Hardest of Hearts

23 Blood is running deep, somethings never sleep


Notas iniciais
A pergunta que não quer calar é: será que eu ainda vou ter sanidade até o final do ano? sdjspdspdkspdkps ai ai, choremos. Desculpa o sumiço, gatxs. Dedico esse capítulo pra Cloto, pra Lady Dixon e pra BadMinnie que comentaram! Espero que gostem!

Como nós perdoamos os nossos Pais?

Talvez em um sonho

Perdoamos nossos pais por nos deixarem

por tempo demais ou por tempo de menos

quando éramos pequenos?

Talvez por nos assustarem com raiva

inesperada

ou por nos deixarem nervosos

porque nunca parecia

que havia raiva alguma.

Perdoamos nossos Pais por

se casarem ou não se casarem com

nossas Mães?

Por se divorciarem ou não se divorciarem

de nossas Mães?

E devemos perdoá-los pelo

excesso de calor ou de frieza deles?

Devemos perdoá-los por empurrar ou

se apoiar

por fecharem portas

por falarem pelas paredes

ou nunca falarem

ou nunca estarem em silêncio?

Perdoamos nossos Pais no nosso tempo

ou no deles

nas suas mortes

dizendo isso a eles ou não dizendo?

Se perdoarmos os nossos Pais, o que resta?

— Como perdoamos os nossos Pais?, Dick Lourie



Aethelflaed tinha um pesadelo recorrente. Ela sonhava que estava em um grande baile, ou às vezes em uma das festas no meio de clareiras em florestas sobre as quais ela ouvia falar mas nunca fora permitida ir. Às vezes, todos usavam roupas suntuosas, riqueza escorrendo dos tecidos e das jóias; às vezes, as pessoas dançando eram plebeus e servos. Em uma ocasião, as pessoas em seu sonho estavam vestidas de preto, e mesmo com a música Aethelflaed conseguia escutar o choro de uma mulher.

Mas em todos esses sonhos, uma coisa permanecia igual: Aethelflaed estava nua. Havia sonhos em que as pessoas não pareciam perceber, e sonhos em que apenas olhavam para ela com desprazer, como se sua nudez fosse só uma pequena grosseria.

Mas em todos esses sonhos, Aethelflaed estava desesperada e tão envergonhada que mal podia levantar os olhos de seus próprios pés descalços. Ela acordara chorando desses pesadelos, seu rosto quente com constrangimento. Mesmo a memória deles a fazia se encolher e seu estômago revirar.

Era pior agora, impossivelmente pior.

Isso era tudo culpa dela. Sua culpa, por ser descuidada e estúpida, por ceder ao desejo, por deixar Ubbe e a proximidade dele e as sensações que ele provocava em seu corpo afetaram seu julgamento.

Jamais fora o plano dela acabar assim, as saias levantadas e a bochecha pressionada na mesa de uma sala onde ainda conseguia escutar as risadas e as cantorias do banquete de casamento do rei. Assim como não fora seu plano que Ubbe ficasse tão furioso quando contou a ele que o Wittan pretendia casá-la com outra pessoa.

Aethelflaed deveria ter esperado, deveria ter se certificado de que estariam sozinhos. Mas havia um fremir tão grande em ver os rostos dos nobres enquanto eram forçados a reavaliá-la, enquanto a olhavam banhada em vermelho, corvos em seus ombros — Hugin e Munin, os corvos de Odin que carregavam até ele toda a informação sobre o mundo conhecido, assim como Ubbe havia dito a ela em uma de suas muitas conversas durante a noite. Era ambos uma homenagem à religião de seu marido e um aviso a qualquer um que pudesse olhar mais profundamente para o significado de suas roupas.

Aethelflaed possuía conhecimento. E ela o usaria.

Mas todo seu conhecimento não havia a preparado para o olhar no rosto de Ubbe enquanto ela dançava com outros lordes, o desconforto escrito tão claramente ali, a irritação quando as mãos deles demoravam mais do que deveriam nela. E não a havia preparado para quão confiante, quão ferozmente protetor ele soara quando dissera que protegeria Aethelflaed do derramamento de sangue que rodeava a vida deles, a voz solene como um juramento.

Ela quisera contar a Ubbe, então. Aethelflaed quisera contar a ele ao menos esse segredo, ao menos esse peso que ela carregava, porque esse era um fardo que Ubbe poderia dividir com ela. Enquanto eles dançavam, enquanto Ubbe aprendia rapidamente os passos e lia o corpo dela com tanta facilidade, como ele vinha fazendo pelas últimas semanas, Aethelflaed sentiu que o risco valia a pena, que eles poderiam formular um plano, que poderiam trabalhar para sufocar a rebelião do Wittan juntos.

Aethelflaed não havia se preparado para a fúria imediata de Ubbe, ou para a desconfiança que ele sentia de seu pai e dela também. Um desleixo, realmente. Um descuido patético. Uma estupidez a qual ela não podia se dar ao luxo, não importava o quanto se sentisse confortável com Ubbe.

E Ubbe estava com tanta raiva, os olhos terrivelmente azuis dele queimando mesmo na luz baixa das velas, o rosto contorcido com ódio e preocupação. Ele aparentava ser exatamente o guerreiro e assassino que era naquele momento, e Aethelflaed jamais havia sido o alvo da fúria de seu marido antes, mesmo que já a houvesse testemunhado.

