Hardest of Hearts

6 It Holds us Together


Notas iniciais
Um beijão para a Minerva Lestrange e para a Cloto que comentaram no último capítulo!

"Mas o coração dela era tão frio que ela poderia segurar gelo na boca e jamais derreteria."

— Deathless, Catherynne M. Valente

Duque Dustan estava fazendo um acordo com rei Alfred, não com Ubbe, isso ficou claro para o viking rapidamente. Seu futuro sogro não gostava de olhar para ele, preferindo colocar sua atenção quase completamente em Alfred. Uma ou duas vezes, Ubbe sentira os olhos cansados e sem brilho do duque percorrendo por ele, se demorando nas pequenas cicatrizes que marcavam suas mãos, na trança longa que caia por suas costas, nas roupas práticas e resistentes tão diferentes dos tecidos caros que os nobres da corte usavam.

Quando Ubbe encontrava os olhos do homem, Dustan sempre tentava sorrir, como se estivesse apaziguando-o, porém ele via o medo e a culpa. O duque finalmente via a quem estava entregando a própria filha, e o vinho descia pela boca dele cada vez mais rápido quando Ubbe se recusou a fazer a atmosfera mais leve, respondendo às tentativas de conversa que Alfred iniciara com meias palavras e grunhidos.

Não se sentia inclinado a fingir amizade com um homem que não respeitava, alguém disposto a sacrificar a própria família. Aethelflaed não era uma guerreira e o futuro ao qual o pai dela a expunha era pior do que morrer em batalha. Ubbe jamais poderia respeitar tal homem.

Sua amabilidade, no entanto, não era necessária. Ubbe seria uma espada para Alfred, um joguete político para manter o maior número de nórdicos possíveis ao lado do rei, e Aethelflaed era a amarra bela e doce que eles ofereciam por sua lealdade. Isso, e as terras, dinheiro e poder que vinham com sua esposa.

Ubbe estava tão próximo de realizar o sonho de seu pai que quase perdia o fôlego. Os nórdicos que não lutassem poderiam criar vilarejos em determinadas terras de Dustan assim que o casamento acontecesse e, quando a guerra acabasse, o resto de seus homens poderia se estabelecer também. Uma colônia de daneses, seguros em suas vidas, supervisionados por um dos filhos de Ragnar, porque o duque não duraria muito no mundo, Ubbe podia vê-lo na pele acinzentada, pendendo frouxa dos resquícios de músculos, no cabelo branco se tornando escasso, na tosse que Dustan tentava disfarçar. Dustan não veria o primeiro neto nascer, Ubbe tinha certeza disto.

O poder dele, porém, perduraria. Controlar as terras Ubbe poderia, mas se Aethelflaed morresse sem deixar herdeiros, elas passariam ao membro mais próximo da família. Os filhos dela deveriam ser batizados, o exército de Dustan não estava a disposição de Ubbe sem a aprovação da senhora deles. Os serviçais do castelo seriam escolhidos por Aethelflaed também, e Ubbe sorriu cinicamente quando Dustan mencionou a preocupação de um anulamento futuramente, se ele escolhesse permanecer pagão.

A maior parte das condições não ofendia Ubbe; homens saxões jamais o seguiriam em uma batalha que não beneficiasse o interesse dos cristãos e ele podia apreciar ao menos a tentativa de manter Aethelflaed segura por meio de cláusulas e acordos. Seus filhos, porém, ele não entregaria tão facilmente. No entanto, ele podia enforçar isso depois. Dustan não viveria para ver o batismo de um neto.

Alfred se encarregaria do dote da noiva e Ubbe cruzou os braços enquanto os dois homens discutiam manobras políticas, acordos comerciais e menores impostos para Dustan. Aparentemente, entregar uma filha virgem a um herege assassino poderia comprar muitas, muitas coisas.

— Ele não vai ver o próximo verão, — Ubbe disse quando o duque finalmente os deixou a sós. Alfred franziu o cenho para ele.

— Ubbe, não vou tolerar esse tipo de traição.

— Não é uma ameaça, senhor rei. — Ubbe respondeu, revirando os olhos. — Ele está velho e doente. Posso praticamente cheirar a morte nele. Seu duque também sabe disso. Ele não estaria se arriscando tanto se tivesse tempo.

