Hardest of Hearts
15 Deemed and Delivered a Crime
Notas iniciais
Era uma vez uma bruxa má, e o nome dela era
Lilith
Eva
Agar
Jezabel
Dalila
Pandora
Jahi
Tamar
E era uma vez uma bruxa má e ela também
era chamada de deusa e o nome dela era
Kali
Fatima
Ártemis
Hera
Ísis
Maria
Ishtar
E era uma vez uma bruxa má e ela também
era chamada de rainha e o nome dela era
Batseba
Vasti
Cleópatra
Helen
Salomé
Elizabeth
Clytemnestra
Medea
E era uma vez uma bruxa má e ela também
era chamada de bruxa e o nome dela era
Joana
Circe
Morgana le Fay
Tiamat
Maria Leonza
Medusa
— Odiando Mulheres: Um olhar radical sobre a sexualidade, Andrea Dworkin
Aethelflaed andou sem pressa até seus aposentos — enrolando, Amice sussurrou para ela assim que seus passos ficaram mais lentos, a urgência para pôr distância entre ela e Bispo Heahmund esquecida. Tinha algumas ideias do que Lagertha poderia querer com ela, todas vagas, nenhuma delas muito asseguradoras. Ainda assim, preferia a escudeira ao bispo.
Ela duvidava que Lagertha se sentisse tão dependente do casamento dela quando Heahmund parecia se sentir, e mesmo que fosse o caso, a guerreira certamente seria orgulhosa demais para vir até ela pedir — ou exigir — qualquer coisa.
Aethelflaed se preparou mentalmente, procurando por aquele lugar calmo e frio em seu coração, mesmo que ele quisesse disparar novamente. Havia tanto mito e lenda circundando Lagertha: uma guerreira, uma rainha por conquista própria, mesmo que o trono não fosse mais dela. Pelo menos ela estava viva, Aethelflaed disse a si mesma. A única outra rainha por direito e não casamento de quem ela ouvira falar em seu tempo de vida fora Kwenthrith, e esta perdera a vida juntamente com a coroa.
Um diabo, uma bruxa, uma Lilith. Aethelflaed escutara todas essas coisas sobre Lagertha, com o cabelo tão claro que era quase branco e o olhar afiado e penetrante. Uma mulher poderosa que não se curvaria, nem mesmo ao homem que fora seu marido. Uma mulher que se desviara de sua própria natureza, por toda violência que propagara. Ela se perguntava se qualquer homem inglês já se incomodara em ter uma conversa genuína com uma mulher, pois Aethelflaed ainda não conhecera uma que, em seu coração, não almejasse pela violência que era negada a elas. As mulheres nórdicas simplesmente tinham a oportunidade de levar a lâmina onde a vontade delas as guiava.
Aethelflaed se perguntava como seria aquilo, ter tanto poder dentro de si mesma. Não poder derivado de título ou riqueza, mas de suas próprias mãos e um coração cheio de coragem.
Ela respirou fundo, tremulamente, o resto da fraqueza e nervosismo que se permitiria demonstrar, e assentiu para que Amice abrisse a porta do quarto dela.
Lagertha estava de costas para elas, encarando por uma das janelas de seu quarto, a luz remanescente da tarde deixando tudo azulado, dando à guerreira a aparência de um espectro.
Aethelflaed ficou na porta, incerta se era bem vinda em seu próprio quarto. Lagertha a olhou por cima do ombro, calma e firme, o rosto belo e com linhas em uma expressão serena. Aethelflaed fez uma reverência rápida, apesar de não precisar. — Senhora, — comprimentou.
Apesar de Lagertha usar um vestido, não havia como esconder o fato de que ela estava acostumada a batalhas. Ela se movia com uma graça e fluidez que mostrava anos de movimentos praticados, uma ciência de cada parte de seu corpo. Aquilo, ao menos, Aethelflaed entendia. Ela, também, estava sempre ciente de si mesma e de seus arredores, mesmo que seu objetivo não fosse uma luta física. Um tipo diferente de batalha, supunha, ser sempre a lady graciosa. Cortesia era a armadura de uma lady, afinal*.
— Lady Aethelflaed, — Lagertha comprimentou, os olhos pálidos nos dela com atenção. Ela sorriu levemente. — Fico feliz que possa se juntar a mim.