Ela estava tão, tão assustada.

Era fácil esquecer que deveria ter medo de Ubbe. Fácil se perder nas palavras bondosas e no toque gentil, fácil ser entretida pelas estórias de um mundo tão diferente do que ela conhecia. A atenção dele era intoxicante, demandando todo o foco de Aethelflaed, exigindo que ela conhecesse inteiramente esse homem com quem havia se casado. Mas naquele momento, Aethelflaed foi lembrada de que ela era uma cristã e Ubbe um pagão, que os povos deles se matavam aos milhares, lembrada que o destino da família de Ubbe repousava nesse casamento e, por consequência, nos ombros dela.

O que Aethelflaed faria para manter a quem amava a salvo? O que Ubbe faria com ela, se acreditasse que era culpada por colocar as vidas da família dele em risco?

A boca dela havia secado, seu coração batendo tão terrivelmente rápido que doía.

Ubbe estava tão perto, ele poderia colocar as mãos em seu pescoço e acabar com a vida dela ali mesmo, ao sons de palmas e gargalhadas.

E então Ubbe havia olhado para ela, e a raiva sumiu do rosto dele.

E ele pedira desculpas. Aethelflaed não estava acostumada com homens se desculpando por sua raiva, especialmente quando esta era justificada. Entendia porque Ubbe ficara com raiva. Entendia a preocupação e o medo que a responsabilidade com outras vidas trazia. Não o culpava por isso.

Ainda assim, Aethelflaed estava abalada enquanto explicava a situação, enquanto Ubbe percebia o que estava acontecendo, enquanto ele se desculpava, de novo e de novo, por tê-la assustado.

Mas ela ignorou isso, porque Ubbe estava concordando com uma aliança, porque dissera que eles eram amigos, porque havia sido bondoso com ela, de novo e de novo, e ela poderia perdoar essa indiscrição.

Mas foi parcialmente por causa da memória da raiva dele que, quando os olhos de Ubbe desceram por seu corpo quando ela ergueu o vestido e se sentou na mesa, tentando aliviar o peso em seus ombros e costas, que Aethelflaed foi tão facilmente convencida a ceder à luxúria que tomou conta das feições dele, tão facilmente convencida a ignorar tudo e ceder ao seus próprios desejos.

Porque Ubbe já chegara aos aposentos dela com raiva antes, cansado e irritado com o Conselho, com Alfred, com a Inglaterra. Às vezes, ele não conseguia manter a aspereza fora da voz, o sotaque ficando mais pronunciando, o tom quase um rosnado. Mas quando a tocava, Ubbe sempre era gentil. Não importava o que havia acontecido antes, não importava os segredos e as omissões e os deveres deles, em sua cama, Ubbe sempre era bondoso.

A Aethelflaed queria isso, queria a gentileza dele, a promessa de proteção, de amizade. Ela queria até mesmo a possessividade que vira no rosto dele enquanto dançava com outros. Ela queria tudo isso, o calor e o suor, o desconforto da madeira dura da mesa a pressionando. Queria o corpo de Ubbe pesado nela, e quão errado e perverso parecia que o deixasse tomá-la assim, como se Aethelflaed fosse alguma garota de nascimento comum que qualquer nobre tomaria em festas como a que acontecia agora. Ela queria as palavras sujas e as mãos de seu marido nela, a boca dele em sua pele.

Aethelflaed fora ensinada modéstia e controle toda sua vida. Isso nunca fora capaz de apagar a voracidade dela antes, e certamente não o faria agora.

Ela não escutou a porta abrindo. Não percebeu que havia mais alguém na sala até que a voz de seu pai ressoou, alta e clara e tão, tão furiosa.

E agora, Aethelflaed queria que a terra se abrisse e a engolisse, queria derreter no chão de pedra e escorrer pelas rachaduras, queria implorar que Ubbe quebrasse seu pescoço e a poupasse dessa humilhação.

Ela fechou os olhos, sentindo-os queimarem, lágrimas de vergonha vindo. Seu rosto queimava terrivelmente, e ao mesmo tempo seu corpo estava gelado, suas pernas fracas, o estômago revirado. Aethelflaed estava tremendo por completo, agarrada à mesa como se a madeira pudesse salvá-la.

Ubbe se levantou lentamente, puxando o vestido dela para baixo com cuidado, a cobrindo. Doeu quando ele saiu de dentro de seu corpo, Aethelflaed subitamente tensa demais.

Ela não queria se mover. Não queria se levantar dessa mesa e enfrentar seu destino, a fúria de seu pai, as consequências de seu descuido. No entanto, precisava o fazer. Há muito tempo Aethelflaed havia deixado de ser uma criança que acreditava que os perigos sumiriam se ela simplesmente puxasse os cobertores sobre a cabeça e fechasse os olhos.

Lentamente, ela se levantou, mantendo os olhos no chão enquanto se virava para a porta.

— Que diabos pensam que estão fazendo? — Dustan disse, a voz dele um sussurro raivoso. Mesmo em sua fúria ele não gritaria e atrairia atenção. — Você, viking. Com que direito trata a minha filha como se ela fosse uma prostituta?

— Não fale dela desse jeito, — Ubbe disparou de volta, a agressão no tom dele forçando Aethelflaed a levantar os olhos.