Alfred analisou cuidadosamente o rosto dele. — E isso apetece a você? Não ter seu sogro supervisionando suas ações?

Ubbe sorriu, afiado. — Acho que minha esposa vai enterrar o pai antes que eu possa me despedir da sua guerra, meu senhor.

— Tem muita fé na morte de duque Dustan. Talvez ele possa surpreendê-lo. — Alfred comentou. O menino correu os dedos pelo contrato delicadamente, passando-os por sobre a tinta seca. A caligrafia elegante e praticada do rei estava ali, selando o destino de Ubbe.

— Se a doença não o matar, a culpa vai. Culpa pode acabar com um homem, Alfred. — Ele disse, quieto, e encarou a luz que entrava pelas janelas altas refletindo na parede. Culpa consumira seu pai, o transformara em um eco do homem que Ragnar fora. Dustan não tinha força para passar pelo mesmo e continuar vivendo.

— Você não vai machucar a filha dele, — Alfred murmurou, calmo. Ubbe assentiu sua confirmação, mesmo que o rei não precisasse dela. Era ingênuo, a certeza que o menino tinha na bondade do viking. Ele quase riu.

Ubbe não era gentil. Mas ele não precisava torturar uma menina que não tinha escolha, e não havia prazer algum em fazê-lo.

— Mas a filha dele ainda vai se deitar com um pagão. É humilhante o bastante para os dois.

— O rei da França fez o mesmo acordo, com o seu tio. — Alfred lembrou. Ubbe ergueu as sobrancelhas.

— Ah, e nenhum dos seus bons cristãos achou isso um absurdo? — Ele perguntou, sarcástico.

— Tempos desesperadores, Ubbe. Nós bons cristãos acreditamos em sacrifício. — Alfred suspirou pesadamente e esfregou as têmporas. Ubbe podia enxergar linhas no rosto dele que não estavam lá quando o viu pela primeira vez. — A cerimônia de casamento vai ser cristã. Dustan insiste, mesmo que você não professe a fé. — Ubbe deu de ombros, impassível. Não se importava com a cerimônia de um casamento arranjado com uma garota que não amava. Alfred apoiou lentamente as costas no encosto alto de sua cadeira, parecendo quase hesitante. — Sobre a noite de núpcias, há um costume entre a nobreza. A primeira noite de vocês deverá ser testemunhada por —

— Não.

— Ubbe, eu entendo que pode ser constrangedor, porém é importante que não haja fundamentos para uma anulação baseada em —

— Não. — Ubbe repetiu, lívido, sua voz gutural e quase rosnada.

— As cortinas são puxadas ao redor da cama, ninguém nem ao menos veria vocês e —

— Não! — Ubbe vociferou, seu punho atingindo a mesa de madeira com força, o barulho alto atraindo os guardas do lado de fora. Alfred levantou a mão para apaziguá-los rapidamente.

Ubbe podia sentir o impacto reverberando até seu ombro, uma veia pulsando furiosamente em sua testa. Seus dentes estavam rilhados, os olhos arregalados, as narinas dilatadas como as de um animal.

— É uma questão de segurança, Ubbe. Não consumar um casamento poderia facilmente conceder uma anulação, se Aethelflaed pedisse por ela.

— Mais facilmente do que o esposo ser um pagão filho de Ragnar Lothbrok? Mais facilmente do que todo o sangue cristão que eu já derramei? — Ubbe não estava mais gritando, porém não se sentara novamente, os músculos tensos, assomando sobre o menino como um gigante. Ele foi atingindo, mais uma vez, com o quão despreparado para a batalha o rei era, esguio e pálido e o olhando com determinação apesar de tudo. Ubbe teria que ensiná-lo a lutar, um dia.

— É para a segurança de Aethelflaed também. Meu povo não sabe que você não participou dos estupros, tem medo do que vá fazer a garota. Com testemunhas, eles se certificam de que não será… bruto demais.

— Não é suficiente o quanto já a humilharam? A estão entregando para mim, o pai dela a humilhou na frente da corte, e agora querem assistir a consumação do casamento dela?