— Fico feliz que queria minha companhia, — Aethelflaed respondeu. Apesar de seu nervosismo, era sincero. Lagertha não tinha uma reputação de crueldade desnecessária, e ela poderia ensiná-la a maneira de viver dos vikings, ensiná-la a agradar a Ubbe com mais do que apenas seu corpo. Aethelflaed gesticulou para uma pequena mesa em seus aposentos. Alguém colocara flores frescas em um vaso sobre ela, e apesar de serem mais esquálidas do que as flores exuberantes de seu próprio castelo, ela podia apreciá-las, e o esforço que alguém fez para escolher flores laranjas que se aproximassem da cor de seu cabelo. Ela se perguntou, brevemente, se era alguma de suas outras damas de companhia. Teria que convocá-las logo, agora que sabia ser seguro fazê-lo. — Por favor, sente-se. Gostaria que eu pedisse por um lanche?
Lagertha gesticulou uma negação. Os dedos dela eram esguios, mas não exatamente delicados, e havia cicatrizes e calos nas mãos delas. — Apenas vinho está ótimo.
Amice estava servindo taças a elas em um instante. Aethelflaed se virou para dizer a ela que poderia se abster de seus deveres, sentar-se com elas ou aproveitar o resto do dia, mas Amice já estava recuando para perto das paredes do quarto. Era uma tática comum, fingir ser apenas uma serva para passar despercebida, para juntar informações, e ela já podia ver os olhos de Amice brilhando com animação.
Lagertha bebeu, fechando os olhos e aproveitando o gosto. Aethelflaed levou o copo aos lábios, mas apenas permitiu que o vinho os manchasse e fingiu engolir. Não se permitiria ficar nem ao menos levemente bêbada na presença de uma mulher como Lagertha, por respeito e também por medo.
— Eu realmente aprecio o vinho dos saxões, — Lagertha disse, pensativa. — Uvas são difíceis de cultivar no nosso solo. Mas tenho que admitir que sinto falta de hidromel.
— Do que hidromel é feito? — Aethelflaed perguntou.
— Bagas, mel e fermento. É bem mais forte do que a cerveja que vocês bebem por aqui, — Lagertha respondeu, observando o rosto dela atentamente. Aethelflaed sorriu agradavelmente.
— Ah, eu não saberia. Temo que nunca tenha bebido cerveja.
Lagertha ergueu as sobrancelhas em surpresa.
— Nunca? Essa é mais uma das coisas que mulheres não podem fazer na Inglaterra? — Apesar do rosto dela estar neutro, Lagertha não conseguiu esconder completamente o desprezo na voz. Aethelflaed duvidava que ela estivesse tentando.
A garota encarou brevemente as mãos segurando o copo. — Tenho certeza de que muitas bebem, especialmente as de nascimento comum. Apenas nunca foi algo oferecido a mim. — Na realidade, mesmo vinho era uma afetação recente de Aethelflaed, geralmente reservado aos jantares com seu pai. É claro, isso fora antes do estresse de casar com um pagão pelo bem do reino. Ela mordeu a parte interna da bochecha, ponderando uma pergunta antes de decidir deixá-la escapar de seus lábios. — Ubbe gosta de hidromel?
Era isso que ligava as duas delas, de qualquer maneira. Ubbe. Ele significava algo para Lagertha, isso era claro. Família, talvez, mesmo que fosse o filho de outra mulher. Aethelflaed nunca escutara de uma mulher que fosse carinhosa com os filhos bastardos de seus maridos, mas ela também não conhecera mulheres que pudessem abandonar seus casamentos.
Deveria ser muito mais fácil, desta maneira, não se ressentir demais das crianças, se houvesse menos a temer.
Lagertha sorriu para ela de uma maneira que era ao mesmo tempo calorosa e sábia demais para ser completamente confortável.
— Ele gosta, de fato, — respondeu. — Está procurando maneiras de agradar seu marido, Lady Aethelflaed?
Algo sobre a maneira como ela disse aquilo fez Aethelflaed corar violentamente. Ela abaixou a cabeça enquanto o sorriso de Lagertha ficava mais largo. Estava grata que a guerreira ao menos não riu. — Suponho que estou, sim. É meu dever fazê-lo.