Ela percebeu, então, como ele ainda estava perto, como ela não podia ver além de Ubbe até Dustan, como seu marido havia se colocado entre os dois, o corpo inteiro dele tenso para uma luta. Ubbe havia dito a ela, na noite do casamento deles, que haveria consequências se Dustan a machucasse novamente. Olhando para ele agora, toda a força e foco de um homem que fora criado para a batalha, Aethelflaed sabia que ele falara a verdade.

Não podia deixar que isso acontecesse. Não importava a satisfação que a proteção de Ubbe trazia a ela, nada de bom viria dessa briga.

— Me perdoe, — Aethelflaed pediu, a voz trêmula e embargada ainda. — Me perdoe pelo meu descuido e indiscrição, meu senhor. Não tenho uma justificativa para isso.

Era melhor que a raiva de seu pai recaísse sobre ela, a filha dele. Talvez Dustan a punisse, talvez a machucasse, mas ele não exporia esse escândalo, não a mataria ou destruiria. Mas Ubbe, seu pai poderia decidir ter a cabeça dele antes do nascer do sol, impulsiva e perigosa como uma decisão dessa era. Eles todos haviam sacrificado tanto por essa aliança, por esse casamento. Aethelflaed não queria ver tudo se esfacelar agora, especialmente por suas próprias ações.

Ubbe se virou para ela, o cenho franzido. Ele correu o polegar por sua bochecha, secando as marcas de lágrimas que ela ainda não havia limpado.

— Por que está chorando, Aethelflaed? — Ubbe perguntou na língua dele. Levou um momento até que ela entendesse a frase, e Aethelflaed balançou a cabeça em negação quando o fez. Será que ele entenderia a vergonha, o medo que vinha com uma mulher cristã sendo pega em uma situação comprometedora como essa pelo próprio pai? Ele entenderia o que Dustan podia fazer a ela pelo insulto a família e honra deles? Aethelflaed não achava que sim, e não tinha tempo para explicar isso a Ubbe agora.

Agora, ela precisava se certificar de que deixariam essa sala sem que seu pai mudasse de ideia em relação a aliança com os vikings.

— Aethelflaed, — Dustan chamou, soando incerto, a indignação dele vacilando por um momento. Preocupação tomou o lugar, e algo próximo a alívio.

Aethelflaed ficou confusa por um momento, observando o rosto de Dustan cuidadosamente por algum sinal do que ele queria escutar, do que poderia fazer essa situação terrível melhor.

A então, entendimento a preencheu, e com isso, incredulidade.

Havia lágrimas em seu rosto. Ubbe estava efetivamente a prendendo na mesa, a mão cobrindo sua boca. Ela o havia arrastado do banquete com a desculpa de que ele estava bêbado demais. Não seria uma conclusão impossível de fazer, especialmente com os rumores da corte, especialmente com a fama que seguia os vikings.

Por um momento, rápido e traidor, Aethelflaed considerou deixar que seu pai pensasse que o Ubbe a estava tomando contra sua vontade, que nada disso era sua culpa. Ela considerou as palavras que diria, meias verdades com olhos marejados e uma voz triste que denunciaria sua resignação, que diria sobre sua lealdade a família deles e sua disposição em sofrer por ela. Poderia sair dessa sala com o respeito e amor de seu pai intactos, talvez até mesmo com o carinho que ele se recusava a dar desde que haviam deixado o castelo deles.

Mas se fizesse isso, o que seria de Ubbe? O que aconteceria com seu marido?

Ubbe enfrentaria a fúria de seu pai, ele e toda sua família. Não poderia fazer isso, não depois da aliança que acabara de fazer, não depois de todas as conversas nas madrugadas e dos toques ternos. Se Aethelflaed não estivesse disposta a estar do lado dele agora, o que seria deles se guerra viesse?

Amice zombaria dela por essa decisão, a chamaria e sentimental e fraca e estúpida por colocar a segurança de Ubbe acima de seu próprio conforto. E talvez fosse tolice, mas Aethelflaed não poderia suportar manchar o que sempre fora bom e feliz entre eles. Não cometeria essa ofensa contra a honra de Ubbe quando estava claro, desde do momento em que se casaram, que ele nunca, jamais a machucaria desse jeito.

Aethelflaed não jogaria fora todos os planos que tinha por um pai que se recusava a ajudá-la.

E o que dizia sobre Dustan que ele pareceria aliviado com a possibilidade de que a filha estivesse sendo violentada? O que dizia sobre ele que preferiria Aethelflaed forçada e machucada a que ela cometesse o erro de gostar demais do toque do marido?

Ela não suportava isso, não suportava que seu pai escolhesse sua dor a um escândalo.

Aethelflaed limpou os caminhos de lágrimas em seu rosto e endireitou os ombros, o queixo de pé. Ela alisou o vestido, sentindo as pedras negras acariciando suas palmas. Os olhos de Dustan estavam pálidos e frios quando olhou para eles.

— Imploro que perdoe essa indiscrição terrível, pai. Eu reconheço a estupidez das minhas ações e a vergonha que elas poderiam trazer à nossa família. Talvez tenha bebido demais essa noite. — Ela fez uma reverência profunda. — Meu marido e eu gostaríamos de ir agora, meu senhor.

