rei, e agora isso foi tirado dele por um bastardo e pela mão adúltera deles. Ele é jovem e impaciente, e não é nem de longe tão brilhante quanto pensa que é, quanto todos ao redor dele disseram que ele é. O orgulho de Aethelred foi ferido gravemente. Homens assim fazem coisas estúpidas em situações como essa. Existem sussurros, nada concreto, e em tempos de transição de poder, esses rumores são comuns. É preciso de mais provas para poder acusar um príncipe de traição.

— Alfred não te escutaria se o avisasse? — Aethelflaed perguntou, pensando nas feições suaves do menino e nos olhos analíticos dele.

Dustan balançou a cabeça. — Rei Alfred ama o irmão. Eu prefiro não acusar Aethelred antes de ter absoluta certeza, não quero que nada ponha uma divisão entre mim e o rei. Devemos prosseguir com cuidado agora. Fale com as outras nobres no castelo. Com alguns dos lordes, também. Descubra tudo que puder sobre onde estão as lealdades deles.

— Judith pode achar que estou conspirando se eu conversar demais com os lordes. Ela tem olhos em mim a todo momento. Se ela ao menos sonhar que estou conspirando contra o filho precioso dela, Judith fará com que chova fogo sobre a minha cabeça. Não há muito que eu possa fazer, — Aethelflaed sussurrou, raiva distorcendo suas palavras.

Dustan a encarou por um longo tempo.

— Encontre uma maneira, — ele ordenou duramente. Aethelflaed imediatamente ficou mais ereta com o tom. — Eu te ensinei melhor do que isso. Rainha Judith é habilidosa nas intrigas da corte, mas você também é. Plante as sementes da dúvida nela em relação a Aethelred, se tiver que fazê-lo. Não deve ser muito difícil. A Rainha não tem amor excessivo pelo primogênito dela.

Aethelflaed abaixou a cabeça, a respiração acelerando. — Sim, meu senhor.

— Aethelflaed, — Dustan disse, suavizando a voz, quase um pedido de desculpas. — Você tem agido corretamente até agora. Suportado seu fardo com graça.

Não foi me dada escolha! Aethelflaed queria gritar. Ao invés disso, ela sorriu educadamente e inclinou a cabeça em agradecimento.

Dustan não estava errado. Ela encontraria uma maneira. Era para isso que ela se casara, não apenas para aquecer a cama de Ubbe, mas para construir alianças, destruir os inimigos de Alfred.

Ela encontraria uma maneira.



{...}



A Princesa Elsewith era bela de uma maneira ordinária. Cabelo castanho, olhos escuros, feições delicadas e comuns. Ela falava suavemente, e era perfeitamente educada. Elsewith elogiara a rainha, e as nobres de Wessex que fariam companhia a ela, e o castelo, mesmo que este fosse perfeitamente sem vida, e cumprira todos os protocolos da corte com perfeição.

Ficou claro, rapidamente, que Judith não escolhera uma mulher que chamaria mais atenção ou seria mais brilhante do que o filho dela. Uma esposa casta, bondosa e piedosa, que carregaria os filhos dele e seria obediente.

Aethelflaed considerou se isso não seria um reflexo do casamento da própria Judith, das traições e intrigas e sede por poder dela, se agora ela buscava salvar o filho do que o Aethelwulf não fora poupado.

O rei não estava em lugar algum, ocupado com os conselheiros dele e com o Wittan, onde Ubbe e o pai dela também estavam. Mesmo Bjorn estava lá, discutindo assuntos de guerra.

Enquanto isso, Aethelflaed falava sobre bordados e música, o inverno cruel que eles enfrentariam logo, a jornada de Elsewith até Wessex, novidades sobre a nobreza de Ânglia Oriental. Judith talentosamente manteve o assunto longe do casamento de Aethelflaed, e ela se sentia aliviada com a pausa em ser o centro das atenções.

Aethelflaed se afastou do círculo de nobres reunidas da sala de estar dos aposentos da princesa, se retirando para uma mesa cheia de biscoitos e bolos. Ela mordeu um biscoito distraídamente enquanto observava as mulheres, provando mel e maçã em sua língua.