O rosto de Lagertha ficou um pouco sombrio com a menção de dever, mas ela não comentou nada, e o sorriso dela não vacilou. Uma mulher astuta e paciente. Aethelflaed teria que ser cuidadosa perto dela. — No futuro, direi a Ubbe que não ceda aos desejos do rei por viagens, já que ele tem uma esposa tão bela e adorável. — Lagertha disse. Aethelflaed levantou os olhos para ela e piscou lentamente, confusa. Os lábios de Lagertha se partiram com surpresa, mas o comentário dela parecia intencional demais para que a reação fosse genuína. — O rei levou Ubbe para que fossem caçar essa manhã. Ninguém te disse?
Ninguém o fez, o que a incomodaria mais se Aethelflaed não houvesse passado o dia todo escondida nos aposentos de seu pai e depois na igreja, ambos lugares onde era improvável que alguém a incomodasse para informá-la de que seu marido partira, especialmente quando o castelo estava sob a impressão de que Ubbe era violento com ela.
— Não, eu não fui informada. — Aethelflaed franziu o cenho levemente, debatendo se deveria ou não se sentir chateada com a ausência de seu marido logo após o casamento deles. Honestamente, a situação não a incomodava tanto quanto a razão de Alfred levar Ubbe para longe. — Se o rei quer caçar, estamos nas últimas semanas para que o faça, antes que fique frio demais.
— Muitas pessoas caçam no frio, — Lagertha comentou, um comentário aparentemente inocente, mas Aethelflaed não podia se impedir de procurar por armadilhas nas palavras delas.
Aethelflaed fingiu beber mais uma vez, ganhando tempo. — Sim, aqueles que precisam fazê-lo. A caça é apenas uma diversão para os nobres. Não há nada divertido sobre caçar um animal por horas na neve imperdoável quando se pode estar na frente de uma lareira quente.
Lagertha entrelaçou os dedos sobre o tampo da mesa. — Não acha que o rei gostaria de um desafio? Ele parece destemido.
Aethelflaed forçou suas feições a ficarem complacentes. Era perigoso falar qualquer coisa meramente ruim sobre o rei dentro das paredes do castelo, e ela não tinha razão alguma para confiar em Lagertha, mesmo que a guerreira também não tivesse uma razão particular para tentar prejudicá-la.
— O rei é destemido, sim, e todos deveríamos agradecer a Deus por dar a ele tanta coragem, mas Sua Majestade também é prudente, uma vez que temperança e auto-controle também são dons do Espírito Santo, — disse reverentemente, e assistiu enquanto uma expressão de diversão se espalhou pelas belas feições de Lagertha. O que quer que ela visse no rosto de Aethelflaed, apesar de seus esforços, deixava a guerreira relutante em simplesmente aceitar a mansidão que ela apresentava. — A senhora caça? — Aethelflaed tentou distrair o rumo da conversa.
— Ocasionalmente, apesar de ser mais agricultora, — Lagertha respondeu, calmamente. — Penso que já tenho sangue o bastante na minha vida sem que precise procurar por mais apenas por diversão.
Aethelflaed arquivou aquela informação, ambos o perigo e a mão estendida que dizer aquilo a ela representava. Queria olhar para Amice, obter a opinião dela no jogo calculado de gato e rato que Lagertha estava brincando, porém manteve sua atenção firmemente na guerreira. Não queria a atenção de uma mulher perigosa como Lagertha em Amice.
— Não sabia que a senhora costumava plantar, — Aethelflaed escolheu dizer, imprimindo certo fascínio a sua voz.
— Fui uma fazendeira durante muito tempo. Sinto falta, às vezes. Sabe muita coisa sobre agricultura, minha senhora?
Aethelflaed abaixou os olhos para a mesa recatadamente. — Um pouco. Conhecimento teórico, em sua maior parte.
Não era uma mentira, exatamente. Aethelflaed havia plantado apenas flores, quando o anseio se abatia sobre ela, e essas acabavam sendo cuidadas quase sempre pelos jardineiros de seu castelo. No entanto, sabia bastante sobre agricultura. Ela sabia quais eram as terras mais férteis em posse de sua família, e quais culturas vingavam melhor em quais solos e quando deveriam ser colhidas. Sabia quando um ano seria bom ou ruim para a colheita, dependendo da chuva e do sol. Era obrigada a saber, fora ensinada tais coisas.