A fúria de Dustan retornou imediatamente, reluzindo no rosto marcado dele com a admissão de culpa de Aethelflaed. Ele avançou em sua direção, os punhos cerrados. Ubbe o interceptou, empurrando uma mão contra o peito dele em aviso. Dustan arrancou a mão de Ubbe com violência.

— Por favor, — Aethelflaed implorou desesperadamente — Não briguem. Isso não ajudaria ninguém. Eu assumo a responsabilidade, pai. Se precisa punir alguém, então puna a mim. O Wittan regozijaria com uma divisão entre nós. Não vale a pena.

— Pelo que assume responsabilidade, Aethelflaed? Por se rebaixar? Por arriscar trazer escândalo e vergonha à nossa casa? Por agir como uma prostituta? — Dustan rosnou para ela, tentando empurrar Ubbe para fora do caminho. Ele estava furioso, furioso como estava no dia do casamento dela, antes das mãos de seu pai desceram sobre ela com violência.

Aethelflaed recuou, batendo contra a mesa pesada de madeira.

— Insulte a minha esposa novamente, Dustan, e vai cuspir seus dentes, — Ubbe ameaçou, segurando o colarinho do duque, o sotaque dele pesado em casa sílaba, o desejo por violência escrito em cada linha do corpo.

O sorriso irônico de Dustan tinha dentes demais. — Sua esposa? Ela é minha filha, herdeira da minha casa. Não vou permitir que ela traga vergonha ao meu nome.

— A entregou a mim, se lembra? Você e o seu rei e o seu bispo. Entregou sua filha a um estrangeiro assassino do seu povo. Isso não é mais escandaloso? A corte certamente pareceu pensar que sim.

Dustan lançou o punho em direção ao rosto de Ubbe.

Ele fora um guerreiro, em sua juventude. Em sua raiva, talvez um homem menos habilidoso pudesse ser atingido. Mas Ubbe não era um homem menos habilidoso.

Ubbe desviou e segurou o punho de Dustan, rápido e confiante. Ele torceu o braço do duque nas costas e chutou a parte de trás dos joelhos dele. O pai de Aethelflaed caiu de joelhos com um barulho abafado e um grunhido gutural de dor e ódio.

— Não façam isso! — Aethelflaed sibilou. — Vão continuar essa briga, apesar da nossa aliança com Alfred? Vai se desfazer de todos os seus planos por causa de sua raiva, pai?

— Minha raiva! — Dustan esbravejou. — Eu deveria te ter chicoteada na frente da corte inteira por causa da minha raiva, garota tola, já que quer tanto fazer de si mesma um espetáculo.

Aethelflaed se encolheu. O pai dela havia feito muitas coisas terríveis com inimigos, com pessoas que o contrariaram e desrespeitaram. Ele não havia chegado ao poder por acaso. Mas jamais haviam deixado que ela visse essas coisas. Aethelflaed sabia que seu pai já havia ordenado chicoteamentos antes, em ladrões e soldados insubordinados. Ela havia escutado sussurros sobre pele lacerada e sangue derramado, o estalo do couro na pele, sobre pessoas morrendo de febre por causa dos ferimentos.

Aethelflaed não conseguia imaginar que ele faria algo assim com ela, mas agora, com a fúria nos olhos dele, não parecia uma possibilidade tão distante.

Ubbe praguejou e puxou o braço de Dustan mais alto, fazendo-o gemer com a dor. Se ele torcesse mais, o ombro de Dustan sairia do lugar.

Ocorreu a Aethelflaed que Ubbe já poderia ter matado seu pai, que poderia o ter surrado até sangrar, que poderia ter quebrado o braço dele. O rosto de seu marido estava contorcido de raiva, a mandíbula tão apertada que parecia doloroso. Ele certamente queria machucar Dustan. Talvez ele soubesse como seria uma ideia horrível espancar o homem que poderia decidir o destino dele, muito mais agora com o Wittan querendo outro marido para Aethelflaed.

Ela tinha que pôr um fim a isso. Tinha que tirar Ube daqui antes que ele condenasse os dois.

— Você a chicotearia? Por qual crime? — Ubbe disse, grave e perigoso. — Acha que eu simplesmente assistiria enquanto machuca a minha esposa? Você a deu a mim, duque. A machuque e eu vou matar você.

O ar de Aethelflaed a deixou. Era uma coisa ameaçar Dustan para ela. Era outra coisa dizer isso na frente dele. Ela estava ao mesmo tempo desesperada para que Ubbe soltasse o pai dela, e infinitamente grata que ele se arriscaria por ela assim.

Dustan riu. — Mate-me então, filho de Ragnar. Mate-me. Quanto tempo até que os guardas encontrem o meu corpo? Quanto tempo até que te enforquem, você e toda sua família, por isso? Mesmo o rei não iria impedir que te executassem. Não há nada que possa fazer contra mim. — Ele cuspiu as palavras, confiante mesmo que Ubbe o estivesse imobilizando. Os olhos do pai de Aethelflaed se voltaram para ela. — E você, filha? Vai permitir que seu marido mate seu pai? A sua lealdade para com sua família e seu povo é fraca assim? Seu amor é tão sem valor?

— Meu amor nunca teve valor algum para você, — Aethelflaed disse antes que pudesse se impedir.