Judith se aproximou dela, silenciosa e tão elegante quanto sempre, o cabelo escuro estilizado para esconder a orelha mutilada. Ela ainda não possuía cabelos grisalhos, mesmo com dois filhos já adultos, e Aethelflaed foi atingida com o quão jovem a rainha deveria ser quando foi enviada a Wessex para se casar com Aethelwulf.

— Sua sobrinha é adorável, Vossa Majestade, — Aethelflaed elogiou, assistindo de longe enquanto Elsewith ria de algo que uma das damas dizia.

Judith pegou um dos biscoitos, mas não fez qualquer movimento para mordê-lo. — Sim, ela é. Adorável e doce. — Ela suspirou pesarosamente, uma demonstração rara de emoção genuína. Ao lado dela, Aethelflaed ficou imóvel, imediatamente alerta. — Eu costumava ser assim, antigamente. Doce e inocente. Ingênua.

Outra princesa de Ânglia Oriental mandada para ser rainha em Wessex, uma vida inteira atrás. Antes de Judith se apaixonar por outro homem. Antes de ser cruelmente punida por isso. Antes de ter que lutar por cada pedaço de poder que manteria a ela e ao filho bastardo vivos.

Judith parecia nostálgica, agridoce. Os olhos frios dela se voltaram para Aethelflaed, um sorriso sarcástico se espalhando pelo rosto dela. — Não você, no entanto, Lady Aethelflaed. Você já chegou a nós com presas e garras, — Judith murmurou. Aethelflaed enrijeceu, mas o sorriso da rainha se tornou melancólico. — Eu gostaria de ter chegado desse jeito a Wessex. Teria me poupado de muito sofrimento.

Judith tocou o lado do pescoço, tão perto da orelha quanto tocaria em público. Aethelflaed prendeu a respiração, incerta do que dizer, de como responder a essa honestidade brutal, de como aceitar a pontada de simpatia em seu peito. Talvez, se o pai de Alfred não houvesse cruzado o caminho de Judith, ela tivesse permanecido como Elsewith a vida inteira, uma princesa zelosa e protegida.

— Se é isso que Vossa Majestade pensa, — Aethelflaed disse finalmente, sorrindo afiada. Havia pouco a esconder de Judith quando a rainha já havia trilhado o mesmo caminho que Aethelflaed fazia agora.

Judith observou o rosto dela, assentindo em satisfação. — Seu rosto está muito melhor, Isso é bom.

Um rosto imaculado. Um casamento real.

Judith faria qualquer coisa para abafar os ruídos de seu casamento com Ubbe.

Aethelflaed rilhou os dentes.

Uma criada entrou e fez uma reverência para elas, se aproximando para sussurrar algo para Judith. Aethelflaed desviou o olhar, disfarçando sua tentativa de escutar, mas a mulher falava baixo demais.

Judith assentiu e deixou o cômodo sem uma palavra. Aethelflaed a observou ir, imaginando se a rainha sempre possuíra a graciosidade controlada que demonstrava agora, ou se isso também fora uma arma que ela aprendera a usar em Wessex.

Aethelflaed suspirou, os ombros caindo por um momento antes de se recompor e voltar para o círculo de nobres. No momento em que se sentou, os olhos de Elsewith caíram nela.

— Me disseram que você se casou recentemente, Lady Aethelflaed, — Elsewith comentou, o tom dela animado como ninguém mais usava quando falavam de seu casamento. — Parabéns!

Aethelflaed conseguiu sorrir calorosamente. — Obrigada, Vossa Alteza.

Elsewith se inclinou para ela, os olhos brilhando.

— Me diga, como eles são, os nórdicos?

Aethelflaed olhou ao redor do cômodo rapidamente, incerta. Ela lambeu os lábios secos, a atenção de cada uma daquelas mulheres nela. Qual delas reportaria a Judith se Aethelflaed não tivesse uma resposta satisfatória?

— Bem, eles são muito… loiros, — Aethelflaed disse, sorrindo. Risadas soaram ao redor dela, apesar de algumas das nobres mais velhas de Wessex parecerem tensas.

— Dizem que eles são muito maiores do que os homens saxões. Mais destemidos, também. Que até as mulheres deles lutam. — Elsewith parecia quase sonhadora.