Se seu pai houvesse produzido um herdeiro homem, Aethelflaed poderia ter sido poupada dessa parte de sua educação. Poderia ter se retido apenas à organização do castelo e suas finanças, e às necessidades de seu povo. Mas da maneira como o destino traçara seu caminho, ela tinha de ser herdeiro bem como filha, e sabia cuidar tanto do arsenal do castelo como de sua dispensa.
Era uma coisa cansativa, às vezes, ter acumulado tanta responsabilidade.
— É um bom trabalho, a agricultura. Um trabalho honesto. Se parece bastante com a guerra, quando se pára para pensar sobre isso, — Lagertha observava o rosto dela enquanto falava, as vogais se enrolando adoravelmente na língua dela. O sotaque dela era mais leve que o de Ubbe, mais praticado.
— Temo que saiba menos sobre batalhas do que sei sobre o plantio, — Aethelflaed sorriu, como se fosse uma piada e não uma resposta aos desafios velados da guerreira.
— Sempre há tempo para se aprender. Parecia interessada em batalhas, na primeira vez que te vi.
Lagertha se inclinou de volta na cadeira e estendeu o copo para que Amice o enchesse com vinho novamente. Apesar de ser uma mulher esguia, a presença dela enchia o quarto. Lagertha não compartilhava do talento de Judith para se fazer pequena e elegante, ou do método preferido de Aethelflaed de parecer bela e indefesa. Essa era uma mulher que comandava por força, não por artifícios.
Ainda assim, Aethelflaed tinha a impressão de que ela seria boa neles também.
Aethelflaed abaixou os olhos para a mesa, sua hesitação sem ser fingida dessa vez. Não se sentia culpada pelo que dissera a Ubbe quando se conheceram. Estava cansada, triste e apavorada, e a falta de decoro e esforço de Ubbe em esconder o quanto aquele casamento era desgostoso a ele a ofendera. Seu marido não guardara aquela ofensa, no entanto, e aquela isca havia revelado não apenas alguns dos pontos vulneráveis dele, como também que Ubbe não era exatamente o monstro que ela esperava.
Ela sentia muito, no entanto, se o comentário fizera o resto da família de Ubbe se ofender. A última coisa de que precisava era de vikings raivosos querendo sua cabeça.
— Minha senhora, sinto muito por ter falado fora de hora naquele dia. Eu estava apavorada, como tenho certeza de que deve ter imaginado, e minhas maneiras fugiram de mim. Sei que isso não desculpa o meu comportamento, é claro. Peço perdão por qualquer agravo que minhas palavras possam ter causado em sua indelicadeza.
Aethelflaed empurrou o capuz de cima de sua cabeça, então, e o gesto que poderia demonstrar sinceridade e avidez trouxe os hematomas em seu rosto à vista. Ela repousou as mãos sobre a mesa, pálidas e macias.
Vulnerável e penitente.
Lagertha não passou mais do que um segundo olhando as marcas em seu rosto, e apesar das feições dela terem endurecido, ela não parecia muito afetada pela visão delas. Ela suspirou, um pouco desapontada, como se esperasse por uma resposta completamente diferente.
Aethelflaed franziu levemente os lábios, incapaz de se conter por um momento. Não sabia se Ubbe havia compartilhado com a família as interações dos dois, as pequenas maneiras nas quais se revelava a ele, mas qualquer provocação que Lagertha procurasse nela, não a encontraria hoje. Aethelflaed não possuía razão para confiar nela com tal coisa. Ela mantinha suas cartas escondidas de todos, cada uma de suas verdades e fraquezas, uma vulnerabilidade que mostraria apenas se o ganho fosse maior que o risco.
E Aethelflaed tinha a sensação de que ganhar o respeito de Lagertha levaria muito mais orgulho e desobediência do que ela jamais estaria disposta a demonstrar publicamente em solo inglês.
— Está tudo perdoado, — Lagertha disse, sorrindo, porém não alcançava os olhos dela.
Aethelflaed sorriu de volta, o alívio em seu rosto fingido. — Obrigada.
Lagertha assentiu para ela e se levantou, o movimento silencioso e gracioso, como se ela, assim como Aethelflaed, fora ensinada a maneira apropriada de se levantar de cadeiras pesadas sem arrastá-las.
— Não posso deixar de sentir que tenho negligenciado você, Lady Aethelflaed. Sei que é costume inglês considerar a família de um cônjuge como sua também. Se vamos trabalhar juntas para manter a Inglaterra a salvo, gostaria de te conhecer melhor.