Essa era a verdade, não era? Qual era o valor de um amor que não suportava a dificuldade? Que se recusava a protegê-la? Que secava frente a ganância? O cuidado de Aethelflaed, sua diligência e obediência, seu amor, tudo isso, desperdiçado.

Amor é a morte do dever. Assim como o dever é a morte do amor.* Dustan havia dito isso a ela uma vez. Ele renunciara dever pelo amor que tinha pela mãe dela, ignorou conselheiros e a necessidade por um herdeiro homem. Ele escolheu o amor pela esposa sobre o dever, sobre a segurança da casa e da família deles. Então o problema jamais fora que Dustan era incapaz de ignorar o perigo a família deles, a ofensa contra o dever. O problema é que ele simplesmente não amava Aethelflaed o suficiente para o fazer.

Aethelflaed engoliu suas lágrimas, sua raiva, sua vergonha. Se dever seria a arma que seu pai escolheria, então ela faria o mesmo.

— Ubbe, deixe-o ir, — ela ordenou. Ubbe não desviou a atenção do alvo dele, mas as sobrancelhas dele se ergueram, o rosto incrédulo. — Por favor, — Aethelflaed pediu mais suavemente, na língua materna dele. Dizia alguma coisa, que uma das primeiras coisas que havia se certificado de aprender em norueguês fosse como implorar. Ainda assim, ele hesitava. — Nenhum de nós vai ganhar coisa alguma com essa briga. Você está com raiva, pai, e tem direito de estar. Eu reconheço o meu erro, reconheço minha tolice, reconheço o risco que a honra da nossa família poderia correr, se alguém além de você entrasse nessa sala. Eu imploro pelo seu perdão, com vergonha e humildade. Mas você não vai virar sua raiva contra Ubbe, ou contra o resto dos vikings. Sempre esteve disposto a arriscar o escândalo, a arriscar a mim, por esse casamento e a aliança que ele traz. Peço apenas que sua disposição e ambição não vacilem agora.

Era tudo que ela podia fazer, virar as próprias ambições, razões e erros de Dustan contra ele. Ele era capaz de muitas coisas, muitas indignidades, muitos pecados. Aethelflaed pedia apenas que ele ignorasse esse.

— Ubbe — Aethelflaed chamou, suavemente. Os olhos de seu marido voltaram para o rosto dela rapidamente. — Não pode matar o lorde duque. Apesar de apreciar sua proteção, deveria soltá-lo agora. É melhor acabar com isso antes que algum de nós faça algo do qual não podemos retornar.

— Assume que não tenha feito algo imperdoável ainda? — Dustan retrucou. Ele estava arfando.

Aethelflaed estreitou os olhos. — Meu erro foi a indiscrição de performar meus deveres como esposa fora da privacidade dos meus aposentos. Esse foi o meu erro. Como Ubbe disse, o senhor me entregou a ele. Me deu em casamento e me colocou na cama dele. Não pode se enfurecer por Ubbe reclamar os direitos que tem sobre mim como meu marido. Ou nega que sabia que isso aconteceria quando aceitou o pedido do rei?

As bochechas de Aethelflaed queimavam intensamente enquanto ela falava, porém não havia uma opção. A única maneira de desviar a ira de Dustan era apelar para a culpa que ele sentia. Talvez ele tentasse ignorar o risco no qual colocara Aethelflaed ao casá-lo com um viking, e ele certamente jamais havia comentado sobre os rumores que Ubbe havia a forçado na noite de núpcias deles. Dustan precisaria ser estúpido para não saber que tudo isso era uma possibilidade, mesmo com as assegurações de Alfred.

Talvez a raiva viesse de ter que ver, com os próprios olhos, o que sua ganância significava para Aethelflaed.

Dustan a encarou intensamente, a raiva sumindo do rosto dele até que tudo que restava era a indiferença fria que Aethelflaed vira tantas vezes antes. Ela respondeu com sua própria frieza. Seu pai a havia ensinado bem, afinal.

— Tire as mãos de mim, viking, — Dustan ordenou, imperial e gélido.

Ubbe olhou para ela em questionamento. Aethelflaed assentiu e entrelaçou os dedos frente às saias. Nenhum dos dois ajudou Dustan a se levantar. Ele girou o braço machucado com um tremor de dor.

— Gostaria de falar a sós com sua esposa, Ubbe, — Dustan disse com escárnio. Aethelflaed tentou não se encolher com o desprezo na voz dele.

— Está tudo bem, — Aethelflaed se apressou em dizer antes que Ubbe pudesse negar. Seu marido a observava com preocupação. — Vai ser breve.

Era melhor que recebesse todo o ressentimento de seu pai agora, de uma vez.

Ubbe cerrou os dentes, claramente contrariado. Aethelflaed tentou sorrir reconfortantemente.

Dustan começou a tossir, o som úmido e chiado. Ele ainda parecia ofegante. O coração de Aethelflaed disparou, mas ela não saiu em auxílio de seu pai.

Ubbe o observou enquanto ele tossia e tentava recuperar o ar, um olhar pensativo no rosto. Por fim, ele assentiu. — Eu vou estar do lado de fora da porta. Vou prestar atenção, — ele disse em clara ameaça. — Se demorar demais, eu vou vir buscar você.