Aethelflaed teve o súbito desejo de balançá-la. Ela não poderia ser tão ingênua dessa maneira, poderia?

— Bjorn Ironside é o maior homem que eu já vi, — uma das damas disse, estremecendo. — Ele é tão cruel quanto parece? Bjorn me lembra um urso raivoso, às vezes.

Aethelflaed franziu o cenho. — Eu não saberia, realmente. Não tive a oportunidade de conversar com ele ainda. Mas o resto da família do meu marido tem sido bondosos comigo. Muito diferentes dos selvagens que nos dizem que são. Rei Alfred foi sábio em ver o valor de uma aliança com eles, da mesma maneira que o avô dele o fez, e o rei da Frankia também.

Era o máximo que Aethelflaed poderia discutir sobre seu casamento, e nem todas as ladies pareciam convencidas, algumas a olhando com pena. Mas Aethelflaed estava fazendo sua parte, com muitas testemunhas para verem.

Princesa Elsewith assentiu, e a animação dela com o assunto pareceu aumentar.

— Mas como é ter um viking como marido? — Elsewith pressionou, as sobrancelhas subindo sugestivamente.

Levou alguns segundos para que Aethelflaed entendesse o significado da pergunta. Quando ela o fez, seu rosto corou imediatamente. Ela encarou as próprias mãos, as bochechas queimando. Ao redor dela, as ladies de Wessex arquejaram com surpresa.

— Não acho que seja um assunto apropriado para uma lady solteira, Vossa Alteza, — Aethelflaed murmurou, a voz envergonhada.

Elsewith se afastou, corando violentamente também. Ela arrumou as saias ao redor dela. — Sim, me perdoe. Isso foi incrivelmente rude. A viagem me exauriu e tirou meu bom senso, eu temo.

Aethelflaed balançou a cabeça, sorrindo gentilmente. — Está tudo bem. Eu entendo. Não me ofendeu. — Ela se inclinou, tomando a mão de Elsewith. — Apesar de escutar que a senhora não permanecerá solteira por muito tempo.

A vergonha de Elsewith sumiu, substituída por uma felicidade brilhante que a deixava mais bela. Ela apertou a mão de Aethelflaed e começou a falar em um tom alto e animado. Aethelflaed a deixou seguir em frente sem interrupções. Se essa garota fosse ser rainha algum dia, seria bom tê-la como aliada.

Judith retornou enquanto elas discutiam vestidos e decorações e danças para o banquete, trocando elogios sobre o rei como se nenhuma das famílias das nobres de Wessex presentes quisessem Alfred fora do trono.

A rainha sorriu agradavelmente para elas. — Temo que terei que interromper a diversão de vocês, senhoras. A Princesa Elsewith tem que conhecer algumas pessoas importantes.

Elsewith se levantou rapidamente com um risinho exaltado e passou o braço pelo do rainha, as deixando.

Aethelflaed quase suspirou com alívio quando deixou a sala. Essa seria sua vida nas próximas semanas, especialmente se o casamento fosse confirmado e preparações começassem.

Ela estava cansada, e queria se encontrar com suas próprias damas de companhia antes do jantar, contar a elas sobre Aethelred, talvez encontrar Jojen e perguntar se ele descobrira algo.

Aethelflaed olhou para baixo e pressionou os dedos nas têmporas, onde uma dor de cabeça começava. Ela fechou os olhos cansados com força por um momento enquanto virava uma esquina familiar dos corredores.

Foi tempo o bastante.

Ela bateu com força em um torso largo e duro, tropeçando nos próprios pés. Mãos grandes e calosas a agarraram firmemente pelos ombros, a mantendo de pé. Aethelflaed arregalou os olhos, encarando a carranca irritada de Bjorn.

A pele dele era manchada pelo sol, uma tatuagem escura abaixo de um dos olhos. Os lados da cabeça dele estavam raspados e ele usava uma trança similar a de Ubbe. Bjorn era mais alto que o irmão, mais forte também, e a garganta de Aethelflaed fechou com a visão dele.

Ela era grata por Bjorn não ter sido escolhido para ser seu marido.