— Não há nada que eu apreciaria mais, — Aethelflaed respondeu, docemente, mas as palavras de Lagertha pesavam nela.
— Sim, sim, — Lagertha abanou uma mão, desdenhosamente. — Se a rainha permitir, venha ter conosco.
— Eu irei, — era um esforço manter o sorriso em seu rosto com a menção da rainha. Havia poucas coisas mais doces do que imaginar o momento em que jamais precisasse olhar para Judith novamente.
— Boa noite, senhora. Espero que não fique muito solitária sem Ubbe ao seu lado, — Lagertha provocou.
Aethelflaed corou, torcendo para que fosse menos óbvio à luz de velas. — Tenho certeza de que posso encontrar maneiras de me distrair.
Lagertha tinha uma expressão maliciosa no rosto, como se compartilhassem um segredo. Ela foi em direção da porta e estava com a mão na maçaneta quando se virou. — Ah, eu me esqueci. Obrigada pela adaga. É realmente bonita. Bem afiada e mortal, também. São qualidades que aprecio em qualquer coisa. E em qualquer um.
Ela partiu, então, e assim que Amice fechou a porta novamente Aethelflaed colapsou de volta na cadeira. Ela deixou seus ombros se curvarem depois do dia inteiro mantendo a postura impecável, finalmente relaxando.
Amice a estava encarando com os olhos arregalados. Elas esperaram até que tivessem certeza de que ninguém estaria escutando atrás da porta ou no corredor, um hábito antigo.
— O que foi aquilo? — Amice perguntou em voz baixa, se sentando ao lado dela.
— Acredito que foi a lendária guerreira Lagertha me avaliando. Espero que não tenha ficado desapontada demais, — a voz de Aethelflaed era amarga.
Ela pegou a taça de vinho ainda cheia e finalmente a bebeu em grandes goles, o líquido queimando levemente.
Amice travou a mandíbula, os ombros tensos. — Ela não tem nada com o que ficar desapontada.
— Acho que as ideias dela do que uma mulher respeitável é e o que nós pensamos sobre o mesmo assunto são um pouco diferentes, Amice. — Disparou.
Aethelflaed suspirou profundamente e esfregou as têmporas. Uma dor de cabeça começava, traiçoeira e prometendo uma noite desconfortável.
Amice mordeu o polegar, o cenho franzido enquanto encarava os móveis elegantes do quarto. — Não acho que essa visita tenha sido exatamente sobre o casamento. É mais sobre você. Ela não comentou sobre Ubbe sem que você o fizesse antes, não pediu nada, não te deu nenhum conselho sobre a vida conjugal.
— Lagertha não teria conquistado tudo que conquistou se fosse uma mulher impulsiva. Ela está me sondando. Tentando descobrir quem eu sou.
— Descobrir onde estão suas alianças também. Aquele comentário sobre o rei? — Amice se virou para ela, uma sobrancelha escura erguida em incredulidade. — Perigoso, principalmente para alguém na posição dela.
Aethelflaed encheu a taça de vinho novamente. — Minhas alianças estão comigo e com o meu povo.
— O que é melhor do que ter suas alianças com o rei e a mãe dele, — Amice retrucou.
Aethelflaed cruzou os braços, olhando ao redor por hábito. Não tinha dúvidas de que Judith estava plenamente ciente de quais eram suas opiniões pessoais a respeito dela, mas dizê-las em voz alta era perigoso, mesmo que apenas uma alusão — Acha que os vikings pretendem trair Alfred em algum ponto e estão tentando descobrir se vão precisar rasgar minha garganta para isso? — O pensamento enviou um arrepio por sua espinha. Ela apertou os braços com força com as unhas.
Amice mordeu o lábio inferior e balançou a cabeça. — Duvido muito. Eles não teriam se arriscado tanto apenas para colocar tudo a perder. Alfred é o único aliado deles, se lembra? Lagertha perdeu a guerra civil entre os vikings. Acho que ela está tentando descobrir se você é simplesmente um rostinho bonito que está na cama de Ubbe ou se tem alguma utilidade para solidificar a posição deles na Inglaterra.