— Obrigada, — Aethelflaed murmurou. Ela encarou as costas largas de Ubbe até que ele fechasse a porta atrás dele.

Aethelflaed respirou profundamente. Não tinha desejo algum de ficar sozinha com seu pai agora, porém era melhor assim. Podia suportar a raiva dele em silêncio.

Dustan pigarreou com força e cuspiu na lareira apagada. Aethelflaed torceu o nariz para o gesto.

Vá em frente, me insulte. Ela pensou fervorosamente, esperando que seu pai se virasse em sua direção. Aethelflaed forçou seu rosto em uma máscara de placidez e suportou o olhar analítico de Dustan sem vacilar, mesmo que seu coração estivesse disparando.

— Seu marido se importa com você, — Dustan comentou, a voz cuidadosamente vazia de emoção.

Aethelflaed ergueu uma sobrancelha. — Preferia que ele não o fizesse?

— Não esperava que ele o fizesse, — corrigiu.

Aethelflaed sorriu amargamente. — E ainda assim me casou com ele.

Dustan pressionou os lábios em uma linha fina. — Sentimento não é algo necessário para um casamento, desde que consigam ser civis um com o outro e trabalhar juntos.

Aethelflaed se impediu de revirar os olhos. — É fácil condenar alguém a esse destino quando nunca teve que enfrentá-lo em seu próprio casamento.

— Não me parece que indiferença seja algo que terá que enfrentar no seu matrimônio, Aethelflaed.

Ela levantou o queixo. — O senhor me criou bem. Eu sei como encantar alguém quando preciso.

— Eu te criei bem? Até hoje, eu pensava isso. Agora, não tenho certeza, — Dustan disse, o rosto terrivelmente frio. Aethelflaed engoliu o insulto, engoliu o que ele implicava. — Tem ideia do que aconteceria se alguém entrasse aqui?

Aethelflaed ficou em silêncio. Se pensassem que Ubbe a estava forçando, todos os rumores explodiriam novamente, talvez piores do que antes. O Wittan usaria isso como desculpa para forçar a mão de Alfred. Se pensassem que Aethelflaed era alguém que participaria voluntariamente de tal indiscrição, perderiam o respeito por ela. Diriam que ela fora corrompida pelos vikings e se recusariam a segui-la.

Ela suspirou pesadamente, exausta.

— Eu reconheço o meu erro, pai. Não há nada que posso fazer para torná-lo justificável. Só espero que possa me perdoar por isso. — E se ele não pudesse, então Dustan, assim como ela, teria que conviver com suas mágoas e rancores. — Por que estava à minha procura? Há semanas se certifica de manter sua distância de mim quando estamos em público.

A placidez cuidadosa de Dustan vacilou e ele pareceu recuar. Aethelflaed suprimiu seu triunfo. Não seria a única a ser lembrada de suas falhas. Seu pai a havia expulso do quarto dele após pedir por ajuda. Por que se daria ao trabalho de procurar por ela em meio a um banquete, após partir acompanhada de seu marido?

Dustan permaneceu em silêncio por um momento. Aethelflaed segurou o olhar dele e se impediu de ficar agitada.

— Romanos usavam vermelho em homenagem a Marte, deus da guerra, — Dustan comentou, fazendo-a franzir o cenho em confusão. Ele apontou para o vestido dela. — Posso não ser tão bem treinado na arte de transmitir mensagens usando roupas como você e outras nobres são, Aethelflaed, mas não sou ignorante, tampouco. Também vi a atenção que deu a todos os membros mais recalcitrantes do Wittan. Pensei que houvesse dito que não queria sua interferência.

Aethelflaed mordeu a língua. Seu pai não havia sido movido por seu clamor, então ela teria que agir. Poderia dizer isso, poderia despejar suas mágoas e suas raivas sobre ele. Mas se Dustan não fora movido antes, tampouco o seria agora, em face de sua indiscrição. Era melhor que fosse direto ao ponto, melhor que o encontrasse no meio do tabuleiro do jogo político para o qual fora criada.

— Alguns membros do Wittan procuram outro marido para mim, meu senhor.

Dustan piscou rapidamente, incrédulo e chocado. Aethelflaed simplesmente o encarou, esperando enquanto ele processava aquilo, observando raiva e indignação batalharem no rosto do pai dela.

— Eles não ousariam me desafiar dessa forma, — Dustan disse asperamente.

Aethelflaed pressionou os lábios em uma linha fina, sentindo o sabor amargo das palavras em sua língua. — Eles não vão o fazer. Suponho que pretendam simplesmente esperar.

Ela não esclareceu sobre o que falava. Dustan não havia apreciado que ela mencionasse a morte dele antes, e Aethelflaed não ousaria arriscar isso agora. Ela não teve que fazê-lo, no entanto. Seu pai percebeu o significado de suas palavras no segundo seguinte. Parecia que a morte não estava longe dos pensamentos dele também.

O sorriso pesaroso e vingativo que rasgou o rosto de Dustan fez um arrepio subir pela espinha de Aethelflaed. Essa não era a raiva quente e indignada que seu pai direcionava a ela. Essa era a ira fria e calculista que o duque dava a seus inimigos.

— O que pretende fazer sobre isso, meu senhor? — Aethelflaed perguntou cautelosamente. Seria mais fácil formular seus planos se soubesse quais eram as intenções de seu pai. Seria mais fácil não irritá-lo ainda mais.