— Ubbe —

— Não vou tolerar isso, Alfred. Quer que a garota seja minha? Tudo bem, eu a aceito, porém ela também é minha para proteger. — Ubbe pausou, seu rosto quente com sua indignação. Ele observou Alfred, a surpresa no rosto do menino. Ubbe suspirou. — Eu já fui casado. Eu era jovem e estúpido e ela era uma escrava na minha casa. A deixei para trás, porque ela era perigosa para os outros, porque não podíamos confiar nela, mas principalmente porque não a amava. Porém mesmo no final, e mesmo no começo, quando ela era uma escrava e eu um príncipe, eu nunca a desrespeite como vi o pai de Aethelflaed fazer hoje. Eu nunca desrespeitei ou machuquei nenhuma das mulheres que veio até minha cama. Não vou começar agora, com uma garota que já está assustada e que não quer estar aqui.

Ubbe deixou o silêncio se estender entre eles, sentindo-se estranho e exposto. Vulnerável. Ele odiava a sensação, odiava não ter o poder necessário para impor sua vontade naquele momento. Alfred poderia insistir, poderia exigir aquilo. A posição dele na corte era precária até que sua importância no campo de batalha fosse provada. Mesmo depois do casamento, Aethelflaed poderia ficar subitamente viúva se os humores do rei mudassem de disposição.

Ubbe conseguia imaginar Aethelflaed, os olhos fechados com força, tensa e com dor, sua atenção nas pessoas esperando do lado de fora de uma cortina, testemunhando enquanto um viking tirava a honra que as mulheres saxãs protegiam tanto. Sua pele formigou com revolta. Ubbe era o mais misericordioso de seus irmãos, ele podia oferecer aquela bondade à sua noiva.

Alfred sorriu lentamente, satisfeito. — Eu estava certo, — ele disse. — Você vai ser melhor para ela do que um marido saxão seria.



O abraço quente e aconchegante da água a envolvia e bloqueava o mundo lá fora. No escuro silencioso, Aethelflaed não era ninguém e não havia nada a sua espera; ela poderia estar morta, flutuando eternamente no calor carinhoso, sem consciência de seu corpo, das dores e tensões que a acompanhavam.

Infelizmente, seus pulmões queimavam, e ela emergiu a contragosto. Uma das flores que Amice havia jogado na água para perfumá-la ficou grudada em sua testa.

— Se não sair da banheira agora, — Amice avisou, sentada em uma das cadeiras do quarto elegante no qual ela e sua dama de companhia foram colocadas. — Não vai ter tempo para que seu cabelo seque antes do banquete à noite.

— Talvez eu queria parecer uma das ninfas d’água romanas. — Ela respondeu, desenhando círculos no cobre da banheira.

— Tenho certeza que seu noivo adoraria isso, — Amice provocou, sorrindo maliciosamente e piscando um olho. — Mas você tem que encantar o resto da corte também, Aethelflaed. Quando seu pai morrer, você terá que lidar com eles. E se Ubbe Ragnarsson não for tão leniente e liberal quanto se mostrou hoje, o apoio dos outros nobres será fundamental para tirá-lo de sua vida.

Aethelflaed suspirou profundamente e se levantou da banheira, torcendo os cabelos longos para tirar o excesso de água deles. Amice entregou seu robe a ela e as duas se sentaram frente à lareira, esperando que o calor secasse o cabelo úmido das duas.

Amice não estava bebendo vinho, apesar da jarra na mesa próxima a elas. Nessa noite, elas precisariam de todo seu intelecto. As regras e esquemas da corte eram muito mais perigosos do que o campo de batalha do homens.

— Poderia ser pior, — Amice disse subitamente. Ela estava encarando o fogo, aparentemente distraída, passando lentamente uma escova pelos cabelos escuros. Aethelflaed sabia melhor do que acreditar na displicência dos gestos dela. Amice, assim como ela, nunca estava verdadeiramente distraída, uma necessidade imbuída nelas desde de crianças. Afinal, elas conheciam a natureza frágil da reputação de uma mulher, e o menor deslize poderia condená-las. — Seu noivo poderia ser Bjorn Ironside. — Ela completou e voltou sua atenção para Aethelflaed com um sorriso maldoso.

Aethelflaed riu. Podia fazer isso, na privacidade daquele quarto, agora. No entanto, aquele homem assustador seria seu irmão por casamento em alguns dias. Ela estremeceu e puxou o robe mais para perto do corpo.