Aethelflaed levantou a taça em um brinde sarcástico, seu rosto se retorcendo com um sorriso amargo. — É a pergunta do momento, não? — Uma que ela esperava que seu marido soubesse responder, porém talvez, no final das contas, Ubbe não repartisse o que acontecia entre os dois com os outros vikings.
— Sim, e seja cuidadosa com quem permite descobrir a resposta para ela. Até que seja vantajoso o contrário, você está apenas seguindo as ordens do seu pai. — A voz de Amice endureceu, a urgência retornando aos olhos dela.
Aethelflaed esfregou o rosto com frustração. Conseguia entender perfeitamente o porquê seu pai detestava tanto a corte. Cada movimento, cada palavra era algo a ser dissecado e decifrado, cada olhar e sorriso uma arma que poderia derrubar dinastias poderosas ou colocar uma corda ao redor de seu pescoço.
Quando encarou Amice novamente, sua amiga tinha uma expressão apreensiva no rosto.
— Como está Lorde Dustan?
Não havia hesitação nas palavras, porém a tensão que tomou conta das duas fez com que o quarto ficasse mais gelado. Aethelflaed estremeceu e Amice se levantou para colocar mais lenha na lareira.
— É tão óbvio assim ou os sussurros já estão se espalhando pelos corredores desse lugar maldito? — Aethelflaed fincou as unhas na madeira escura da mesa, sua mandíbula travada e seu coração pesado.
Amice deu de ombros. — Você não teria passado tanto tempo na capela se estivesse tudo bem. E a única coisa que faz você rezar tanto é o seu pai.
— Eu poderia estar fingindo desespero, por causa de Ubbe, — Aethelflaed disse, as palavras do Bispo Heahmund retornando a ela.
Amice a encarou por cima do ombro com um olhar exasperado enquanto mexia nas chamas.
— Acha mesmo que Judith teria permitido que passasse o dia inteiro na capela após seu casamento por causa de uma performance? Ela pode ter permitido antes, quando chegou aqui, porque o dano era menor. Mas não agora, não com os rumores sobre sua noite de núpcias.
Amice retornou para a mesa e se serviu de vinho também.
Aethelflaed a encarou, sentindo-se desamparada e perdida, seu rosto começando a ficar quente, os olhos ardendo com a vontade de chorar novamente. Amice puxou uma respiração afiada.
— Acha que a rainha sabe? Sobre o meu pai? — Aethelflaed indagou, a voz trêmula e miserável.
— Judith é a senhora desse castelo, todos os servos respondem a ela. Com certeza, ela sabe. — Amice se inclinou sobre a mesa e agarrou a mão dela com força. — Não pode esmorecer agora, Aethelflaed. Se Lorde Dustan morrer, nosso povo vai esperar liderança de você. E se houver uma rebelião, terá que decidir qual lado tomar sem deixar que seu coração a comande.
Amice podia parecer insensível, às vezes. Aethelflaed certamente costumava pensar que sim, quando se conheceram. No entanto, era Amice que conhecia a realidade cruel dos plebeus, que sabia o que acontecia a amantes de nascimento pobre quando os lordes não desejavam mais a elas ou aos bastardos que geraram. Era Amice que podia escutar as queixas dos servos sem que eles tivessem medo, e sempre fora Amice a primeira a engolir suas emoções e pensar em sobrevivência.
Aethelflaed se levantou, escapando do olhar intenso da amiga. Ela andou até a janela que dava vista para o pátio, observando com a pouca luz fornecida pelas tochas a movimentação. Não havia nenhum nobre no pátio do castelo durante a noite, apenas soldados e servos que não eram considerados importantes o suficiente para comparecerem ao jantar com a nobreza. Se prestasse atenção, o som distante das risadas poderia alcançá-la.
Havia tantas coisas a serem feitas, tantas lágrimas a serem derramadas e tantas mentiras a serem ditas. Estava cansada, esse dia a exaurira, e ainda havia um caminho longo a percorrer.
Subitamente, uma imagem veio clara a sua mente, como os bordados perfeitos que colocava diligentemente em seus vestidos, ou o momento em que percebia a estratégia de seu oponente em um jogo de xadrez.
Aethelflaed se sentira segura e protegida por toda sua vida. Parecia que agora os dias se estenderiam imensamente à sua frente até que pudesse experimentar tal sensação novamente.
— Convoque Mina e Eawynn, — Aethelflaed ordenou e escutou Amice se levantar da cadeira também.