— Agora eu preciso pensar, — Dustan respondeu cortante. — E não consigo fazer isso olhando para você, não agora, — ele terminou de forma amarga. Aethelflaed engoliu sua mágoa com o comentário. — Há quanto tempo sabe disso?

Ela hesitou. — Desde ontem a tarde, — Confessou.

Dustan apertou as mãos em punhos e descansou os nós dos dedos ossudos na mesa. Aethelflaed tinha a impressão de que ele socaria a madeira se o barulho não fosse trazer Ubbe correndo para dentro. Dustan se inclinou na direção dela. Aethelflaed teve a vontade de se afastar, de colocar algo entre eles, mas ela se recusou a ceder. Ubbe estava do lado de fora. Seu pai não ousaria colocar as mãos nela. Ainda assim, as promessas de violência dele estavam frescas em sua mente.

— E não pensou em contar isso a mim, filha? — Dustan disse, baixo e acusador, cada palavra dita como um insulto.

Aethelflaed mandou um olhar irritado a ele. — Você havia me expulsado de seus aposentos apenas momentos antes. Não pensei que minha interrupção seria bem vinda, meu senhor.

Ela poderia ter mandando uma mensagem, poderia ter enviado Jojen ou qualquer outro integrante da casa deles. Ela deveria o ter feito. Mas com o descaso de seu pai ainda ardido nela, Aethelflaed não sentia a menor inclinação de o fazer.

Como se sente agora, ela pensou cruelmente, tendo alguém em quem confia escondendo coisas importantes de você.

Por um momento, o pai dela permaneceu em silêncio, e Aethelflaed temeu que ele se enfureceria mais ainda sobre isso do que o fizera sobre ela e Ubbe. E então, Dustan riu, algo feio e auto depreciativo que fazia os pulmões dele chiarem.

Aethelflaed encarou o pai em confusão, o cenho franzido.

— Eu fiz você ser desse jeito, sabia? Te fiz ardilosa e astuta e fria. Até mesmo um pouco vingativa. Tive que o fazer, para ter certeza de que jamais teria piedade dos nossos inimigos, apesar do coração macio com o qual nasceu. Eu te criei para ser assim e você aprendeu o que te ensinei. Suponho que não posso ficar demasiado enfurecido quando usa o que te ensinei contra mim.

— Meu senhor, eu te asseguro, não sei sobre o que fala. — Aethelflaed disse afetadamente, tentando impedir suas mãos de tremerem. Havia uma expressão contemplativa no rosto do pai dela, como se ele não estivesse completamente ali, naquele momento. Dustan abanou a mão para ela, desdenhoso.

— Negue se isso te fizer sentir melhor. Porém eu te criei demais como um filho. Espero de você coisas que esperaria de um filho. Talvez seja a minha culpa que muitas vezes você tenha a ousadia de um homem. — Dustan desviou a atenção dela, olhando para a penumbra da sala. Ele parecia subitamente perdido e triste. A respiração de Aethelflaed parou na garganta. — Se sua mãe pudesse ver o que se tornou de você, ela choraria.

Aethelflaed mordeu a parte interna da bochecha, paralisada, seus olhos ardendo novamente, a garganta apertada.

As memórias que tinha de sua mãe haviam se tornado nubladas nos últimos anos. Ela tinha sete anos quando a duquesa morreu, e apesar de Aethelflaed sentir a falta dela dolorosamente as vezes, a época de sua vida em que tinha uma mãe era distante. Era mais difícil sofrer por algo que mal podia lembrar. Seu pai não recebera tal misericórdia. O luto dele jamais havia se abatido, apesar de ter encontrado formas de conviver com ele.

A vida de Aethelflaed teria sido tão diferente se sua mãe estivesse viva. Talvez ela pudesse ser protegida por mais tempo, mantida distante das maquinações da corte, se sua mãe pudesse assumir o papel que desempenhava agora. Mas a vida de Aethelflaed não era diferente, e era tudo o que ela podia fazer tentar honrar a memória da mulher cujo rosto lembrava tanto o seu.

Aethelflaed gostaria que sua mãe tivesse orgulho dela. Gostaria de ter a aprovação dela, gostaria que ela entendesse Aethelflaed das maneiras que seu pai não podia. Sabia que sua mãe havia sido uma cristã devota. O que a duquesa diria se soubesse quão facilmente mentiras vinham aos lábios da filha dela? Se soubesse quão pouco Aethelflaed se importava com a Igreja além do que ela podia interferir na política do reino, se soubesse quão avidamente ele devorava coisas que eram consideradas heresia, como ela era culpada de tantos pecados, de luxúria e ira e orgulho e ambição. O que ela diria, se visse como Aethelflaed trocava facilmente de faces, carregando dentro de si o túmulo de cada mulher que precisara se tornar, cada uma delas se erguendo para cortar a garganta da menina que fora um dia.

Aethelflaed precisava fazer essas coisas para sobreviver, para proteger a casa deles, para seguir os ensinamentos de seu pai. Mas será que sua mãe seria capaz de compreender?

Talvez ela choraria, de fato.

— Se ela pudesse ver o que fez comigo, ela não choraria do mesmo jeito? Você mesmo disse, fez de mim o que sou. Talvez mamãe odiaria nós dois.