— Eu… me perdoe, — Aethelflaed conseguiu murmurar, a voz fraca e quebrando. Ela olhou para baixo, fugindo da intensidade no rosto dele. Aethefllaed franziu o cenho. Bjorn usava a capa que dera a ele. — Você a está usando, — ela disse, surpresa, encarando o pelo preto e macio que cobria a parte superior do torso dele, fazendo-o parecer ainda maior.

Bjorn deitou a atenção sobre a capa por um momento, ombros enormes subindo e descendo com displicência. As mãos dele ainda estavam em seus ombros, pesadas e quentes. — É uma boa capa.

Aethelflaed tentou sorrir para ele. — Fico feliz que tenha gostado, meu senhor.

Bjorn latiu uma risada áspera. — Eu não sou um dos seus senhores fracotes, menina.

As mãos dele a deixaram, e Aethelflaed se afastou imediatamente, colocando distância entre eles.

— Eu digo isso por respeito. Se te ofende, não o faria mais, — ela respondeu nervosamente. Não havia ninguém por perto para testemunhar a interação deles, e Aethelflaed não tinha certeza se era grata por isso ou não. Bjorn a assustava, o fizera muito mais que Ubbe desde o momento que o vira pela primeira vez, mas ele também era seu cunhado. Ele era família, agora. Nada era mais eficaz em derrubar uma dinastia do que uma família dividida;

— Não faça de novo, então, — Bjorn disse simplesmente. A voz dele era estranhamente macia, os “t’s” mais fortes de uma maneira que estava se tornando rapidamente familiar para ela agora que convivia com Ubbe.

Aethelflaed inclinou a cabeça rapidamente, tentando manter suas feições tão suaves e abertas quando podia, a voz calorosa e amigável.

— Vou me certificar de que não aconteça de novo, Bjorn, — Aethelflaed disse mansamente. Os olhos de Bjorn passaram pelo rosto dela e ele assentiu, um único movimento brusco de cabeça. A mandíbula dele estava cerrada, os ombros tensos, porém ele não foi embora. — Eu ainda não tinha tido a chance de conversar com você.

— O que uma garota saxã poderia ter a me dizer? — Bjorn disse, e não parecia ser um insulto direcionado a ela. Era bruto e direto e curioso.

Aethelflaed tentou não deixar a aspereza irritá-la.

— Torvi falou com você sobre seus filhos? — Ela perguntou, o único assunto que podia pensar em comum entre eles.

Ubbe pendeu a cabeça, apertando os olhos. — Que interesse você tem nos meus filhos? — Bjorn perguntou, quase sarcasticamente.

Aethelflaed levantou as sobrancelhas. — Eles são meus sobrinhos. Minha família. Devo cuidar deles.

Bjorn soltou alguma palavra na língua dele que soava rude e raivosa. Ele se aproximou, enorme e ameaçador, enchendo a visão dela.

— Nós somos sua família agora, menina? É isso que pensa?

As palavras dele mandaram um arrepio frio por Aethelflaed, o medo de que Ubbe e os vikings não levariam esse casamento tão a sério quanto ela retornando mais uma vez. Aethelflaed endireitou os ombros, e tinha certeza que a imagem deveria ser patética para Bjorn. Esse homem poderia quebrar o pescoço dela se quisesse.

— Sou casada com o seu irmão, Bjorn. Na Inglaterra, isso faz de nós família.

— A Inglaterra — ele rosnou — tem muitos costumes com os quais eu não me importo. — O rosto dele se contorceu com raiva.

A respiração de Aethelflaed falhou. Ela queria se afastar dele novamente, mas se o fizesse, suas costas ficariam contra a parede, e isso seria ainda pior.

No entanto, ela podia ver que a raiva não era direcionada a ela.

Inglaterra.

O que acontecera com o Wittan hoje?

— Eu te ofendi de alguma maneira? — Aethelflaed perguntou suavemente, mal acima de um sussurro. Ela pensou em se encolher, em se fazer tão pequena quanto poderia, mas Bjorn não parecia um homem que demonstraria misericórdia com uma mulher fraca.

Os olhos flamejantes de Bjorn analisaram o rosto dela por um longo momento antes que ele se afastasse. Eles não eram tão impressionantes quanto os de Ubbe.