— Tem certeza, senhora? Mina é uma criança e Eawynn ainda não está acostumada com os jogos da corte, — Amice questionou, porém parecia mais curiosa quanto à decisão do que relutante.
Um sorriso cansado puxou os lábios de Aethelflaed. — Elas terão que aprender em algum momento. Foi para isso que foram mandadas para serem minhas damas de companhia.
Ela virou as costas para a janela quando distinguiu a sombra de Torvi e as crianças atravessando o pátio, sua convicção cada vez mais forte. — Me dói ter que jogá-las no meio disso, porém sei que Ubbe não as machucaria para me atingir.
— Está colocando fé demais nele, Aethelflaed. — Amice murmurou, os lábios uma linha rígida.
— Não é fé, Amice. É necessidade. — Ela suspirou e se encostou à parede fria do quarto. — Bispo Heahmund veio falar comigo sobre os rumores a respeito de Ubbe. Foi extremamente arriscado da parte de Alfred permitir que Ubbe me tivesse sozinha, e ele deve saber disso. Alfred é jovem, mas não acredito que seja estúpido, e ele foi contra a opinião da mãe dele. Qualquer que seja o jogo dele em permitir isso, em levar Ubbe para longe após nossa noite de núpcias, depende da minha colaboração.
— E Judith pode se certificar de que você colabore, — Amice disse, começando a entender sua linha de raciocínio.
— Judith pode, porém ontem a noite não estava nos planos dela. E a piora súbita do meu pai também não. Ela me fez andar pelo castelo para que todos pudessem ver que estou bem, porém não me tirou da capela. Seria fácil, uma desculpa sobre chá da tarde ou qualquer outra coisa, e então nenhum outro nobre me veria ajoelhada implorando por misericórdia. No entanto, ela não o fez.
A cada segundo, a raiva que Aethelflaed sentia pela rainha aumentava, uma faca sendo amolada em seu peito. No entanto, a admiração relutante que sentia também crescia.
— E a rainha não arriscaria seus planos simplesmente por compaixão por seu pai, — Amice completou. Ela fechou os olhos com força e expôs os dentes em um esgar raivoso. — Aquela vadia! Ela quer ver o que você vai fazer.
O sorriso de Aethelflaed era trêmulo e amargo e uma promessa de retribuição. — Parece que Lagertha não é a única rainha que resolveu me testar hoje. Judith quer saber de que lado eu estarei quando o meu pai morrer. Ela sabe, melhor do que Lagertha, melhor do que Ubbe, que raramente uma mulher saxã é tão inofensiva quanto aparenta. Se eu não fizer nada para repelir os rumores que nasceram contra a vontade dela, estarei contribuindo para o ressentimento da corte. E o ressentimento de Judith é algo a ser temido.
— Você não pode dizer nada abertamente sobre Ubbe, Aethelflaed. Metade dos nobres simplesmente não acreditaria e a outra metade diria que você virou uma apóstata, uma prostitura pagã. Não pode demonstrar afeição por ele.
— Eu não posso, realmente. Mas Mina e Eawynn não vão manter em segredo a maneira como Ubbe me trata, e Edwina vai ficar tão aliviada por não me ver miserável e machucada que logo todo o castelo estará sabendo. Os rumores não virão de mim, porém serão confiáveis o bastante. Judith vai ter o que ela quer, e Heahmund também.
— E você mantém a possibilidade de se aliar a alguma rebelião, caso chegue a isso, — Amice assentiu lentamente, montando as peças do quebra-cabeça e calculando os próximos movimentos delas.
Aethelflaed caminhou até a cama e se deixou cair. Sua cabeça latejava agora, e ela teria que se trocar e descer para o jantar em breve. Mais uma máscara cuidadosa deveria ser colocada, mais mentiras gentis e atraentes.
— Jogamos os dois lados até que saibamos qual deles vai vencer, — Aethelflaed murmurou, encarando o dossel enfeitado da cama.
Qualquer padre a condenaria se a visse agora. Aethelflaed podia sentir a lista dos pecados sendo escritas em sua pele: mentira, fofoca, orgulho, ira, luxúria, rebeldia.
Não importava. No final, todas as mulheres que se recusassem a ser engolidas pelos pecados dos homens a sua volta seriam condenadas.
Ela poderia, ao menos, escolher sua condenação.

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