— Ele parecia mais bravo do que Ubbe, — ela respondeu, brincando com o bordado em suas mangas.

Amice enfiou os dedos dos pés descalços na panturrilha dela. — Talvez ele esteja com inveja porque não vai se casar com a bela saxã de cabelos vermelhos. — Ela brincou, ondulando as sobrancelhas comicamente.

Aethelflaed chutou-a de volta, e elas se perderam naquele jogo fácil e familiar até se dissolverem em uma pilha de risinhos sem fôlego.

— Tenho certeza que Bjorn vai encontrar consolo em alguma das mulheres nórdicas. Elas são lindas, não acha?

— Melhor ainda, elas são guerreiras, — Amice quase sussurrou, uma animação quase infantil acendendo os olhos azuis. Amice, que nunca se satisfizera em ser a princesa resgatada do dragão em suas brincadeiras quando crianças, que gostava de Jezabel e Medusa e Climnestra, que sempre se ressentiu da fragilidade da posição na qual eram forçadas a estar. — Talvez Lagertha seja melhor do que Ragnar, até.

— Ragnar se tornou uma lenda, Amice.

— Mas Lagertha está viva. — Ela retrucou. — E eles nunca deixam as guerreiras se tornarem lendas, a não ser que sejam as vilãs. Eles não querem que saibamos que podemos ser fortes.

— Mas nós sabemos. — Aethelflaed sussurrou.

Amice estudou o rosto dela, o lábio preso entre os dentes. Ela se inclinou para frente e tomou as mãos dela entre as suas.

— Você vai sobreviver a ele. Bondoso ou cruel, vai sobreviver a Ubbe. Vou me certificar disso. Se me deixar sozinha nesse mundo, Aethelflaed, te caço onde estiver, está me ouvindo, senhora?

Aethelflaed assentiu, sorrindo apesar do bolo em sua garganta e do ardor em seus olhos. Não saberia o que fazer se Amice não estivesse ali. Não saberia como suportar o medo e as mentiras se não houvesse alguém com quem não precisasse ser forte.

Amice se levantou e começou a desembaraçar cuidadosamente os nós em seus cabelos, beliscando os ombros dela quando Aethelflaed se mexia demais.

— Edwina deve estar correndo pelo castelo preparando as coisas para o seu casamento agora, — Amice lembrou e Aethelflaed torceu o nariz.

Nunca tivera muitos emoções sobre sua festa de casamento, mesmo antes de saber quem seria seu noivo. Talvez ser ensinada tão cedo a como comandar um castelo houvesse roubado a magia do evento; quando Edwina suspirava sonhadora sobre o casamento de Aethelflaed, ela pensava na quantidade de comida gasta com os convidados, a exaustão dos serviçais correndo de um lado para o outro para acomodar tantos nobres, a pressão de jamais cometer um erro e envergonhar sua família.

Pelo menos ali, ela não precisava se preocupar com isso. Um casamento às pressas como esse, a comando do rei, não era responsabilidade dela ou de sua família. Aethelflaed deveria comparecer a festa e encarar o teto em sua noite de núpcias — ela duvidava que Ubbe soubesse as danças da corte — todo o resto era de responsabilidade da família real, e havia uma satisfação petulante em não mover um dedo para ajudar. Se eles queriam tanto aquela aliança, poderiam trabalhar por ela. Aethelflaed já estaria entregando demais.

— Tenho certeza que ela não quer ofender os filhos de Ragnar Lothbrok com uma cerimônia decepcionante, — Aethelflaed respondeu, sarcástica. Amice pausou atrás dela, os dedos descansando em sua nuca, e Aethelflaed sabia perceber a apreensão da amiga bem demais. Ela se virou, preocupada. — O que foi?

Amice hesitou.

— Escutei de outros serviçais do castelo que Torvi, a outra mulher que vimos quando chegamos, é amante de Ubbe. — Ela disse finalmente, o rosto cuidadosamente impassível, assistindo Aethelflaed por uma reação

Ela franziu o cenho. — Tem certeza disso?

— Tenho. Eles também disseram que ela tem dois filhos pequenos, porém eles são de Bjorn Ironside.