— Não, não ofendeu. Você é só uma garota na cama do meu irmão, — Bjorn respondeu, se virando dela para escanear o corredor. Esperando por alguém.

Aethelflaed fechou as mãos em punhos com o insulto não intencional. Mesmo Lagertha tinha uma visão melhor dela do que isso.

— O que aconteceu? — Ela inquiriu, tentando manter a voz leve. — Eu posso ajudar. Posso ser só uma menina na cama de Ubbe, mas minha família tem influência, — Aethelflaed disse, jogando as palavras de volta para ele, tentando disfarçar o quanto eram amargas em sua língua.

Bjorn a estudou por um momento antes de sorrir lugubremente.

— Pode matar o Duque da Normandia para mim? — Bjorn latiu, a voz repleta de ressentimento.

Aethelflaed abriu os lábios em surpresa, os olhos arregalados, confusa. — Seu tio?

As mãos enormes dele se fecharam em punhos. — Sim, o meu tio. Pode cortar a garganta dele para mim, Aethelflaed?

— Não seja ridículo, — ela rebateu, estupefata.

Bjorn fez um som de desprezo. — Então não pode me ajudar.

Passos soaram, se aproximando deles, e apesar de Aethelflaed enrijecer, Bjorn não demonstrou reação.

Ubbe emergiu, olhando entre os dois com surpresa evidente. Ele percebeu a expressão perplexa e indignada no rosto dela e a postura tensa de Bjorn.

— O que está acontecendo? — Ubbe exigiu, franzindo o cenho. A mão dele envolveu a cintura de Aethelflaed, trazendo-a de encontro a ele e para longe de Bjorn, repousando em suas costelas.

Bjorn apontou para ela com o queixo. — Sua esposa parece pensar que meus filhos são família dela.

— Sim, Aethelflaed está cuidando deles, — Ubbe disse, a voz desconfiada. Ele apertou a mão nela. — Pelo que nós somos gratos.

— E Rollo, Aethelflaed? Ele é sua família também? — Bjorn provocou.

Ao lado dela, Ubbe soltou um suspiro cansado que revelava que esta era uma discussão antiga. — Bjorn, não vamos fazer isso agora.

— É claro que ele é! — Aethelflaed interrompeu, lívida. — E uma parte importante. Ele é duque da maior e mais rica região da Frankia. Um aliado como esse não pode simplesmente ser descartado.

Aethelflaed planejava escrever para Princesa Gisla e Duke Rollo em breve. A Normandia estava relativamente perto, e era forte, um parceiro que ela não podia se dar ao luxo de ignorar, não por causa de qualquer ressentimento Bjorn nutria pelo tio.

Os lábios de Bjorn se repuxaram sobre os dentes em um esgar raivoso. — Você compartilha dessa opinião com Alfred.

— Bjorn, isso é o suficiente, por favor, — Ubbe pediu. Ele não estava tenso, e Aethelflaed tomou seu conforto nisso. — Podemos discutir isso mais tarde. Aethelflaed, onde você estava indo? — Ubbe perguntou, a mão ainda firme nela.

— Meus aposentos, — ela respondeu curtamente, controlando o desejo de sacudir Bjorn até que ele retomasse algum bom senso. Ela duvidava que ele sentiria, e Aethelflaed poderia muito bem sair com alguns ossos quebrados pela tentativa.

Ubbe assentiu. — Eu te levo até lá, então. — Ele mandou um olhar significativo a Bjorn. — Eu já volto.

Eles andaram em silêncio, Aethelflaed analisando as palavras de Bjorn. A mão de Ubbe não a deixou o caminho inteiro, um calor confortável em suas costas. No momento em que a porta do quarto dela se fechou, Aethelflaed se virou para ela.

— O que está acontecendo? — Aethelflaed exigiu, olhando nervosamente para o rosto de Ubbe. Ele suspirou, os ombros largos caindo um pouco.

Ubbe esfregou o rosto. — Alfred quer construir uma aliança com a Frankia através de Rollo.

— Me parece sábio. A Frankia é forte, e eles possuem a vantagem de estarem no continente, — Aethelflaed continou.

Ubbe assentiu, entrando mais profundamente no quarto e se jogando em um dos sofás com familiaridade.