Aethelflaed gostaria de dizer que não pretendia machucar seu pai com essas palavras, mas isso seria uma mentira. Ela havia sido machucada por ele de novo e de novo. Estava cansada de simplesmente virar a outra face.

Dustan se deixou cair pesadamente em uma poltrona, tossindo violentamente de novo. Ele perdeu o fôlego e lutou para o recuperar. Seu pai estava envolto em sombras, metade homem e metade aparição. Ele limpou a boca e observou a palma com uma expressão estranha, o cenho franzido.

— Talvez ela odiaria. Mas minha esposa tinha prática em ignorar minhas muitas falhas. Eu não sou um bom homem, Aethelflaed; ninguém com poder jamais é bondoso. Mas sua mãe me amava como se eu pudesse me tornar um homem bom, então eu tentei ser um, ao menos para ela. Sua mãe desviou os olhos dos meus pecados, e em troca eu fiz tudo o que pude para esconder dela os pecados da vida que levamos. — Dustan ficou em silêncio por um longo tempo, a respiração pesada. Mesmo nas sombras, Aethelflaed sabia que ele a estava encarando. — Eu não pude fazer o mesmo por você. Precisava de um herdeiro, não de uma filha. Não pude te proteger do jeito que sua mãe teria gostado antes, e certamente não posso me dar ao luxo de o fazer agora. Tudo o que posso fazer é te dar poder, suponho. Mas essa é uma lição que você já aprendeu, não é mesmo? Se eu não der poder a você, irá tomá-lo. Posso ter falhado com você de muitas maneiras como pai, porém não como professor.

— Sempre teria que escolher entre um ou outro? — Aethelflaed perguntou, grata que sua voz não tremia apesar da dor em seu peito.

Nunca havia pensado que tivesse razões para se ressentir de seu pai antes de virem até aqui, nunca havia sentido o peso das aspirações que ele tinha para ela. Mas talvez Dustan sempre soubesse que esse momento chegaria, quando Aethelflaed sairia para o mundo e descobriria exatamente quanto dela seria arrancado pelo dever.

— Você jamais poderá ter tudo, querida. Confie em mim, eu tentei. Sempre existe um preço a pagar. — Dustan suspirou pesadamente. — Deixe-me, Aethelflaed. Vá para o seu marido. Vou chamar você quando tiver um plano para a situação com o Wittan.

Aethelflaed bufou uma risada incrédula e raivosa. — Então vai me mandar embora de novo?

— Não acho que qualquer um de nós goste muito da presença do outro agora. Há coisas demais que permanecem não ditas entre nós, muita raiva. Acha que não percebo seu rancor por mim por causa desse casamento?

— E ainda assim, nunca disse nada, — Aethelflaed cuspiu friamente.

— O que havia a ser dito? Era necessário, e você fez como eu ordenei. Tem direito a sua raiva, desde que a mantenha silenciosa.

— Eu também percebo a sua culpa. Mas isso nunca te impediu.

— Quando você for duquesa e governar por detrás da espada do seu marido, descobrirá que existem inúmeras decisões difíceis que terá que fazer, inúmeras pessoas boas e inocentes que terá que sacrificar. Irá mandar homens e seus filhos para batalhas sabendo que muitos deles jamais retornarão, irá permitir que a Igreja enforque e queime hereges mesmo que pouco se importe com o pecado deles. Você irá saber o que muitos lordes fazem a suas esposas e seus servos e permanecerá em silêncio. Sua consciência e a sua inocência serão o preço a ser pago pelo poder. — Dustan se levantou da poltrona, o rosto lúgubre na luz das velas. — Eu ordenei que ficasse distante das maquinações do Wittan e você me ignorou. Pois bem. Se quer testar a sua mão no governo, filho, então o faça. Haverá sangue nelas mais cedo do que imagina. Às vezes, esse sangue pode ser o seu.

Aethelflaed virou as costas para ele, agarrando suas saias pesadas com força. Raiva e medo e o peso terrível e frio de saber que as palavras dele eram verdade a sufocavam.

Queria que ele estivesse mentindo. Queria que seu pai dissesse aquilo apenas para puni-la, apenas porque estavam com raiva um do outro. No entanto, Aethelflaed podia mentir para muitas pessoas, mas não para si mesma.

Com a mão na porta e sem olhar para Dustan, Aethelflaed disse: — O senhor está certo. Minha mãe deve ter ignorado muitas coisas sobre você para ser capaz de te amar. Não vejo como alguém poderia te amar com os olhos abertos. Eu certamente não posso.

Ela escutou a respiração afiada de seu pai, e Aethelflaed se arrependeu de suas palavras assim que as disse. Elas eram mentiras, é claro. Ainda o amava, mesmo que amor não pudesse salvá-los. Mas estava com raiva demais para pedir desculpas, e queria que Dustan se sentisse tão destroçado quando ela agora.

E então Aethelflaed deixou o pai em meio ao frio e às sombras e marchou pelos corredores do castelo de queixo erguido, e quando estavam sozinhos novamente, ela se achegou ao calor de Ubbe e a parte de seu dever que não era pesada.

Se ela realmente tivesse que abrir mão de tantas coisas, então também tomaria muitas para si.



Notas finais
*Frase dita em GoT