Ambas as sobrancelhas de Aethelflaed subiram em sua testa. — Ubbe está se deitando com a esposa do irmão?

— Torvi não é esposa de Bjorn, pelo menos não mais. E rainha Judith estava se deitando com o sogro e foi adúltera antes disso. Nosso rei é um bastardo, Aethelflaed. Pelo menos os nórdicos são honestos quanto aos seus desejos.

Aethelflaed se sentou corretamente na cadeira e deixou que Amice terminasse de escovar seu cabelo. Ela encarou os baús com seus pertences e suspirou profundamente.

— Escolha uma joia para dar a Torvi. — Ela disse.

— Quer dar um presente para a amante do seu noivo? — Amice perguntou, curiosa, e Aethelflaed agradeceu silenciosamente, não pela primeira vez, pelo pragmatismo dela.

— Não vou presumir que ele vá deixá-la. Ubbe está com ela por escolha, provavelmente a ama. Ele vai se casar comigo por dever. Não posso competir com isso. É melhor que ela saiba logo que eu não pretendo fazer a vida dela difícil. Não preciso de uma guerreira enfurecida e de coração quebrado querendo minha cabeça, Amice. De todas as coisas que eu quero, essa é a última.

Amice colocou a escova sobre a penteadeira e se sentou de frente para ela novamente.

— Não espera ganhar o coração dele? — Ela perguntou, quase pesarosa.

Aethelflaed sorriu, mas era triste. — Espero ganhar o respeito dele. Gratidão talvez, se der filhos a Ubbe. Mais do que isso é um sonho infantil, e não posso me dar ao luxo de tê-los.

— Sinto muito, — Amice murmurou, o mão dela quente em seu joelho pelo robe. — Queria que você fosse feliz no amor.

— Você não acredita no amor dos homens, Amice.

— Não, — Amice confirmou. — Mas o queria para você mesmo assim.

Tanto havia mudado desde que elas se conheceram. Tantos sonhos doces e ingênuos que Aethelflaed tinha, protegidos por sua posição e por seu pai, destruídos a cada ano que passava, incapazes de suportar a realidade dura do mundo. Amice sempre fora seu conforto, o pragmatismo dela a protegendo até que se tornou uma parte de Aethelflaed também. E aqui estavam, de mãos dadas no precipício, endurecidas e sagazes.

— Venha, vamos te vestir. — Amice ordenou, puxando-a da cadeira. — Seu cabelo está seco e o sol está se pondo. Não vamos deixar seu bárbaro esperando.

Amice a colocou em um vestido azul claro, as mangas longas e soltas, escondendo suas mãos, finalizadas em cetim branco. Bordados dourados cobriam a gola, o final das mangas, embaixo do busto e a faixa fina que cobria sua cintura e descia pelo centro do vestido até embaixo. Ela se lembrava de bordar aquilo sentada à beira da janela durante o inverno, entediada e congelando e ansiando pelo sol. A memória trouxe lágrimas aos seus olhos novamente.

Amice trançou as duas mechas frontais de seu cabelo e os prendeu atrás de sua cabeça, mergindo as duas em uma única trança. Ela beliscou suas bochechas e ordenou que ela mordesse os lábios até estar satisfeita com a cor deles também.

No final, Aethelflaed parecia mais jovem; inocente e doce, um cordeiro sendo sacrificado pelo bem de Wessex, entregue a lobos vorazes. Ela se permitiu sorrir maliciosamente uma última vez antes de colocar a máscara que apresentaria à corte aquela noite: o queixo levantado com a dignidade que sua posição demandava, os ombros retos com determinação de cumprir seu destino, os lábios trêmulos com tristeza e os olhos brilhantes com medo. Uma boneca delicada e obediente a ser protegida.

— Você parece um anjo, — Amice disse, os olhos brilhando perigosamente. — E belas mentiras sempre são aceitas.— Ela ajeitou uma mecha de cabelo de Aethelflaed e moveu o colar que ela usava até que o pingente se escondesse sugestivamente no vale entre seus seios. — É o que todos nós queremos, no fim do dia. Uma mentira que nos faça dormir a noite.

Elas entraram no salão e Aethelflaed se perguntou se a cova onde seu sogro morrerra possuía tanto veneno quanto aquele lugar.