— Eu sei. Não tenho um problema com isso. Mal tenho lembranças de Rollo, e ele já lutou contra vikings juntamente a cristãos e se casou com uma cristã, — Ubbe mandou um sorriso reluzente para ela. — Talvez ele tenha algumas dicas para mim.

Aethelflaed corou e revirou os olhos, se sentando ao lado dele. Ubbe passou um braço pelas costas do sofá e, consequentemente, por seus ombros, brincando distraidamente com o cabelo dela.

— Mas Bjorn não gosta da ideia? — Aethelflaed pressionou cuidadosamente. — Ele parecia furioso. Temi que o houvesse ofendido de alguma maneira.

Ubbe apertou o ombro dela, tentando reconfortá-la. — Não ofendeu, confie em mim. Se Bjorn tivesse algo contra você, ele já teria deixado isso bem claro. Mas não, Bjorn não gosta da ideia de uma aliança com Rollo. A odeia, na verdade, ainda mais se isso o forçar a ser civilizado com ele. Rollo ajudou a criá-lo, você tem que entender. E depois traiu Ragnar e os aliados dele. Bjorn nunca o perdoou por isso.

— Sinto muito, — Aethelflaed disse, sinceramente. Ela imaginou se Ubbe havia deixado alguém dessa mesma maneira na Noruega, alguém que se ressentiria infinitamente dele por trocar de lado.

— Está tudo bem. Eu era jovem demais para participar da guerra na qual isso aconteceu. Bjorn nunca abandonou o ressentimento. Apesar de que… — Ubbe batucou os dedos no ombro dela, contemplativo. — Rollo nos visitou, antes de fugirmos da Noruega. A raiva que Bjorn tem dele parece ter piorado desde então.

Aethelflaed pressionou as mãos contra os olhos até ver estrelas. A cabeça dela estava latejando.

— Eu deveria pedir desculpas, — ela murmurou.

— Pelo que? — Ubbe perguntou, surpreso.

— Eu fui rude com ele. Insisti em um assunto sensível.

Ubbe gargalhou, baixo e deliciosamente rouco. O polegar dele traçou um longo arco em seu pescoço. — Bjorn não tem sensibilidades. E ele não ficou ofendido. Só detesta a corte.

— Você detesta a corte, — Aethelflaed apontou. Ela se inclinou mais no toque. Ubbe traçou os hematomas amarelados em sua mandíbula.

Ele estalou a língua. — É verdade. Mas Bjorn fica miserável aqui. Ele tem ainda menos paciência do que eu. Bjorn não nasceu para seguir ninguém, jamais seguiu alguém que não fosse Ragnar. E agora ele tem um rei e muitas pessoas que o desprezam e que poderiam matá-lo, e não há nada que nenhum de nós possa fazer sobre isso.

Aethelflaed ficou em silêncio por um longo tempo. Ela se virou para Ubbe, a mão dele repousando na curva de seu pescoço.

— Você está miserável aqui, Ubbe? — Ela perguntou, baixinho, surpresa que se importasse. Os olhos de Ubbe ficaram mais suaves.

— Às vezes. Não agora. — Ele empurrou uma mecha de cabelo para trás da orelha dela. — Você está miserável aqui?

Aethelflaed deu um sorriso cansado a ele. — Na maior parte do tempo. Mas não dentro desse quarto, geralmente. — Ela fechou os olhos e massageou as têmporas. Aethelflaed se deixou cair contra as contas do sofá, o braço de Ubbe a envolvendo novamente. Ele pressionou os músculos tensos em sua nuca e Aethelflaed suspirou com satisfação. — O que posso fazer para ajudá-lo? Para deixar Bjorn menos miserável?

— Bem, você poderia mandar assassinar Rollo, — Ubbe brincou, a voz leve.

Aethelflaed mandou um olhar exasperado para ele. — Estou falando sério.

Queria que Bjorn, ao menos, a respeitasse. Ser mais para ele do que apenas uma garota na cama do irmão dele. Uma aliada. Alguém que cuidava dos filhos dele. Alguém com quem ele cooperava pelo bem do povo dele. Aethelflaed queria não temê-lo mais.

— Está fazendo o bastante, Aethelflaed. Fui sincero sobre o que disse antes: somos gratos a você, especialmente pelas crianças, — Ubbe disse, a voz calorosa.

Aethelflaed balançou a cabeça. — Eles são meus sobrinhos, é o mínimo que posso fazer.

O polegar de Ubbe traçou o topo de sua coluna. — Não tenho certeza se meus outros irmãos mostrariam essa benevolência com as crianças que compartilham sangue com eles, se chegasse ao ponto de envolver os filhos de Bjorn na nossa guerra. Torvi sabe disso também. Até Bjorn deve reconhecer, em alguma parte dele.

Aethelflaed sorriu para ele. — Que bom que sou uma saxã de coração mole, então.

Ubbe sorriu de volta, incrédulo, e se inclinou para pressionar os lábios contra os dela. Aethelflaed fechou os olhos, aproveitando o contato.

Era uma mentira. O coração dela não era mole, não o fora por muitos anos. Mas ainda tinha bondade dentro de si. E Aethelflaed não queria acreditar que teria que sacrificar isso também. Não queria se tornar tão endurecida quanto Judith, escolhendo entre os filhos dela. Não queria se tornar tão ambiciosa quanto seu pai, sacrificando a família para um destino incerto.

Aethelflaed queria acreditar que conseguiria ambos proteger seu povo e manter a parte de seu coração que não fora tomada pelo dever ainda.

Ela esperava que fosse o suficiente.

— Tenho que voltar para Bjorn agora, — Ubbe murmurou, tão perto que os lábios deles se roçavam. Ele não parecia disposto a se afastar muito mais. Aethelflaed debateu pedir que ele ficasse, deixar que Ubbe a distraísse de Aethelred e Elsewith e da aliança que certamente teria que intermediar com a Frankia.

Mas ele tinha que ir, conter Bjorn antes que seu cunhado se transformasse em mais um problema que ela teria que resolver.

Aethelflaed assentiu. — Tudo bem. Não acho que seja uma boa ideia deixá-lo por aí fumegando de raiva. Algum servo desavisado vai acabar enfrentando as consequências.

Ubbe murmurou uma confirmação distraída e a beijou mais uma vez antes de se levantar.

Uma ideia ocorreu a ela, pensando no que quer que fosse que Bjorn praguejara antes.

— Ubbe, — Aethelflaed chamou. — Poderia me ensinar a sua língua?

Ubbe franziu o cenho, parando imediatamente. — Por que?

Aethelflaed deu de ombros e ajeitou as saias ao seu redor. — Se eu for ter vassalos nórdicos, seria bom saber falar a língua deles. Um sinal de respeito. E eu assumo que você irá querer que nossos filhos falem noruegues .— Aethelflaed sorriu, nervosa. — Gostaria de poder compartilhar isso com eles.

Uma meia verdade. Aethelflaed não gostaria de ter a desvantagem de estar em um cômodo cheio de pessoas falando em uma língua que ela não entendia, não gostaria de ser insultada e não saber disso.

Ubbe ficou em silêncio por um longo tempo, o bastante para que seu estômago revirasse. Talvez houvesse ultrapassado algum limite, talvez a língua e a cultura dele fosse algo que Ubbe gostaria de manter apenas para si.

— Tudo bem, — ele disse finalmente, a voz quebrando. Ubbe limpou a garganta. — Tudo bem, posso ensinar você. Quando quiser.

Aethelflaed assentiu. — Obrigada, — disse calorosamente. Ubbe não se moveu de onde estava, um sorriso lento se espalhando no rosto dele, e Aethelflaed foi atingida mais uma vez pelo quão atraente ele era. Ela levantou as sobrancelhas para ele. — E o seu irmão?

Ubbe riu. — Certo, certo. Antes que ele marche até Alfred e o obrigue a começar uma guerra com Frankia. — Ele piscou para Aethelflaed e se virou para ir embora. Já na porta, Ubbe parou uma última vez, sem encará-la. — Aethelflaed? — Ele chamou. — Obrigado.

Ele partiu antes que Aethelflaed pudesse perguntar pelo que ele estava agradecendo.



Notas finais
*frase do Littlefinger em GOT